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Revisão completa das bactérias atípicas e intracelulares (Mycoplasma, Chlamydia, Legionella, Coxiella, Rickettsia, Brucella, Bartonella, Listeria): microbiologia estrutural, mecanismos de sobrevivência intracelular, síndromes clínicas, métodos diagnósticos com sensibilidade e especificidade, esquemas terapêuticos com doses e o manejo empírico da febre maculosa brasileira segundo ATS/IDSA, CDC e Ministério da Saúde.
[1] Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67 · DOI 10.1164/rccm.201908-1581ST | [2] Waites KB, Talkington DF. Mycoplasma pneumoniae and Its Role as a Human Pathogen. Clin Microbiol Rev. 2004;17(4):697-728 · DOI 10.1128/CMR.17.4.697-728.2004 | [3] Phin N, Parry-Ford F, Harrison T, et al. Epidemiology and clinical management of Legionnaires' disease. Lancet Infect Dis. 2014;14(10):1011-1021 · DOI 10.1016/S1473-3099(14)70713-3 · PMID 24970283 | [4] Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187 · DOI 10.15585/mmwr.rr7004a1 · PMID 34292926 | [5] de Oliveira SV, Guimarães JN, Reckziegel GC, et al. An update on the epidemiological situation of spotted fever in Brazil. J Venom Anim Toxins Incl Trop Dis. 2016;22:22 · DOI 10.1186/s40409-016-0077-4 | [6] Bennett JE, Dolin R, Blaser MJ. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 9ª ed. Philadelphia: Elsevier; 2020 · DOI 10.1164/rccm.201908-1581ST
O rótulo atípica nasceu na era pré-antibiótica para separar as pneumonias que não se comportavam como as causadas pelo Streptococcus pneumoniae: início insidioso, tosse seca, auscuta pobre e radiografia mais alterada que o exame físico. Hoje o conceito é microbiológico e une três propriedades que as provas adoram cobrar: esses agentes não crescem nos meios rotineiros de laboratório (ágar sangue e chocolate), não respondem aos beta-lactâmicos (penicilinas e cefalosporinas) e, na maioria, vivem dentro das células do hospedeiro. Estima-se que os agentes atípicos respondam por algo entre 20% e 40% das pneumonias adquiridas na comunidade, com variação importante conforme região, faixa etária e método diagnóstico, e a decisão de cobri-los empiricamente é explicitamente discutida na diretriz ATS/IDSA de 2019.
O grupo das intracelulares é ainda mais amplo que o das atípicas respiratórias e inclui as zoonoses bacterianas de maior letalidade no Brasil, em especial a febre maculosa brasileira, cuja letalidade histórica supera 30% quando o tratamento é tardio. Para a prova, a lógica é sempre a mesma: se a bactéria vive dentro da célula ou não tem parede celular, o beta-lactâmico falha por dois motivos (ausência de alvo ou concentração intracelular insuficiente) e a escolha recai sobre macrolídeos, tetraciclinas ou fluoroquinolonas, drogas que se concentram no interior dos fagossomas e do citoplasma. Dominar esse racional resolve a maioria das questões de antimicrobianos do tema.
A melhor forma de estudar o tema é agrupar os agentes por estilo de vida e tropismo tissular. O primeiro grupo é o das atípicas respiratórias clássicas: Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae e Legionella pneumophila. O segundo reúne as clamídias de transmissão não respiratória, com destaque para a Chlamydia trachomatis, a infecção bacteriana de notificação compulsória mais frequente do mundo, e a Chlamydophila psittaci, a psitacose das aves. O terceiro agrupa as riquétsias e riquétsias-like endoteliais e macrófago-trópicas: Rickettsia rickettsii (febre maculosa), Coxiella burnetii (febre Q), Bartonella henselae (doença da arranhadura do gato), Brucella spp. e Francisella tularensis. O quarto grupo reúne as intracelulares facultativas clássicas da prática hospitalar: Listeria monocytogenes, Salmonella de crescimento intracelular e o próprio Mycobacterium tuberculosis, que sobrevive no macrófago inibindo a fusão do fagossoma com o lisossomo.
