carregando…
carregando…
Revisão completa das epilepsias para provas: definição prática ILAE 2014, classificação ILAE 2017 de crises e síndromes, fisiopatologia, diagnóstico diferencial com síncope e pseudocrise, escolha do anticonvulsivante por tipo de crise com doses e níveis, epilepsia refratória, canabidiol, cirurgia e protocolo do estado de mal epiléptico.
[1] Scheffer IE et al. ILAE classification of the epilepsies: position paper of the ILAE Commission for Classification and Terminology. Epilepsia. 2017;58(4):512-521 · DOI 10.1111/epi.13709 | [2] Scheffer IE et al. ILAE 2017 Classification of Seizure Types. Epilepsia. 2017;58(3):522-530 · DOI 10.1111/epi.13671 | [3] Fisher RS et al. ILAE Official Report: A practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-482 · DOI 10.1111/epi.12253 | [4] Kwan P et al. Definition of drug resistant epilepsy: consensus proposal by the ad hoc Task Force of the ILAE Commission on Therapeutic Strategies. Epilepsia. 2010;51(6):1069-1077 · DOI 10.1111/j.1528-1167.2009.02397.x | [5] Marson AG et al. The SANAD study of effectiveness of valproate, lamotrigine, or topiramate for generalised and unclassifiable epilepsy. Lancet. 2007;369(9566):1016-1026 · DOI 10.1016/S0140-6736(07)60461-9 | [6] Devinsky O et al. Cannabidiol in Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011-2020 · DOI 10.1056/NEJMoa1611618 | [7] Kapur J et al. Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019;381(22):2103-2113 · DOI 10.1056/NEJMoa1901579 · DOI 10.1111/epi.13709
A epilepsia é a doença neurológica crônica mais comum depois da cefaleia, afetando cerca de 50 milhões de pessoas no mundo, com prevalência de 0,5 a 1% em qualquer faixa etária. No Brasil, estima-se em torno de 2 milhões de portadores, com importante componente de desigualdade: causas tratáveis ou preveníveis, como neurocisticercose, traumatismo craniano e complicações perinatais, respondem por grande parte dos casos nas regiões de menor renda. A cada ano, 30 a 50% dos pacientes correm risco de lesão relacionada a crises e 5 a 10% correm risco de estado de mal epiléptico ao longo da vida. O eixo da disciplina é classificar corretamente a crise, porque toda a decisão terapêutica, da escolha do fármaco à indicação de cirurgia, deriva da classificação ILAE 2017.
Crise epiléptica é a ocorrência transitória de sinais e sintomas decorrentes de atividade neuronal cerebral excessiva ou síncrona; epilepsia é a tendência duradoura de gerar crises. O relatório prático da ILAE de 2014 substituiu a regra rígida das duas crises por três critérios operacionais, qualquer um deles suficiente para o diagnóstico. Entender essa mudança é ponto de prova recorrente, pois permite iniciar tratamento e afastar restrições após uma única crise em contexto selecionado. A definição também introduziu o conceito de epilepsidade resolvida, aplicável a crianças com síndromes superadas ou a pacientes livres de crises há 10 anos sem medicação há 5.
A classificação de 2017 organiza o raciocínio em três níveis: primeiro o tipo de crise, depois o tipo de epilepsia e finalmente a síndrome epiléptica, sempre acompanhada da etiologia e de eventuais comorbidades. No nível 1, toda crise é definida pelo início: focal, generalizado ou desconhecido. As crises focais são subclassificadas pela consciência (com consciência preservada ou com comprometimento) e por características motoras ou não motoras; a antiga crise secundariamente generalizada passou a chamar-se crise focal com evolução para tônico-clônica bilateral. As generalizadas dividem-se em motoras (tônico-clônicas, tônicas, clônicas, mioclônicas, atônicas, mioclônico-atônicas) e não motoras (ausências típicas e atípicas).
