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Revisão completa da lesão renal aguda induzida por fármacos: classificação por mecanismo (hemodinâmico, túbulotóxico, imunoalérgico e cristalúrico), epidemiologia, fisiopatologia por fármaco-culpado (AINEs, aminoglicosídeos, anfotericina B, cisplatina, tenofovir, vancomicina, contraste, IBP), diagnóstico com índices urinários e sedimento, tratamento com doses e medidas de prevenção.
[1] KDIGO Acute Kidney Injury Work Group. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl. 2012;2(1):1-138 · DOI 10.1038/kisup.2012.1 | [2] Mehta RL, Cerdá J, Burdmann EA, et al. International Society of Nephrology's 0by25 initiative for acute kidney injury (zero preventable deaths by 2025): a human rights case for nephrology. Lancet. 2015;385(9987):2616-2643 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)60126-X | [3] Perazella MA. Pharmacology behind Common Drug Nephrotoxicities. Clin J Am Soc Nephrol. 2018;13(12):1897-1908 · DOI 10.2215/CJN.00150118 | [4] Bentley ML, Corwin HL, Dasta JF. Drug-induced acute kidney injury in the critically ill adult: recognition and prevention strategies. Crit Care Med. 2010;38(6 Suppl):S169-S178 · DOI 10.1097/CCM.0b013e3181de42af | [5] Naughton CA. Drug-induced nephrotoxicity. Am Fam Physician. 2008;78(6):743-750 · PMID 18756629 · DOI 10.2215/CJN.00150118
A nefrotoxicidade medicamentosa é uma das principais causas evitáveis de lesão renal aguda (LRA): coortes internacionais atribuem aos fármacos cerca de 19% a 25% dos episódios em pacientes hospitalizados e em terapia intensiva, proporção que aumenta quando há exposição simultânea a vários agentes agressores. O rim é alvo preferencial porque recebe 20% a 25% do débito cardíaco, secreta e concentra xenobióticos no túbulo proximal por transportadores de ânions e cátions orgânicos e mantém um gradiente osmótico medular que acumula drogas na papila. Antibióticos, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), antineoplásicos, inibidores da bomba de prótons e contrastes iodados lideram as listas de culpados. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: reconhecer o mecanismo da lesão (hemodinâmico, túbulotóxico, imunoalérgico, cristalúrico), interpretar sedimento urinário e índices de excreção fracionada, e aplicar medidas de prevenção, que são mais eficazes do que qualquer tratamento, já que quase não existem antídotos específicos.
Nefrotoxicidade é o dano estrutural ou funcional do rim causado direta ou indiretamente por fármacos, que se manifesta como LRA, distúrbios tubulares funcionais (síndrome de Fanconi, acidoses tubulares renais, diabetes insipus nefrogênico), nefrite intersticial aguda (NIA) ou doença renal crônica por exposição cumulativa. A classificação mais cobrada em provas agrupa os mecanismos em seis categorias, e cada fármaco clássico pertence predominantemente a uma delas: associar o par fármaco-mecanismo costuma resolver a questão.
A LRA acomete cerca de 20% dos pacientes hospitalizados e mais de 50% dos críticos, e a fração atribuível a medicamentos varia de 19% a 25% conforme a coorte, sendo uma das poucas causas potencialmente evitáveis. Em ambulatório, os AINEs, disponíveis sem receita no Brasil e consumidos por automedicação em grande parcela da população, e os inibidores da bomba de prótons são os agentes mais implicados. Em terapia intensiva, aminoglicosídeos causam LRA em 5% a 25% dos cursos terapêuticos, a vancomicina isolada em 5% a 15% e a associação vancomicina com piperacilina-tazobactam eleva o risco para 20% a 30%. A anfotericina B desoxicolato, hoje substituída por formulações lipídicas, causava disfunção renal em até 30% a 50% dos tratados. O risco nunca é do fármaco isolado: ele depende do terreno do paciente e da combinação de agressores.
