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Revisão completa dos oito herpesvírus humanos (HSV-1, HSV-2, VZV, EBV, CMV, HHV-6, HHV-7 e HHV-8) e do HIV: replicação, história natural, fatores de risco, janelas diagnósticas, esquemas de antirretrovirais com doses e manejo da coinfeção tuberculose/HIV. Inclui critérios de aids, profilaxia de infecções oportunistas por limiares de CD4 e pontos clássicos de prova.
[1] Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. Brasília: MS/Conitec · https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/pcdt | [2] Günthard HF, Thompson MA, Saag MS, et al. Antiretroviral Drugs for Treatment and Prevention of HIV Infection in Adults: 2020 Recommendations of the IAS-USA Panel. JAMA. 2020;324(16):1651-1669 · DOI 10.1001/jama.2020.17025 | [3] James C, Harfouche M, Welton NJ, et al. Herpes simplex virus: global infection prevalence and incidence estimates, 2016. Bull World Health Organ. 2020;98(5):315-324 · DOI 10.2471/BLT.19.234149 | [4] World Health Organization. Global Tuberculosis Report 2024. Genebra: WHO; 2024 · https://www.who.int/teams/global-tuberculosis-programme/tb-reports/global-tuberculosis-report-2024 | [5] Lundgren JD, Babiker AG, Gordin F, et al. Initiation of Antiretroviral Therapy in Early Asymptomatic HIV Infection (START). N Engl J Med. 2015;373(9):795-807 · DOI 10.1056/NEJMoa1506816 | [6] Bennett JE, Dolin R, Blaser MJ. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 9ª ed. Elsevier; 2020 · DOI 10.1001/jama.2020.17025
Os herpesvírus e o vírus da imunodeficiência humana (HIV) compartilham três características que os tornam onipresentes em provas de microbiologia: infectam praticamente toda a população ao longo da vida, estabelecem infecção persistente e reaparecem de forma grave em contextos de imunossupressão. A interação entre as duas famílias é bidirecional: o herpes genital pelo HSV-2 aumenta em duas a três vezes o risco de aquisição do HIV, porque as úlceras recorrentes recrutam linfócitos CD4 e macrófagos para a mucosa; em sentido oposto, a aids reativa CMV, VZV, HSV e HHV-8. Este artigo cobre a virologia dos oito herpesvírus humanos, a biologia e o tratamento do HIV com doses completas, os fatores de risco para aquisição e o manejo da coinfeção tuberculose/HIV conforme diretrizes brasileiras e internacionais.
Os herpesvírus são vírus DNA de fita dupla, envelopados, com capsídeo icosaédrico de 162 capsômeros, camada de tegumento entre capsídeo e envelope e genomas de 125 a 235 mil pares de bases. Replicam-se no núcleo da célula hospedeira e adquirem envelope na membrana nuclear. Por serem envelopados, são inativados por álcoois, detergentes e desinfetantes comuns, detalhe que os opõe aos enterovírus de cápside nua. A marca registrada da família é a latência: após a infecção primária, o genoma viral circularizado permanece na célula na forma de episoma, sem produção de proteínas virais, e pode se reativar décadas depois.
| Vírus | Subfamília | Sítio de latência | Doenças-chave |
|---|---|---|---|
| HSV-1 | alfa | neurônios sensitivos, gânglio trigêmial | gengivoestomatite, herpes labial, ceratite herpética, encefalite |
| HSV-2 | alfa | neurônios sensitivos, gânglios sacrais | herpes genital, herpes neonatal, meningite de Mollaret |
| VZV | alfa | gânglios das raízes dorsais | varicela na primoinfecção e herpes-zóster na reativação |
| CMV | beta | monócitos, macrófagos e glândulas salivares | mononucleose heterofílico-negativa, infecção congênita, retinite e colite |
| HHV-6B | beta | linfócitos T e glândulas salivares | exantema súbito, a roséola infantil |
| HHV-7 | beta | linfócitos T CD4 | exantema súbito-like e reativações em transplantados |
| EBV | gama | linfócitos B de memória | mononucleose infecciosa, linfoma de Hodgkin, Burkitt, carcinoma nasofaríngeo |
| HHV-8 | gama | células B e células endoteliais | sarcoma de Kaposi, linfoma de cavidade serosa, Castleman multicêntrico |
No HSV, o vírus replica-se na pele ou mucosa, invade terminações nervosas e migra por transporte axonal retrógrado até o gânglio sensitivo, onde estabelece latência expressando apenas os RNAs associados à latência (LAT), sem produzir proteínas virais: o neurônio infectado torna-se invisível ao sistema imune. Estressores como febre, radiação ultravioleta, trauma, imunossupressão e menstruação reativam a replicação, e o vírus desce pelo axônio até a dermátomo de origem, produzindo recorrência na mesma topografia da primoinfecção. CMV e EBV estabelecem latência em células hematopoiéticas e linfócitos B, com reativação controlada pela imunidade celular CD8: por isso transplantados e pacientes com aids são os principais alvos das doenças por beta e gama-herpesvírus.
