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Revisão completa de biossegurança em serviços de saúde: precauções padrão e isolamento (contato, gotículas, aerossóis), higiene das mãos da OMS, classificação de Spaulding, níveis de desinfecção e agentes com concentrações e tempos, métodos de esterilização com parâmetros, indicadores de monitoramento, fluxo do CME (RDC 15/2012), priões, resíduos e profilaxia pós-exposição ocupacional.
[1] Rutala WA, Weber DJ; HICPAC. Guideline for Disinfection and Sterilization in Healthcare Facilities, 2008. Atlanta: CDC; 2008 (atualizado 2019) · https://www.cdc.gov/infection-control/hcp/disinfection-sterilization/ | [2] Rutala WA, Weber DJ. Disinfection and sterilization in health care facilities. Infectious Disease Clinics of North America. 2021;35(3):575-607 · DOI 10.1016/j.idc.2021.04.004 | [3] World Health Organization. WHO Guidelines on Hand Hygiene in Health Care: First Global Patient Safety Challenge. Genebra: WHO; 2009 · https://www.who.int/publications/i/item/9789241597906 | [4] Rutala WA, Weber DJ. Disinfection and sterilization in health care facilities: what clinicians need to know. Clinical Infectious Diseases. 2004;39(5):702-709 · DOI 10.1086/423182 | [5] Brasil. ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 15, de 15 de março de 2012: regulamento técnico sobre requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde · http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2012/res0015_15_03_2012.html | [6] Brasil. ANVISA. RDC nº 222, de 28 de março de 2018: regulamento técnico de boas práticas de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde | [7] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.616, de 12 de maio de 1998: diretrizes e normas para a prevenção e o controle das infecções hospitalares · DOI 10.1016/j.idc.2021.04.004
Infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) acometem aproximadamente 7 em cada 100 pacientes hospitalizados em países de alta renda e até 10 em cada 100 em países de renda baixa e média (OMS), sendo que mais de metade dos episódios está ligada a dispositivos invasivos e a artigos médico-hospitalares mal processados. No Brasil, inquéritos de prevalência descrevem taxas de 6 a 14% e as IRAS figuram entre as principais causas diretamente relacionadas a óbitos hospitalares notificados à ANVISA. A maior parte desses eventos é evitável com três tecnologias baratas e centenárias: higiene das mãos corretamente executada (reduz IRAS em cerca de 30 a 50%), processamento adequado dos artigos entre pacientes (limpeza, desinfecção e esterilização segundo a classificação de Spaulding) e precauções de isolamento conforme a rota de transmissão. Este artigo cobre o encadeamento completo exigido em provas de microbiologia, infectologia e enfermagem: da classificação de risco do artigo ao ciclo da autoclave, do glutaraldeído do endoscópio à profilaxia pós-exposição do acidente perfurocortante.
Biossegurança é o conjunto de medidas técnicas, administrativas, educacionais e de engenharia destinadas a prevenir, controlar, reduzir ou eliminar riscos inerentes às atividades que possam comprometer a saúde humana, o animal e o ambiente - no hospital, isso engloba a proteção do paciente, do profissional e da comunidade. A pirâmide de controle de riscos deve ser percorrida do mais efetivo ao menos efetivo: eliminação ou substituição do risco, controles de engenharia (autoclaves com barreiras, salas de pressão negativa, cabines de segurança biológica), controles administrativos (rotinas, capacitação, CCIH), e apenas por último os equipamentos de proteção individual (EPI), que dependem de adesão e uso correto. No Brasil, a estrutura normativa inclui: Portaria GM/MS 2.616/1998 (diretrizes do programa de controle de infecção hospitalar e obrigatoriedade da CCIH, com médico e enfermeiro responsáveis), as RDCs da ANVISA sobre vigilância e notificação de IRAS, a RDC 42/2010 (obrigatoriedade de disponibilizar preparação alcoólica para fricção antisseptica das mãos em todos os pontos de assistência), a RDC 15/2012 (boas práticas de processamento de produtos para saúde, que rege o CME) e a RDC 222/2018 (gerenciamento de resíduos de serviços de saúde). As NR do Ministério do Trabalho (como a NR-32 de segurança em serviços de saúde) completam o arcabouço da proteção ocupacional.