Três características anatômicas explicam a vulnerabilidade renal: o alto fluxo sanguíneo (20% a 25% do débito cardíaco), a captação tubular ativa de fármacos por transportadores como OAT1 e OCT2 no túbulo proximal, que concentra substâncias até centenas de vezes no interior da célula epitelial, e o gradiente contracorrente medular, que concentra drogas na medula interna e na papila. O túbulo proximal em S3, localizado na zona externa da medula com alto consumo de ATP e baixa tensão de oxigênio, é o segmento mais lesado por agentes túbulotóxicos e o sítio da síndrome de Fanconi. Já a vasoconstrição da arteríola aferente pelos AINEs (inibição da prostaglandina E2 e da prostaciclina vasodilatadoras) e a dilatação da eferente pelos IECA e BRA (queda do tônus da angiotensina II) reduzem a pressão de filtração glomerular de forma funcional, com rim estruturalmente preservado no início.
Mecanismos específicos cobrados em prova: aminoglicosídeos ligam-se à megalina na borda em escova do túbulo proximal, acumulam-se em lisossomos e causam fosfolipidose, com LRA não oligúrica típica a partir do 5º ao 7º dia de uso e pico da creatinina com atraso de dias após a suspensão. A anfotericina B desoxicolato forma poros na membrana tubular, gerando acidose tubular renal distal tipo 1 com hipocalemia e hipomagnesemia por perda urinária. A cisplatina entra na célula pelo transportador OCT2 e pela CTR1, lesa o S3 e produz Fanconi com hipomagnesemia marcada. O tenofovir, análogo nucleotídico, acumula-se via OAT1 e provoca tubulopatia proximal com glicosúria e proteinúria de baixo peso molecular. A vancomicina gera estresse oxidativo e apoptose tubular dependente de concentração. Os contrastes iodados combinam vasoconstrição medular sustentada com toxicidade osmótica direta, com pico da creatinina entre 48 e 72 horas. Na NIA, o mecanismo é hipersensibilidade mediada por linfócitos T contra antígenos modificados na membrana basal tubular, sem depósito de imunocomplexos na maioria dos casos. Nas nefropatias por cristais, fármacos pouco solúveis precipitam nos túbulos distais quando a urina está concentrada, o pH é desfavorável (a sulfadiazina e o metotrexato precipitam em urina ácida) e o fluxo urinário é baixo.
| Síndrome nefrotóxica | Fármacos representativos | Achados-chave |
|---|---|---|
| LRA funcional hemodinâmica | AINEs, IECA, BRA, inibidores de calcineurina, diuréticos | Sedimento benigno, FENa menor que 1%, resposta rápida à expansão volêmica e à suspensão do fármaco |
| Necrose tubular aguda túbulotóxica | Aminoglicosídeos, anfotericina B, cisplatina, tenofovir, contraste iodado | Cilindros granulosos marrons, FENa maior que 2%, LRA não oligúrica, glicosúria com glicemia normal se Fanconi |
| Nefrite intersticial aguda | Beta-lactâmicos, AINEs, inibidores da bomba de prótons, rifampicina, alopurinol | Piúria estéril, cilindros de leucócitos, eosinofilúria, febre e rash inconstantes, início em 7 a 14 dias |
| Nefropatia por cristais | Aciclovir, sulfadiazina, metotrexato, indinavir, vitamina C em megadoses | Dor lombar, hematúria, cristais na microscopia (agulhas birrefringentes no aciclovir) |
| Doença glomerular medicamentosa | AINEs, hidralazina, penicilamina | Síndrome nefrótica com proteinúria maior que 3,5 g/dia e edema |
| Dano tubulointersticial crônico | Lítio, analgésicos em uso crônico, ifosfamida | Doença renal crônica, diabetes insipus nefrogênico, necrose papilar com hematúria e cólica |
A cronologia é diagnóstica: a LRA por contraste pico em 48 a 72 horas e regride em 7 a 10 dias; a dos aminoglicosídeos aparece entre o 5º e o 7º dia de uso, é não oligúrica e a creatinina continua subindo por 1 a 2 dias após a suspensão; a NIA surge tipicamente 7 a 14 dias após a exposição, mas pode demorar meses com AINEs e inibidores da bomba de prótons, e a reexposição após episódio prévio recai em dias. A tríade clássica da NIA (febre, rash e eosinofilia) está completa em menos de um terço dos casos, e a eosinofilúria tem baixa sensibilidade, portanto sua ausência jamais exclui o diagnóstico. Na tubulopatia proximal (Fanconi), chama atenção glicosúria com glicemia normal, hipofosfatemia, hipouricemia e aminoacidúria; na toxicidade da anfotericina B, acidose metabólica com pH urinário inapropriadamente alto, hipocalemia e hipomagnesemia.