A primoinfecção por HSV-1 causa gengivoestomatite herpética em pré-escolares, com febre, gengivas edemaciadas e sangramentos e vesículas orais que ulceram, resolvendo-se em 10 a 14 dias; a reativação produz o herpes labial clássico, com vesículas agrupadas na transição pele-mucosa. O HSV-2, historicamente responsável pela maioria do herpes genital, vem sendo substituído pelo HSV-1 em coortes jovens pela prática de sexo oral, pegadinha recorrente de prova. O herpes genital primário cursa com vesículas genitais dolorosas, febre, linfadenopatia inguinal e sintomas urinários; as recorrências são mais curtas, de 5 a 10 dias, e localizadas.
Formas graves: ceratite herpética, a causa infecciosa mais comum de cegueira corneana, com ulcerações dendríticas à lâmpada de fenda, na qual corticoide tópico sem cobertura antiviral é contraindicado; panarício herpético em profissionais de saúde; eczema herpético de Kaposi sobre dermatite atópica; e herpes neonatal. Este acomete 1 a cada 3.000 a 20.000 nascimentos, quase sempre por HSV-2 adquirido no canal de parto, e divide-se em forma pele-olho-boca (cerca de 45%), doença do sistema nervoso central com convulsões e pleocitose (30%) e doença disseminada com hepatite e coagulopatia (25%). Sem tratamento, a mortalidade das formas neurológica e disseminada chega a 50-85%; o tratamento é aciclovir 20 mg/kg IV a cada 8 horas por 14 a 21 dias, e a cesárea indica-se quando há lesões ativas ou pródromo no parto.
A encefalite herpética é a encefalite viral esporádica mais comum (2 a 4 casos por milhão de habitantes por ano), com predomínio de HSV-1 em qualquer idade. Combina febre, confusão progressiva, crises convulsivas e sinais focais, com acometimento frontotemporal na ressonância e pleocitose linfocítica com hemácias no líquor. A PCR para HSV no LCR tem sensibilidade de 96-98% e especificidade superior a 95%, mas, como o resultado demora, aciclovir 10 mg/kg IV a cada 8 horas deve ser iniciado empiricamente em toda suspeita, por 14 a 21 dias: a letalidade sem tratamento ultrapassa 70%.
| Situação | Esquema de escolha | Duração |
|---|---|---|
| Herpes genital primário | aciclovir 400 mg VO 3x/dia; valaciclovir 1 g VO 2x/dia; famciclovir 250 mg VO 3x/dia | 7 a 10 dias |
| Herpes genital recorrente | aciclovir 400 mg 3x/dia; valaciclovir 500 mg 2x/dia; famciclovir 125 mg 2x/dia | 3 a 5 dias |
| Supressão crônica, mais de 6 episódios por ano ou casal discordante | aciclovir 400 mg 2x/dia; valaciclovir 500 mg 1x/dia (1 g/dia se mais de 10 episódios por ano) | diária, reavaliando anualmente |
| Encefalite herpética | aciclovir 10 mg/kg IV a cada 8 horas | 14 a 21 dias |
| Herpes neonatal | aciclovir 20 mg/kg IV a cada 8 horas | 14 dias na forma cutânea; 21 dias nas formas neurológica e disseminada |
| Herpes-zóster em imunocompetente | valaciclovir 1 g 3x/dia; aciclovir 800 mg 5x/dia; famciclovir 500 mg 3x/dia | 7 dias |
O aciclovir é análogo acíclico da guanosina que precisa ser trifosforilado para agir, e a primeira fosforilação é feita pela timidina quinase viral: essa seletividade explica a baixa toxicidade e a resistência por mutações da timidina quinase em imunossuprimidos. Valaciclovir e famciclovir são pró-fármacos com biodisponibilidade oral de 54% e 77%, contra 15-20% do aciclovir. A supressão crônica com valaciclovir 500 mg/dia reduziu em cerca de metade a transmissão do HSV-2 em casais discordantes, unindo benefício individual e de saúde pública.