As precauções padrão (standard precautions) partem do princípio de que sangue, fluidos corporais, secreções e excretas de QUALQUER paciente são potencialmente infecciosos, independentemente de diagnóstico suspeito ou confirmado. Componentes: higiene das mãos antes e após o contato; EPI proporcional ao risco previsto (luvas para contato com sangue, mucosas, pele não integra e superfícies contaminadas; avental impermeável quando houver risco de respingo; máscara e protetor ocular para procedimentos com aerossolização); higiene respirativa e etiqueta da tosse; manejo seguro de objetos perfurocortantes (não reencapar agulhas, descarte imediato em recipiente rígido com tampa no ponto de uso); limpeza e desinfecção de superfícies entre pacientes; manuseio correto de roupas e resíduos; e acomodação de pacientes com infecções transmissíveis em quartos privativos quando indicado. As precauções adicionais (baseadas na transmissão) somam-se às padrão, nunca as substituem.
| Precaução adicional | Rota e alcance | EPI e medida-chave | Exemplos clássicos |
|---|---|---|---|
| Contato | Contato direto com paciente ou indireto com superfícies e equipamentos | Luvas de contato + avental; equipamento dedicado; limpeza ambiental reforçada (ao menos 2x ao dia); quarto privativo | MRSA, VRE, enterobactérias produtoras de ESBL e carbapenemase, Clostridioides difficile, escabiose, pediculose, impetigo, herpes zoster disseminado, RSV, rotavírus, conjuntivite bacteriana |
| Gotículas | Gotículas maiores que 5 mícrons, projetadas até 1 metro (tosse, fala, aspiração) | Máscara cirúrgica ao entrar no quarto ou se aproximar a menos de 1-2 metros | Influenza, coqueluche, difteria faríngea, meningococcemia e meningite por Neisseria meningitidis, Haemophilus influenzae tipo b, Streptococcus pyogenes (faringite e pneumonia), rubéola, parvovírus B19, adenovírus, Mycoplasma |
| Aerossóis | Partículas menores que 5 mícrons que permanecem suspensas e se deslocam além de 1 metro | Quarto com pressão negativa e portas fechadas; respirador N95/PFF2 com teste de vedação; máscara no paciente no transporte | Tuberculose pulmonar bacilífera, sarampo, varicela e herpes zoster disseminado, antraz pulmonar, peste pneumônica, SARS-CoV-2 em procedimentos geradores de aerossol |
Proposta por Earle Spaulding em 1968 e adotada mundialmente pelo CDC, a classificação divide os artigos médico-hospitalares pelo risco de infecção associado ao seu uso, definindo o nível mínimo de reprocessamento exigido. Artigos críticos entram em tecidos estéreis ou no sistema vascular: exigem ESTERILIZAÇÃO. Artigos semicríticos entram em contato com mucosas íntegras ou pele não integra: exigem no mínimo DESINFECÇÃO DE ALTO NÍVEL (esterilização é desejável quando possível). Artigos não críticos entram em contato apenas com pele íntegra: exigem limpeza e, quando indicado, desinfecção de baixo ou médio nível. Duas regras de exceção cobradas em prova: materiais usados em pacientes com suspeita de doença por priões (Creutzfeldt-Jakob) devem ser tratados como de risco máximo (ver adiante), e artigos que perfuram pele ou mucosa SEMPRE são críticos, ainda que pareçam pouco invasivos (agulhas, fios de sutura, brocas).
