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Guia completo da avaliação cognitiva do idoso: continuum entre declínio subjetivo, comprometimento cognitivo leve e demência, aplicação e interpretação do MEEM e da MoCA com cortes por escolaridade, escalas de estadiamento (CDR, FAST, FAQ), investigação complementar obrigatória, critérios NIA-AA e diferencial com delirium e depressão.
[1] McKhann GM, Knopman DS, Chertkow H, et al. The diagnosis of dementia due to Alzheimer's disease: recommendations from the NIA-AA workgroups. Alzheimers Dement. 2011;7(3):263-269 · DOI 10.1016/j.jalz.2011.03.005 · PMID 21514250 | [2] Nasreddine ZS, Phillips NA, Bedirian V, et al. The Montreal Cognitive Assessment, MoCA: a brief screening tool for mild cognitive impairment. J Am Geriatr Soc. 2005;53(4):695-699 · DOI 10.1111/j.1532-5415.2005.53221.x · PMID 15817019 | [3] Folstein MF, Folstein SE, McHugh PR. Mini-mental state: a practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res. 1975;12(3):189-198 · DOI 10.1016/0022-3956(75)90026-6 | [4] Morris JC. The Clinical Dementia Rating (CDR): current version and scoring rules. Neurology. 1993;43(11):2412-2414 · DOI 10.1212/WNL.43.11.2412 | [5] Bertolucci PHF, Brucki SMD, Campacci SR, Juliano Y. O Mini-Exame do Estado Mental em uma população geral: impacto da escolaridade. Arq Neuropsiquiatr. 1994;52(1):1-7 · PMID 8002795 | [6] Brucki SMD, Nitrini R, Caramelli P, Bertolucci PHF, Okamoto IH. Sugestões para o uso do mini-exame do estado mental no Brasil. Arq Neuropsiquiatr. 2003;61(3B):777-781 · PMID 14595482 | [7] Cesar KG, Brucki SMD, Yassuda MS, et al. MoCA Test: normative and diagnostic accuracy data for seniors with heterogeneous educational levels in Brazil. Arq Neuropsiquiatr. 2019;77(11):775-781 · DOI 10.1590/0004-282X20190130 · PMID 31826133 | [8] Jack CR Jr, Bennett DA, Blennow K, et al. NIA-AA Research Framework: toward a biological definition of Alzheimer's disease. Alzheimers Dement. 2018;14(4):535-562 · DOI 10.1016/j.jalz.2018.02.018 · DOI 10.1016/j.jalz.2011.03.005
Mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, com cerca de 10 milhões de novos casos por ano, e a doença de Alzheimer responde por 60 a 70% dos casos. No Brasil, as estimativas nacionais apontam para mais de 1,7 milhão de pessoas acometidas, número que cresce com o envelhecimento acelerado da população. O diagnóstico continua essencialmente clínico: anamnese com informante, exame do estado mental, avaliação funcional e investigação de causas tratáveis. Provas de medicina cobram três eixos: os critérios que separam comprometimento cognitivo leve de demência, os pontos de corte dos testes de rastreio ajustados por escolaridade (tema em que o Brasil tem literatura própria) e o diferencial com delirium, depressão e causas reversíveis. Este artigo percorre os três eixos com os números que precisam ser memorizados.
A doença de Alzheimer se estende por décadas. O declínio cognitivo subjetivo é a queixa do próprio paciente sem déficit objetivo ao teste. O comprometimento cognitivo leve (CCL, ou MCI) exige quatro critérios clássicos de Petersen: queixa cognitiva referida pelo paciente ou informante, déficit objetivo em relação a normas ajustadas por idade e escolaridade (convencionalmente 1 a 2 desvios-padrão), preservação das atividades da vida diária e ausência de critérios de demência. A demência, denominada transtorno neurocognitivo maior no DSM-5, exige evidência de declínio significativo em relação ao nível prévio em um ou mais domínios cognitivos, documentada por avaliação padronizada, e perda de autonomia funcional decorrente do déficit, não explicada por delirium ou outra doença psiquiátrica. O CCL amnéstico (memória epitódica) é o preditor mais forte de conversão para doença de Alzheimer, com taxas próximas de 10 a 15% ao ano em centros especializados.
