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Revisão completa do rastreamento dos cânceres de mama, colo do útero e pele: números do INCA, diretrizes brasileiras (incluindo o teste de DNA-HPV como método primário desde 2025), recomendações do USPSTF, vacinação contra HPV, regra ABCDE e limites do rastreamento.
[1] Instituto Nacional de Câncer. Estimativa de incidência de câncer no Brasil 2023-2025. Rio de Janeiro: INCA; 2022. Disponível em https://www.inca.gov.br | [2] US Preventive Services Task Force. Screening for Breast Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2024;331(19):1918-1930. DOI 10.1001/jama.2024.9739 | [3] US Preventive Services Task Force. Screening for Cervical Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2018;320(7):674-686. DOI 10.1001/jama.2018.7344 | [4] US Preventive Services Task Force. Screening for Skin Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2023;329(14):1290-1295. DOI 10.1001/jama.2023.4413 | [5] Instituto Nacional de Câncer. Novas diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. Rio de Janeiro: INCA/Ministério da Saúde; 2025. Disponível em https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/diretrizes-brasileiras-para-o-rastreamento-do-cancer-do-colo-do-utero | [6] World Health Organization. Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public health problem. Genebra: WHO; 2020. Disponível em https://www.who.int/publications/i/item/9789240014107 · DOI 10.1001/jama.2024.9739
O câncer é a segunda causa de morte no Brasil, e a Estimativa do INCA para o triênio 2023-2025 projetou cerca de 704 mil casos novos por ano no país, sendo aproximadamente 483 mil ao excluir o câncer de pele não melanoma. Os três tumores abordados neste artigo concentram o maior potencial de prevenção e diagnóstico precoce da oncologia básica: mama (73.610 casos novos por ano, o mais incidente entre as mulheres), colo do útero (17.010 casos por ano, quase todos evitáveis pela vacinação contra HPV e pelo rastreio) e pele (cerca de 221 mil casos de pele não melanoma por ano, o tumor mais comum do país, mais cerca de 9 mil melanomas). Para a prova, o aluno precisa separar com clareza prevenção primária (reduzir incidência), rastreamento organizado (testar população definida em intervalos fixos) e diagnóstico precoce de sintomáticos, além de dominar as idades, os intervalos e os métodos que diferem entre as diretrizes brasileira e norte-americana.
Rastreamento é a aplicação sistemática de um teste em pessoas assintomáticas para identificar doença em fase pré-clínica. Para ser justificado, o teste precisa preencher os princípios clássicos de Wilson e Jungner: a doença deve ser grave e prevalente, com fase pré-clínica longa e detectável, o teste deve ser aceitável, seguro, acessível e com sensibilidade e especificidade adequadas, e o tratamento precoce deve melhorar desfecho em relação ao tratamento tardio. Rastreamento organizado define população-alvo, método, intervalo e fluxo de confirmação (programa público); rastreamento oportunista depende do encontro casual com o serviço de saúde, cobre menos e gera mais exames inadequados.
O câncer de mama é o mais incidente em mulheres no Brasil (excluída a pele não melanoma) e a principal causa de morte por câncer na população feminina. Os fatores de risco cobrados em prova somam idade (cerca de dois terços dos casos após os 50 anos), história familiar em parentes de primeiro grau, síndromes hereditárias (mutações em BRCA1 e BRCA2 explicam cerca de 5 a 10% dos casos), menarca precoce, menopausa tardia, nulliparidade ou primeira gestação após os 30 anos, ausência de amamentação, terapia de reposição hormonal combinada, contraceptivos orais combinados, obesidade na pós-menopausa (fonte periférica de estrogênio no tecido adiposo), consumo de álcool, sedentarismo e radioterapia prévia em tórax entre 10 e 30 anos. Fatores protetores clássicos: amamentação, atividade física regular e manutenção de peso adequado na pós-menopausa.