| Categoria | Definição | Exemplos | Processamento mínimo exigido |
|---|---|---|---|
| Crítico | Entra em tecidos estéreis ou sistema vascular | Instrumental cirúrgico, agulhas, fios de sutura, implantes, cateteres vasculares, brocas odontológicas, endoscópios rígidos que transpõem barreira estéril | Esterilização (vapor, óxido de etileno, peróxido de hidrogênio, peracético, calor seco) |
| Semicrítico | Contato com mucosa íntegra ou pele não integra | Endoscópios flexíveis (gastros e colonoscópios), laringoscópios, espéculos vaginais, circuitos de anestesia, termômetros orais, tonômetros | Desinfecção de alto nível (glutaraldeído 2%, OPA, peracético, peróxido líquido); esterilização quando possível |
| Não crítico | Contato apenas com pele íntegra | Estetoscópios, manguitos de pressão, monitores, mobiliário, cama, muletas, eletrodos | Limpeza com detergente e desinfecção de baixo nível (álcool 70%, quaternário de amônio, hipoclorito diluído) entre pacientes |
Nenhuma desinfecção ou esterilização é confiável sem limpeza prévia: a remoção física da sujidade orgânica (sangue, tecidos, biofilme) com água, detergente enzimático e fricção mecânica (manual ou em termodesinfector e ultrassom) é a etapa que maior impacto tem na redução da carga microbiana - resíduos orgânicos inativam glutaraldeído, hipoclorito e formaldeído e isolam microrganismos da ação do agente. A desinfecção classifica-se em: alto nível (destrói todas as formas vegetativas, incluindo Mycobacterium tuberculosis, fungos e vírus envelopados e não envelopados, mas não necessariamente esporos em grande número), médio nível (destrui bactérias vegetativas e a maioria dos vírus e fungos, incluindo micobactérias com tempo prolongado) e baixo nível (destrui a maioria das bactérias vegetativas e vírus envelopados, sem ação tuberculicida confiável nem esporicida).
| Agente | Concentração usual | Tempo para alto nível | Vantagens e limitações |
|---|---|---|---|
| Glutaraldeído | 2% (solução ativada, a 20 graus Celsius) | 20 minutos (8-10 horas para esterilização por imersão) | Barato e compatível com endoscópios; irritante de vias aéreas e causa de dermatite ocupacional; requer enxágue abundante com água estéril; vida útil limitada após ativação (14-28 dias conforme monitoramento) |
| Ortoftalaldeído (OPA) | 0,55% | 12 minutos | Estável, pouco volátil e melhor tolerado que o glutaraldeído; mancha pele e superfícies; caro; advertência de anafilaxia em pacientes com câncer de bexiga expostos repetidamente em cistoscopias (FDA) |
| Ácido peracético | 0,2-0,35% (a 50-56 graus Celsius) | 10-15 minutos | Esterilante de baixa temperatura em sistemas automatizados para endoscópios; decompõe-se em resíduos não tóxicos (ácido acético, água, oxigênio); corrosivo para alguns metais |
| Álcool (etílico ou isopropílico) | 70% (faixa eficaz 60-90%) | Não alcança alto nível | Desinfecção de médio nível de superfícies e pequenos artigos; ação rápida; sem ação esporicida; evapora antes do tempo de contato se mal aplicado; inflamável e inativado por matéria orgânica |
| Hipoclorito de sódio | 250-500 mg/L para superfícies; 5.000 mg/L para derramamento de sangue (10 minutos de contato antes da limpeza) | Alto nível apenas em concentrações e tempos não práticos | Amplo espectro e barato; corrosivo para metais, danifica borrachas e tecidos; inativado por matéria orgânica; não usar em endoscópios e instrumental metálico |
| Quaternários de amônio (QAV) | Conforme fabricante (diluições de uso) | Baixo nível | Detergente e desinfetante de superfícies; baixa toxicidade; sem ação esporicida nem tuberculicida confiável; ação limitada contra norovírus |
| Fenólicos | Conforme fabricante | Médio a baixo nível | Usados em superfícies; absorção cutânea em neonatos - não recomendar em berçários e incubadoras |
| Peróxido de hidrogênio líquido | 3-7,5% | Médio a alto nível conforme concentração | Sem residuais tóxicos; pode danificar cobre, zinco e latão |
