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Revisão completa das doenças desmielinizantes inflamatórias do sistema nervoso central com foco em esclerose múltipla: imunopatologia com vias e moléculas, fenótipos clínicos, critérios de McDonald 2017, diagnóstico diferencial com NMOSD, MOGAD e ADEM, tratamento do surto com metilprednisolona e plasmaférese, e escalada das terapias modificadoras do curso com doses, eficácia e monitorização. Inclui manejo sintomático, gravidez e pontos clássicos de prova.
[1] Thompson AJ, Banwell BL, Barkhof F, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2017 revisions of the McDonald criteria. Lancet Neurol. 2018;17(2):162-173 · DOI 10.1016/S1474-4422(17)30470-2 | [2] Filippi M, Bar-Or A, Piehl F, et al. Multiple sclerosis. Nat Rev Dis Primers. 2018;4:43 · DOI 10.1038/s41572-018-0041-4 | [3] Rae-Grant A, Day GS, Marrie RA, et al. Practice guideline recommendations summary: disease-modifying therapies for adults with multiple sclerosis. Neurology. 2018;90(17):777-788 · DOI 10.1212/WNL.0000000000005347 | [4] Bjornevik K, Cortese M, Healy BC, et al. Longitudinal analysis reveals high prevalence of Epstein-Barr virus associated with multiple sclerosis. Science. 2022;375(6578):296-301 · DOI 10.1126/science.abj8222 | [5] Brasil. Ministério da Saúde/Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla. Brasília: MS, 2022 · https://www.gov.br/conitec · DOI 10.1016/S1474-4422(17)30470-2
A esclerose múltipla (EM) é a doença inflamatória desmielinizante crônica mais comum do sistema nervoso central e a principal causa não traumática de incapacidade neurológica em adultos jovens: atinge cerca de 2,9 milhões de pessoas no mundo (Atlas of MS), com início tipicamente entre 20 e 40 anos, exatamente a fase de maior produtividade. No Brasil, estudos regionais apontam prevalência entre 5 e 20 casos por 100 mil habitantes, maior no Sul e Sudeste, coerente com o gradiente latitudinal da doença. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: os critérios de McDonald 2017 (disseminação em espaço e tempo, com o papel das bandas oligoclonais), o reconhecimento das síndromes clássicas (neurite óptica, mielite, síndrome do tronco) e a lógica do tratamento, que separa terapia do surto agudo (metilprednisolona), terapias modificadoras do curso (imunomoduladores e imunossupressores escalonados por risco) e tratamento sintomático. Um erro diagnóstico é grave em ambos os sentidos: atrasar o tratamento acelera a incapacidade, e rotular de EM uma neuromielite óptica ou uma doença por anticorpos anti-MOG expõe o paciente a drogas ineficazes e potencialmente deletérias.
Desmielinização é a perda seletiva da bainha de mielina com relativa preservação dos axônios. Nas doenças desmielinizantes inflamatórias do SNC, a mielina é alvo de resposta imune adaptativa contra antígenos oligodendrocitários e de lesão mediada por macrófagos. A EM é definida como doença imunomediada, inflamatória e neurodegenerativa do SNC, caracterizada por lesões (placas) desmielinizantes disseminadas em espaço e tempo, com evolução por surtos (brotos) e/ou progressão. A classificação clinicamente útil para a prova separa quatro entidades: o próprio EM, a doença do espectro da neuromielite óptica (NMOSD, anticorpos anti-aquaporina-4), a doença associada a anticorpos anti-MOG (MOGAD) e a encefalomielite aguda disseminada (ADEM), além do conceito de síndrome clinicamente isolada (SCI), que é o primeiro evento sugestivo, ainda sem cumprir critérios de EM. Vale lembrar que desmielinização também ocorre por causas não inflamatórias (deficiência de vitamina B12 com degeneração combinada subaguda, mielinólise osmótica centro-pontina, leucodistrofias genéticas), que entram no diferencial por imagem.
