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Revisão completa sobre desnutrição hospitalar: prevalência IBRANUTRI, critérios GLIM, ferramentas de triagem (NRS-2002, MUST, ASG), fisiopatologia do catabolismo inflamatório, terapia nutricional em degraus com metas calóricas e proteicas, e prevenção da síndrome de realimentação.
[1] Waitzberg DL, Caiaffa WT, Correia MITD. Hospital malnutrition: the Brazilian national survey (IBRANUTRI): a study of 4000 patients. Nutrition. 2001;17(7-8):573-580 · DOI 10.1016/S0899-9007(01)00573-1 | [2] Correia MITD, Waitzberg DL. The impact of malnutrition on morbidity, mortality, length of hospital stay and costs evaluated through a multivariate model analysis. Clinical Nutrition. 2003;22(3):235-239 · DOI 10.1016/S0261-5614(02)00215-7 | [3] Cederholm T, Jensen GL, Correia MITD, et al. GLIM criteria for the diagnosis of malnutrition: a consensus report from the global clinical nutrition community. Clinical Nutrition. 2019;38(1):1-9 · DOI 10.1016/j.clnu.2018.08.002 | [4] Kondrup J, Rasmussen HH, Hamberg O, Stanga Z. Nutritional risk screening (NRS 2002): a new method based on an analysis of controlled clinical trials. Clinical Nutrition. 2003;22(3):321-336 · DOI 10.1016/S0261-5614(02)00215-5 | [5] McClave SA, Taylor BE, Martindale RG, et al. Guidelines for the Provision and Assessment of Nutrition Support Therapy in the Adult Critically Ill Patient: ASPEN/SCCM. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2016;40(2):159-211 · DOI 10.1177/0148607115621863 | [6] Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 63, de 6 de julho de 2000: Regulamento Técnico sobre Terapia de Nutrição Enteral · https://www.gov.br/anvisa · DOI 10.1016/j.clnu.2018.08.002
A desnutrição hospitalar é a doença dentro da doença: o inquérito nacional IBRANUTRI, que avaliou 4.000 pacientes em hospitais brasileiros, diagnosticou desnutrição em 48,1% dos internados, sendo 12,5% em grau grave, e mostrou que a maioria não era reconhecida pela equipe assistente nem recebia terapia nutricional. Pacientes desnutridos têm mais infecções, mais complicações, internações mais longas e mortalidade significativamente maior em análises multivariadas que controlam gravidade da doença de base. Para a prova, o aluno precisa dominar quatro eixos: rastrear todo paciente nas primeiras 24-48 horas (NRS-2002 e MUST), diagnosticar formalmente pelos critérios GLIM (1 critério fenotípico + 1 etiológico), tratar em degraus preferindo sempre a via enteral e prevenir a síndrome de realimentação, complicação iatrogênica potencialmente fatal do tratamento mal conduzido.
Desnutrição é um estado de nutrição no qual a deficiência ou o excesso (desequilíbrio) de energia, proteínas e outros nutrientes causa efeitos adversos mensuráveis nos tecidos, na forma e na função corporal e no desfecho clínico. O marco conceitual moderno, consolidado pela Iniciativa Global de Liderança contra a Desnutrição (GLIM), separa a desnutrição relacionada à inanição (pouca oferta), à doença crônica (inflamação leve a moderada, como câncer, DPOC, insuficiência cardíaca e doença renal crônica) e à doença aguda/inflamação intensa (sepse, trauma, queimaduras). Essa estratificação é importante porque o componente inflamatório bloqueia a resposta anabólica: desnutrir apenas por falta de comida responde bem à oferta de nutrientes, enquanto a desnutrição inflamatória exige controle da doença de base, senão o catabolismo persiste.
