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Revisão completa dos macronutrientes: valor calórico, faixas de distribuição (AMDR), necessidades de energia e proteína do adulto e da criança, equações de taxa metabólica, fibras, lipídios essenciais e um roteiro passo a passo de prescrição nutricional com exemplos numéricos.
[1] Institute of Medicine. Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids (Macronutrients). Washington: National Academies Press; 2005 · DOI 10.17226/10490 | [2] WHO/FAO/UNU. Protein and amino acid requirements in human nutrition. Report of a Joint WHO/FAO/UNU Expert Consultation. WHO Technical Report Series 935. Geneva: World Health Organization; 2007 | [3] World Health Organization. Guideline: Sugars intake for adults and children. Geneva: WHO; 2015 | [4] Brasil. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014 | [5] Singer P, Reintam Blaser A, Berger MM, et al. ESPEN guideline: Clinical nutrition in the intensive care unit. Clin Nutr. 2019;38(1):48-79 · DOI 10.1016/j.clnu.2018.08.037 | [6] World Health Organization. WHO guideline on saturated fatty acid and trans-fatty acid intake for adults and children. Geneva: WHO; 2023 · DOI 10.17226/10490
Toda prescrição nutricional, da dieta oral à nutrição parenteral, começa respondendo três perguntas: quantas calorias este paciente precisa, de onde virão essas calorias e quanto de cada macronutriente é o mínimo fisiológico e o máximo tolerável. Essas respostas vêm de documentos padronizados que as bancas adoram: as Dietary Reference Intakes (DRI) do Institute of Medicine, com as faixas de distribuição aceitável de macronutrientes (AMDR) e as ingestões adequadas de fibras, as recomendações de proteína da OMS e da ESPEN para o paciente doente, e as metas da OMS para açúcares livres e gorduras. O aluno precisa sair desta revisão calculando gasto energético, convertendo porcentagens em gramas e reconhecendo as consequências do excesso e da deficiência de cada macronutriente.
Macronutrientes são os nutrientes exigidos em grandes quantidades (gramas por dia) que fornecem energia e material estrutural: carboidratos, proteínas, lipídios e, do ponto de vista estritamente energético, o álcool; água e fibras completam o arcabouço da dieta. Diferem dos micronutrientes (vitaminas e minerais, medidos em miligramas ou microgramas) pelo volume necessário e por serem fonte calórica. Cada família tem subclassificações com consequência clínica direta: carboidratos simples versus complexos e índice glicêmico; proteínas de alta ou baixa qualidade conforme o perfil de aminoácidos essenciais; lipídios saturados, monoinsaturados, poliinsaturados e trans, conforme a saturação da cadeia e a geometria da dupla ligação.
| Macronutriente | Valor calórico | Funções principais | AMDR no adulto |
|---|---|---|---|
| Carboidrato | 4 kcal/g | Energia preferencial, especialmente para cérebro e hemácias; reserva como glicogênio | 45 a 65% do VET |
| Proteína | 4 kcal/g | Estrutural (muscular, colágeno), enzimática, imunológica (anticorpos), transporte (albumina, hemoglobina) | 10 a 35% do VET |
| Lipídio | 9 kcal/g | Energética concentrada, estrutural (membranas), precursor de hormônios esteroides, veículo das vitaminas A, D, E e K | 20 a 35% do VET |
| Álcool | 7 kcal/g | Nenhuma função essencial; metabolismo hepático prioritário | Sem faixa recomendada |
| Fibra | Cerca de 2 kcal/g por fermentação colônica | Trânsito intestinal, saciedade, microbiota, controle glicêmico e do colesterol | Sem faixa; possui ingestão adequada própria |
O gasto energético total é a soma da taxa de metabolismo basal (60 a 70% do total), do efeito térmico dos alimentos (cerca de 10%) e da atividade física, altamente variável. O padrão-ouro para determinar o gasto é a calorimetria indireta, pouco disponível; na prática usam-se equações preditivas. A equação de Mifflin-St Jeor (1990) é a mais validada para o adulto: para homens, 10 vezes o peso em kg mais 6,25 vezes a altura em cm menos 5 vezes a idade em anos mais 5; para mulheres, o mesmo cálculo menos 161. As equações de Harris-Benedict (1919, revisada em 1984) e as da OMS e de Schofield permanecem em protocolos brasileiros e em provas. Multiplica-se a taxa basal por fator de atividade: 1,2 para sedentário e acamado, 1,375 a 1,55 para atividade leve a moderada e 1,725 ou mais para atividade intensa. Fatores de agressão (cirurgia 1,2; infecção 1,2 a 1,5; queimaduras até 1,5 a 2,0) são históricos e superestimam com frequência, tendo caído em desuso na fase aguda.