| Doença | Alvo imunopatológico | Marcador | RM característica |
|---|---|---|---|
| Esclerose múltipla | T CD4 Th1/Th17 e T CD8 contra antígenos da mielina; linfócitos B | Bandas oligoclonais no LCR (sem banda sérica) | Placas ovais periventriculares (dedos de Dawson), justacorticais, infratentoriais e medulares curtas (<2 segmentos) |
| NMOSD (anti-AQP4) | Anticorpos contra aquaporina-4 do astrócito | Anti-AQP4 IgG (sensibilidade ~70-80%) | Mielite longitudinal extensa (>=3 segmentos), neurite óptica bilateral ou grave, lesões periependimárias |
| MOGAD | Anticorpos contra glicoproteína oligodendrocitária da mielina (MOG) | Anti-MOG IgG (celular) | Neurite óptica bilateral com edema de disco, mielite com <3 segmentos na maioria, lesões em nuvem cortical |
| ADEM | Desmielinização pós-infecciosa/pós-vacinal, predomina em crianças | Quadro punctiforme inespecífico; anti-MOG em parte das crianças | Lesões grandes, mal definidas, bilaterais, com realce e envolvimento talâmico frequente |
Dentro da própria EM, a classificação fenotípica de Lublin (2013), ainda vigente, abandona as categorias rígidas antigas e descreve a doença em dois eixos: atividade (com ou sem surtos e lesões novas realçantes) e progressão (com ou sem acúmulo de incapacidade confirmada, independente de surtos). Essa linguagem importa na prática: um paciente com forma surto-remissão pode estar ativo ou inativo sob tratamento, e a progressão pode ocorrer mesmo sem surtos (progressão independente de atividade clínica).
A prevalência da EM aumenta com a distância do equador, efeito atribuído sobretudo à menor exposição solar e aos níveis mais baixos de vitamina D. A incidência em mulheres vem subindo, e a relação atual é de 2 a 3 mulheres para cada homem nas formas surto-remissão; na forma primária progressiva a relação se aproxima de 1:1 e a idade média de início é maior (cerca de 40 anos). O tabagismo aumenta o risco de desenvolver a doença e piora seu prognóstico. O fator genético mais bem estabelecido é o alelo HLA-DRB1*15:01 (risco cerca de 3 vezes maior), herdado de forma poligênica: a concordância entre gêmeos monozigóticos é de apenas 25 a 30%, mostrando o peso ambiental. No Brasil, séries de Santos, São Paulo e Recife descrevem prevalências entre 5 e 20/100 mil, com sobrecarga feminina semelhante à internacional e proporção elevada de pacientes com fenótipo misto, refletindo a miscigenação.
O fator ambiental mais forte e mais cobrado é o vírus Epstein-Barr (EBV). Praticamente 100% dos pacientes com EM são soropositivos para EBV, e a mononucleose infecciosa prévia dobra o risco. O estudo longitudinal de Bjornevik (Science, 2022), com mais de 10 milhões de jovens adultos do exército americano, mostrou que a soroconversão por EBV multiplica por mais de 30 o risco subsequente de EM, enquanto os que permaneceram soronegativos quase não desenvolveram a doença, o que sustenta o EBV como causa quase necessária, embora não suficiente.
O evento inicial provável ocorre fora do SNC: linfócitos T CD4 autorreativos (fenótipos Th1 produtoras de interferon-gama e Th17 produtoras de IL-17) e linfócitos B ativados por infecções (mimetismo molecular com antígenos da mielina, como a proteína básica da mielina, a glicoproteína oligodendrocitária e a proteolipídeo proteína) cruzam a barreira hematoencefálica disrupta por metaloproteinases. Na substância branca perivenular, a ativação de micróglia e o recrutamento de macrófagos produzem as placas: focos de desmielinização com edema, inflamação perivenular (daí a forma oval e radial dos dedos de Dawson na RM) e, na fase aguda, ruptura da barreira hematoencefálica que realça com gadolínio. Os linfócitos B e plasmócitos meníngeos e periventriculares produzem imunoglobulinas intratecais, o substrato das bandas oligoclonais no LCR.