| Característica | Marasmo | Kwashiorkor |
|---|---|---|
| Déficit predominante | Calórico global (proteína e energia) | Proteico relativo com oferta calórica razoável |
| Edema | Ausente | Presente, tipicamente periférico e dependente, com fóvea |
| Achado hepático | Sem esteatose relevante | Esteatose hepática por síntese de lipoproteínas prejudicada |
| Proteínas viscerais | Relativamente preservadas no início | Caídas precocemente (albumina baixa) |
| Imunidade e cicatrização | Comprometidas na fase avançada | Comprometidas precocemente, com infecções e má cicatrização |
Desde 2019, o diagnóstico de desnutrição no adulto segue o consenso GLIM e exige a combinação de pelo menos 1 critério fenotípico (o que se vê no corpo) com 1 critério etiológico (a causa). A triagem (NRS-2002, MUST) seleciona quem precisa de avaliação; a GLIM confirma o diagnóstico e estadia a gravidade. Só o fenótipo sem etiologia (por exemplo, IMC baixo sem causa identificável) não fecha o diagnóstico, assim como só a etiologia sem fenótipo é apenas risco.
| Domínio | Critério | Ponto de corte |
|---|---|---|
| Fenotípico | Perda de peso não voluntária | > 5% nos últimos 6 meses ou > 10% além de 6 meses |
| Fenotípico | IMC baixo | < 20 kg/m² se idade < 70 anos; < 22 kg/m² se ≥ 70 anos |
| Fenotípico | Massa muscular reduzida | Por avaliação corporal validada (dobras, circunferência da panturrilha, bioimpedância, DEXA ou ultrassom) |
| Etiológico | Ingestão ou assimilação reduzida | Ingestão ≤ 50% das necessidades por ≥ 1 semana, ou qualquer restrição por ≥ 2 semanas, ou má absorção |
| Etiológico | Carga de doença/inflamação | Doença aguda grave ou lesão, ou doença crônica com inflamação (diagnóstico clínico, apoiado por PCR) |
| Gravidade | Perda de peso em 6 meses | IMC < 70 anos | IMC ≥ 70 anos |
|---|---|---|---|
| Moderada (estágio 1) | 5 a 10% | < 20 kg/m² | < 22 kg/m² |
| Grave (estágio 2) | > 10% | < 18,5 kg/m² | < 20 kg/m² |
O IBRANUTRI, maior inquérito latino-americano de avaliação nutricional hospitalar, avaliou 4.000 pacientes admitidos em serviços públicos e privados do Brasil: 48,1% tinham desnutrição pela Avaliação Subjetiva Global (ASG), 12,5% grave, e a frequência subia com o tempo de internação, ou seja, parte da desnutrição é produzida dentro do hospital. A análise multivariada de Correia e Waitzberg, com a mesma coorte, mostrou que a desnutrição associa-se de forma independente a maior mortalidade, maior taxa de infecção, internamento mais longo e custos mais altos. Em séries internacionais, a prevalência varia de 20 a 50% dos pacientes clínicos e cirúrgicos, podendo passar de 60% em idosos e de 70% em unidades de terapia intensiva prolongadas. Dois detalhes caem em prova: a desnutrição é mais prevalente em pacientes cirúrgicos e oncológicos, e o paciente obeso também pode estar desnutrido (obesidade sarcopênica), por isso a triagem vale para todos, independentemente do peso.
O jejum simples adapta-se com queda do gasto energético e uso de corpos cetônicos pelo cérebro. O que diferencia o paciente hospitalar é o hipercatabolismo induzido pelo estresse: trauma, sepse e cirurgia grande ativam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal com liberação de cortisol, catecolaminas e glucagon, ao mesmo tempo em que monócitos e macrófagos liberam TNF-α, IL-1 e IL-6. Essas citocinas induzem a resposta de fase aguda (síntese hepática de proteínas de inflamação em vez de albumina e pré-albumina), anorexia e proteólise muscular pelo sistema ubiquitina-proteassoma, amplificada pela miostatina e pela resistência anabólica à insulina e aos aminoácidos.