| Termo antigo (1981) | Termo ILAE 2017 | O que mudou na prática |
|---|---|---|
| Crise parcial simples | Crise focal com consciência preservada | O termo parcial foi abolido; a consciência é binária e descrita no próprio nome |
| Crise parcial complexa | Crise focal com comprometimento da consciência | Substitui complexa, que gerava ambiguidade |
| Crise secundariamente generalizada | Crise focal com evolução para tônico-clônica bilateral | Explicita que o início é focal |
| Grande mal | Crise tônico-clônica (generalizada) | Nomenclatura leiga abandonada |
| Pequeno mal | Crise de ausência | Ausência típica com complexo ponta-onda de 3 Hz no EEG |
| Parcial com semiologia parcial | Crise focal de início motor ou não motor (autonômico, cognitivo, emocional, sensorial) | Permite descrever a semiologia sem nome de diagnóstico |
No nível 2, a epilepsia é focal, generalizada, combinada focal e generalizada ou desconhecida. No nível 3, chega-se à síndrome eletroclínica, exemplos canônicos: epilepsia rolândica com picos centrotemporais na infância, síndrome de Dravet (inicio no primeiro ano com crises febris prolongadas hemicorporais alternantes, mutação SCN1A), síndrome de Lennox-Gastaut (crises tônicas, atônicas e ausências atípicas com complexo ponta-onda lenta de 1,5 a 2,5 Hz e atraso neuropsicomotor), epilepsia mioclônica juvenil (mioclonias matinais, tônico-clônicas ao despertar, fotossensibilidade, picos-ondas de 3,5 a 6 Hz) e epilepsia de ausência infantil.
A incidência é bimodal: alta no primeiro ano de vida (100 a 200 por 100 mil) e ainda maior acima dos 60 anos (mais de 150 por 100 mil ao ano), faixa em que acidentes vasculares, tumores e doenças neurodegenerativas dominam. Em países de alta renda, a incidência anual gira em torno de 50 por 100 mil; em países de baixa renda pode alcançar 100 a 190 por 100 mil, por infecções do sistema nervoso central, parasitoses e trauma. Cerca de 5 a 10% das pessoas terão uma crise ao longo da vida, mas apenas um terço delas desenvolverá epilepsia. Estudos brasileiros de base populacional encontram prevalência entre 1 e 2% em comunidades de baixa renda, com lacuna de tratamento que chega a 50% ou mais, isto é, metade dos portadores ativos não recebe medicação adequada.
A crise nasce do desequilíbrio entre excitação glutamatérgica (receptores NMDA e AMPA) e inibição GABAérgica. O evento celular elementar é o desvio de despolarização paroxístico: abertura prolongada de canais de sódio dependentes de voltagem com influxo de cálcio, seguida de hiperpolarização mediada por GABA e canais de potássio. Quando milhares de neurônios sincronizam esse evento, gera-se o registro de ponta e onda no EEG e a semiologia clínica conforme o córtex recrutado. Mutações de canais iônicos explicam síndromes inteiras: perda de função do SCN1A em interneurônios inibitórios gera a Dravet; canais T de cálcio talâmicos geram as ausências, bloqueados seletivamente pela etossuximida; mutações do KCNQ2 causam convulsões neonatais familiares. Com repetição de crises, acontece o kindling, remodelagem sináptica com perda neuronal e gliose que consolida o foco epiléptico.
| Anticonvulsivante | Mecanismo principal | Consequência clínica |
|---|---|---|
| Carbamazepina, fenitoína, lamotrigina, oxcarbazepina | Bloqueio de canais de sódio em estado inativo | Eficazes em crises focais; podem agravar ausências e mioclonias |
| Lacosamida | Potencializa a inativação lenta do canal de sódio | Coadjuvante focal; risco de distrúrbio de condução cardíaca |
| Etossuximida | Bloqueio de canais T de cálcio talâmicos | Fármaco de escolha em ausências, sem efeito em tônico-clônicas |
| Valproato | Múltiplos: canais de sódio, cálcio T e aumento de GABA | Espectro mais amplo; droga mais eficaz nas generalizadas |
| Levetiracetam e brivaracetam | Ligação à proteína sináptica SV2A | Espectro amplo, poucas interações, irritabilidade como efeito comportamental |
| Perampanel | Antagonista não competitivo de AMPA | Adjunto em focais e generalizadas; risco de agressividade |
| Benzodiazepínicos, fenobarbital | Potencialização alostérica do receptor GABA-A | Primeira linha em estado de mal; tolerância e sedação em uso crônico |
| Vigabatrina | Inibição irreversível da GABA transaminase | Síndrome de West; toxicidade retiniana com constrição concêntrica de campo visual |
| Topiramato e zonisamida | Múltiplos: sódio, cálcio, carbonidrase e AMPA | Espectro amplo; parestesias, emagrecimento, cálculo renal e glaucoma agudo |
| Felbamato, estiripentol | Múltiplos, usos restritos | Reservados a síndromes graves como Dravet; felbamato por anemia aplástica |
Crises focais com consciência preservada frequentemente iniciam por aura, que é a própria crise: sensação epigástrica ascendente, medo, déjà-vu, alucinações olfativas gustativas, formigamento somatotópico ou movimentos clônicos de um segmento. Crises focais com comprometimento da consciência cursam com pausa, olhar vazio e automatismos (mastigação, froteamento de mãos, deambulação) com amnésia do evento. Na crise tônico-clônica, a fase tônica (10 a 20 segundos de extensão e rigidez, às vezes com grito epiléptico por expiração forçada) evolui para clônica (1 a 2 minutos de clônus generalizado sincronizado), seguida de confusão pós-ictal de minutos a horas, cefaleia, mialgia, mordedura lateral de língua e incontinência. A ausência típica da criança é um bloqueio de contato de 5 a 15 segundos, sem queda nem confusção, desencadeada por hiperventilação. Mioclonias matinais em salvas sugerem epilepsia mioclônica juvenil; quedas súbitas com perda de tônus, síndrome de Lennox-Gastaut.