A lesão não para na mielina: a transeção axonal começa já na lesão aguda e se acumula com a doença, gerando perda volumétrica cerebral (atrofia) e incapacidade progressiva. Nas formas progressivas, a inflamação fica compartimentalizada dentro do SNC (agregados meníngeos tipo folicular com células B e microglia cronicamente ativa, chamada smoldering), pouco acessível a drogas periféricas, o que explica a resposta terapêutica limitada da EM progressiva. Há ainda desmielinização da substância cinzenta cortical, fortemente associada à incapacidade cognitiva e à progressão. O resultado funcional é condução nervosa desacelerada ou bloqueada; sintomas paroxísticos (espasmos tônicos, Lhermitte) resultam de descargas ectópicas em axônios desmielinizados, e o fenômeno de Uhthoff (piora transitória com calor ou exercício) decorre de bloqueio de condução dependente da temperatura em fibras desmielinizadas.
A apresentação inicial típica é uma síndrome clinicamente isolada (SCI): primeiro episódio neurológico deficitário de início subagudo, sugestivo de desmielinização inflamatória, que se recupera total ou parcialmente em semanas. A partir daí o curso define a forma clínica. A conversão de SCI para EM depende da carga lesional na RM e do LCR: com RM inicial normal e bandas negativas, o risco em 20 anos é baixo (em torno de 10%); com lesões típicas na RM, supera 70-80%; bandas oligoclonais positivas elevam o risco de conversão clínica em cerca de 2 a 3 vezes.
| Forma clínica | Proporção | Curso | Marcador típico |
|---|---|---|---|
| SCI (síndrome clinicamente isolada) | Apresentação inicial em ~85% que depois se define como surto-remissão | Episódio único deficitário, sem critérios ainda | Lesões assintomáticas na RM indicando disseminação |
| Surto-remissão (EMRR) | 85% no diagnóstico | Surtos com recuperação variável entre períodos estáveis | Lesões novas realçantes com gadolínio nos surtos |
| Secundária progressiva (EMSP) | Grande parte dos EMRR após 10-20 anos sem tratamento | Piora lenta e contínua, com ou sem surtos sobrepostos | Atrofia e lesões medulares; pouco realce |
| Primária progressiva (EMPP) | 10-15% dos casos | Piora progressiva desde o início, sem surtos definidos | Mielopatia progressiva; início ~40 anos; F:M próximo de 1:1 |
| Síndrome radiologicamente isolada (RIS) | Achado incidental | RM com lesões típicas em pessoa sem sintomas | Seguimento; maioria não desenvolve síntomas |
A neurite óptica inflamatória é a apresentação mais clássica: perda visual monocular de instalação subaguda em dias, com dor retrobulbar que piora com os movimentos oculares, discromatopsia (pior para ver vermelho), defeito pupilar aferente relativo e fundoscopia normal na maioria (neurite retrobulbar). A mielite parcial incompleta produz paresia de predomínio piramidal, nível sensitivo truncal impreciso e disfunção esfincteriana leve; lesões espinhais da EM são curtas (menos de 2 segmentos vertebrais), em oposição à mielite longitudinal extensa da NMOSD. No tronco encefálico, a oftalmoplegia internuclear (paralisia do reto medial ipsilateral na adução com nistagmo do olho contralateral abduzido, por lesão do fascículo longitudinal medial) é praticamente diagnóstica de doença desmielinizante em adulto jovem; neuralgia do trigêmeio bilateral em jovem tem o mesmo valor. Síndrome cerebelar (ataxia apendicular e de tronco) e fadiga completam o quadro. A ADEM, mais frequente em crianças, cursa com encefalopatia (confusão, sonolência), febre e déficits multifocais após infecção viral ou vacinação.
O diagnóstico continua clínico-paraclínico, sustentado por evidência objetiva de disseminação em espaço (DIS) e em tempo (DIT) de lesões no SNC, na ausência de melhor explicação. Os critérios de McDonald 2017 aplicam-se sobretudo ao paciente com síndrome clinicamente isolada típica e trouxeram duas grandes mudanças que a prova cobra: lesões sintomáticas (aquelas que explicam o sintoma do surto) passam a contar para DIS e DIT, e as bandas oligoclonais do LCR podem substituir a demonstração de disseminação em tempo.