A varicela, primoinfecção do VZV, tem incubação de 10 a 21 dias e exantema pleomórfico em surtos sucessivos, com vesículas descritas como gotas de orvalho sobre pétala de rosa, distribuição centrípeta e prurido intenso. O paciente contagia de 24 a 48 horas antes do exantema até a formação de crostas em todas as lesões, e a taxa de ataque domiciliar chega a 90%. Complicações: sobreinfecção bacteriana por estreptococo do grupo A, incluindo fasciite necrosante; pneumonia viral, mais comum em adultos, gestantes e imunossuprimidos; ataxia cerebelar autolimitada em crianças; e síndrome de Reye em crianças que recebem aspirina.
O herpes-zóster é a reativação do VZV latente nos gânglios dorsais: dor nevrálgica seguida de vesículas em dermátomo único, sem ultrapassar a linha média, com risco cumulativo de aproximadamente 30% ao longo da vida. Complicações cobradas em prova: neuralgia pós-herpética, dor persistente por mais de três meses após a cicatrização, presente em 10-15% dos casos e com incidência crescente a partir dos 60 anos; zóster oftálmico, que acomete o ramo V1 em 10-20% dos casos, no qual o sinal de Hutchinson, vesícula na ponta do nariz pelo ramo nasociliar, alerta para risco de ceratite e exige avaliação oftalmológica urgente; síndrome de Ramsay Hunt, paralisia facial periférica com vesículas no conduto auditivo externo e hipoacusia; e vasculopatia cerebral granulomatosa em imunossuprimidos.
O vírus de Epstein-Barr infecta mais de 90% dos adultos. Na adolescência, a primoinfecção sintomática produz mononucleose infecciosa: febre prolongada, faringite exsudativa, linfadenopatia cervical posterior, esplenomegalia em cerca de 50% e hipertransaminasemia. O hemograma mostra linfocitose com mais de 10% de linfócitos atípicos, que são linfócitos T CD8 ativados contra linfócitos B infectados, e não as células infectadas pelo vírus: detalhe clássico de prova. O exantema maculopapular após ampicilina ou amoxicilina ocorre na maioria dos casos e não constitui alergia verdadeira ao antibiótico.
Diagnóstico: o teste de anticorpos heterófilos, Monospot ou Paul-Bunnell, tem sensibilidade de 63-84% em adultos, pode ser falso-negativo na primeira semana e tem desempenho ruim em menores de 5 anos. A sorologia resolve a dúvida: VCA-IgM positivo com EBNA-IgG negativo indica infecção aguda, pois o anticorpo anti-EBNA surge apenas após 3 a 6 semanas e persiste por toda a vida. Síndrome mononucleósica com heterófilo negativo sugere CMV, toxoplasmose aguda ou HIV agudo, o diferencial clássico. Complicações: ruptura esplênica em 0,1-0,5% dos casos, com proibição de esportes de contato por pelo menos 3 a 4 semanas; obstrução de vias aéreas por hipertrofia tonsilar, tratada com corticoide; anemia hemolítica autoimune; trombocitopenia; e síndrome de Guillain-Barré.
Oncogênese: o EBV é fator causal no linfoma de Burkitt endêmico africano, no carcinoma nasofaríngeo não queratinizante, em 30-40% dos linfomas de Hodgkin, na doença linfoproliferativa pós-transplante e no linfoma cerebral do paciente com aids, no qual a PCR para EBV no LCR de paciente com CD4 abaixo de 50 cél/mm³ é ferramenta diagnóstica de peso.