| Grupo | Representantes | Parede celular | Cultivo | Droga de escolha |
|---|---|---|---|---|
| Atípicas respiratórias | M. pneumoniae, C. pneumoniae, L. pneumophila | Ausente (Mycoplasma) ou presente | Meios especiais (SP4; BCYE para Legionella) | Macrolídeo, doxiciclina ou fluoroquinolona |
| Clamídias | C. trachomatis, C. psittaci | Presente, mas sem ácido murâmico funcional | Cultivo celular (não rotina) | Doxiciclina ou azitromicina |
| Riquétsias e zoonoses intracelulares | R. rickettsii, C. burnetii, Bartonella, Brucella, Francisella | Presente (ríquétsias com composição atípica) | Cultivo celular, ovo embrionado, BSL-3 | Doxiciclina (cloranfenicol como alternativa) |
| Intracelulares facultativas hospitalares | L. monocytogenes, M. tuberculosis, Salmonella | Presente (Listeria é gram-positiva) | Meios rotineiros (ágar sangue) | Ampicilina + aminoglicosídeo (Listeria); esquemas específicos |
O Mycoplasma pneumoniae é a menor bactéria de vida livre capaz de replicação extracelular, mede de 0,1 a 0,2 micrômetros, atravessa filtros de 0,45 micrômetro, não possui parede celular e por isso é naturalmente resistente a todos os beta-lactâmicos. Sua membrana carrega colesterol esterificado (único entre as bactérias) e o organelo terminal com a adesina P1 se liga ao epitélio ciliado respiratório, causando ciliostase e dano epitelial direto, além de liberar a toxina CARDS (community-acquired respiratory distress syndrome toxin), uma ADP-ribosiltransferase com homologia à toxina pertússica. Nas placas com meio SP4 forma colônias com aspecto de ovo frito após 2 a 3 semanas, e historicamente foi chamado de agente de Eaton.
As clamídias são cocos gram-negativos (coram mal pela técnica de Gram) e possuem um ciclo de vida dimórfico único: o corpo elementar, metabolicamente inerte e infeccioso, adere e entra por endocitose; dentro do vacúolo de inclusão transforma-se em corpo reticulado, metabolicamente ativo, que se divide por fissão binária e rediferencia-se em corpos elementares, rompendo a célula após 48 a 72 horas. A Chlamydia trachomatis acumula glicogênio nas inclusões e pode ser corada pelo iodo, diferentemente da C. pneumoniae. A Legionella pneumophila é um bacilo gram-negativo aeróbio que não cresce em ágar sangue nem em chocolate: exige o meio BCYE (buffered charcoal yeast extract), suplementado com ferro e L-cisteína, com colônias típicas em 3 a 5 dias, detalhe cobrado exaustivamente em provas de microbiologia.
As riquétsias são cocos-bacilos gram-negativos obrigatoriamente intracelulares, corados preferencialmente por Giemsa ou Gimenez, e só podem ser cultivadas em ovo embrionado, cultivo de célula ou animal de laboratório, com manipulação restrita a laboratórios de biossegurança nível 3. A Coxiella burnetii forma estruturas resistentes semelhantes a esporos, infecta pela via aérea com dose infectante mínima muito baixa (poucos organismos) e é uma das causas mais frequentes de infecção laboratorial adquirida por aerossol. A Brucella é um coco-bacilo gram-negativo de crescimento lento (hemoculturas podem exigir 14 a 28 dias com sistema Castaneda) e todo isolamento deve ser comunicado ao laboratório por risco ocupacional. A Listeria monocytogenes é um bacilo gram-positivo beta-hemolítico, com motilidade em cambalhota (tumbling) a 25 graus Celsius em meio semissólido, formando o desenho de guarda-chuva a partir da picada, e com capacidade singular de multiplicar-se a 4 graus Celsius, o que explica sua associação com alimentos refrigerados prontos para consumo.
O Mycoplasma pneumoniae infecta preferencialmente escolares e adultos jovens (5 a 20 anos), causa surtos fechados em escolas, quartéis e universidades e apresenta periodicidade epidêmica a cada 3 a 7 anos. A Legionella tem predileção por homens acima de 50 anos, tabagistas, portadores de doença pulmonar crônica, transplantados, pacientes em uso de corticoide ou anti-TNF e com neoplasias hematológicas; a transmissão é por aerossol de sistemas de água (torres de resfriamento, chuveiros, fontes decorativas, banheiras de hidromassagem), sem transmissão pessoa a pessoa, e cerca de 70% a 85% dos casos de doença dos legionários são devidos ao sorogrupo 1. A febre maculosa brasileira é endêmica nas áreas de mata atlântica do Sudeste, sobretudo São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, transmitida por carrapatos Amblyomma sculptum (carrapato estrela, associado a capivaras, área rural) e Amblyomma aureolatum (carrapato amarelo do cão, área urbana verde de São Paulo), com cães como sentinelas domésticos e maior incidência no verão, de outubro a março.
A brucelose é doença ocupacional de fazendeiros, veterinários e trabalhadores de abatedouros, transmitida pelo leite cru e queijos artesanais e pelo contato com produtos de aborto animal (as fêmeas gestantes eliminam concentrações enormes da bactéria na placenta e líquidos). No Brasil predominam a Brucella abortus (bovinos, com programas de vacinação de rebanho) e a B. suis (suínos), com a B. melitensis restrita a importações, enquanto a B. canis acomete criadores de cães. A febre Q acompanha o mesmo perfil de exposição a ruminantes. A psitacose exige anamnese dirigida de contato com psitacídeos, pombos e aves de criação. A doença da arranhadura do gato é a causa mais comum de linfadenopatia regional crônica em crianças e adolescentes com contato com gatos jovens e suas pulgas. A listeriose atinge os dois extremos da vida: gestantes (doença leve na mãe, abortamento e infecção neonatal) e adultos acima de 65 anos ou imunossuprimidos, por alimentos prontos para consumo refrigerados.