A mamografia é o único método de rastreamento com redução de mortalidade demonstrada em ensaios randomizados, da ordem de 20 a 25% em programas organizados, com sensibilidade em torno de 85% e especificidade de 90 a 95%, que cai para cerca de 50 a 65% em mamas densas. No Brasil, o Ministério da Saúde e o INCA, recomendação reafirmada em 2025, adotam o rastreamento populacional organizado com mamografia bienal para mulheres assintomáticas de 50 a 74 anos; para a faixa de 40 a 49 anos, a decisão de fazer mamografia deve ser compartilhada, com ferramenta específica publicada pelo INCA, pois a razão benefício-dano é menos favorável (mamas mais densas, mais falsos-positivos e sobrediagnóstico). O exame clínico das mamas mantém valor na oportunidade diagnóstica, e todo nódulo ou alteração em mulher sintomática é investigação diagnóstica, não rastreamento.
| Aspecto | INCA/Ministério da Saúde (Brasil) | USPSTF 2024 (EUA) | ACS 2015 (EUA) |
|---|---|---|---|
| Idade de início | 50 anos (40 a 49 por decisão compartilhada) | 40 anos | 45 anos (opção a partir dos 40) |
| Intervalo | Bienal | Bienal | Anual de 45 a 54; bienal a partir de 55, com opção anual |
| Idade limite | 74 anos | 74 anos (evidência insuficiente a partir de 75) | Enquanto expectativa de vida saudável maior que 10 anos |
| Observação | Programa organizado; ultrassonografia não é rastreamento populacional | Evidência insuficiente para rastreamento adicional em mamas densas | Recomenda acesso a mamografia anual a partir dos 40 quando desejado |
Grupos de risco elevado seguem protocolo próprio, com rastreamento intensificado: portadoras de mutações germinativas (BRCA1, BRCA2, PALB2, TP53), sobreviventes de radioterapia torácica entre os 10 e 30 anos de idade e mulheres com risco vitalício estimado de 20% ou mais por modelos validados devem realizar ressonância magnética de mama e mamografia anuais, de forma concomitante, tipicamente a partir dos 25 a 30 anos de idade ou 10 anos antes da idade do caso familiar mais jovem. Em mulheres de risco aumentado, mas não alto, o USPSTF também considera a oferta de medicamentos de redução de risco, como tamoxifeno e raloxifeno.
| Categoria BI-RADS na mamografia | Conduta |
|---|---|
| 0 (exame incompleto) | Complementar com incidências adicionais ou ultrassonografia |
| 1 e 2 (negativo e benigno) | Retorno ao rastreamento de rotina |
| 3 (provavelmente benigno) | Acompanhamento semestral por até 2 anos |
| 4 (suspeita) e 5 (alta suspeita) | Correlação com core biópsia guiada |
| 6 (malignidade confirmada) | Estadiamento e tratamento |
Praticamente 100% dos cânceres do colo do útero são atribuíveis à infecção persistente por HPV de alto risco, sendo os tipos 16 e 18 responsáveis por cerca de 70% dos casos. É o terceiro tumor mais incidente entre as brasileiras (excluída a pele não melanoma), com forte gradiente regional: incidência e mortalidade maiores no Norte e no Nordeste, reflexo de cobertura insuficiente de rastreamento e de vacinação. A prevenção primária mudou de patamar com a vacina quadrivalente (HPV 6, 11, 16 e 18) oferecida pelo SUS a meninas e meninos de 9 a 14 anos, em esquema de dose única desde 2024, com esquemas multidose para imunocomprometidos; o ideal é vacinar antes da exposição ao vírus. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu a meta 90-70-90 para eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública: vacinar 90% das meninas até os 15 anos, rastrear 70% das mulheres aos 35 e aos 45 anos com teste de alto desempenho e tratar 90% das lesões identificadas. Preservativo, cessação do tabagismo e tratamento de lesões precursoras completam a prevenção.