O citomegalovírus infecta 40-100% dos adultos conforme região e condição socioeconômica. Em imunocompetentes, causa síndrome mononucleósica com heterófilo negativo, febre prolongada e menos faringite que o EBV. Em imunossuprimidos, o espectro é dramático: retinite em pacientes com aids e CD4 abaixo de 50 cél/mm³, com miodesopsias e escotomas e fundo de olho com necrose retiniana com aspecto de ketchup com queijo; colite com diarreia e úlceras; esofagite; pneumonite em transplantados; e síndrome de reativação pós-transplante com febre, leucopenia e hepatite. O tratamento é ganciclovir 5 mg/kg IV a cada 12 horas por 14 a 21 dias de indução, com manutenção por valganciclovir 900 mg/dia até reconstituição imune (CD4 acima de 100 cél/mm³ por 3 a 6 meses na retinite); valganciclovir 900 mg VO a cada 12 horas é alternativa de indução na retinite sem ameaça imediata à visão.
A infecção congênita por CMV é a infecção congênita mais frequente, acometendo 0,3-1% dos nascidos vivos, e a principal causa não genética de surdez neurossensorial na infância: 10-20% das crianças infectadas terão perda auditiva, inclusive as assintomáticas ao nascer. Os 10-15% sintomáticos apresentam restrição de crescimento, petéquias, hepatoesplenomegalia com icterícia, microcefalia, calcificações periventriculares e coriorretinite. O tratamento da doença congênita sintomática com envolvimento do sistema nervoso central é valganciclovir 16 mg/kg VO a cada 12 horas por 6 meses, esquema que melhora os desfechos auditivos. O HHV-6B causa o exantema súbito, a roséola infantil: febre alta de 3 a 5 dias em lactentes que cede justamente quando surge o exantema macular rosado no tronco, e é uma das causas mais comuns de primeira convulsão febril entre 6 e 18 meses. O HHV-7 causa quadro semelhante. O HHV-8 é o agente do sarcoma de Kaposi, tumor de células endoteliais que na aids se apresenta como placas e nódulos violáceos cutâneos, e também do linfoma de cavidade serosa e da doença de Castleman multicêntrica; sarcoma de Kaposi e retinite por CMV são doenças definidoras de aids.
O HIV é um retrovírus do gênero Lentivirus, esférico e envelopado, com dois exemplares de RNA de fita simples e polaridade positiva e cerca de 9,7 mil bases. Os genes estruturais são gag, que codifica a proteína p24 do capsídeo e a p17 da matriz; pol, que codifica transcriptase reversa, integrase e protease; e env, que codifica as glicoproteínas gp120 e gp41. Os genes reguladores tat e rev e os acessórios nef, vif, vpr e vpu são alvos de prova: nef reduz a expressão de CD4 e de MHC-I na superfície celular, e vif degrada a proteína antiviral APOBEC3G.
Com produção de até 10 bilhões de virions por dia, a diversidade gerada em um único paciente ao longo de um ano supera a diversidade global do vírus influenza no mesmo período: essa é a base da resistência primária e do obstáculo ao desenvolvimento de vacinas. O antagonista de CCR5 maraviroc só é ativo contra vírus M-trópicos, o que exige teste de tropismo antes de seu uso.
| Fase | Intervalo típico | CD4 | Achados |
|---|---|---|---|
| Infecção aguda, síndrome retroviral aguda | 2 a 4 semanas após a exposição | queda transitória acentuada | febre, exantema maculopapular, faringite, úlceras orogenitais, linfadenopatia e mialgias em 40-90% dos infectados; confundida com mononucleose e dengue |
| Latência clínica, infecção crônica | mediana de 8 a 10 anos sem tratamento | declínio de 50-100 cél/mm³ por ano | linfadenopatia generalizada persistente e sintomas inespecíficos, com replicação viral contínua |
| Aids | quando CD4 cai abaixo de 200 cél/mm³ ou surge doença oportunista | abaixo de 200 | pneumonia por Pneumocystis jirovecii, tuberculose, candidíase esofágica, toxoplasmose cerebral, retinite por CMV e sarcoma de Kaposi |
A viremia atinge pico de até 10 milhões de cópias/mL na fase aguda, cai com a resposta citotóxica CD8 e estabiliza no ponto de equilíbrio, o set point, cuja magnitude prevê a velocidade de progressão. O diagnóstico na fase aguda tem valor terapêutico e de saúde pública: preserva a resposta imune específica ao HIV e interrompe a cadeia de transmissão. Toda síndrome febril com exantema e faringite em adulto com risco epidemiológico merece teste de quarta geração e, se recente e negativo, carga viral por amplificação de ácido nucleico, pois os anticorpos podem ainda não estar presentes.