Regras rápidas de beira de leito: adulto hospitalizado estável, 25 a 30 kcal/kg/dia; paciente crítico na primeira semana de internação, 20 a 25 kcal/kg/dia com progressão para 25 a 30 kcal/kg/dia após estabilização, evitando hiperalimentação que aumenta infecção e dificulta o desmame ventilatório. Em pediatria: lactentes no primeiro semestre cerca de 100 a 120 kcal/kg/dia, caindo para 80 a 100 kcal/kg no segundo semestre, 80 a 90 kcal/kg no pré-escolar, 55 a 75 kcal/kg no escolar e 40 a 55 kcal/kg no adolescente; o leite materno, com cerca de 0,67 kcal/mL, supre o lactente em aleitamento exclusivo. Recém-nascidos prematuros podem exigir 110 a 150 kcal/kg/dia para crescimento compensatório.
O cérebro consome cerca de 120 a 130 g de glicose por dia, o que fundamenta a RDA (necessidade média) de 130 g de carboidrato diário para o adulto, independentemente de o AMDR percentual. O carboidrato deve fornecer 45 a 65% do valor energético total; numa dieta de 2.000 kcal isso significa 225 a 325 g. A qualidade importa tanto quanto a quantidade: a OMS recomenda que açúcares livres fiquem abaixo de 10% do valor energético total (cerca de 50 g em 2.000 kcal), com recomendação condicional de reduzir para menos de 5% para benefício adicional em peso e cárie. O índice glicêmico mede a área de resposta glicêmica de um alimento versus padrão de glicose; a carga glicêmica multiplica o índice pela quantidade ingerida e correlaciona-se melhor com risco cardiometabólico. Na terapia nutricional, limitar a taxa de infusão de glicose a no máximo cerca de 5 mg/kg/min no adulto (equivalente a cerca de 4 a 5 g/kg/dia) evita hiperglicemia, esteatose e excesso de CO2; soro glicosado a 5% fornece 50 g de glicose e 200 kcal por litro.
Fibras, tecnicamente carboidratos não digeríveis, têm ingestão adequada de 14 g por 1.000 kcal: 38 g/dia para homens e 25 g/dia para mulheres entre 19 e 50 anos (30 e 21 g acima dos 50). Fibra solúvel e viscosa (aveia, leguminosas, pectina) fermenta no cólon, reduz o LDL-colesterol e suaviza picos glicêmicos; a insolúvel (farelo de trigo, cascas) acelera o trânsito. Em crianças acima de 2 anos, a regra prática americana é idade em anos mais 5 g de fibra por dia. O brasileiro consome em média bem menos que a meta, e a suplementação deve ser gradual para evitar distensão e gases.
A RDA de proteína do adulto sadio é 0,8 g por kg por dia (referência OMS de 0,83 g/kg para proteína de alta qualidade), valor que cobre 97,5% das pessoas saudáveis. São nove os aminoácidos essenciais: histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina; glutamina, arginina, cisteína e tirosina tornam-se condicionalmente essenciais no estresse metabólico. A qualidade proteica avalia o perfil de aminoácidos e a digestibilidade: o escore PDCAAS, base da rotulagem por décadas, vem sendo substituído pelo DIAAS desde a revisão da FAO de 2013. Do ponto de vista do catabolismo, 1 g de nitrogênio corresponde a 6,25 g de proteína; o balanço nitrogenado compara a ingesta com a excreção urinária de ureia somada a perdas extra-renais de 2 a 4 g/dia.