Exames complementares com desempenho: a RM com gadolínio é o exame de maior sensibilidade para lesões desmielinizantes (nova lesão T2 após 3-6 meses apoia DIT); as bandas oligoclonais por isofocalização têm sensibilidade em torno de 90% e especificidade que depende da pré-probabilidade (positivas em outras doenças inflamatórias); os potenciais evocados visuais mantêm utilidade (sensibilidade de 60 a 85% na EM, demonstrando lesão silenciosa na via óptica); a tomografia de coerência óptica (OCT) quantifica o adelgaçamento da camada de fibras nervosas da retina (redução média de 5 a 10 micra já no primeiro surto) e serve de biomarcador de axônio; as cadeias leves livres de kappa no LCR emergem como alternativa às bandas com sensibilidade comparável. Sorologia anti-AQP4 e anti-MOG é obrigatória antes de rotular como EM qualquer mielite extensa, neurite óptica bilateral grave ou encefalopatia, pois muda todo o plano terapêutico.
| Diagnóstico alternativo | Pista clínico-laboratorial | Teste confirmatório |
|---|---|---|
| NMOSD | Mielite >=3 segmentos, neurite óptica grave bilateral, soluços incoercíveis (síndrome da área postrema), curso por surtos graves | Anti-AQP4 IgG no soro |
| MOGAD | Neurite óptica bilateral com edema de disco e dor, ADEM em criança, melhor recuperação que EM | Anti-MOG IgG por ensaio celular (CBA) |
| Paraparesia espástica tropical (HTLV-1) | Progressão lenta simétrica, bexiga neurogênica, área endêmica, sem surtos nem lesões cerebrais | Sorologia HTLV-1 no sangue e LCR |
| Deficiência de vitamina B12 | Degeneração combinada: propriocepção e piramidal, anemia macrocítica, possível doença autoimune gástrica | B12 sérica, ácido metilmalônico e homocisteína, anticorpos anti-células parietais |
| Neurosarcoidose | Parotidite, uveíte, linfadenopatia hilar, paralisia facial, diabetes insipidus | ECA, TC de tórax, biópsia de lesão acessível |
| Neurolues ou neuroborreliose | Exantema prévio, risco sexual, cefaleia e neuropatias cranianas | VDRL/RPR + FTA-ABS no LCR; sorologia de Borrelia |
Surto é episódio de sintomas neurológicos novos ou agravados, de duração maior que 24 horas, na ausência de febre ou infecção, estável por pelo menos 30 dias antes de ser considerado encerrado. O tratamento de primeira linha é o pulso de metilprednisolona 1 g/dia intravenoso por 3 a 5 dias (alternativa oral de alta dose em situações logísticas, com eficácia comparável em metanálises), que acelera a recuperação do déficit mas não altera o grau final de recuperação nem o prognóstico de incapacidade de longo prazo. Efeitos adversos comuns: disgeusia (gosto metálico), insônia, agitação, hiperglicemia transitória e, raramente, necrose avascular de quadril. Em surtos graves (por exemplo, neurite óptica com acuidade menor que 20/200 ou mielite com perda da deambulação) refratários ao corticoide após cerca de 7 a 10 dias, indica-se plasmaférese: 5 a 7 trocas de 1 a 1,5 volumes plasmáticos em dias alternados. Antes de tratar, sempre buscar foco infeccioso (urina, vias aéreas), pois infecção pode simular surto e corticoide alto pode disseminá-la.
A era atual organiza as terapias modificadoras do curso (TMC) em duas estratégias: escalada (começar com droga segura de eficácia moderada e subir se a doença permanecer ativa) e indução precoce com droga de alta eficácia em doença agressiva desde o início (surtos frequentes, lesões multifocais realçantes, incapacidade residual crescente). O princípio comum: tratar cedo e monitorar com RM anual, pois a atividade subclínica continua entre surtos. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde (Conitec, 2022) organiza o acesso pelo SUS a imunobiológicos conforme gravidade e risco; o rituximabe, anti-CD20 off-label, é amplamente utilizado no Brasil na prática, especialmente onde ocrelizumabe não está disponível.
