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Guia de decisão em neuroftalmologia para provas e enfermaria: vias simpática e parassimpática da pupila, algoritmo da anisocoria, testes farmacológicos da síndrome de Horner, pupila de Adie e Argyll Robertson, paralisias de III (regra da pupila), IV (teste de inclinação) e VI nervos, com doses, condutas e 10 questões.
[1] Biousse V, Newman NJ. Neuro-Ophthalmology Illustrated. 3ª ed. New York: Thieme; 2020 | [2] Liu GT, Volpe NJ, Galetta SL. Neuro-Ophthalmology: Diagnosis and Management. 3ª ed. Philadelphia: Elsevier; 2019 | [3] Tamhankar MA, et al. Isolated Third, Fourth, and Sixth Cranial Nerve Palsies from Presumed Microvascular versus Other Causes: A Prospective Study. Ophthalmology. 2013;120(11):2264-2269 · DOI 10.1016/j.ophtha.2013.04.009 | [4] Davagnanam I, Fraser CL, Miszkiel K, Daniel CS, Plant GT. Adult Horner syndrome: a combined clinical, pharmacological, and imaging algorithm. Eye (Lond). 2013;27(3):291-298 · DOI 10.1038/eye.2012.281 | [5] Lee MS, Galetta SL, Volpe NJ, Liu GT. Sixth nerve palsies in children. Pediatr Neurol. 1999;20(1):49-52 · DOI 10.1016/S0887-8994(98)00090-3 · DOI 10.1016/j.ophtha.2013.04.009
O exame da pupila e da motilidade ocular extrínseca é o teste de localização mais barato da neurologia: cada milímetro de anisocoria e cada direção de olhar limitada apontam para uma via nervosa específica — e algumas dessas lesões são emergências com mortalidade elevada, como o aneurisma da artéria comunicante posterior comprimindo o III nervo. Cerca de 20% da população tem anisocoria fisiológica, e o erro mais comum do aluno é imaginar patologia onde ela não existe ou, pior, tratar como conjuntivite uma paralisia de III nervo com midríase. Este artigo organiza o raciocínio em duas colunas: pupila (anisocoria e dissociação fotomotora) e pares cranianos oculomotores (III, IV e VI), com os algoritmos, testes farmacológicos, critérios de imagem e condutas cobrados em prova.
A pupila tem dois músculos com inervação oposta. O esfíncter pupilar é parassimpático: neurônios do núcleo de Edinger-Westphal (complexo oculomotor acessório) acompanham o III nervo, sinaptizam no gânglio ciliar na órbita e alcançam o esfíncter pelos nervos ciliares curtos, com receptor muscarínico M3 — a via da constrição à luz. O dilatador é simpático e percorre um arco de três neurônios: o primeiro nasce no hipotálamo posterolateral e desce ipsilateralmente pelo tronco (bulbo lateral); o segundo parte do centro ciliospinal de Budge, entre C8 e T2, sobe pelo tórax, contorna o ápice pulmonar e a artéria subclávia e sinaptiza no gânglio cervical superior; o terceiro (pós-ganglionar) viaja com a artéria carótida interna, cruza brevemente o seio cavernoso junto ao VI nervo, segue com o ramo nasal do V1 e chega ao dilatador pelos nervos ciliares longos, com receptor alfa-1 adrenérgico. A luz consensual confirma integridade da via aferente (II nervo e via retiniana) e eferente (III nervo) de ambos os lados.
Diante de pupilas de tamanhos diferentes, o primeiro passo é medir a anisocoria no escuro e na luz — a variação do tamanho com a iluminação entrega o lado do sistema responsável. Se a diferença aumenta no escuro, a pupila menor não dilata: o problema é simpático (Horner). Se a diferença aumenta na luz, a pupila maior não constrange: o problema é parassimpático (III nervo, Adie ou fármaco). Se a diferença é a mesma nos dois ambientes e menor que 1 mm, com exame neurológico normal, trata-se de anisocoria fisiológica — cerca de 20% das pessoas, sem necessidade de investigação.