Em 2023, cerca de 39,9 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo, com 1,3 milhão de novas infecções e 630 mil mortes relacionadas à aids no ano. O Brasil tem aproximadamente 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, com prevalência de cerca de 0,4% na população acima de 15 anos, configurando epidemia concentrada: prevalência abaixo de 1% na população geral e acima de 5% em subgrupos de exposição. A via sexual responde pela grande maioria das transmissões no país, com concentração de casos entre 25 e 39 anos.
O Ministério da Saúde recomenda testar todos os adultos pelo menos uma vez na vida, idealmente entre 15 e 64 anos, a cada 6 meses em pessoas com exposição de risco e todas as gestantes no primeiro trimestre. O diagnóstico tardio, definido por primeira contagem de CD4 abaixo de 350 cél/mm³ ou doença oportunista já no diagnóstico, ainda ocorre em parcela relevante dos casos novos e explica boa parte da mortalidade por aids no país.
A tuberculose é a principal infecção oportunista e a principal causa de morte infecciosa de pessoas vivendo com HIV: em 2023, cerca de 161 mil mortes por tuberculose ocorreram nesse grupo. O HIV multiplica por cerca de 17 vezes o risco de desenvolver tuberculose ao longo da vida, e a tuberculose, por sua vez, aumenta a replicação do HIV. No Brasil, em torno de 10% dos casos de tuberculose têm sorologia positiva para HIV: todo paciente com tuberculose deve ser testado, e toda pessoa com HIV, rastreada para tuberculose ao diagnóstico e em cada consulta, com busca ativa de sintomas respiratórios.
Com CD4 preservado, a coinfeção mimetiza a tuberculose pulmonar clássica, com tosse, sudorese noturna, emagrecimento e padrão apical cavitário. Com CD4 abaixo de 200 cél/mm³, predominam formas paucibacilares e extrapulmonares, ganglionares, miliares, meníngeas e peritoneais, com radiografias atípicas e baciloscopias negativas: cultivo, teste molecular rápido tipo Xpert MTB/RIF e biópsias tornam-se centrais.
| Teste | O que detecta | Janela típica | Uso |
|---|---|---|---|
| Teste rápido de 4ª geração | antígeno p24 e anticorpos | 18 a 45 dias | triagem em serviços e centros de testagem |
| Teste rápido de 3ª geração | anticorpos anti-HIV-1 e 2 | 23 a 90 dias | ainda em uso; negativo recente exige repetição em 30 dias |
| Imunoensaio laboratorial de 4ª geração | p24 e anticorpos | 18 a 45 dias | triagem inicial do algoritmo brasileiro |
| Carga viral por NAT | RNA do HIV | 10 a 33 dias | síndrome aguda com sorologia negativa e recém-nascidos de mães soropositivas |
| Teste de diferenciação | anticorpos contra HIV-1 e HIV-2 separadamente | após triagem reagente | confirmação e distinção de tipo; HIV-2 é intrinsecamente resistente aos não análogos de nucleosídeos |
O fluxo brasileiro: triagem reagente repetida em nova amostra com teste de diferenciação HIV-1/HIV-2; resultados indeterminados resolvem-se com carga viral e repetição sorológica em 30 dias. A carga viral sozinha não fecha diagnóstico, exceto no recém-nascido, pela PCR-DNA, e na síndrome aguda com sorologia negativa. Após o diagnóstico, solicitam-se CD4 e carga viral basais, sorologias para hepatites B e C, sífilis e toxoplasmose, creatinina e hemograma, com acompanhamento da carga viral em 8 a 12 semanas após o início do tratamento e depois a cada 3 a 6 meses.