Esterilização é a destruição de todas as formas de vida microbiana, incluindo esporos (redução de 10 elevado a 6 da carga esporulada - sal de esporos 10^-6). O vapor saturado sob pressão (autoclave) é o método de eleição: rápido, não tóxico, barato e de penetração confiável, quando o artigo for resistente ao calor e à umidade. O ciclo gravidade 121 graus Celsius mantém 30 minutos para instrumental embalado (20 minutos para não embalado); o ciclo pré-vácuo a 132 graus Celsius mantém 4 minutos embalado, após remoção do ar pelo vácuo (verificada diariamente pelo teste de Bowie-Dick); ciclos instantâneos (flash) a 132 graus por 3 minutos são exceção para instrumental não embalado de uso imediato. O calor seco (estufa de Pasteur) exige 160 graus Celsius por 2 horas ou 170 graus Celsius por 1 hora e serve a óleos, pós e vidraria. Artigos termossensíveis recebem processos de baixa temperatura: óxido de etileno (37-63 graus Celsius, 1-6 horas de exposição, seguido de aeração de 8-12 horas a 50-60 graus para eliminar resíduo tóxico e carcinogênico; penetra canais longos; risco ocupacional de mutagenicidade e explosividade, exigindo exaustão), peróxido de hidrogênio em fase vapor/plasma (46-56 graus Celsius, ciclos de 28 a 75 minutos; não aceita celulose, líquidos, canais muito estreitos e cargas com lúmen maiores que limites do fabricante), ácido peracético líquido automatizado (50-56 graus, cerca de 12 minutos, para endoscópios e instrumental delicado), vapor de formaldeído a baixa temperatura (cerca de 60 graus, restrito por toxicidade) e, na indústria de descartáveis, radiação gama (25-40 kGy), não disponível nos serviços.
| Método | Parâmetros típicos | Indicações e limitações |
|---|---|---|
| Vapor saturado (autoclave) gravidade | 121 graus Celsius, 30 min (embalado) | Instrumental metálico, tecidos, borrachas; não serve a termossensíveis |
| Vapor pré-vácuo | 132 graus Celsius, 4 min (embalado); teste de Bowie-Dick diário | Padrão atual das centrais de material; ciclos mais curtos e secos |
| Vapor instantâneo (flash) | 132 graus Celsius, 3 min, não embalado | Excepcional, para instrumental de uso imediato; não substitui ciclo completo |
| Calor seco | 160 graus Celsius por 2 h ou 170 graus Celsius por 1 h | Óleos, vaselina, pós, vidraria metálica; tempo longo e sem umidade |
| Óxido de etileno (ETO) | 37-63 graus Celsius, 1-6 h + aeração 8-12 h | Termossensíveis e com lúmen longo (broncoscópios flexíveis, placas); tóxico, mutagênico e exige monitoramento ocupacional |
| Peróxido de hidrogênio vapor/plasma | 46-56 graus Celsius, ciclo 28-75 min | Instrumental óptico e de vídeo; proibida celulose no interior; limites de lúmen |
| Ácido peracético líquido | 0,2-0,35% a 50-56 graus, cerca de 12 min | Sistemas automatizados para endoscópios; resíduos não tóxicos |
| Radiação gama (industrial) | 25-40 kGy | Esterilização terminal de descartáveis de fábrica (seringas, suturas) |
Cada ciclo deve ser monitorado nos três níveis. Indicadores físicos: os registradores de temperatura, pressão e tempo da própria câmara, revisados e arquivados ciclo a ciclo. Indicadores químicos: mudam de cor frente a condições do processo e classificam-se em 6 classes - a classe 1 (externa, indica exposição) fica em cada embalagem; a classe 2 é o teste de Bowie-Dick, que detecta remoção inadequada de ar no pré-vácuo e deve ser corrido diariamente em câmara vazia; a classe 5 (integradora) responde a todos os parâmetros críticos e acompanha cada pacote; a classe 6 emula o ciclo. Indicadores biológicos: usam esporos de Geobacillus stearothermophilus para vapor, peróxido e peracético, e de Bacillus atrophaeus para calor seco e óxido de etileno; a leitura rápida (24 horas, por detecção fluorométrica de crescimento ou de atividade enzimática) permite liberação antecipada. Regras de ouro: processar indicador biológico pelo menos semanalmente, em cada ciclo de implantes e após manutenção ou instalação da autoclave; liberação de carga com implante aguarda resultado; todo pacote deve ser identificado com lote, data e condições de processamento para rastreabilidade e possível recall; pacotes reprovar qualquer indicador interno implica reprocessar todo o lote e investigar a causa.