| Achado ao exame | Mecanismo | Diagnóstico a considerar | Próximo passo |
|---|---|---|---|
| Anisocoria maior no escuro | Falha de dilatação da pupila menor (simpático) | Síndrome de Horner | Teste farmacológico e imagem dirigida pelo nível da lesão |
| Anisocoria maior na luz | Falha de constrição da pupila maior (parassimpático) | Paralisia de III nervo, pupila de Adie, midríase farmacológica | Procurar ptose e limitação de motilidade; pilocarpina 1% diferencia |
| Anisocoria igual na luz e no escuro, menor que 1 mm | Assimetria fisiológica do tônus | Anisocoria essencial (fisiológica) | Nenhuma; orientar e documentar |
| Midríase isolada sem ptose nem limitação de olhar | Bloqueio muscarínico ou lesão do gânglio ciliar | Midríase farmacológica ou Adie | Pilocarpina diluída 0,1% (Adie constringe) e depois 1% (constringe apenas pupila não farmacológica) |
O Horner clínico é a tríade miose, ptose leve e anidrose (mais enoftalmo aparente). Confirmar é o primeiro passo, e hoje o teste de escolha é a apraclonidina 0,5 a 1%: agonista alfa-1 fraco que, na pupila denervada (com hiperssensibilidade de desnervação), provoca dilatação com elevação da pálpebra, revertendo a anisocoria — teste positivo quando a pupila afetada dilata e a diferença se inverte. Falsos negativos ocorrem na primeira semana da lesão aguda, quando a hiperssensibilidade ainda não se instalou. A cocaína 4 a 10% (bloqueia a recaptação de noradrenalina; a pupila de Horner não dilata) permanece padrão histórico, com sensibilidade acima de 90%, mas é de manuseio restrito. A hidroanfetamina 1%, que libera noradrenalina de terminais pós-ganglionares intactos, distingue lesão pré-ganglionar (pupila dilata) da pós-ganglionar (não dilata) — nunca aplicada no mesmo dia da cocaína.
| Teste farmacológico | Concentração | Resultado em Horner | Informação que agrega |
|---|---|---|---|
| Apraclonidina | 0,5 a 1%, 1 gota em cada olho | Pupila miótica dilata e a ptose melhora (reversão da anisocoria) | Confirma a síndrome; teste de escolha atual |
| Cocaína | 4 a 10%, 1 gota em cada olho | Pupila afetada não dilata após 45-60 min | Confirma a síndrome (padrão histórico, disponibilidade restrita) |
| Hidroanfetamina | 1%, 1 gota em cada olho | Não dilata na lesão pós-ganglionar; dilata na pré-ganglionar e central | Localiza o nível do arco simpático |
Localizar a causa é o que decide a urgência. O algoritmo combinado clínico-farmacológico-radiológico proposto por Davagnanam e Plant orienta a imagem: Horner central acompanha sinais de tronco (síndrome de Wallenberg com disfagia, ataxia e hipoalgesia contralateral) e pede RM de encéfalo; o pré-ganglionar sugere tumor do ápice pulmonar (síndrome de Pancoast, com dor braquial e massa no bordo superior do tórax), lesões de plexo, cirurgia ou trauma cervical e, na criança, neuroblastoma — que exige dosar ácido homovanílico e vanilmandélico na urina e RM cervical-torácica; o pós-ganglionar é vizinho da carótida interna: dissecção de carótida (Horner doloroso com dor de pescoço e cefaleia ipsilateral após trauma ou espontâneo — emergência por risco de AVC isquêmico, com angio-TC ou angio-RM de pescoço imediata), lesões do seio cavernoso, fistula carotídeo-cavernosa e cefaleias trigêmino-autonômicas (enxaqueca, cefaleia em salvas). Horner infantil congênito ou da primeira infância sem causa mecânica de parto merece investigação de neuroblastoma.
A pupila tônica de Adie é lesão pós-ganglionar do gânglio ciliar, típica de mulher jovem: pupila midriática e irregular (setores paralisados do esfíncter) com dissociação fotomotora — a resposta à luz é pobre, mas a constrição ao esforço próximo é lenta e sustentada, com redilatação tônica característica; movimentos vermiculares setoriais da íris são vistos à lâmpada de fenda. A confirmação é a pilocarpina diluída 0,1% (alguns serviços usam 0,125%): o muscarínico em concentração subclínica constringe apenas a pupila desnervada, por hiperssensibilidade de desnervação. Quando se soma hiporreflexia (principalmente aquíleos), fala-se em síndrome de Adie; a associação com anidrose segmentar define a síndrome de Ross. A pupila é benigna — manejo é orientação, óculos de leitura e, raramente, pilocarpina tópica para sintomas.