Em 2025, o INCA e o Ministério da Saúde publicaram as novas diretrizes brasileiras, incorporando o teste molecular de DNA-HPV oncogênico como método primário de rastreamento para mulheres de 25 a 64 anos, com intervalo de 5 anos quando negativo, em substituição gradual à citologia. A razão é o desempenho: para detectar neoplasia intraepitelial de alto grau, o teste de HPV tem sensibilidade de aproximadamente 90 a 95%, contra cerca de 50 a 60% da citologia convencional, permitindo intervalos mais longos com mais segurança. O fluxo de manejo segue a genotipagem: resultado positivo para HPV 16 ou 18 encaminha direto para colposcopia; positividade para outros tipos oncogênicos indica citologia de triagem (reflexa) na mesma amostra, com colposcopia se houver alteração a partir de ASC-US e repetição do teste em 12 meses se a citologia for negativa. Durante a transição, onde o teste molecular ainda não está disponível, mantém-se a citologia de 25 a 64 anos: exames anuais em 2 anos consecutivos normais liberam o intervalo trienal.
| Aspecto | Novas diretrizes brasileiras (INCA, 2025) | USPSTF 2018 (EUA) |
|---|---|---|
| Método primário | Teste molecular de DNA-HPV oncogênico (citologia durante a transição) | Citologia isolada, HPV isolado ou coteste |
| Faixa etária | 25 a 64 anos | 21 a 65 anos (citologia de 21 a 29; HPV ou coteste de 30 a 65) |
| Intervalo se negativo | 5 anos (teste HPV); 3 anos na citologia | Citologia a cada 3 anos; HPV ou coteste a cada 5 anos |
| Conduta no HPV positivo | HPV 16 ou 18: colposcopia; outros tipos: citologia reflexa | Definida pelo resultado e pelo programa (triação ou colposcopia) |
| Quando suspender | Após 64 anos com rastreamento adequado e resultados negativos | A partir dos 65 anos com rastreamento adequado e negativo (3 citologias ou 2 testes HPV negativos em 10 anos, o último dentro de 5 anos) |
O câncer de pele é o mais frequente no Brasil: cerca de 221 mil casos novos por ano de pele não melanoma (carcinoma basocelular e espinocelular), correspondendo a cerca de um terço de todos os tumores malignos, além de aproximadamente 9 mil melanomas por ano. O carcinoma basocelular responde por cerca de 70 a 75% dos casos: cresce lentamente, é localmente agressivo e raramente metastatiza; apresenta-se como pápula perolada com telangiectasias, nódulo ou úlcera de bordas elevadas, em áreas fotoexpostas. O carcinoma espinocelular, cerca de 20 a 25%, surge sobre queratoses actínicas, ulcerado ou em placa hiperqueratósica, e pode metastatizar (risco maior em lábio, orelha e imunossuprimidos). O melanoma é minoria dos casos, porém responde pela grande maioria das mortes por câncer de pele; quando diagnosticado localizado, a sobrevida em 5 anos supera 99%, e quando à distância cai para cerca de 30%, o que resume toda a lógica do diagnóstico precoce.
A prevenção primária é fotoexposição criteriosa: fotoproteção com filtro solar de FPS 30 ou mais reaplicado a cada 2 a 3 horas, roupas, chapéus de aba larga, óculos com proteção ultravioleta, sombra entre 10 e 16 horas e recusa absoluta a câmaras de bronzeamento, classificadas pelo IARC como carcinógenos do grupo 1. O USPSTF, em 2023, manteve declaração de evidência insuficiente (I statement) para o exame visual da pele por clínico em adultos assintomáticos, mas recomenda (grau B) aconselhamento comportamental sobre proteção solar para adolescentes e adultos jovens de pele clara. A decisão de rastrear individualmente deve considerar o grupo de risco: muitas lesões melanocíticas (50 ou mais nevos comuns), 5 ou mais nevos atípicos, história pessoal ou familiar de melanoma, imunossupressão, pele clara com fotossensibilidade e síndromes genéticas, situações em que a vigilância dermatológica periódica e o autoexame mensal da pele (com atenção ao sinal do patinho feio, a lesão destoante do padrão individual) são indicados.