A regra atual é testar e tratar: inicia-se terapia antirretroviral em toda pessoa com diagnóstico de HIV, independentemente do CD4, porque o ensaio START demonstrou redução de 57% em eventos graves, de aids e não aids, com o início imediato mesmo quando o CD4 era superior a 500 cél/mm³. A primeira linha brasileira é tenofovir disoproxila 300 mg mais lamivudina 300 mg mais dolutegravir 50 mg, por via oral uma vez ao dia, esquema de pílula única com alta barreira genética. O objetivo é carga viral abaixo de 50 cópias/mL, alcançada por mais de 90% dos pacientes em 6 meses com esquemas baseados em dolutegravir.
| Cenário | Esquema | Duração e observações |
|---|---|---|
| TARV inicial do adulto | tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg, VO, 1x/dia | indefinida; com rifampicina, dolutegravir 50 mg a cada 12 horas |
| PrEP oral diária | tenofovir 300 mg + emtricitabina 200 mg, 1 comprimido/dia | contínua, com creatinina e sorologias a cada 3 meses |
| PrEP sob demanda em homens que fazem sexo com homens | 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação, 1 comprimido 24 horas depois e 1 comprimido 48 horas depois | esquema 2+1+1, validado apenas para sexo anal em HSH |
| Profilaxia pós-exposição sexual ou ocupacional | tenofovir + lamivudina + dolutegravir, iniciada em até 72 horas | 28 dias, com a primeira dose tomada o quanto antes |
A supressão viral sustentada elimina o risco de transmissão sexual, o conceito indetectável equivale a intransmissível, pilar do tratamento como prevenção. A má adesão seleciona resistências: dolutegravir tem alta barreira genética, mas mutações da integrase como Q148 e R263K emergem em regimes descontinuados. Efeitos adversos para prova: tenofovir disoproxila com nefrotoxicidade e perda de densidade óssea; dolutegravir com ganho de peso; abacavir, fora da primeira linha brasileira, exige rastreamento de HLA-B*5701 pelo risco de hipersensibilidade.
| Limiar de CD4 em cél/mm³ | Infecção oportunista | Profilaxia |
|---|---|---|
| abaixo de 200 | pneumonia por Pneumocystis jirovecii | sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg/dia ou 3x/semana |
| abaixo de 100, com sorologia IgG positiva | toxoplasmose cerebral | o mesmo cotrimoxazol da profilaxia de Pneumocystis |
| abaixo de 50 | retinite por CMV, complexo Mycobacterium avium e criptococose | exame oftalmológico e azitromicina 1.200 mg/semana após descartar doença por MAC |
Com início precoce e boa adesão, a expectativa de vida de uma pessoa com HIV aproxima-se da população geral. Quem inicia com CD4 baixo recupera a imunidade apenas parcialmente e mantém risco residual de neoplasias e eventos cardiovasculares ligado à inflamação crônica. Sem tratamento, a aids evolui para óbito em meses a poucos anos. As complicações crônicas atuais são iatrogênicas ou inflamatórias: ganho de peso com dolutegravir e tenofovir alafamida, doença renal e osteopenia com tenofovir disoproxila, lipodistrofia legada dos inibidores de protease antigos. Vacinas recomendadas: hepatite B, influenza anual, pneumocócica, COVID-19 e, quando o CD4 supera 200 cél/mm³, varicela e HPV.
1.Lactente de 11 meses com febre alta há 4 dias apresenta, no mesmo dia da queda da febre, exantema macular rosado no tronco. Qual o agente mais provável?
2.Adulto com febre, confusão mental progressiva e crise convulsiva há 2 dias. Qual conduta diagnóstica e terapêutica correta ante a suspeita de encefalite herpética?
3.Recém-nascido de 12 dias com vesículas cutâneas difusas, hepatomegalia e convulsões tem herpes neonatal confirmado. Qual o esquema correto?
4.Criança de 3 anos com síndrome mononucleósica tem Monospot negativo. Qual a melhor interpretação e o próximo passo?
5.Paciente com aids, CD4 de 28 cél/mm³, queixa de miodesopsias e perda visual progressiva à direita. Qual o agente e o fundo de olho esperado?
6.O maraviroc, usado em esquemas de resgate, exige teste de tropismo prévio porque age inibindo qual alvo?
7.Qual a vantagem do teste de quarta geração sobre o teste rápido de terceira geração na testagem para HIV?
8.O ensaio START, publicado no NEJM em 2015, randomizou adultos assintomáticos com CD4 acima de 500 cél/mm³ para TARV imediata ou diferida. Qual a principal conclusão?
9.Pessoa com HIV recém-diagnosticada inicia tratamento para tuberculose pulmonar bacilífera hoje, com CD4 de 120 cél/mm³. Quando iniciar a TARV?
10.Pessoa vivendo com HIV em uso de dolutegravir 50 mg/dia precisa iniciar rifampicina por tuberculose. Qual o ajuste correto?
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