A pupila de Argyll Robertson é bilateral, pequena e irregular, com dissociação fotomotora e acomodação preservada, classicamente da neurossífilis (também descrita na diabetes): o tratamento é o da sífilis com penicilina G cristalina 24 milhões de unidades/dia, fracionada a cada 4 horas por 14 dias, e seguimento sorológico (VDRL para resposta). Já a midríase farmacológica (anticolinérgicos oculares, plantas como beladona, aerossóis anticolinérgicos que atingem o olho, escopolamina) produz pupila midriática fixa sem ptose nem limitação de olhar; a pilocarpina 1% não a constringe porque o receptor muscarínico está ocupado ou bloqueado — a mesma gota constringe a pupila de paralisia de III nervo. Este teste diferencia a midríase farmacológica da neurológica e evita tomografias desnecessárias.
O III nervo inerva reto superior, reto medial, reto inferior, oblíquo inferior, palpebral superior e, via fibras parassimpáticas, o esfíncter pupilar e o músculo ciliar. Na paralisia completa restam ao olho o reto lateral (VI) e o oblíquo superior (IV): o olho fica desviado para baixo e para fora (down and out), com ptose importante e, se as fibras pupilomotoras estiverem poupadas, o paciente levanta a pálpebra e queixa de diplopia vertical e oblíqua. O ponto decisivo é a pupila: as fibras parassimpáticas correm na porção superficial superomedial do nervo, exatamente onde aneurismas da comunicante posterior e a herniação uncual comprimem — por isso paresia pupilar (midríase com anisocoria igual ou maior que 1 mm, ou perda da fotomotora) associada a dor impõe angio-TC ou angio-RM imediatas para excluir aneurisma, com neurocirurgia ou neurorradiologia intervencionista (clipagem ou embolização) em seguida.
No estudo prospectivo de Tamhankar e colegas, paralisias isoladas de III, IV e VI consideradas microvasculares (pacientes com fatores de risco vasculares) tiveram evolução benigna: a recuperação completa da motilidade ocorreu na grande maioria dentro de 3 meses, virtualmente todas até 6 meses, sem causa estrutural oculta — dados que sustentam a observação vigilante dos casos clássicos e, ao mesmo tempo, definem o prazo: ausência de melhora em 4 a 6 semanas, progressão ou envolvimento de outras estruturas obrigam a imagem. Controle glicêmico e de pressão, estatina e abandono do tabagismo fazem parte do tratamento da causa.
O IV nervo (troclear) inerva o oblíquo superior, que intorta o olho e o abaixa quando o olhar está em adução. Na paralisia, a diplopia é vertical e torsional, pior ao olhar para baixo — ler, descer escadas, olhar o prato — e o paciente compensa inclinando a cabeça para o lado oposto ao da lesão e rodando o queixo para baixo. O exame clássico é o teste da inclinação cefálica de Parks-Bielschowsky em três passos: identifica o músculo paralisado pela direção da diplopia vertical (por exemplo, hipertropia esquerda pior na depressão e na inclinação da cabeça para a esquerda localiza oblíquo superior esquerdo). Causas: congênita (mais comum; descompensa na vida adulta e mostra amplitudes fusionais verticais grandes ao prismas alternados), trauma (o IV cruza no tecto dorsal do mesencéfalo e é vulnerável a trauma craniano fechado, podendo ser bilateral), microvascular do idoso e, raramente, tumor. Tratamento sintomático com prismas; cirurgia (enfraquecimento do oblíquo inferior homolateral ou plicatura do oblíquo superior) para casos persistentes com torticollis ou diplopia incapacitante.
O VI nervo (abducente) inerva o reto lateral — na paralisia, o paciente não abduz o olho e apresenta esotropia com diplopia horizontal não cruzada, pior ao olhar para longe (dirigir, assistir televisão) e para o lado acometido, melhorando na leitura de perto. É o nervo com trajeto intracraniano mais longo: sobe pela base do crânio, faz uma curva sobre a proeminência do rochedo e por isso é o classicamente afetado pela hipertensão intracraniana — o chamado sinal de falsa localização (qualquer processo que eleve a pressão intracraniana pode paralisar o VI, de tumor a trombose venosa cerebral). No adulto, a causa mais comum é microvascular (diabetes e hipertensão), seguida de trauma, hipertensão intracraniana e lesões da ponte; a síndrome de Gradenigo une paralisia de VI com dor trigeminal (V1-V2) e otite média/petrous apicitis — rara hoje, mas cobrada em prova.