| Indicador | O que avalia | Frequência mínima |
|---|---|---|
| Físico (registrador gráfico/digital) | Temperatura, pressão e tempo reais do ciclo | Todo ciclo, com registro arquivado |
| Químico classe 1 (externo) | Se o pacote passou pelo processo | Todos os pacotes |
| Químico classe 2 (Bowie-Dick) | Remoção do ar no ciclo pré-vácuo | Diariamente, em câmara vazia |
| Químico classe 5 (integrador interno) | Todos os parâmetros críticos (tempo, temperatura, saturação) | Cada pacote ou kit |
| Biológico (esporos de G. stearothermophilus ou B. atrophaeus) | Morte esporicida real - padrão de liberação de implante | Semanal, em cada carga com implante e após manutenção da autoclave |
O Centro de Material e Esterilizado (CME, também chamado CME/Central de Esterilização) processa os artigos em fluxo unidirecional da área suja para a área limpa, sem cruzamento, em quatro etapas sequenciais regidas pela RDC 15/2012 da ANVISA. No expurgo (área suja): recepção, desmontagem e limpeza (imersão em detergente enzimático, fricção com escovas de lúmen, ultrassom ou termodesinfector), enxágue e secagem, com EPI completo (luva de borracha reforçada, avental impermeável, máscara com protetor facial) pela exposição a sangue e desinfetantes. No preparo (área limpa): inspeção de integridade e funcionamento, montagem dos kits, acondicionamento em invólucro de grau cirúrgico (dupla embalagem de papel + crepado ou papel + não tecido; invólucros rígidos com filtro e travas) e identificação de lote, data e assinatura. Na esterilização: distribuição dos pacotes respeitando o limite de capacidade da câmara, com espaço entre eles e papel-plástico na vertical. No armazenamento e distribuição: prateleiras a cerca de 20-25 cm do piso, 45 cm do teto e afastadas da parede, ambiente seco com temperatura e umidade controladas, sem manipulação excessiva. A validade do artigo esterilizado é EVENTO-RELACIONADA: vale enquanto a embalagem estiver íntegra, seca e sem contaminção acidental - a data registrada serve à rastreabilidade e à política interna, e pacotes úmidos, rasgados, abertos ou que caíram no chão devem ser reprocessados.