| Estágio | Queixa subjetiva | Déficit objetivo ao teste | Atividades instrumentais | Correspondência prática |
|---|---|---|---|---|
| Declínio cognitivo subjetivo | Presente | Ausente | Preservadas | Possível fase pré-clínica |
| Comprometimento cognitivo leve | Presente | Presente (1 a 2 DP abaixo da norma) | Preservadas | CDR 0,5 |
| Demência leve | Presente | Evidente | Comprometimento inicial (finanças, medicamentos) | CDR 1 / GDS 4 |
| Demência moderada | Presente | Importante | Dependência parcial nas atividades diárias | CDR 2 / GDS 5 |
| Demência grave | Presente | Importante | Dependência total | CDR 3 / GDS 6 a 7 |
Pacientes com comprometimento de memória tendem a minimizar ou ignorar sintomas por anos; a entrevista estruturada com um informante confiável é obrigatória e frequentemente define o diagnóstico. Mapeie o perfil temporal: início insidioso e progressão lenta sugere doença neurodegenerativa; início agudo ou em degraus sugere causa vascular; flutuação intensa da atenção ao longo do dia sugere delirium ou demência com corpos de Lewy; progressão rápida em semanas a poucos meses pede investigação ampliada (doença priônica, encefalite autoimune, metabólica).
O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) varia de 0 a 30 pontos e avalia orientação temporal e espacial (10), registro de três palavras (3), atenção e cálculo (5), evocação (3), linguagem (8) e cópia do desenho (1), em 5 a 10 minutos. No Brasil, o estudo de Bertolucci e cols. (1994) demonstrou o impacto decisivo da escolaridade, e Brucki e cols. (2003) estabeleceram as medianas de referência que se tornaram padrão nacional: 20 para analfabetos, 25 para 1 a 4 anos de estudo, 26,5 para 5 a 8 anos, 28 para 9 a 11 anos e 29 para 12 anos ou mais, sempre interpretando como suspeita de comprometimento os escores abaixo desses valores. O MEEM tem efeito teto importante: pontuação normal não exclui comprometimento cognitivo leve nem demência frontal. A MoCA (Montreal Cognitive Assessment) varia de 0 a 30, aplica-se em 10 a 15 minutos e cobre oito domínios com peso maior para função executiva, visuoconstrução e evocação tardia; na validação original de Nasreddine (2005) alcançou sensibilidade de 90% para CCL e 100% para doença de Alzheimer leve, contra apenas 18% do MEEM para CCL, com especificidade de 87%. Aplica-se 1 ponto adicional quando a escolaridade é de 12 anos ou menos, com corte clássico abaixo de 26. Em população brasileira de escolaridade heterogênea, os cortes devem ser mais baixos e baseados em normas nacionais (Cesar e cols., 2019), sob pena de superdiagnosticar comprometimento em pessoas com baixa escolaridade.
| Instrumento | Pontuação | Interpretação prática | Tempo |
|---|---|---|---|
| MEEM | 0 a 30 | Cortes por escolaridade no Brasil: 20 (analfabeto), 25 (1 a 4 anos), 26,5 (5 a 8), 28 (9 a 11), 29 (12 ou mais) | 5 a 10 min |
| MoCA | 0 a 30 | Corte original abaixo de 26, com 1 ponto extra para escolaridade ≤ 12 anos; usar normas brasileiras por escolaridade | 10 a 15 min |
| Teste do desenho do relógio | 0 a 5 (Shulman) | Abaixo de 4 sugere comprometimento visuoconstrutivo e executivo; útil como complemento em 2 a 4 minutos | 2 a 4 min |
| Fluência verbal de animais | Número de animais em 1 minuto | Valores em torno de 12 a 13 ou menos já são sugestivos, sempre ajustados por idade e escolaridade | 1 a 2 min |
| Mini-Cog | 0 a 5 | Evocação de 3 palavras mais relógio; rastreio rápido para atenção primária | 3 a 5 min |
As escalas de estadiamento traduzem a gravidade e orientam conduta, pesquisa e elegibilidade terapêutica. A escala Clinical Dementia Rating (CDR) de Morris é a mais usada em pesquisas e nos programas de anticorpos antiamiloide: pontua-se cada um dos seis domínios (memória, orientação, julgamento, assuntos comunitários, casa e hobbies, cuidados pessoais) e o escore global é ancorado na memória, que é a caixa principal. O FAQ de Pfeffer avalia dez atividades instrumentais com o informante e pontua de 0 a 30; escore igual ou maior que 5 sugere prejuízo funcional. A escala funcional FAST complementa a GDS de Reisberg em sete estágios, sendo úteis para planejar cuidados e discutir diretivas antecipadas.