No paciente doente, a necessidade sobe: a ESPEN recomenda cerca de 1,3 g/kg/dia no crítico (faixa aceitável de 1,2 a 2,0 g/kg/dia), e 1,2 a 1,5 g/kg/dia no idoso com sarcopenia ou risco; queimados e politraumatizados podem exigir 2,0 a 2,5 g/kg/dia. A leucina (2,5 a 3 g por refeição, presentes em 25 a 30 g de proteína de qualidade) é o gatilho da síntese proteica muscular, especialmente relevante no idoso. Na doença renal crônica não dialítica, restringe-se para 0,6 a 0,8 g/kg/dia; em hemodiálise, a perda pelo dialisado eleva a meta para cerca de 1,0 a 1,2 g/kg/dia. Na pediatria: ingestão adequada de cerca de 1,5 g/kg/dia no primeiro semestre, 1,0 a 1,2 g/kg no pré-escolar e 0,85 a 0,95 g/kg no adolescente.
| Situação clínica | Meta proteica |
|---|---|
| Adulto saudável (RDA) | 0,8 g/kg/dia |
| Idoso com sarcopenia ou risco nutricional | 1,2 a 1,5 g/kg/dia |
| Paciente crítico (ESPEN) | Cerca de 1,3 g/kg/dia (aceitável 1,2 a 2,0 g/kg/dia) |
| Queimados e politraumatizados graves | 2,0 a 2,5 g/kg/dia |
| Doença renal crônica não dialítica | 0,6 a 0,8 g/kg/dia |
| Hemodiálise | 1,0 a 1,2 g/kg/dia |
Deficiência proteico-calórica: no marasmo há privação proporcional de calorias e proteínas, com emaciação global, ausência de edema e presença relativa da função hepática; no kwashiorkor predomina a deficiência proteica com dieta relativamente calórica, gerando edema hipoproteinêmico, hepatomegalia esteatósica, dermatose descamativa em tinta fresca, despigmentação em listras do cabelo e abdome globoso. No hospital, a desnutrição proteica dificulta cicatrização, imunidade e ventilação, e a albúmina sérica não é marcador de ingesta atual, e sim de inflamação: pegadinha clássica de prova.
Os lipídios devem fornecer 20 a 35% do valor energético total do adulto, com mínimo prático de cerca de 20 a 30 g/dia para evitar deficiência de ácidos graxos essenciais. São dois os ácidos graxos essenciais, não sintetizáveis pelo humano: o linoleico (série ômega-6) e o alfalinolênico (série ômega-3), com ingestões adequadas de 17 g/dia e 1,6 g/dia para homens de 19 a 50 anos e 12 g/dia e 1,1 g/dia para mulheres. A conversão do alfalinolênico em EPA e DHA é inferior a 5 a 10%, por isso a meta de 250 a 500 mg/dia de EPA mais DHA é atingida com peixe gorduroso duas vezes por semana. A diretriz da OMS de 2023 recomenda que gorduras saturadas fiquem abaixo de 10% do valor energético total, substituídas por insaturadas de origem vegetal e marinha, e que as trans industriais fiquem abaixo de 1%. Triglicerídeos de cadeia média, com cerca de 8,4 kcal/g e absorção sem micelas nem linfáticos, são úteis na má absorção. No lactente, os lipídios fornecem cerca de metade das calorias do leite materno; após os 2 anos, adota-se a faixa de 25 a 35%, com limite inferior mais alto (30 a 40% no AMDR oficial de 1 a 3 anos).