A LRA é definida pelos critérios KDIGO: elevação da creatinina sérica de 0,3 mg/dL ou mais em 48 horas, ou aumento de 1,5 vez ou mais sobre o basal conhecido em até 7 dias, ou diurese menor que 0,5 mL/kg/h por 6 horas. Sobre essa base, o diagnóstico de nefrotoxicidade é clínico-laboratorial: relação temporal com o fármaco, exclusão de obstrução por ultrassonografia e interpretação do sedimento e dos índices de excreção fracionada. A excreção fracionada de sódio (FENa) calculada como sódio urinário x creatinina plasmática dividido por sódio plasmático x creatinina urinária, tudo multiplicado por 100, é menor que 1% na LRA funcional e maior que 2% na necrose tubular aguda; em pacientes usando diuréticos, prefere-se a excreção fracionada de ureia (FEUrea), com corte de 35%. O sedimento benigno sugere mecanismo hemodinâmico, cilindros granulosos marrons (muddy brown) indicam necrose tubular, piúria estéril com cilindros de leucócitos e eosinofilúria apontam NIA, e cristais orientam nefropatia obstrutiva intratubular.
| Índice ou achado | LRA funcional hemodinâmica | Necrose tubular aguda | Nefrite intersticial aguda |
|---|---|---|---|
| FENa | Menor que 1% | Maior que 2% | Variável, frequentemente maior que 1% |
| FEUrea com diurético | Menor que 35% | Maior que 50% | Variável |
| Sedimento urinário | Benigno | Cilindros granulosos marrons | Piúria estéril, cilindros de leucócitos, eosinofilúria inconstante |
| Glicosúria com glicemia normal | Ausente | Presente na tubulopatia proximal (tenofovir, cisplatina, ifosfamida) | Ausente |
Não existem antídotos específicos para a maioria das lesões nefrotóxicas: o pilar do tratamento é a suspensão imediata do fármaco-culpado, a restauração da volemia com cristoides balanceados (evitando acúmulo de cloreto em grandes volumes) e o ajuste de todas as outras drogas à função renal atual pela depuração de creatinina estimada. Diuréticos não alteram o prognóstico renal e são reservados para hipervolemia; a terapia renal substitutiva segue os critérios clássicos (mnemônico AEIOU: Acidose metabólica refratária, Eletrólitos como hiperpotassemia refratária, Intoxicação por lítio ou metanol, Overload hipervolêmico, Uremia sintomática). As condutas específicas de prevenção e tratamento por agente estão resumidas na tabela a seguir, com doses de adulto.
| Fármaco ou contexto | Conduta de prevenção e tratamento |
|---|---|
| Aminoglicosídeos | Preferir beta-lactâmico quando possível; dose única diária estendida (gentamicina e tobramicina 5 a 7 mg/kg, amicacina 15 a 20 mg/kg a cada 24 h ajustada à função renal), monitorar concentração residual, limitar o tratamento a 5 a 7 dias e corrigir depleção volêmica |
| Anfotericina B | Substituir a forma desoxicolato por formulação lipídica; expandir volume com salina antes da infusão; repor potássio e magnésio |
| Contraste iodado | Hidratar com salina isotônica 1 mL/kg/h de 6 a 12 h antes e depois, ou 3 mL/kg/h 1 h antes e 1 a 1,5 mL/kg/h por 4 a 6 h depois; usar a menor dose de contraste possível; N-acetilcisteína tem benefício inconsistente e não substitui a hidratação |
| Vancomicina | Monitorar por AUC 24 h com alvo de 400 a 600 em vez de concentração mínima isolada; evitar associação desnecessária com piperacilina-tazobactam, que aumenta a incidência de LRA |
| Nefrite intersticial aguda | Suspender o fármaco-culpado; se não houver melhora da creatinina em 3 a 7 dias, prednisona 0,5 a 1 mg/kg/dia por 2 a 4 semanas com desmame gradual, com base em séries observacionais |
| Aciclovir e sulfadiazina | Hidratação vigorosa antes e durante a infusão, redução da dose conforme a depuração de creatinina e alcalinização urinária para a sulfadiazina |
| Metotrexato em dose alta | Hidratação de 3 L/m²/dia, alcalinização da urina até pH maior que 7,0, resgate com folinato de cálcio e glucuronidase se a depuração do fármaco for lenta |
| Inibidores de calcineurina | Monitorar concentrações (tacrolimo entre 5 e 15 ng/mL conforme o contexto), corrigir volemia e magnésio e controlar o potássio |
