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Revisão dos fundamentos da cirurgia oncológica: objetivos e tipos de ressecção, estadiamento TNM/AJCC, classificação de margens R, princípios técnicos e no-touch, linfonodo sentinela, princípios de anestesia e protocolos ERAS, e manejo da hemostasia e da tromboprofilaxia no paciente com câncer.
[1] Amin MB, Edge SB, Greene FL, et al. AJCC Cancer Staging Manual. 8ª ed. New York: Springer; 2017 · DOI 10.1007/978-3-319-40618-3 | [2] Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al. Schwartz's Principles of Surgery. 11ª ed. New York: McGraw-Hill; 2019 (capítulo de princípios de cirurgia oncológica) | [3] Ljungqvist O, Scott M, Fearon KC. Enhanced Recovery After Surgery: A Review. JAMA Surg. 2017;152(3):292-298 · DOI 10.1001/jamasurg.2016.4952 | [4] Farge D, Frere C, Connors JM, et al. 2019 international clinical practice guidelines for the treatment and prophylaxis of venous thromboembolism in patients with cancer. Lancet Oncol. 2019;20(10):e566-e581 · DOI 10.1016/S1470-2045(19)30336-5 | [5] Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2023 · disponível em https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer · DOI 10.1007/978-3-319-40618-3
A cirurgia é a modalidade curativa primária ou parte essencial do plano terapêutico na maioria dos tumores sólidos localizados: cerca de 60% a 80% dos pacientes com câncer passarão por algum procedimento cirúrgico ao longo da doença, seja com intenção curativa, de estadiamento, de controle local, de reabilitação ou paliativa. No Brasil, as estimativas do INCA para o triênio 2023-2025 projetam aproximadamente 704 mil novos casos de câncer por ano, o que dimensiona o peso da cirurgia oncológica no sistema de saúde. Para o estudante, os princípios da cirurgia oncológica — estadiamento correto, margens adequadas, linfadenectomia racional, técnica no-touch, anestesia e hemostasia conduzidas com critério — são conteúdo recorrente em provas de oncologia básica, clínica cirúrgica e anatomia patológica.
Nem toda cirurgia em oncologia visa curar. A definição do objetivo — curativo, de controle, paliativo ou preventivo — precede qualquer decisão técnica e orienta o equilíbrio entre radicalidade e qualidade de vida. A ressecção curativa exige tumor primário removido integralmente com margens livres, linfonodos regionais adequadamente amostrados e ausência de doença à distância confirmada por estadiamento; a cirurgia paliativa alivia sintomas (obstrução, sangramento, dor) sem pretensão de remoção completa; a citorredução reduz a carga tumoral para potencializar quimioterapia, clássico no tumor epitelial de ovário e na carcinomatose peritoneal com hipertermia intraperitoneal; e a cirurgia profilática remove órgão de alto risco, como colectomia total na polipose adenomatosa familiar e mastectomia contralateral em portadoras de mutação BRCA1/BRCA2.
| Tipo de cirurgia | Objetivo | Exemplos canônicos |
|---|---|---|
| Curativa (radical) | Remoção completa do tumor com margens livres e linfadenectomia apropriada | Gastrectomia total com D2 no adenocarcinoma gástrico; colectomia com linfadenectomia |
| Citorredutora | Reduzir a carga tumoral antes ou durante tratamento sistêmico | Citorredução no câncer de ovário; metastasectomia em metástases hepáticas colorretais |
| Paliativa | Aliviar obstrução, sangramento ou dor | Derivação intestina; colostomia; bypass gástrico |
| De estadiamento | Definir extensão real da doença | Laparoscopia de estadiamento no câncer gástrico e pancreático |
| Profilática (preventiva) | Reduzir risco em síndromes genéticas | Colectomia na FAP; mastectomia e anexectomia em BRCA; tireoidectomia em RET |
| Reconstrutiva | Restaurar forma e função após ressecção | Reconstrução mamária; plastias e retalhos após ressecção de sarcoma |
O estadiamento anátomo-patológico pela linguagem TNM (tumor primário, linfonodos regionais, metástases à distância), consolidado pelo AJCC Cancer Staging Manual em sua 8ª edição (vigente desde 1º de janeiro de 2018), é a espinha dorsal da decisão cirúrgica. A 8ª edição incorporou mudanças relevantes: gradação histológica e biomarcadores entraram no agrupamento por estágio em vários tumores (escore genômico Recurrence Score no câncer de mama com receptor hormonal positivo), o conceito de margem circunferencial ganhou protagonismo no reto, e prefixos e sufixos delimitam situações especiais: cTNM (clínico), pTNM (patológico), ycTNM/ypTNM (após terapia neoadjuvante), rTNM (recorrência) e a classificação de resposta tumoral regressiva. O comitê multidisciplinar (tumor board) com clínico, cirurgião, radiologista, patologista, oncologista clínico e radioterapeuta define a sequência terapêutica — cirurgia primeiro, neoadjuvância ou conversão — porque a ordem errada pode custar a chance de cura.