| Droga | Esquema e via | Redução de surtos (aprox.) | Principais riscos e monitorização |
|---|---|---|---|
| Interferon beta-1a / beta-1b | 30 mcg IM 1x/semana ou 44 mcg SC 3x/semana; beta-1b 250 mcg SC em dias alternados | ~30% | Síndrome gripal, reações locais, hepatotoxicidade, neutropenia; hemograma e TGO/TGP trimestrais no 1º ano |
| Acetato de glatirâmera | 20 mg SC diário ou 40 mg SC 3x/semana | ~30% | Lipoatrofia, reação sistêmica transitória pós-injeção (rubor, palpitação); sem necessidade de monitorização laboratorial |
| Teriflunomida | 14 mg VO diário | ~30% | Hepatotoxicidade, alopecia, hipertensão, neuropatia; teratogenicidade - retirar com colestiramina 8 g 3x/dia por 11 dias |
| Fumarato de dimetila | 240 mg VO 2x/dia | ~50% | Rubor e diarreia; linfopenia (risco de LMP); hemograma a cada 3-6 meses |
| Fingolimode | 0,5 mg VO diário | ~50-55% | Bradicardia na 1ª dose, edema macular, reativação de VZV, LMP; ECG, sorologia VZV e avaliação oftalmológica iniciais |
| Natalizumabe | 300 mg IV a cada 4 semanas | ~68% | Leucoencefalopatia multifocal progressiva (risco pelo vírus JC); anti-JCV a cada 6 meses; hepatotoxicidade |
| Ocrelizumabe | 600 mg IV (2 infusões de 300 mg na 1ª dose) a cada 6 meses | ~50% vs interferon; única com benefício na EMPP | Reações infusionais, reativação de HBV, herpes; sorologias pré-infusão e imunização prévia |
| Alemtuzumabe | 12 mg IV por 5 dias (ciclo 1) e 3 dias (ciclos 2 e 3, anuais) | ~55% | Autoimunidade secundária (tireoidopatia em ~30%, púrpura trombocitopênica imune), infecções; hemograma mensal por 4 anos após o último ciclo |
| Cladribina | 3,5 mg/kg cumulativos em 2 ciclos anuais orais de 5 dias | ~58% | Linfopenia prolongada, herpes zoster; hemograma e sorologias |
| Ofatumumabe | 20 mg SC a cada 4 semanas (semanas 0, 1 e 2 de ataque) | ~50% | Reações na aplicação, infecções; mesma classe anti-CD20 do ocrelizumabe |
Estratégias práticas de prova: na NMOSD anti-AQP4 positiva, drogas da EM como interferon, fingolimode, natalizumabe e alemtuzumabe são ineficazes ou agravam a doença; o correto é eculizumabe, satralizumabe, inebilizumabe ou rituximabe. Na MOGAD, preferem-se corticoide oral prolongado na retirada, IVIg, rituximabe ou tocilizumabe. Na EMPP, ocrelizumabe é a única terapia modificadora com benefício demonstrado em desfecho de incapacidade confirmada (estudo ORATORIO: redução de ~24% na progressão confirmada em 12 semanas) e é a referência; siponimod mostrou benefício moderado na EMSP ativa (redução de ~21% no risco de progressão confirmada em 3 meses).
Modificar o curso não basta: o manejo sintomático determina qualidade de vida e é frequentemente esquecido nas provas por parecer menor. A fampridina (dalfampridina) 10 mg VO 2x/dia, bloqueadora de canais de potássio, melhora a velocidade da marcha em cerca de 25 a 35% dos respondedores (teste de caminhada de 25 feet); contra-indicada em epilepsia e insuficiência renal grave (TFG <30 mL/min), com risco convulsivo dose-dependente.