| Critério ABCDE do melanoma | O que procurar |
|---|---|
| A (assimetria) | Metade da lesão diferente da outra |
| B (bordas) | Irregulares, recortadas, mal definidas |
| C (cor) | Heterogênea, com múltiplos tons de marrom, preto, vermelho ou branco |
| D (diâmetro) | Maior que 6 mm (a regra do lápis) |
| E (evolução) | Mudança de tamanho, forma, cor, sintomas ou sangramento |
Diante de lesão suspeita de melanoma, a biópsia deve ser preferencialmente excisional, com margem clínica de 1 a 3 mm e profundidade adequada, porque a espessura de Breslow medida na peça completa define estadiamento, prognóstico e conduta; biópsias raspadas (shave) e incisionais parciais podem subestimar o Breslow e comprometer o planejamento. Lesões suspeitas de carcinoma basocelular ou espinocelular admitem punção ou biópsia incisional, conforme o caso. O diagnóstico diferencial amplo inclui queratose seborreica, nevo melanocítico comum, queratose actínica, ceratoacantoma e lesões inflamatórias.
| Tumor | Método de rastreamento | População-alvo no Brasil | Intervalo |
|---|---|---|---|
| Mama | Mamografia (ressonância acrescida no grupo de risco elevado) | Mulheres de 50 a 74 anos (40 a 49 por decisão compartilhada) | Bienal |
| Colo do útero | Teste molecular de DNA-HPV (citologia na transição) | Mulheres de 25 a 64 anos | 5 anos (HPV negativo); 3 anos (citologia) |
| Pele | Sem rastreamento populacional; exame dirigido em grupos de risco e autoexame | Adultos de risco (muitos nevos, imunossupressão, história familiar) | Vigilância individualizada |
Lidar bem com rastreamento exige comunicar incertezas: falsos-positivos geram ansiedade e procedimentos, o sobrediagnóstico de câncer de mama e de lesões precursoras do colo do útero expõe a tratamentos desnecessários, e o sobretatamento de carcinoma in situ persiste como debate. Em contrapartida, o rastreamento organizado adequado reduz mortalidade específica: queda expressiva nas taxas de morte por câncer do colo do útero onde há cobertura e tratamento das lesões precursoras, e redução de mortalidade por câncer de mama da ordem de 20 a 25% nos programas com boa adesão. A tarefa do médico de atenção primária é aplicar a diretriz correta à população correta, garantir a investigação dos positivos e não transformar pessoa assintomática ansiosa em paciente de exames repetidos sem indiciação.
1.Segundo o INCA e o Ministério da Saúde, o rastreamento organizado do câncer de mama no Brasil é realizado com qual população e intervalo?
2.A grande mudança da recomendação do USPSTF de 2024 para o rastreamento de mama foi:
3.Nas novas diretrizes brasileiras de 2025, o método primário de rastreamento do câncer do colo do útero passou a ser:
4.Mulher de 37 anos, rastreamento com teste molecular positivo para HPV tipo 16 e citologia sem lesão. Qual a conduta?
5.Segundo o USPSTF, qual conduta é correta para mulheres entre 21 e 29 anos?
6.Mulher de 66 anos fez histerectomia total por miomatose, sem neoplasia prévia, e mantém exames cervicais normais há anos. Conduta:
7.Sobre o rastreamento do câncer de pele, o USPSTF 2023 conclui que:
8.Na avaliação de uma lesão pigmentada, qual conjunto corresponde à regra ABCDE do melanoma?
9.Dermatologista avalia lesão pigmentada de 8 mm altamente suspeita de melanoma no dorso. Qual a técnica de biópsia preferida?
10.O conceito de sobrediagnóstico no rastreamento do câncer de mama significa:
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