Na criança o VI nervo tem regra própria: a série clássica de Lee e colegas mostrou que cerca de um terço das paralisias de VI na população pediátrica associa-se a neoplasias do sistema nervoso central (tumores de fossa posterior, principalmente medulloblastoma e glioma pontino), com o restante dividido entre causas benignas autolimitadas (frequentemente pós-infecciosas), traumáticas e idiopáticas. Conduta: paralisia de VI em criança com menos de 6 a 8 semanas de evolução e sem outros sinais pode ser observada de perto; persistência além desse prazo, progressão, papiledema, dor ou qualquer sinal neurológico impõem RM de encéfalo com contraste — em dúvida, imagem. No adulto vasculopático típico, a conduta é semelhante à do III microvascular: observar e reavaliar em 4 a 6 semanas.
| Entidade | Pupila | Ptose | Padrão da diplopia e do olhar | Teste ou exame decisivo |
|---|---|---|---|---|
| Paralisia de III nervo | Midríase quando comprimido; poupada na microvascular | Importante, do próprio nervo | Olhar para baixo e para fora; limitação de adução, elevação e depressão | Angio-TC/angio-RM se pupila envolvida, dor ou paralisia parcial |
| Paralisia de IV nervo | Normal | Ausente | Diplopia vertical pior na depressão e na inclinação ipsilateral da cabeça; cabeça inclinada para o lado oposto | Teste de inclinação de Parks-Bielschowsky; amplitudes fusionais grandes sugerem causa congênita |
| Paralisia de VI nervo | Normal | Ausente | Diplopia horizontal pior à distância e na abdução do lado afetado | RM em crianças com persistência ou sinais associados; investigar hipertensão intracraniana (papiledema) |
| Miastenia grave | Normal, sempre | Fatigável, varia ao dia | Diplopia e ptose flutuantes sem padrão de nervo único | Teste do gelo (melhora da ptose em 2 min), anticorpos anti-receptor de acetilcolina, teste do edrofônio |
| Orbitopatia de Graves | Normal | Retração palpebral (não ptose) | Restrição mecânica (elevação e abdução), proptose, injeção conjuntival | TC de órbita, TSH/anti-TSH receptor; teste de ducção forçada positivo |
| Horner | Miose (menor no escuro) | Leve, 1-2 mm | Sem diplopia | Apraclonidina 0,5-1% e imagem dirigida pelo nível |
O prognóstico das paralisias microvasculares é excelente: recuperação completa em 3 a 6 meses na grande maioria, conforme o seguimento prospectivo de Tamhankar — pior nos diabéticos de longa data e em lesões parciais que evoluem. Na paralisia aneurismática de III, o risco de ruptura e de morte define a urgência; mesmo tratado, o envolvimento pupilar costuma deixar midríase residual e a recuperação motora é incompleta em parte dos casos, com regeneração aberrante como sequela. Na criança, o prognóstico da paralisia de VI depende da causa: as formas benignas pós-infecciosas recuperam-se em semanas a poucos meses; as formas tumorais acompanham o tratamento oncológico. Complicações transversais: ambliopia na criança com diplopia não tratada, contratura do reto medial na paralisia de VI antiga, ptose persistente e estrabismo secundário — motivos pelos quais o seguimento conjunto com oftalmologista e neurologista faz parte do tratamento, não apenas do diagnóstico.
1.Paciente com pupilas de 3 mm à direita e 5 mm à esquerda. No escuro, a diferença aumenta; na luz, diminui. Qual sistema está acometido e em qual lado?
2.Qual teste farmacológico atualmente é o de escolha para confirmar síndrome de Horner e qual o resultado esperado?
3.Homem de 45 anos apresenta síndrome de Horner esquerda súbita associada a dor intensa de pescoço e cefaleia ipsilateral iniciadas após manipulação cervical. Qual a conduta imediata?
4.Mulher de 28 anos tem pupila direita midriática e irregular desde há meses, sem ptose nem limitação de motilidade. A pupila responde pouco à luz, mas constringe lentamente e de forma sustentada ao olhar de perto, com redilatação tônica. Qual teste confirma o diagnóstico?
5.Idoso de 68 anos, diabético e hipertenso, apresenta paralisia COMPLETA de III nervo à direita com ptose importante, dor retro-orbital e pupila normal (sem midríase). Qual a conduta adequada?
6.Paralisia de III nervo com midríase de 6 mm, ptose total e cefaleia súbita em paciente de 55 anos. Qual a prioridade diagnóstica?
7.Paciente refere diplopia vertical pior ao descer escadas e ao ler; inclina a cabeça para a direita para reduzir os sintomas. O defeito localiza-se no seguinte nervo e músculo:
8.Criança de 5 anos apresenta estrabismo convergente com incapacidade de abduzir o olho esquerdo há 10 semanas, sem melhora, após episódio viral. Papiledema ausente. Qual a conduta?
9.A síndrome de Gradenigo é caracterizada por:
10.Qual achado descarta miastenia grave como causa de diplopia e ptose flutuantes?
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