Todo paciente admitido deve passar por triagem nutricional em até 24-48 horas, repetida semanalmente durante a internação. A triagem é um filtro rápido realizado por qualquer profissional treinado; se positivo, segue a avaliação nutricional completa, conduzida por nutricionista, que confirma o diagnóstico (GLIM ou ASG) e individualiza o plano. Entre as ferramentas validadas, caem em prova o NRS-2002 (recomendado pela ESPEN para hospitais) e o MUST (origem britânica, muito usado em adultos clínicos e cirúrgicos).
| Ferramenta | O que pontua | Corte de risco | População e uso |
|---|---|---|---|
| NRS-2002 | Desnutrição (0-3) + gravidade da doença (0-3) + idade ≥ 70 anos (+1) | Escore total ≥ 3 = risco nutricional | Adultos hospitalizados; baseia-se em 128 ensaios clínicos controlados |
| MUST | IMC + perda de peso não planejada em 3-6 meses + efeito de doença aguda (jejum previsto > 5 dias) | 0 = baixo; 1 = moderado; ≥ 2 = alto risco | Adultos em geral, inclui ambulatórios |
| MNA-SF | Versão curta com 6 itens (inclui declínio de ingestão, mobilidade e demência) | < 12 = risco; < 8 = desnutrição | Idosos (usar a versão específica, não o MUST puro) |
| ASG/SGA | História (perda de peso, ingestão, sintomas gastrointestinais, capacidade funcional) + exame físico (edema, ascite, lipodistrofia) | A = bem nutrido; B = moderadamente desnutrido; C = gravemente desnutrido | Avaliação (não triagem); foi o instrumento do IBRANUTRI |
Sobre exames laboratoriais, a pegadinha clássica: albumina e pré-albumina são proteínas de fase negativa e caem em qualquer processo inflamatório, independentemente do estado nutricional; por isso nenhum consenso atual permite diagnosticar desnutrição apenas por albumina baixa. A albumina (meia-vida de aproximadamente 20 dias) serve mais como marcador de gravidade e prognóstico, e a pré-albumina (meia-vida de 2-3 dias) pode acompanhar a resposta em curto prazo quando a PCR está controlada. A contagem total de linfócitos é considerada obsoleta como marcador isolado. Antropometria clínica (peso, percentual de perda de peso, IMC, circunferências de braço e panturrilha) resiste como instrumento barato e reprodutível; nos pacientes com edema e ascite, o peso perde valor e a circunferência da panturrilha (< 31 cm sugere massa muscular reduzida no idoso) ajuda.
A terapia nutricional segue uma hierarquia inviolável: a via oral é a primeira escolha sempre que o trato digestório funciona; a via enteral é a segunda, e a parenteral fica reservada para falência intestinal, obstrução não operável, intestino em repouso obrigatório ou falha da via enteral em atingir as metas em tempo adequado. O princípio fisiológico é o tropismo da mucosa: nutrientes na luz intestinal mantêm a arquitetura das vilosidades, a flora e a imunidade de barreira.
| Aspecto | Nutrição enteral | Nutrição parenteral |
|---|---|---|
| Indicação principal | Trato digestório funcionante com via oral inviável | Falência ou indisponibilidade do trato digestório |
| Vantagens | Mantém trofismo da mucosa, imunidade de barreira, menor custo, mais fisiológica | Permite nutrir quando o intestino falha; controle preciso de volumes |
| Complicações típicas | Broncoaspiração, diarreia osmótica, obstrução e deslocamento de sonda, hipercalemia da fórmula | Infecção de corrente sanguínea de cateter, hiperglicemia, esteatose hepática, pneumotórax na punção |
| Início | Precoce (24-48 h no paciente grave estável) | Quando enteral contraindicada ou insuficiente |
| Cuidado de enfermagem | Cabeceira 30-45 graus, checagem de resíduo gástrico e posição da sonda | Asepsia rigorosa na manipulação de cateter e equipo |
Metas quantitativas para prova: no paciente clínico estável, 25-30 kcal/kg/dia; no paciente grave na primeira semana, inicia-se com 20-25 kcal/kg/dia (estratégia permissiva hipocalórica-proteica, evitando sobrecarga) e progrede-se conforme tolerância; proteína 1,2-2,0 g/kg/dia no paciente grave (ASPEN/SCCM 2016) e 1,0-1,5 g/kg/dia no clínico, sendo 1,2-1,5 g/kg/dia a recomendação para idosos; no obeso (IMC ≥ 30), as diretrizes sugerem calcular por peso ajustado ou 11-14 kcal/kg do peso atual, com proteína ≥ 2,0 g/kg de peso ideal em obesidade grave. Água: 25-30 mL/kg/dia, ajustada a balanço, febre e função renal. Monitorar peso semanalmente, glicemia capilar (alvo geral 140-180 mg/dL no grave), eletrólitos e equilíbrio entre metas atingidas e tolerância.