| Sintoma | Drogas de escolha | Dose usual no adulto |
|---|---|---|
| Fadiga | Amantadina (1ª linha); modafinila | Amantadina 100 mg VO 2x/dia; modafinila 100-200 mg/dia |
| Espasticidade | Baclofeno; tizanidina; toxina botulínica em focos | Baclofeno 5-20 mg 3-4x/dia (máx 80 mg/dia); tizanidina 2-4 mg 3x/dia |
| Bexiga hiperativa | Oxibutinina; tolterodina; mirabegrom | Oxibutinina 5 mg 2-3x/dia; mirabegrom 25-50 mg/dia |
| Dor neuropática / espasmos tônicos | Gabapentina; pregabalina; carbamazepina; oxcarbazepina | Gabapentina 300-1.200 mg 3x/dia; carbamazepina 200-400 mg 2x/dia |
| Disfunção erétil | Inibidores de fosfodiesterase 5 | Sildenafila 25-100 mg conforme necessidade |
| Constipação / esvaziamento vesical ineficaz | Laxantes osmóticos; alfa-bloqueadores; autocateterismo | Poli(etileno glicol) 17 g/dia; tansulosina 0,4 mg/dia |
A EM não reduz a fertilidade nem contra-indica gestação. A taxa de surtos cai cerca de 70% no terceiro trimestre e dobra a triplica nos 3 meses pós-parto; anestesia regional e amamentação não aumentam o risco de surto (amamentação exclusiva pode até reduzir). Regras de planejamento por droga: teriflunomida é teratogênica e exige retirada com colestiramina antes de engravidar; fingolimode deve ser suspenso pelo menos 2 meses antes da concepção; natalizumabe pode ser mantido durante a gestação em pacientes de alto risco de surto (recomendação de consenso); interferon e acetato de glatirâmera são considerados de baixo risco e frequentemente mantidos; anti-CD20 são suspensos antes da concepção, com atenção à imunodepleção neonatal (evitar vacinas vivas no recém-nascido exposto no terceiro trimestre).
Sem terapia modificadora, a mediana de tempo para atingir grau 6 na EDSS (necessidade de apoio para caminhar 100 metros) fica em torno de 15 a 25 anos do início, com ampla variabilidade. Maus prognósticos: sexo masculino, início com comprometimento motor, cerebelar ou esfincteriano (em oposição a sensitivo ou neurite óptica), recuperação incompleta dos primeiros surtos, intervalo curto entre os dois primeiros surtos e carga lesional medular alta. Com as terapias atuais, a maioria dos pacientes com forma surto-remissão mantém deambulação por décadas, e a expectativa de vida, embora ainda 6 a 7 anos menor que a da população geral, vem se aproximando com tratamento precoce. Complicações tardias: infecções urinárias recorrentes e uropatia obstrutiva, osteoporose (corticoide acumulado + imobilidade), disfagia na doença avançada, depressão e risco de suicídio (taxas padronizadas mais que o dobro da população), e as toxicidades específicas das terapias, em especial a LMP sob natalizumabe e a autoimunidade secundária do alemtuzumabe. Síndrome de retirada grave (rebound) com surtos devastadores pode ocorrer ao suspender natalizumabe ou fingolimode, especialmente com anti-JCV positivo, quando a troca deve ser planejada com sobreposição terapêutica.
1.Um homem de 28 anos apresenta diplopia há 5 dias. O exame mostra paralisia do reto medial direito na adução com nistagmo no olho esquerdo na abdução, convergência preservada. A lesão topográfica correspondente é:
2.Segundo os critérios de McDonald 2017, a presença de bandas oligoclonais de IgG específicas do LCR em paciente com síndrome clinicamente isolada típica e lesões em apenas uma topografia na RM pode substituir qual requisito?
3.Qual das drogas a seguir oferece a maior redução da taxa anualizada de surtos na EM surto-remissão (aproximadamente 68% no estudo AFFIRM)?
4.Mulher de 25 anos com dor orbital e queda da acuidade visual monocular que piora em 4 dias, com defeito pupilar aferente relativo e fundoscopia normal. O diagnóstico mais provável é:
5.Paciente com EM em uso de natalizumabe há 30 meses, soropositivo para o vírus JC e com histórico de azatioprina prévia por 2 anos. O risco aproximado de LMP por 1.000 pacientes nesse perfil é:
6.Paciente relata que visão turva e parestesias nos membros inferiores surgem sistematicamente após banho quente ou exercício e melhoram em minutos com o repouso. Esse achado caracteriza:
7.Na suspeita de doença do espectro da neuromielite óptica, o achado de RM medular mais característico é:
8.O tratamento de primeira linha do surto agudo de EM com déficit motor grave é:
9.Sobre a fampridina no tratamento da EM, é correto afirmar:
10.Qual é a única terapia modificadora do curso com benefício demonstrado em desfecho de incapacidade confirmada na EM primária progressiva?
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