| Tipo de gordura | Fontes principais | Meta e recomendação |
|---|---|---|
| Saturadas | Carnes gordas, laticínios integrais, óleos de coco e palma | Menos de 10% do VET (OMS), substituindo por insaturadas |
| Monoinsaturadas | Azeite, abacate, oleaginosas | Base do padrão mediterrâneo; substituir saturadas |
| Poliinsaturadas ômega-6 | Óleos de soja, milho e girassol | Ingestão adequada de 12 a 17 g/dia conforme sexo e idade |
| Poliinsaturadas ômega-3 (EPA e DHA) | Peixes marinhos gordurosos (sardinha, salmão, atum) | 250 a 500 mg/dia de EPA mais DHA |
| Trans industriais | Margarinas parcialmente hidrogenadas, ultraprocessados, frituras comerciais | Menos de 1% do VET, idealmente zero |
A deficiência de ácidos graxos essenciais, rara exceto em nutrição parenteral prolongada sem lipídios e em desnutrição grave, cursa com dermatite descamativa, alopecia, má cicatrização, maior suscetibilidade a infecções, trombocitopenia e retardo de crescimento em crianças; níveis séricos da razão trieno:tetraeno acima de 0,4 confirmam o diagnóstico. O excesso, por sua vez, é o principal motor da obesidade e das dislipidemias pela densidade calórica e pelo perfil de ácidos graxos da dieta ocidental.
A ingestão adequada de água total é de 3,7 L/dia para homens e 2,7 L/dia para mulheres adultas, incluindo água de bebida e de alimentos; a regra clássica de 1 mL por kcal gasto traduz a mesma ordem de grandeza. No hospital, 30 a 35 mL/kg/dia cobrem a maioria dos adultos, com ajustes por perdas digestivas, febre (aumento de cerca de 10% por grau), diurese osmótica e função renal. Idosos têm redução da sensação de sede e maior risco de desidratação e hipernatremia, e a suplementação hídrica estruturada reduz deliro e quedas em instituições de longa permanência. O balanço hídrico integra a prescrição nutricional: nenhuma dieta está completa sem volume definido.
Cerca de um em cada quatro adultos brasileiros vive com obesidade, segundo as pesquisas nacionais de saúde, e o padrão alimentar brasileiro deslocou-se para ultraprocessados ricos em açúcar livre, gordura saturada e sódio, e pobres em fibras. O excesso de açúcares livres associa-se a ganho ponderal, diabetes tipo 2, dislipidemia e cárie; o excesso de gorduras saturadas e trans eleva LDL-colesterol e risco cardiovascular; a baixa ingestão de fibras associa-se a constipação, câncer colorretal e pior controle glicêmico; o excesso de frutose em bebidas adoçadas liga-se à esteatose hepática não alcoólica. Na outra ponta, a desnutrição hospitalar afeta parcela relevante dos internados e aumenta mortalidade, infecção e tempo de internação. A resposta de saúde pública combina o Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda alimentos in natura e minimamente processados como base da alimentação, e a rotulagem nutricional frontal com advertências de alto teor de açúcar, sódio ou gordura (regulamento brasileiro de 2020).
1.Dieta de 2.000 kcal com 30% do valor energético em lipídios corresponde a quantos gramas de gordura?
2.Qual é o AMDR (faixa de distribuição aceitável) de proteínas no adulto?
3.Homem saudável de 80 kg. Qual a RDA de proteína?
4.Segundo a OMS, a ingestão de açúcares livres deve ficar:
5.A ingestão adequada de fibras para homens de 19 a 50 anos é:
6.Qual dos seguintes NÃO é aminoácido essencial?
7.São considerados ácidos graxos essenciais:
8.Mulher de 60 kg, 165 cm, 30 anos. Qual a TMB pela equação de Mifflin-St Jeor?
9.Lactente sadio no primeiro semestre de vida necessita aproximadamente de:
10.Um litro de soro glicosado a 5% fornece aproximadamente:
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