A margem é a distância entre a borda de ressecção e a célula tumoral mais próxima, medida no espécime fixado pelo patologista, e sua suficiência varia por tumor e por proposta terapêutica. A classificação internacional R traduz o resultado em três categorias com significado prognóstico direto: R0 significa ressecção completa com margens microscópicamente livres; R1, ressecção com doença microscópica na margem (células tumorais na tinta do espécime); R2, doença macroscópica remanescente. Somente R0 confere chance de cura local definitiva em tumor sólido localizado; R1 e R2 associam-se a maior recorrência local e menor sobrevida, e muitas vezes indicam re-ressecção ou radioterapia de reforço.
| Categoria | Definição | Consequência prática |
|---|---|---|
| R0 | Margens livres ao exame microscópico | Melhor prognóstico; base para cura local |
| R1 | Acometimento microscópico da margem | Maior recorrência local; considerar re-ressecção ou radio/quimiorradioterapia de reforço |
| R2 | Doença macroscópica residual | Doença não completamente ressecada; tratamento sistêmico e/ou paliiação |
As margens mínimas aceitáveis são clássicas de prova. A tabela resume os valores de referência mais cobrados, lembrando que protocolos institucionais e situações de neoadjuvância podem ajustá-los.
| Tumor | Margem lateral/de parede usualmente exigida | Observações |
|---|---|---|
| Adenocarcinoma de cólon | 5 cm proximal e distal (ensino clássico); séries modernas aceitam menos em selecionados | Ligadura vascular na origem nomeada e linfadenectomia com 12 ou mais linfonodos |
| Adenocarcinoma de reto | Margem distal 1-2 cm após neoadjuvância; margem circunferencial maior que 1 mm | Excisão total do mesorreto (TME) é o determinante da recorrência local |
| Câncer de estômago | 5 a 6 cm de margem proximal e distal | Linfadenectomia D2 no adenocarcinoma localizado |
| Mama (quadrantectomia) | Ausência de tumor na tinta da peça (margem livre) | Consenso SSO/ASTRO abandonou a exigência de milímetros adicionais |
| Melanoma por espessura de Breslow | In situ 0,5-1 cm; até 1 mm: 1 cm; 1,01-2 mm: 1-2 cm; maior que 2 mm: 2 cm | Biópsia de linfonodo sentinela concomitante quando indicado |
| Sarcoma de partes moles | 1 a 2 cm incluindo fáscia ou barreira anatômica | Ressecção ampla em monobloco; biópsia pelo mesmo leito da cirurgia |
| Câncer de pulmão não pequenas células | Margem brônquica maior que 2 cm ou maior que o diâmetro do brônquio | Lobectomia padrão; sublobar apenas em casos selecionados com margem 2 cm |
O linfonodo sentinela é o primeiro linfonodo a receber drenagem linfática do tumor; se ele é livre, a probabilidade de acometimento em cadeia é baixa e a linfadenectomia completa pode ser evitada, poupando linfedema e morbidade — princípio validado no melanoma e no câncer de mama. A localização usa traçadores radioativos (tecnécio-99m marcando coloide, 0,5 a 1,0 mCi injetado peritumoral no dia anterior ou no dia do ato), corantes vitais (azul patente ou isossulfan azul a 1%, 2,5 a 5 mL) e, cada vez mais, verde de indocianina (ICG, cerca de 5 mg) com câmera de fluorescência intraoperatória. Taxas de identificação acima de 95% são esperadas em mãos experientes, com falso-negativo axilar em torno de 5% a 10% na mama. A linfadenectomia radical permanece indicada quando há gânglios clínicos ou radiológicos suspeitos (confirmados por citologia), quando o sentinela é positivo fora dos critérios de omissão (na mama conservadora com radioterapia, o ensaio ACOSOG Z0011 permite omitir a dissecção axilar com 1-2 sentinelas positivos em pacientes selecionados que recebem tratamento sistêmico) e nos protocolos que exigem amostragem mínima: no adenocarcinoma de cólon, exame adequado exige 12 ou mais linfonodos; no gástrico, D2 significa remoção dos linfonodos perigástricos e dos troncos celíacos (estação 1 a 12 selecionada); no reto, a TME já remove o mesorreto integralmente.
O paciente oncológico chega à anestesia com particularidades: idade avançada, desnutrição (perda de 5% ou mais do peso em 6 meses), anemia e ferropriva, paraneoplasias (síndrome de Lambert-Eaton com bloqueio neuromuscular prolongado, hipercalcemia paraneoplásica, síndrome de Cushing ectópica), cardiotoxicidade prévia por antraciclina ou radioterapia, nefro e ototoxicidade por platina e risco trombótico elevado. A consulta pré-anestésica corrige o corrigível em tempo hábil: anemia (ferro intravenoso antes da cirurgia reduz transfusão), desnutrição (suplementação ou imunonutrição por 5 a 7 dias quando possível), suspensão racional de antiangiogênicos (bevacizumabe suspensão de 4 a 6 semanas antes, pelo risco de deiscência) e planejamento de analgesia multimodal.
O câncer é o protótipo de estado trombofílico (síndrome de Trousseau): células tumorais e a resposta inflamatória ativam a coagulação via fator tecidual e citocinas, com risco de tromboembolismo venoso 4 a 7 vezes maior que em cirurgia não oncológica equivalente. Na avaliação pré-operatória, história de sangramento é mais preditiva que coleta indiscriminada de exames; investigar com hemograma, coagulograma e, quando indicado, fibrinogênio. A plaquetopenia é hematologicamente comum (quimioterapia, hiperesplenismo, invasão medular) e tem limiares cirúrgicos clássicos: contagem acima de 100 x 10⁹/L para neurocirurgia e cirurgia ocular; acima de 50 x 10⁹/L para cirurgia de grande porte; acima de 30 x 10⁹/L para procedimentos de pequeno porte; INR corrigido para menor ou igual a 1,5 em grande porte; e fibrinogênio mantido acima de 150 mg/dL durante sangramento ativo. Distúrbios adquiridos específicos incluem coagulação intravascular disseminada nos tumores mucinosos e a hiperviscosidade do mieloma; pacientes em uso de anticoagulante por trombose associada ao câncer precisam de bridging ou suspensão programada conforme o risco trombótico.
| Parâmetro | Limiar habitual para cirurgia de grande porte | Comentário |
|---|---|---|
| Plaquetas | Maior ou igual a 50 x 10⁹/L | Neurocirurgia e oftálmica exigem 100 x 10⁹/L; pequenos procedimentos aceitam 30 x 10⁹/L |
| INR (sem varfarina) | Menor ou igual a 1,5 | Corrigir com vitamina K ou plasma em urgência, conforme contexto |
| Fibrinogênio | Maior que 150 mg/dL | Repor com crioprecipitado ou concentrado durante sangramento ativo |
| Hemoglobina | Gatilho transfusional restritivo 7-8 g/dL se estável | Leucorredução obrigatória; considerar ferro intravenoso pré-operatório |
| Anticoagulação de ponte | Individualizada pelo risco trombótico | HBPM terapêutica 24 h antes e reinício 12-24 h após hemostasia segura |
Intraoperatoriamente, a hemostasia rigorosa do campo oncológico previne a necessidade de transfusão (e seus efeitos imunomoduladores): diatermia ou bisturi ultrassônico, Clips e suturas em vasos nomeados, uso criterioso do ácido tranexâmico (dose típica de 10 a 15 mg/kg intravenoso na indução; a evidência específica em cirurgia oncológica é menor que em ortopedia e trauma, e ele é contraindicado em sangramento ativo por coagulação intravascular disseminada). O recuperador de células (cell saver) foi historicamente evitado em oncologia por medo de reinfundir células tumorais; com filtros de leucócitos, tem uso seletivo em centros de referência em sangramento maciço não controlável, permanecendo contraindicado de rotina na presença de tumor com potencial de semeadura.