O EEG interictal de rotina registra descargas epileptiformes em apenas 30 a 55% dos adultos com epilepsia, subindo para 80 a 90% com exames seriados, privação de sono e ativação por hiperventilação e fotoestimulação; cerca de 0,5 a 1% dos adultos hígidos têm variantes epileptiformes benignas, por isso o traçado normal não afasta e o traçado com variantes não fecha diagnóstico isoladamente. O gold standard diagnóstico é o video-EEG prolongado, que documenta a semiologia e o padrão eletrográfico da crise, e é indispensável quando há dúvida entre crise epiléptica e pseudocrise psicogênica. A ressonância com protocolo de epilepsia (cortes finos temporais, T2 e FLAIR coronais) está indicada em toda epilepsia focal, em início antes dos 2 anos ou na vida adulta, e após os 60 anos. Toda primeira crise exige glicemia, eletrólitos, cálcio, magnésio, função renal e hepática, hemograma, toxicológico quando indicado e eletrocardiograma, porque síncopes arrítmicas (QT longo, Brugada) enganam como crise.
| Achado | Síncope vasovagal | Crise epiléptica | Pseudocrise psicogênica |
|---|---|---|---|
| Gatilho | Ortostatismo, dor, emoção, calor | Sonolência, despertar, fotostimulação, febre | Conflito, testemunhas, contexto emocional |
| Início | Segundos, com pródromos vagais | Abrupto, às vezes com aura estereotipada | Gradual, com flutuação e olhos fechados |
| Duração | Segundos a 1 minuto | 1 a 3 minutos | Minutos a horas, errático |
| Movimentos | Síncope convulsiva breve e multifocal | Tônica depois clônica síncrona | Postura em arco, movimentos variáveis e assimétricos |
| Mordedura de língua | Rara, ponta da língua | Típica, borda lateral | Rara |
| Cianose | Palidez | Cianose central comum | Ausentes |
| Pós-ictal | Rápida recuperação | Confusão de minutos a horas, sonolência | Lábil, comunica durante o evento |
| Prolactina pós-ictal | Normal | Elevada em 10 a 20 minutos em tônico-clônicas (uso limitado) | Normal |
Após uma primeira crise não provocada, com EEG e ressonância normais, o risco de recorrência em 2 anos é de 30 a 40% e a conduta usual é não tratar, orientando sobre fatores de risco como privação de sono e álcool. Trata-se desde o início quando o risco é alto: EEG epileptiforme, lesão estrutural, crise noturna, crise tônico-clônica, déficit neurológico ou síndrome eletroclínica; nesses casos o risco dobra e o tratamento imediato reduz a recorrência em cerca de um terço no curto prazo. A regra de ouro é monoterapia iniciada em dose baixa e titulada até o controle ou toxicidade, trocando apenas após falha real, porque combinações ampliam efeitos adversos e interações. No ensaio SANAD, o valproato foi o mais eficaz nas epilepsias generalizadas e indetermináveis, superando lamotrigina e topiramato.