| Cisplatina | Hidratação salina antes e depois da infusão em 6 a 8 h, suplementação de magnésio e uso de amifostina apenas em protocolos específicos |
| Lítio | Suspender na LRA, hidratar com salina isotônica e indicar hemodiálise na intoxicação grave com nível acima de 4 mEq/L e sintomas neurológicos |
| IECA, BRA e AINEs combinados | Evitar a tríade com diurético (golpe triplo), reavaliar função renal e potássio 1 a 2 semanas após introdução e suspender temporariamente em doença aguda intercorrente |
| LRA estabelecida | Suspender todos os nefrotóxicos, ajustar doses pela depuração de creatinina, oferecer suporte nutricional e indicar terapia renal substitutiva conforme critérios AEIOU |
A maioria das LRA nefrotóxicas é reversível com suspensão do agente e suporte adequado, mas há armadilhas prognósticas importantes. A LRA por aminoglicosídeos pode prolongar-se por semanas e a creatinina ainda sobe nos primeiros dias após a interrupção, o que não significa falha da conduta. Episódios de NIA graves, especialmente os associados a AINEs, podem evoluir com fibrose intersticial e doença renal crônica, sobretudo quando o diagnóstico é tardio. Todo episódio de LRA, inclusive o medicamentoso, aumenta o risco de doença renal crônica progressiva nos anos seguintes, independentemente da recuperação aparente, o que obriga seguimento ambulatorial com creatinina e proteinúria. No lítio e nos analgésicos, o dano pode ser permanente, com diabetes insipus nefrogênico e necrose papilar. A mortalidade da LRA grave que necessita de terapia renal substitutiva em terapia intensiva permanece acima de 50% em coortes brasileiras e internacionais, o que reforça o valor da prevenção.
Grande parte da nefrotoxicidade ambulatorial nasce fora do hospital: AINEs vendidos sem receita, fitoterápicos, produtos para emagrecimento e suplementos megadose de vitaminas são usados por automedicação, frequentemente sem conhecimento do médico. Por isso, a anamnese medicamentosa precisa ser ativa e incluir perguntas diretas sobre venda livre, chás e produtos naturais. A reconciliação medicamentosa na admissão, na alta e em cada transição de cuidado, conferindo a lista anterior com a nova, reduz eventos adversos renais; a suspensão de fármacos sem indicação vigente, como inibidores da bomba de prótons crônicos sem indicação, faz parte do mesmo processo. Orientar o paciente com doença renal crônica a evitar AINEs e a procurar o serviço antes de iniciar qualquer medicamento novo é medida de proteção renal tão importante quanto qualquer prescrição.
1.Idoso em uso de IECA e furosemida desenvolve LRA após iniciar AINE para dor lombar. Qual é o mecanismo predominante dessa lesão?
2.Paciente em uso de inibidor da bomba de prótons há 3 meses apresenta LRA não oligúrica, piúria estéril, cilindros de leucócitos e eosinofilúria. Qual o diagnóstico mais provável?
3.Em que período típico de tratamento surge a LRA por aminoglicosídeos e qual sua característica urinária clássica?
4.Paciente em quimioterapia apresenta glicosúria com glicemia normal, hipofosfatemia e hipomagnesemia importante. Qual o fármaco mais provável?
5.Sobre a metformina em paciente com lesão renal aguda, qual afirmativa correta?
6.Qual achado laboratorial urinário diferencia necrose tubular aguda de LRA funcional hemodinâmica em paciente sem uso de diurético?
7.Paciente imunossuprimido em tratamento de herpes disseminado desenvolve LRA com dor lombar e cristais em forma de agulha birrefringentes na urina. Qual a conduta preventiva mais importante para esse fármaco?
8.Qual a estratégia com melhor evidência para prevenir nefropatia por contraste iodado em paciente com doença renal crônica?
9.A acidose tubular renal distal tipo 1 com hipocalemia e hipomagnesemia é característica da toxicidade de qual fármaco?
10.Paciente HIV positivo em esquema antirretroviral apresenta proteinúria de baixo peso molecular, glicosúria normoglicêmica e creatinina crescente. Qual fármaco é o mais provável culpado?
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