A cirurgia oncológica de abdome e pelve combina os três elementos da tríade de Virchow (estase por imobilização e pneumoperitônio, lesão endotelial pela dissecção e hipercoagulabilidade tumoral), o que coloca o paciente em risco altíssimo de trombose venosa profunda e embolia pulmonar — historicamente a principal causa evitável de morte no pós-operatório imediato. A diretriz internacional ITAC (Farge et al., 2019) recomenda profilaxia farmacológica com heparina de baixo peso molecular para todo paciente cirúrgico oncológico de abdome ou pelve, iniciada 6 a 12 horas antes da cirurgia e estendida por 28 dias no pós-operatório (exemplo: enoxaparina 40 mg subcutânea 1 vez ao dia ou tinzaparina 4.500 UI/dia); a pacientes de alto risco somam-se métodos mecânicos (meias de compressão graduada e/ou compressão intermitente). Cateter venoso central prévio, tumores pélvicos, anestesia prolongada e imobilização reforçam a indicação. A trombose associada ao câncer é causa frequente de questão: tratamento anticoagulante de preferência com HBPM por 3 a 6 meses, e os anticoagulantes orais diretos como alternativa em casos selecionados, com cautela em sítios de sangramento gastrointestinal e urotelial.
A morbidade global da cirurgia oncológica de grande porte varia de 20% a 40%, liderada por infecção de sítio cirúrgico, deiscência anastomótica, íleo, sangramento e tromboembolismo. Complicações maiores não são apenas um problema perioperatório: além de retardarem a recuperação funcional, atrasam ou impedem a quimioterapia adjuvante (que idealmente começa em 4 a 8 semanas) e associam-se a menor sobrevida global em várias neoplasias — argumento adicional para protocolos ERAS e para cirurgia de qualidade técnica. O seguimento visa detectar recorrência precoce e metacronização, com intervalos típicos de consulta a cada 3 a 6 meses nos 2 a 3 primeiros anos, com marcadores e imagem conforme o tumor; recorrência local isolada pode ser ressecável (novo R0), e metástases hepáticas e pulmonares colorretais ressecadas curam 25% a 40% dos casos selecionados. Fatores prognósticos gerais: estádio pTNM, grau histológico, margem R0, resposta patológica à neoadjuvância, estado imunonutricional e ausência de complicações maiores.
1.Um espécime de ressecção de adenocarcinoma colorretal chega à patologia com células tumorais na margem circumferencial à microscopia, sem tumor visível a olho nu. Como se classifica a ressecção?
2.Qual a margem lateral recomendada para melanoma cutâneo com Breslow de 3,5 mm, sem ulceração extensa?
3.No câncer de mama tratado com quadrantectomia com radioterapia, o consenso atual considera margem adequada quando:
4.Para estadiamento patológico adequado do adenocarcinoma de cólon curado por colectomia, o patologista deve examinar pelo menos:
5.No adenocarcinoma de reto médio, qual elemento técnico mais determina o controle local da doença?
6.Paciente com adenocarcinoma de sigmoide será operado. Segundo as diretrizes internacionais (ITAC 2019), qual a tromboprofilaxia recomendada?
7.Qual contagem plaquetária mínima é classicamente exigida para cirurgia de grande porte com risco hemorrágico relevante?
8.A técnica no-touch de Turnbull no câncer de cólon propõe:
9.Qual elemento é componente típico dos protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) em cirurgia oncológica?
10.Sobre a transfusão de hemácias no perioperatório do paciente oncológico, qual afirmação é correta?
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