Endoscópios flexíveis são o exemplo canônico de artigo semicrítico complexo: não podem ir à autoclave (termossensíveis), possuem canais longos e estreitos onde se forma biofilme e são reutilizados em dezenas de pacientes por dia. O reprocessamento segue etapas rígidas: limpeza manual imediata com detergente enzimático e escovação de TODOS os canais (a etapa de maior impacto - falhas na limpeza explicam praticamente todos os surtos ligados a endoscópios); teste de estanqueidade; desinfecção de alto nível por imersão total e perfusão dos canais com glutaraldeído 2% por no mínimo 20 minutos a 20 graus (ou OPA 0,55% por 12 minutos, ou ácido peracético em sistema automatizado); enxágue com água estéril ou filtrada; secagem com álcool 70% seguido de ar comprimido em todos os canais; e armazenamento em armário seco e ventilado, na posição vertical, para impedir umidade residual. Duas questões atuais que caem em prova: o duodenoscópio, cujo elevador de ponta não é totalmente lavável, foi vinculado a transmissão de enterobactérias multirresistentes (inclusive carbapenemases), levando a recomendações de monitoramento microbiológico, culturas e migração para modelos com canal elevador descartável ou capas estéreis de uso único; e o conceito de que canais não perfundidos não são desinfetados, independente do tempo de imersão.
Príons (proteínas infecciosas resistentes) são os agentes mais resistentes aos processos convencionais: resistem ao álcool, aldeídos, formaldeído, autoclave padrão e radiação ultravioleta. Suspeita de doença por prião (Creutzfeldt-Jakob, por exemplo) exige protocolo especial: sempre que possível, usar instrumental descartável; para artigos críticos reprocessáveis, recomenda-se limpeza inicial mantendo o artigo úmido (evitar fixação de tecido), imersão em hidróxido de sódio 1N por 1 hora e esterilização em vapor pré-vácuo a 134 graus Celsius por 18 minutos (ou ciclos combinados conforme protocolo), com descarte quando inviável o tratamento; superfícies e tecidos contaminados recebem hipoclorito de sódio 2% ou hidróxido de sódio por 1 hora. Situações especiais adicionais: pacientes com Clostridioides difficile exigem hipoclorito na desinfecção ambiental (esporos resistem ao álcool e aos quaternários) e lavagem das mãos com água e sabão em vez de preparação alcoólica; e surtos de norovírus também pedem hipoclorito, pois quaternários têm ação limitada.
O acidente perfurocortante é a emergência ocupacional mais comum do serviço de saúde. Conduta imediata: lavar o local abundantemente com água e sabão (ferida) ou irrigar com soro fisiológico ou água (mucosas); NÃO espremer a ferida, NÃO usar hipoclorito, iodo ou qualquer cáustico no ferimento; registrar o acidente e acionar o serviço de saúde ocupacional imediatamente. A avaliação classifica o risco pela via (percutânea, mucosa, pele não integra), profundidade, presença de sangue visível, agulha de veia ou lúmen arterial e pelo estado clínico da fonte (carga viral, tratamento). Riscos basais de transmissão por exposição percutânea a sangue infectado: HIV cerca de 0,3% (1 em 300), hepatite B até 30% em não vacinado quando a fonte é HBeAg positiva (6% quando HBeAg negativa) e hepatite C em torno de 1,8%; mucosas: HIV cerca de 0,09%. Profilaxia: para HIV, iniciar o quanto antes (idealmente em até 2 horas, máximo aceitável de 72 horas) antirretrovirais por 28 dias - esquema preferencial brasileiro de tenofovir + lamivudina (ou emtricitabina) associado a dolutegravir, uma vez ao dia, ajustado à fonte; para hepatite B, o não vacinado ou não respondedor exposto recebe vacina (esquema acelerado) e, quando a fonte é HBsAg positiva ou desconhecida de alto risco, imunoglobulina hiperimune (HBIG) 0,06 mL/kg intramuscular em até 7 dias (ideal 24-48 horas); para hepatite C não há profilaxia - acompanhar com ALT e RNA do HCV entre 2 e 6 semanas e sorologia em 4-6 meses para diagnóstico e tratamento precoce da infecção aguda, que é curável. A fonte deve ser testada com consentimento (HIV, HBsAg, anti-HBC, anti-HCV) e o acidentado ter sorologias basais; a não notificação do acidente é causa frequente de perda da janela de profilaxia.
