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Revisão completa da terapia nutricional na DRC: critérios diagnósticos do desgaste proteico-energético (PEW), fisiopatologia do catabolismo urêmico, avaliação nutricional, prescrição de proteínas, calorias, sódio, potássio e fósforo por estágio, quelantes com doses e pontos de prova segundo KDOQI 2020 e KDIGO 2024.
[1] National Kidney Foundation. KDOQI Clinical Practice Guideline for Nutrition in CKD: 2020 Update. Am J Kidney Dis. 2020;76(3 Suppl 1):S1-S107. DOI 10.1053/j.ajkd.2020.05.006 | [2] KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314. DOI 10.1016/j.kint.2023.10.018 | [3] Fouque D, Kalantar-Zadeh K, Kopple J, et al. A proposed nomenclature and diagnostic criteria for protein-energy wasting in acute and chronic kidney disease. Kidney Int. 2008;73(4):391-398. DOI 10.1038/sj.ki.5002585 | [4] Kalantar-Zadeh K, Fouque D. Nutritional Management of Chronic Kidney Disease. N Engl J Med. 2017;377(18):1765-1776. DOI 10.1056/NEJMra1701471 · DOI 10.1053/j.ajkd.2020.05.006
A desnutrição do paciente renal não é um detalhe estético do acompanhamento: é o preditor modificável de morte mais forte da população em diálise. O fenômeno, hoje chamado desgaste proteico-energético (PEW, protein-energy wasting), atinge de 20 a 50 por cento dos pacientes dialíticos conforme o critério usado, associa-se a risco de morte duas a três vezes maior e é frequentemente iatrogênico, produto de dietas hipoproteicas prescritas sem supervisão e mantidas após o início da diálise. A KDOQI 2020 e a KDIGO 2024 padronizaram as metas: este artigo organiza os números que a prova cobra, do diagnóstico do PEW à dose do quelante de fósforo, passando pela prescrição de proteínas e calorias em cada estágio da doença.
A Sociedade Internacional de Nutrição e Metabolismo Renal propôs em 2008 o termo PEW para substituir denominações vagas como desnutrição e caquexia urêmica. PEW é um estado de desgaste nutricional e inflamatório, caracterizado pela perda progressiva de massa muscular e de reservas energéticas, causado por fatores relacionados à própria doença renal (anorexia urêmica, acidose, inflamação, perdas dialíticas) e não apenas por ingestão insuficiente. A distinção importa porque o termo desnutrição sugere que basta comer mais, enquanto o PEW exige tratar acidose, inflamação e adequação da diálise junto com a dieta.
Três conceitos acompanham o PEW nas provas. A síndrome MIA (desnutrição, inflamação e aterosclerose) explica por que o paciente desnutrido em diálise morre de causa cardiovascular: a inflamação crônica liga desgaste e calcificação vascular. A sarcopenia urêmica é a perda de massa e força muscular, que pode ocorrer mesmo em pacientes com sobrepeso (sarcopenia obesa). E a chamada obesidade paradoxal descreve a associação, observada apenas em diálise, entre IMC mais alto e sobrevida maior, um achado de confusão e seleção que não autoriza ganho de peso deliberado.
O diagnóstico de PEW exige pelo menos um critério em pelo menos três das quatro categorias a seguir, cada uma com limiares objetivos. Esse formato em categorias é o que a prova cobra: perguntar quais valores fecham o diagnóstico.
| Categoria | Critério | Limiar diagnóstico |
|---|---|---|
| Bioquímica | Albumina sérica | inferior a 4,0 g/dL (método verde de bromocresol) |
| Bioquímica | Pré-albumina ou colesterol total | pré-albumina inferior a 30 mg/dL; colesterol inferior a 100 mg/dL |
| Massa corporal | Perda de peso involuntária | maior ou igual a 5% em 3 meses, ou 10% em 6 meses |
| Massa corporal | IMC ou gordura total | IMC inferior a 23 kg/m2; gordura corporal inferior a 10% |
| Massa muscular | Circunferência muscular do braço | redução maior que 10% em relação ao percentil 50 de referência |
| Ingestão dietética | Proteína e energia espontâneas | proteína inferior a 0,8 g/kg/dia e energia inferior a 25 kcal/kg/dia por pelo menos 2 meses |
A prevalência de PEW varia de cerca de 20 a 50 por cento em pacientes em terapia renal substitutiva, com números mais altos em hemodiálise incidentes, idosos, diabéticos e portadores de acesso venoso central comprometido. O desgaste antecede a diálise: já é detectável em 10 a 20 por cento dos pacientes com DRC estágios 3 a 5 pré-diálise, e cada ponto perdido na avaliação global subjetiva eleva o risco de morte. A inflamação subclínica, medida por PCR ultrasensível elevada, está presente em 30 a 50 por cento dos dialíticos e amplifica o risco cardiovascular. Para a prova brasileira, guarde ainda que a terapia nutricional estruturada, com nutricionista integrado à equipe de nefrologia, reduz hospitalizações e é recomendação explícita da KDOQI 2020 para todos os estágios.
O catabolismo da DRC resulta da soma de fatores anorexígenos, hormonais, inflamatórios e iatrogênicos. A anorexia urêmica decorre de toxinas retidas, disgeusia, náuseas, gastroparesia diabética, depressão e inflamação, e reduz espontaneamente a ingestão para níveis de jejum relativo. A acidose metabólica crônica ativa o sistema ubiquitina-proteassoma no músculo esquelético, degradando proteínas miofibrilares, e acelera a oxidação de aminoácidos de cadeia ramificada; cada 0,1 mEq/L de queda do bicarbonato se associa a perda de massa magra mensurável. Corrigir o bicarbonato para pelo menos 22 mEq/L é, portanto, intervenção nutricional, não apenas eletrolítica.
A inflamação crônica, com elevação de IL-6, TNF-alfa e PCR, induz anorexia, catabolismo e anemia, e fecha o circuito da síndrome MIA. A diálise em si agrega perdas: cada sessão de hemodiálise remove da ordem de 8 a 12 gramas de aminoácidos (mais quando o dialisato é isento de glicose), e a diálise peritoneal perde 5 a 15 gramas de proteína por dia, além de vitaminas hidrossolúveis. Somam-se ainda a resistência anabólica à insulina e ao IGF-1, os níveis elevados de leptina (anorexígeno), o hiperparatireoidismo (catabolismo muscular) e a imobilidade frequentes nesses pacientes.
A KDOQI 2020 recomenda triagem nutricional em toda consulta de acompanhamento e avaliação nutricional completa periodicamente, com periodicidade menor quanto maior o risco. Não existe exame único: a avaliação combina instrumento global subjetivo, antropometria, marcador de ingestão e, em diálise, o nPCR. A tabela resume o kit mínimo que a prova cobra.
| Instrumento | O que avalia | Interpretação e alvo |
|---|---|---|
| Avaliação global subjetiva (SGA) 7 pontos | História dietética, peso e exame físico | escore 6-7 bem nutrido; 3-5 moderadamente desnutrido; 1-2 gravemente desnutrido; semestral em estáveis e mensal em risco |
| Malnutrition-Inflammation Score (MIS) | SGA expandida com albumina e TIBC (10 itens) | escore de 0 a 30; quanto maior, pior o prognóstico |
| Circunferência do braço e prega cutânea | Reservas musculares e adiposas | queda maior que 10% do percentil esperado sugere desgaste; independe do peso edematoso |
| nPCR (taxa de catabolismo proteico normalizada) | Ingestão proteica efetiva em hemodiálise | alvo de pelo menos 1,0 a 1,2 g/kg/dia; abaixo de 0,8 indica risco |
| Registro alimentar de 3 dias | Ingestão real de proteína, sódio, potássio e fósforo | deve incluir um dia de diálise e um de fim de semana |
| Bioimpedância (BIA) | Água corporal e massa celular | ângulo de fase baixo sugere desgaste; ajuda a separar massa magra de edema |
A regra central, e a pegadinha mais frequente: restringir proteína na DRC pré-diálise para retardar a progressão, e liberar proteína após o início da diálise, quando a restrição passa a matar. As faixas abaixo são as da KDOQI 2020, calculadas por quilo de peso ideal ou ajustado, nunca do peso edematoso.
| População | Proteínas | Energia | Observações de prova |
|---|---|---|---|
| DRC G1-G2 não dialítica | 0,8 a 1,0 g/kg/dia | 25 a 35 kcal/kg/dia | evitar dieta hiperproteica (acima de 1,3 g/kg/dia), que hiperfiltra e acelera a lesão |
| DRC G3-G5 não dialítica | 0,55 a 0,60 g/kg/dia (aceitável até 0,8) | 25 a 35 kcal/kg/dia | com cetoácidos-análogos, a proteína pode cair para 0,28 a 0,35 g/kg/dia; exige monitoração para não gerar PEW |
| DRC G3-G5 com diabetes | aproximadamente 0,8 g/kg/dia | individualizada | não apertar a restrição além do necessário; evitar hipoglicemias |
| Hemodiálise | 1,0 a 1,2 g/kg/dia | 25 a 35 kcal/kg/dia | pelo menos 50% de proteína de alto valor biológico; repor perdas dialíticas |
| Diálise peritoneal | 1,0 a 1,2 g/kg/dia | 25 a 35 kcal/kg/dia | contar as calorias da glicose absorvida do dialisato na prescrição energética |
| Pós-transplante imediato | 1,3 a 1,5 g/kg/dia | 30 a 35 kcal/kg/dia | fase anabólica e uso de corticoide; reduzir após estabilização |
A meta de sódio da KDIGO 2024 é inferior a 2 gramas por dia (menos de 5 g de sal), faixa em que a KDOQI 2020 aceita até 2,3 g. Na prática, o grosso do sódio brasileiro vem de alimentos ultraprocessados, e a redução exige orientação de rótulos, retirada do saleiro e do caldo em cubo. O ganho de peso interdialítico deve ficar idealmente abaixo de 3 a 4 por cento do peso seco, porque ganhos maiores implicam sobrecarga, hipertensão e ultrafiltração rápida com lesão miocárdica.
O potássio deixou de ser vilão universal: a KDIGO 2024 recomenda individualizar e não restringir rotineiramente, porque a restrição empobrece a dieta de frutas, verduras e fibras, exatamente o padrão que a diretriz estimula (dieta de predominância vegetal, tipo mediterrânea). Quando há hiperpotasemia verdadeira, corrija primeiro os facilitadores: acidose, constipação, hiporreninismo e, sobretudo, fármacos como inibidores da ECA, bloqueadores do receptor de angiotensina, espironolactona e anti-inflamatórios. No plano alimentar, o cozimento duplo de tubérculos (descartar a água) reduz o potássio em cerca de 30 a 50 por cento, e o sal light deve ser proibido, pois é cloreto de potássio.
O alvo do fósforo sérico é a faixa normal do laboratório (KDIGO 2024), com a dieta limitada a cerca de 800 a 1000 mg/dia quando há hiperfosfatemia. A estratégia dietética moderna prioriza a origem do fósforo: aditivos inorgânicos de refrigerantes e embutidos têm absorção próxima de 90 a 100 por cento, contra 40 a 60 por cento do fósforo de carnes e apenas 20 a 40 por cento do de leguminosas e grãos integrais, cuja fitase reduz a absorção. Por isso a diretriz prefere orientar razão fósforo/proteína baixa (idealmente abaixo de 12 a 13 mg por grama de proteína) e varrer rótulos em busca de polifosfatos, antes de cortar proteína do paciente.
Os quelantes orais são a base farmacológica do controle, e a regra de ouro de administração é a pegadinha clássica: todos devem ser ingeridos junto às refeições, para complexar o fósforo da dieta no intestino. Tomar fora da refeição anula o efeito e aumenta os efeitos adversos.
| Fármaco | Dose inicial por via oral | Vantagem | Cuidado principal |
|---|---|---|---|
| Carbonato de cálcio | 500 mg junto às refeições principais, titulando | barato e repõe cálcio | risco de sobrecarga e calcificação vascular; evitar se cálcio total elevado |
| Acetato de cálcio | 667 mg junto às refeições | menor carga de cálcio elementar por potência | mesma vigilância do balanço de cálcio |
| Sevelamer (carbonato) | 800 mg três vezes ao dia com as refeições | isento de cálcio; efeito adicional sobre LDL | dispepsia, comprimidos grandes, custo elevado |
| Carbonato de lantânio | 750 a 1000 mg com as refeições | potente e sem cálcio | mastigar; acumulação hepática descrita; custo |
| Sucroférrico oxi-hidróxido | 500 mg (1 comprimido) três vezes ao dia com as refeições | poucos comprimidos e boa palatabilidade | diarreia; corriqueiramente a adesão é melhor que a do sevelamer |
| Citrato férrico | 2 comprimidos (1 g) três vezes ao dia | reposta ferro junto com a quelância | risco de sobrecarga férrica; separar da levotiroxina |
Manter o bicarbonato sérico em pelo menos 22 mEq/L é recomendação da KDIGO 2024 com efeito duplo: estabiliza a progressão da DRC e freia o catabolismo muscular. A reposição oral costuma ser feita com bicarbonato de sódio na ordem de 0,5 a 1 mEq/kg/dia, por exemplo 600 mg por via oral duas a três vezes ao dia, titulada ao alvo, atento à carga de sódio. Vitaminas hidrossolúveis devem ser repostas em hemodiálise (ácido fólico 1 mg/dia, complexo B e vitamina C na faixa de 60 a 100 mg/dia, nunca acima de 200 mg/dia, por risco de oxalose); vitamina A deve ser evitada em excesso por acumulação. A deficiência de vitamina D é tratada como na população geral na DRC precoce, com colecalciferol, enquanto a deficiência de zinco deve ser considerada em pacientes com disgeusia e anorexia persistente. Anabolizantes (nandrolona) e hormônio do crescimento não têm lugar na prática rotineira por falta de segurança.
O degrau terapêutico segue hierarquia. Primeiro, fortificação da dieta e aconselhamento por nutricionista. Segundo, suplementos nutricionais orais específicos para doença renal, concentrados (cerca de 2 kcal/mL), hiperproteicos e com eletrólitos controlados, por exemplo 237 mL fornecendo aproximadamente 425 kcal e 16 a 20 g de proteína, prescritos entre as refeições (1 a 2 frascos por dia) e não no lugar delas. Terceiro, via enteral por sonda quando a ingestão oral permanece inferior a cerca de 60 por cento das necessidades, usando fórmulas renais concentradas. Quarto, a nutrição parenteral intradiálise (IDPN), infundida durante as sessões de hemodiálise por via venosa do circuito, reservada a pacientes que mantêm ingestão oral e enteral insuficiente (em geral abaixo de 25 kcal/kg/dia) e que não respondem aos degraus anteriores; evita cateter central dedicado, mas só é lógica se houver alguma ingestão residual.
O PEW não tratado duplica ou triplica o risco de morte em diálise, por infecção e por evento cardiovascular, e cada internação aprofunda o desgaste em espiral (desgaste, infecção, hospitalização, mais desgaste). O excesso de restrição também cobra seu preço: dietas multimrestrictivas produzem PEW iatrogênico, a pior complicação evitável dessa área. Do lado do fósforo, o descontrole sustentado conduz a hiperparatireoidismo, osteodistrofia e calcificação vascular. A monitorização mínima recomendada inclui peso e ganho interdialítico a cada sessão, albumina mensalmente no painel de diálise, nPCR mensal, registro alimentar periódico, SGA a cada seis meses em estáveis e mensal em pacientes de risco, com fósforo, potássio e bicarbonato no painel mensal.
O prognóstico melhora de forma mensurável quando a terapia nutricional é conduzida por equipe com nutricionista, quando a diálise é adequada (Kt/V alvo) e quando acidose e inflamação são tratadas ativamente. A curva de peso do paciente dialítico é um sinal vital: perda involuntária maior que 5 por cento em três meses deve disparar avaliação nutricional completa na mesma semana, não no retorno de rotina.
1.Paciente em hemodiálise estável, 68 kg, sem perdas ativas. A meta de ingestão proteica diária recomendada pela KDOQI 2020 é:
2.Para fechar o diagnóstico de desgaste proteico-energético (PEW) pela ISRNM, o paciente deve apresentar:
3.Sobre a meta de sódio na DRC, a KDIGO 2024 recomenda ingestão:
4.Paciente em hemodiálise com potássio de 5,9 mEq/L usa enalapril, tem constipação e bicarbonato de 19 mEq/L. A primeira medida dietética e clínica é:
5.O carbonato de cálcio prescrito como quelante de fósforo deve ser administrado:
6.Sobre a energia prescrita ao paciente com DRC em hemodiálise, a faixa recomendada é:
7.A acidose metabólica crônica contribui para o desgaste muscular na DRC principalmente por:
8.Paciente com DRC estágio 4 não dialítica, 70 anos, perdeu 6% do peso em três meses e tem dinamometria reduzida. A conduta nutricional correta é:
9.Sobre o nPCR (taxa de catabolismo proteico normalizada) na hemodiálise, um valor de 0,7 g/kg/dia indica:
10.A chamada obesidade paradoxal observada em pacientes em hemodiálise significa que:
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