| Escala | O que mede | Pontuação e estágios |
|---|---|---|
| CDR (Morris) | Gravidade global com informante, seis domínios | 0 normal; 0,5 questionável (inclui CCL); 1 demência leve; 2 moderada; 3 grave |
| GDS e FAST (Reisberg) | Estágios globais e função ao longo da doença | 7 estágios; FAST 6c a 7 corresponde à demência grave |
| FAQ (Pfeffer) | Atividades instrumentais relatadas pelo informante | 0 a 30; 5 pontos ou mais sugere prejuízo funcional |
| Lawton (IADL) | Atividades instrumentais da vida diária | 0 a 8, com itens pontuados conforme os papéis históricos de gênero |
| NPI (inventário neuropsiquiátrico) | 12 domínios comportamentais com cuidador | Frequência multiplicada por gravidade por domínio |
A pseudodemência depressiva é diferencial clássico: o paciente deprimido se queixa muito, responde não sei com esforço pobre, destaca o fracasso e melhora com o tratamento do humor; o demente costuma minimizar a queixa, esforçar-se para responder e apresentar falhas inconsistentes com a queixa. Na dúvida, trate a depressão e reavalie a cognição, sem abandonar o seguimento, porque depressão pode também inaugurar uma demência incipiente.
| Dimensão | Delirium | Depressão (pseudodemência) | Demência (doença de Alzheimer) |
|---|---|---|---|
| Início | Agudo, horas a dias | Semanas a meses | Insidioso, anos |
| Curso | Flutuante, piora ao fim do dia | Variável com o humor | Declínio progressivo lento |
| Atenção e consciência | Gravemente alteradas (critério obrigatório) | Preservadas | Preservadas até fases avançadas |
| Memória | Falha por falta de registro | Queixa global, esforço pobre | Evocação pior que reconhecimento, progressiva |
| Percepção | Ilusões e alucinações visuais comuns | Ideias ruins, culpas, anedonia | Alucinações tardias, precoces na Lewy |
Para o diferencial vascular, o escore isquêmico de Hachinski permanece útil: 7 pontos ou mais sugere demência multi-infarto, 5 a 6 sugere padrão misto e 4 ou menos sugere doença degenerativa. O diagnóstico sindrômico de demência sempre precede o etiológico: primeiro confirma-se o síndrome, depois investiga-se causa.
| Doença | Pista clínica | Achado de suporte |
|---|---|---|
| Doença de Alzheimer | Amnésia epitódica precoce com evocação pior que reconhecimento | Atrofia medial temporal (MTA 2 ou mais) e parietal posterior |
| Demência com corpos de Lewy | Alucinações visuais recorrentes, flutuação cognitiva, parkinsonismo, distúrbio do sono REM (regra de 1 ano) | Hipometabolismo occipital, DATscan alterado, MTA discreto |
| Demência frontotemporal | Desinibição, apatia, alteração de conduta precoce, afasia progressiva | Atrofia frontal e temporal anterior, frequentemente assimétrica |
| Demência vascular | Início em degraus, fatores de risco, marcha de pequenos passos | Hiperintensidades extensas e lacunas (Fazekas 2 ou mais) |
| Hidrocefalia de pressão normal | Tríade de marcha magnética, incontinência urinária e bradifrenia | Ventriculomegalia desproporcional à atrofia cortical |
Os critérios NIA-AA de 2011 definem demência provável por doença de Alzheimer quando há declínio cognitivo progressivo, documentado por avaliação serial, com comprometimento de memória epitódica precoce em pelo menos um domínio adicional, na ausência de outra explicação; marcadores biomarcadores (atrofia medial temporal na ressonância, padrão de LCR) aumentam a certeza diagnóstica, mas não são obrigatórios no cenário típico de início tardio. O Research Framework de 2018 reorganizou a doença em termos biológicos com a estrutura A, T e (N): A para amiloide (PET ou LCR), T para tau (LCR ou PET) e N para neurodegeneração ou lesão neuronal (RM, FDG-PET). A classificação é reservada a contextos de pesquisa e seleção terapêutica, mas já aparece em provas e residência. Antes de qualquer diagnóstico fechado, trate ou exclua as causas potencialmente reversíveis: hipotireoidismo, deficiência de B12, neurosífilis, HIV, hematoma subdural, hidrocefalia e efeitos de fármacos.
1.Idosa analfabeta, assintomática funcionalmente, MEEM de 21 pontos. Qual a interpretação correta?
2.Qual critério separa comprometimento cognitivo leve de demência?
3.Sobre a MoCA, qual afirmação é correta?
4.Paciente com queixa cognitiva, déficit objetivo de 1,5 desvio-padrão, FAQ de 2 e vida diária preservada. Qual o estágio CDR provável?
5.Qual achado clínico é sugestivo de demência com corpos de Lewy e não de doença de Alzheimer?
6.A investigação laboratorial mínima da avaliação inicial de demência inclui:
7.O escore MTA (atrofia medial temporal) na ressonância é considerado anormal a partir de:
8.Paciente com início agudo, atenção gravemente alterada e flutuação ao longo do dia. O diagnóstico sindrômico é:
9.Na estrutura A, T e (N) do NIA-AA Research Framework (2018), a letra A corresponde a:
10.Sobre o lecanemabe, qual condição é obrigatória antes da prescrição?
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