O gerenciamento de resíduos faz parte da biossegurança e é regulado pela RDC 222/2018 da ANVISA, que exige de cada serviço um PGRSS (Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde). Os resíduos classificam-se por grupo: A (resíduos com risco biológico ou contaminação - culturas, tecidos, bolsas de sangue, materiais de aspiração e carcaças), B (resíduos químicos perigosos - quimioterápicos, metais pesados, reagentes), C (rejeitos radioativos, sob responsabilidade da CNEN), D (resíduos comuns, sem contaminação - papel, embalagens, restos alimentares que não ofereçam risco) e E (perfurocortantes - agulhas, lâminas, ampolas de vidro rompidas, escalpes). Regras práticas: o grupo A é acondicionado em saco branco leitoso identificado, substituído quando atingir 2/3 da capacidade; o grupo E, em recipiente rígido, resistente a perfuração e vazamento, com tampa e símbolo, preenchido até 2/3 e nunca reencapado ou dobrado; segregação na fonte é a etapa decisória do gerador e o erro mais comum (tratar tudo como infectado encarece e sobrecarrega o sistema, e misturar perfurocortantes ao lixo comum expõe a equipe de limpeza).
Para o estudante de microbiologia, os níveis de biossegurança (NB, ou BSL em inglês) definem as combinações de práticas de trabalho, equipamentos de contenção (cabines de segurança biológica classe I, II e III) e instalações exigidas para manipular cada agente com segurança. A correspondência segue o risco do agente: NB-1 para microrganismos sem risco conhecido para o indivíduo e o ambiente ( Bacillus subtilis, Escherichia coli K-12); NB-2 para agentes de risco moderado com potencial de doença grave por exposição acidental, manipulados com cabine de segurança biológica classe II - inclui a maioria das bactérias médicas (Salmonella, Shigella, Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes), vírus como HIV, HBV, HCV (amostras clínicas), Toxoplasma e Cryptococcus; NB-3 para agentes com transmissão por aerossóis e doença grave ou letal, exigindo laboratório com pressão negativa, airlocks e cabines classe II ou III - Mycobacterium tuberculosis (culturas e manipulação), Brucella, Bacillus antracis, Coxiella burnetii, Histoplasma capsulatum, SARS-CoV, MERS-CoV e o isolamento viral de SARS-CoV-2; NB-4 para agentes exóticos de alta letalidade com risco de aerosolização e sem vacina ou tratamento - Ebola, Marburg, Lassa, Machupo e outros vírus hemorrágicos -, restritos a laboratórios de referência com cabine classe III e trajes pressurizados (no Brasil, o Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua, é a referência nacional).
1.Um video-colonoscópio flexível é reutilizado entre pacientes. Pela classificação de Spaulding, ele é artigo:
2.O tempo mínimo de imersão em glutaraldeído 2% a 20 graus Celsius para desinfecção de alto nível de um laringoscópio é:
3.Sobre a higiene das mãos conforme as diretrizes da OMS:
4.O indicador biológico padrão para monitorar a esterilização por vapor saturado utiliza esporos de:
5.Paciente com suspeita de tuberculose pulmonar bacilífera aguarda coleta de escarro. As precauções indicadas são:
6.Sobre o reprocessamento de artigos antes da esterilização, a etapa de maior impacto na redução da carga microbiana e condição de validade das etapas seguintes é:
7.A validade da esterilização de um pacote de instrumental armazenado em prateleira seca e fechada, conforme CDC e boas práticas, é:
8.Profissional sofreu perfurocortante com agulha de veia de paciente com HIV conhecido e carga viral detectável. A profilaxia pós-exposição correta é:
9.Na desinfecção do quarto de paciente com colite por Clostridioides difficile, o agente e o cuidado com as mãos corretos são:
10.Sobre a manipulação de culturas de Mycobacterium tuberculosis em laboratório de microbiologia, o nível de biossegurança exigido é:
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