| Tipo de crise | Primeira linha | Doses usuais de adultos | Evitar |
|---|---|---|---|
| Focal (consciente ou não) | Carbamazepina, oxcarbazepina, levetiracetam, lamotrigina | Carbamazepina 400-1600 mg/dia; oxcarbazepina 900-2400; levetiracetam 1000-3000; lamotrigina 100-400 | Etossuximida (sem ação focal) |
| Tônico-clônica generalizada | Valproato (não gestantes), levetiracetam, lamotrigina, topiramato | Valproato 500-2500 mg/dia; levetiracetam 1000-3000; topiramato 100-400 | Etossuximida |
| Ausência típica | Etossuximida, valproato | Etossuximida 20-40 mg/kg/dia; valproato 500-1500 | Carbamazepina, fenitoína e gabapentina podem agravar |
| Mioclônica (juvenil) | Valproato, levetiracetam | Valproato 500-2000; levetiracetam 1000-3000 | Carbamazepina agrava mioclonias |
| Tônica ou atônica (Lennox-Gastaut) | Valproato, lamotrigina, rufinamida, topiramato | Rufinamida 400-3200 mg/dia em crianças | Carbamazepina pode agravar |
A ILAE define epilepsia resistente a fármacos como a falha de dois esquemas anticonvulsivantes adequados, escolhidos e usados corretamente, seja em monoterapia sequencial ou combinados, para o tipo de crise do paciente. Depois de duas falhas, a chance de controle com o terceiro ou quarto fármaco cai para 5 a 11%, de modo que a resistência é sinal de encaminhamento imediato para centro de cirurgia de epilepsia, e não de prescrição indefinida. O melhor candidato cirúrgico é o adulto com crises focais de origem temporal mesial por esclerose hipocampal concordante entre semiologia, EEG de superfície e ressonância: séries e o ensaio randomizado ERSET demonstram 60 a 80% de livre de crises incapacitantes em 1 a 2 anos com cirurgia anterior do lobo temporal, contra taxas próximas de zero com tratamento apenas clínico continuado. Outras opções: cortectomia extratemporal, hemisferectomia em síndromes unilaterais catastróficas, calosotomia para crises atônicas de quedas e estimulação do nervo vago, que reduz crises em cerca de 50% em metade dos pacientes.
O canabidiol em óleo (não psicoativo, sem tetrahidrocanabinol em quantidade relevante) é hoje terapia de precisão para três síndromes graves: Dravet, Lennox-Gastaut e esclerose tuberosa. No ensaio pivô de Devinsky e colaboradores em Dravet, a dose alvo de 20 mg/kg/dia reduziu crises convulsivas em 39% contra 13% com placebo, com 43% dos pacientes alcançando redução de pelo menos metade. Efeitos adversos: sonolência, diarreia, perda de apetite e elevação de transaminases, mais comum em associação com valproato; interação importante com clobazam, cujo metabólito ativo se acumula por inibição da CYP2C19. No Brasil, o canabidiol tem sido autorizado pela ANVISA mediante importação, com registro de produto específico já aprovado. A dieta cetogênica, clássica na epilepsia pediátrica refratária, alcança redução de mais de 50% das crises em cerca de metade das crianças aderentes.
Estado de mal epiléptico é atividade convulsiva contínua acima de 5 minutos ou duas ou mais crises sem recuperação da consciência entre elas; a partir de 30 minutos instala-se dano neuronal e falência de receptores GABAérgicos, o que explica a resistência crescente aos benzodiazepínicos com o tempo. O protocolo em três etapas precisa ser memorizado com doses.
1.Segundo a definição prática da ILAE 2014, em qual situação uma única crise já estabelece o diagnóstico de epilepsia?
2.Como se chama hoje, na classificação ILAE 2017, a antiga crise parcial complexa?
3.Criança de 7 anos com episódios diários de bloqueio de contato de 10 segundos, sem queda, desencadeados por hiperventilação, com complexo ponta-onda de 3 Hz no EEG. Qual o fármaco de escolha?
4.Adolescente com epilepsia mioclônica juvenil apresenta mioclonias matinais. Qual fármaco deve ser evitado por tendência a agravar esse tipo de crise?
5.Qual é a definição ILAE de epilepsia resistente a fármacos?
6.No ensaio de Devinsky e colaboradores (2017), o canabidiol em dose de 20 mg/kg/dia na síndrome de Dravet reduziu a frequência de crises convulsivas em aproximadamente quanto, contra placebo?
7.Adulto de 70 kg em crise convulsiva há 4 minutos, sem acesso venoso, no pronto-socorro. Qual a conduta imediata correta?
8.Após falha adequada do primeiro benzodiazepínico em dose plena, qual esquema é recomendado como segunda linha no estado de mal, conforme o ensaio ESETT?
9.Mulher de 24 anos com epilepsia generalizada planeja gestação. Qual a conduta farmacológica correta?
10.Paciente chega com relato de episódio de perda de consciência de 20 segundos, palidez, visão em cinza ao levantar-se, recuperação imediata sem confusão. Qual achado reforça síncope em vez de crise epiléptica?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar