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Revisão completa das fraturas do esqueleto imaturo: padrões exclusivos da criança (torus, greenstick, plástica), classificação de Salter-Harris com prognóstico de cada tipo, conduta no supracondilar baseada no Gartland, complicações como parada de crescimento e contratura de Volkmann, com tabelas, doses e pegadinhas de prova.
[1] Salter RB, Harris WR. Injuries involving the epiphyseal plate. J Bone Joint Surg Am. 1963;45(3):587-622 · DOI 10.2106/00004623-196345030-00019 | [2] Rennie L, Court-Brown CM, Mok JYQ, Beattie TF. The epidemiology of fractures in children. Injury. 2007;38(8):913-922 · DOI 10.1016/j.injury.2007.01.036 | [3] Mulpuri K, Hosalkar H, Howard A. AAOS Clinical Practice Guideline: The Treatment of Pediatric Supracondylar Humerus Fractures. J Am Acad Orthop Surg. 2012;20(5):328-338 · https://www.aaos.org/quality/quality-programs/pediatric-supracondylar-humerus-fractures/ | [4] Duffy S, Flannery O, Gelfer Y, Monsell F. Overview of the contemporary management of supracondylar humeral fractures in children. EFORT Open Rev. 2021;6(11):2058-5241 · DOI 10.1302/2058-5241.6.210005 | [5] Hebert S, Barros Filho TEP. Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2009 · DOI 10.1302/2058-5241.6.210005
A fratura é a lesão musculoesquelética mais comum da infância: cerca de um terço das crianças sofre ao menos uma fratura antes dos 16 anos, com pico de incidência entre 11 e 14 anos no sexo masculino. Diferente do adulto, o osso da criança é mais poroso, tem periósteo espesso, possui cartilagem de crescimento (fise) e remodela-se ativamente, o que muda tudo: padrões radiográficos exclusivos (torus, greenstick, deformidade plástica), tolerância maior a alguns desvios, indicações cirúrgicas diferentes e um leque de complicações que não existe no adulto, como parada de crescimento e lesão fisária. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: reconhecer os padrões pediátricos, classificar lesões fisárias pela classificação de Salter-Harris e saber conduzir a fratura supracondilar do úmero, a fratura pediátrica com maior potencial de complicação neurovascular.
Fratura pediátrica é toda solução de continuidade óssea em esqueleto imaturo, e sua biologia difere da do adulto em quatro pontos: osso cortical mais poroso e menos mineralizado (fratura por compressão e por deformidade plástica), periósteo mais espesso e osteogênico (estabilidade relativa e consolidação rápida, em 3-6 semanas na maioria dos sítios), presença da placa fisária de crescimento e capacidade de remodelação, que corrige desvios angulares ao longo dos anos, principalmente em crianças menores de 8-10 anos, em fraturas próximas à fise e quando a deformidade está no plano de movimento da articulação adjacente.
| Padrão pediátrico | Mecanismo | Aspecto radiográfico | Conduta típica |
|---|---|---|---|
| Torus (buckle) | Compressão axial | Abaulamento cortical metafisário, sem travessia completa | Imobilização em gesso/tala por 3-4 semanas, sem redução |
| Greenstick (galho verde) | Flexão com tração | Cortical rompida no lado da tração, dobrada no lado da compressão | Redução se desvio > 15-20 graus; completar a fratura quando necessário |
| Deformidade plástica | Flexão repetida ou tração única | Curvatura óssea sem linha de fratura visível | Redução se limita pronação/supinação (antebraço); associa-se a luxação quando em par |
| Fratura completa | Torção ou flexão de alta energia | Traço completo, como no adulto | Redução fechada e imobilização, critérios semelhantes ao adulto adaptados |
| Fratura fisária (Salter-Harris) | Tração, cisalhamento ou compressão da fise | Traço que atravessa ou comprime a placa de crescimento | Depende do tipo (I a V); muitos exigem redução anatômica |
A lesão fisária merece capítulo próprio porque a fise é a estrutura que garante o crescimento longitudinal. A placa de crescimento é organizada em camadas: zona de repouso (células-tronco germinais), zona de proliferação (colunas de condrócitos ativos) e zona de hipertrofia, seguida da zona de calcificação provisória. Por ser a camada mais frágil mecanicamente, a fratura tipicamente ocorre pela zona de hipertrofia e calcificação provisória, poupando as células germinais na maioria dos casos, o que explica o bom prognóstico dos tipos I e II. Quando o trauma destrói as células germinais ou a comunicação entre os fragmentos permite ponte óssea através da fise, instala-se a parada de crescimento (barras fisárias).
Publicada por Salter e Harris em 1963 no Journal of Bone and Joint Surgery, a classificação descreve cinco tipos de lesão fisária com crescente gravidade e risco de parada de crescimento. Ela deve ser decorada com o desenho mental do osso longo: epífise, fise, metáfise e diáfise.
| Tipo | Traço da fratura | Frequência aproximada | Prognóstico e conduta |
|---|---|---|---|
| I | Atravessa apenas a fise (epifisiólise) | 5-15% das fisárias | Bom prognóstico; redução fechada suave e imobilização; radiografia pode ser normal no início |
| II | Atravessa a fise e sai na metáfise (fragmento de Thurstan Holland) | ~40-50%, o mais comum | Bom prognóstico; redução fechada quando desviada, raramente cirúrgico |
| III | Atravessa a fise e sai na epífise, atingindo a articulação | ~10% | Risco articular; exige redução anatômica, frequentemente cirúrgica (ORIF) se degrau > 2 mm |
| IV | Atravessa epífise, fise e metáfise (traço vertical completo) | ~10% | Maior risco de parada de crescimento e degrau articular; ORIF com redução anatômica da fise |
| V | Compressão/impactação da fise sem linha visível | < 1%, raro | Pior prognóstico: parada de crescimento em até 25-50%; diagnóstico frequentemente retrospectivo |
O estudo clássico de Rennie e colegas (Edimburgo, 2007) e séries subsequentes mostram um padrão consistente: fraturas são mais frequentes em meninos (razão aproximada de 2:1), o pico de incidência global ocorre na pré-adolescência e adolescência (11-14 anos), e o mecanismo dominante é a queda de própria altura durante brincadeiras e esportes, seguido de quedas de altura e acidentes com bicicleta. Os sítios mais acometidos são o antebraço e o rádio distal (cerca de 25-40% das fraturas pediátricas), seguidos pelo úmero (supracondilar, ~15% do total) e a tíbia. No lactente e na criança que ainda não deambula, fratura diafisária de úmero ou fêmur, fraturas em diferentes estágios de consolidação, fraturas de costelas e lesões metafisárias clássicas (lesão em canto) devem levantar a suspeita de trauma não acidental (maus-tratos), diagnóstico diferencial sempre cobrado.
Lesões fisárias respondem por 15-30% das fraturas de ossos longos em esqueleto imaturo e são mais comuns entre 10 e 14 anos, quando a fise está em pico de atividade. As fisárias mais frequentes localizam-se no rádio distal (a lesão fisária mais comum da criança, tipicamente Salter-Harris II) e na tíbia distal (a fisária mais comum do membro inferior, incluindo os padrões próprios do adolescente, Tillaux e triplane). O supracondilar do úmero acomete preferencialmente crianças de 5 a 7 anos e é a fratura pediátrica com maior taxa de complicações neurológicas e vasculares.
A fise recebe sangue da epífise (nutrição das células germinais) e do periósteo metafisário circundante. Nas lesões tipos I e II, o traço passa pela zona de hipertrofia e as células germinais permanecem íntegras: a fise volta a crescer e o prognóstico é bom. Nos tipos III e IV, o traço cruza verticalmente a fise e pode deixar degrau entre os fragmentos; se a redução não for anatômica, forma-se ponte óssea (barra fisária) entre epífise e metáfise, freando o crescimento de forma parcial ou total, gerando dismetria ou desvio angular. No tipo V, a força compressiva destrói diretamente a arquitetura da placa, e a parada de crescimento costuma ser completa no segmento acometido. A localização da barra (central, periférica) e o percentual da área fisária comprometido, somados ao potencial de crescimento remanescente, definem se o tratamento será de ressecção da barra com interposição (gordura ou material inerte) ou de epifisiodese compensatória.
No supracondilar, o mecanismo é quase sempre hiperextensão por queda com a mão em apoio (97-98% dos casos, tipo extensão): o córtex anterior traciona-se e o traço oblicuo atravessa a metáfise umeral distal, podendo deslocar a metáfise posterior e proximalmente. Esse deslocamento posterior é o que explica as complicações: o nervo e a artéria braquial são estirados ou comprimidos contra a ponta proximal do fragmento metafisário na fossa do cotovelo. O tipo flexão (1-3%) ocorre por trauma direto no cotovelo fletido e desloca o fragmento distal anteriormente, associando-se mais a lesão do nervo radial. Tratamento: quanto maior a energia e o desvio (Gartland III), maior a chance de lesão nervosa (5-19% nas séries) e de alteração vascular (pulso ausente em 1-3%, com índices que chegam a até 10% nos tipos III de séries cirúrgicas).
A criança típica chega com dor localizada, recusa de uso do membro (pseudoparalisia no lactente), edema e, nas fraturas desviadas, deformidade evidente. No supracondilar, o exame deve ser sistemático e documentado antes e após cada manipulação: inspeção (deformidade em S, edema rápido e progressivo sugestivo de hemartrose ou sangramento), palpação (crepitação, dor na metáfise distal do úmero), teste neurovascular completo com avaliação dos três nervos (radial: extensão do punho e sensibilidade dorsal do primeiro espaço; mediano: flexão dos dedos e sensibilidade palmar digital; e seu ramo interósseo anterior, flexão do polegar e do indicador na interfalangeana) e vascular (pulso radial, tempo de reperfusão, cor e temperatura). Sinais de isquemia iminente são dor desproporcional que piora à extensão passiva dos dedos, analgesia crescente, palidez e parestias: a síndrome compartimental e a isquemia de Volkmann podem instalar-se mesmo com pulso presente.
A radiografia em duas incidências ortogonais (ântero-posterior e perfil, do segmento acometido incluindo a articulação proximal e distal) permanece o exame inicial. No cotovelo, dois sinais ajudam a confirmar fratura oculta: o sinal da almofada de gordura anterior (elevação da gordura da fossa coronoides) e sobretudo o sinal da almofada de gordura posterior, que normalmente está dentro da fossa olecraniana e, quando visível, indica distensão da cápsula por hemartrose até que se prove o contrário, com alta probabilidade de fratura oculta, mesmo sem linha visível. Radiografias comparativas do lado contralateral podem ajudar em dúvidas fisárias (sobretudo no lactente, em que as epífises podem ser ainda cartilaginosas), e a ressonância magnética é reservada para suspeita de barra fisária, fraturas ocultas persistentemente sintomáticas e lesões osteocondrais.
Para o supracondilar, usa-se a classificação de Gartland (modificada por Wilkins), baseada no perfil e no grau de continuidade do córtex posterior. É ela que define a conduta, e não a impressão estética do raio.
| Gartland | Definição (tipo extensão) | Tratamento |
|---|---|---|
| Tipo I | Sem desvio; única pista pode ser sinal da gordura posterior | Tala/gesso longarm em flexão segura por cerca de 3 semanas |
| Tipo II | Desvio com córtex posterior íntegro (em extensão) | Redução fechada e fixação percutânea com fios quando instável ou desviada; tipos II puros estáveis podem ser tratados com gesso em centros selecionados |
| Tipo III | Desvio completo, córtex posterior rompido, sem contato entre fragmentos | Redução fechada urgente e fixação percutânea com fios de Kirschner (CRPP) |
| Tipo IV (Wilkins) | Instável em extensão e em flexão | CRPP com estabilização; considerar fixação com o cotovelo em posição estável |
No adolescente próximo à maturidade esquelética (12-15 anos), a tíbia distal produz fraturas próprias da fase de fechamento parcial da fise, que fecha de central para medial e por último lateral: a fratura de Tillaux (Salter-Harris III do ántero-lateral distal, arrancamento pela sindesmose tibiofibular na porção ainda aberta) e a fratura triplane (Salter-Harris IV em duas ou três dimensões no plano axial). Ambas são intra-articulares e exigem tomografia computadorizada para medir o degrau: desvio maior que 2 mm indica redução cirúrgica, em geral com parafusos que evitem a fise remanescente quando possível.
O objetivo do tratamento em crianças é restaurar alinhamento e congruência articular respeitando o potencial de remodelação, garantir conforto e vigiar complicações. Como regra prática: fraturas estáveis e pouco desviadas (torus, greenstick sem angulação relevante, Gartland I, Salter-Harris I e II não desviados) são tratadas com imobilização por 3 a 6 semanas conforme o sítio, com radiografia de controle na primeira semana para excluir desvio secundário. Fraturas desviadas exigem redução fechada (sedação ou anestesia) e, quando instáveis ou intra-articulares, fixação percutânea com fios de Kirschner, mantidos por 3 a 4 semanas.