A síndrome de realimentação é o conjunto de distúrbios metabólicos que ocorre quando pacientes severamente desnutridos ou em jejum prolongado recebem carga calórica agressiva: a insulina liberada estimula captação intracelular de fósforo, potássio e magnésio, com queda sérica rápida desses eletrólitos, retenção de sódio e água (edema) e consumo das reservas de tiamina, gerando risco de arritmias, insuficiência cardíaca aguda, encefalopatia de Wernicke e morte. O marco laboratório é a hipofosfatemia (queda > 0,35 mmol/L ou valor < 0,65 mmol/L) nas primeiras 24-72 horas após o início da alimentação.
Sem correção, a desnutrição hospitalar eleva mortalidade (chega a dobrar ou triplicar o risco em séries ajustadas), aumenta infecções hospitalares, deiscências, escaras, tempo de ventilação mecânica, internação e custos, e piora a resposta a quimioterapia e à reabilitação. Prognóstico melhora quando a intervenção é precoce: o benefício dos suplementos orais e da terapia enteral oportuna é maior exatamente nos pacientes com desnutrição moderada, enquanto no estado caquético avançado a oferta nutricional isolada não reverte a inflamação. Seguimento padrão: reavaliar semanalmente peso, ingestão atingida (meta mínima de 60-75% das necessidades) e desfechos; se a rota escolhida não atinge 60% das metas em 7 dias, escalar o degrau terapêutico; ao receber alta, prescrever a continuidade dos suplementos e seguimento ambulatorial, pois o risco não termina com a internação.
1.O inquérito IBRANUTRI, que avaliou 4.000 pacientes internados em hospitais brasileiros, encontrou desnutrição em aproximadamente qual proporção dos pacientes?
2.Segundo os critérios GLIM (2019), o diagnóstico de desnutrição no adulto exige a combinação de:
3.Sobre o NRS-2002, assinale a alternativa correta:
4.Paciente clínico com PCR de 120 mg/L e albumina de 2,3 g/dL, sem perda de peso e com IMC 27 kg/m². A interpretação correta da albumina é:
5.Paciente com IMC 15,5 kg/m² e jejum prolongado inicia dieta oral abundante e, 48 horas depois, evolui com confusão mental, fraqueza muscular e arritmia. O achado laboratorial esperado e a medida profilática que faltou são:
6.Qual é a sequência correta de preferência das vias de terapia nutricional no paciente hospitalizado?
7.Segundo a diretriz ASPEN/SCCM 2016, a meta proteica para o paciente adulto criticamente doento é:
8.A presença de edema com fóvea, fígado gorduroso e queda precoce de proteínas viscerais em criança com dieta hipocalórica mas relativamente pobre em proteínas caracteriza:
9.Para reduzir o risco de broncoaspiração em paciente em nutrição enteral por sonda, a medida de enfermagem padronizada é:
10.Paciente de 78 anos com perda de 6% do peso em 3 meses e ingestão de metade das necessidades há 3 semanas. Pela GLIM, o IMC que, isoladamente, já sustenta o critério fenotípico de IMC baixo nessa faixa etária é:
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