O momento do tratamento do Gartland III sem compromisso vascular é semiurgente: séries e a diretriz da AAOS indicam redução o mais breve possível, idealmente nas primeiras 8-12 horas, sem postergar quando há alteração neurovascular ou sinais de compartimento. A hiperflexão máxima do cotovelo no gesso, usada no passado para estabilidade, é hoje evitada ou limitada por comprimir a artéria braquial e aumentar a pressão compartimental; prefere-se fixação com fios que permita imobilização com menos flexão.
| Complicação | Contexto típico | Frequência/destaque | Conduta |
|---|---|---|---|
| Lesão nervosa | Gartland III; nervo interósseo anterior (ramo do mediano) é o mais acometido no tipo extensão; radial no tipo flexão | 5-19% dos tipos III | Exploração apenas se déficit presentes antes da redução e ausentes depois; a maioria recupera espontaneamente em 2-6 meses |
| Lesão vascular | Estiramento/compressão da artéria braquial | Pulso ausente em 1-3% dos desviados (até 10% nos tipos III de séries) | Redução imediata e reavaliação; pulso ausente com mão isquêmica = exploração vascular urgente |
| Contratura de Volkmann | Isquemia não reconhecida dos flexores do antebraço | Rara, mas devastadora | Prevenção: suspeita clínica, fasciotomia quando indicada |
| Cúbito varo (deformidade em coronha) | Consolidação viciosa em varo do supracondilar por mau alinhamento rotacional | A mais frequente tardia do supracondilar; principalmente estética | Osteotomia corretiva se relevante; associar suspeita de paralisia ulnar tardia |
| Parada de crescimento/barra fisária | Salter-Harris IV, V e III; fisárias de tíbia distal e fêmur distal | Até 25-50% no tipo V; 5-10% nas fisárias de tíbia distal | Ressonância para mapear; ressecção de barra se menor que 50% da fise e com crescimento remanescente; epifisiodese compensatória nos demais |
| Pseudartrose do côndilo lateral | Fratura de côndilo umeral lateral (Milch), tratamento conservador de desvio maior que 2 mm | Complicação clássica; evolui com deformidade em cauda de peixe (fishtail) | ORIF inicial quando desviada; seguimento prolongado |
| Dismetria e desvio angular | Qualquer fisária grave | Depende do sítio e do percentual da fise lesada | Vigilância do crescimento por 6-12 meses no mínimo |
O prognóstico global é excelente: a grande maioria das fraturas pediátricas consolida sem sequela, e a remodelação corrige grande parte dos desvios angulares aceitos no tratamento conservador, sobretudo antes dos 8-10 anos e em deformidades no plano de movimento da articulação. As exceções que exigem seguimento dedicado são as fisárias de alto grau (III, IV e V), as fraturas proximais do fêmur e do côndilo lateral do úmero e o supracondilar com neurovascular alterado, todas com risco real de sequela definitiva.
1.Um menino de 7 anos sofre queda com apoio da mão e apresenta fratura supracondilar do úmero em extensão, Gartland III, com déficit de flexão da interfalangeana do polegar e do indicador e sensibilidade preservada. Qual o nervo mais provavelmente envolvido?
2.A respeito do sinal da almofada de gordura posterior na radiografia de cotovelo de criança, é correto afirmar:
3.Qual tipo de Salter-Harris é o mais comum entre as lesões fisárias?
4.Fratura fisária em que o traço atravessa epífise, fise e metáfise, com degrau articular de 3 mm na tíbia distal. Conduta?
5.O mecanismo fisiopatológico que explica a parada de crescimento após lesões fisárias graves é:
6.Fratura de Tillaux ocorre tipicamente em que contexto?
7.Criança de 6 anos, Gartland III, operada de redução fechada e fios. No pós-operatório imediato, queixa-se de dor intensa no antebraço que piora à extensão passiva dos dedos, apesar de analgesia. Pulso radial presente. Conduta imediata?
8.Sobre o tratamento do supracondilar Gartland III sem alteração vascular, a conduta padrão atual é:
9.Lactente de 8 meses, sem antecedentes, levado por choro e recusa do membro inferior: radiografia mostra fratura diafisária do fêmur. Qual a atitude correta?
10.A fratura em greenstick (galho verde) caracteriza-se por:
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