Cada grupo resolveu de um modo o problema de sobreviver dentro do fagócito, e esses mecanismos são queridinhos das bancas. A Legionella pneumophila injeta mais de 300 efetores na célula hospedeira pelo sistema de secreção tipo IV Dot/Icm, sequestra vesículas do retículo endoplasmático e forma um vacúolo replicativo que não funde com o lisossomo nem sofre acidificação; em camundongos, o flagelina detectada no citosol ativa o inflamassoma NAIP5-NLRC4, o que explica a resistência natural dessa espécie. As clamídias usam um sistema de secreção tipo III para remodelar a inclusão e desviar da via endocítica lisosomal. A Coxiella é o caso oposto e didático: é a única que exige o vacúolo acidificado fundido ao lisossoma (vacúolo contendo Coxiella, CCV) para ativar seu metabolismo e se replicar, por isso o hidróxido de amônio e a cloroquina inibem sua multiplicação em cultura.
A Rickettsia rickettsii escapa do fagossoma em minutos, multiplica-se no citoplasma e usa a polimerização de actina (proteínas da superfamília RickA) para se espalhar célula a célula; seu tropismo pelo endotélio vascular explica a vasculite disseminada com rash petequial, edema, trombocitopenia e lesão de múltiplos órgãos. A Listeria monocytogenes é o modelo clássico de motilidade actina-dependente: a listeriolisina O (LLO) rompe o vacúolo e a proteína ActA nucleia polimerização de actina formando cometas que propulsionam a bactéria para a célula vizinha, permitindo disseminação sem exposição extracelular aos anticorpos. A Brucella sobrevive em vacúolo derivado do retículo endoplasmático, estimula a formação de granulomas não caseosos e tem preferência metabólica pelo eritritol, açúcar abundante na placenta, testículo e medula óssea, o que explica seus focos de osteomielite, espondilodiscite e orquite. Todas essas estratégias convergem para uma consequência terapêutica: só atingem o patógeno as drogas com boa penetração intracelular, como macrolídeos, tetraciclinas e fluoroquinolonas.
A pneumonia atípica clássica do Mycoplasma começa de forma insidiosa com mal-estar, cefaleia, dor de garganta, mialgias e tosse seca que se torna persistente; a febre é menor que na pneumonia pneumocócica, a ausculta é discretamente alterada e a radiografia mostra consolidações focais ou infiltrados intersticiais bilaterais mais extensos que o esperado, a famosa dissociação clínico-radiológica. Manifestações extrapulmonares definem as questões difíceis: eritema multiforme e Stevens-Johnson, anemia hemolítica autoimune por aglutininas frias (anti-I), meningoencefalite, ataxia cerebelar, miocardite e síndrome de Guillain-Barré. A Legionella se apresenta como pneumonia grave com pistas que devem acender o alerta: diarreia aquosa, dor abdominal, hiponatremia inferior a 130 mEq/L, elevação de creatinofosfoquinase e transaminases, encefalopatia e ausência de resposta a 48 a 72 horas de beta-lactâmico; existe ainda a febre de Pontiac, forma autolimitada sem pneumonia, com incubação curta de horas.
A febre maculosa brasileira inicia de 2 a 8 dias após a picada do carrapato com febre alta, cefaleia intensa, mialgias e prostração; entre o 2º e o 5º dia de febre surge exantema maculopapular que se torna petequial, começando em punhos, tornozelos, palmas e plantas (acral) e depois generalizando-se para tronco e raiz de membros, o padrão inverso do exantema viral. Ao contrário das riquétsioses do Velho Mundo e do tifo escrub, a escara de inoculação é rara na febre maculosa do Novo Mundo, e a trombocitopenia com elevação de transaminases é quase universal. A brucelose é a febre ondulante com sudoreses noturnas de odor característico, artralgias, lombalgia (espondilodiscite), hepatoesplenomegalia e orquite aguda. A febre Q aguda cursa com pneumonia atípica ou hepatite granulomatosa com febre e elevação de transaminases, e a forma crônica é endocardite cultura-negativa de válvula previamente doente. A doença da arranhadura do gato é papula de inoculação seguida de linfadenopatia regional dolorosa e de evolução arrastada (2 a 4 meses), com supuração em minoria dos casos; em imunossuprimidos causa angiomatose bacilar e peliose hepática. A listeriose do adulto é meningite ou bacteremia em idosos e imunossuprimidos e, em adultos previamente saudáveis, rara romboencefalite (tronco encefálico) que imita acidente vascular.
| Agente | Pista clínica decisiva | Laboratório típico | Tratamento |
|---|---|---|---|
| M. pneumoniae | Escolar, tosse seca, surto em escola | Radiologia mais extensa que a clínica; PCR | Azitromicina 500 mg/dia por 3 a 5 dias ou doxiciclina |
| C. pneumoniae | Adulto jovem, quadro leve e arrastado | Sorologia MIF pareada | Doxiciclina 100 mg 12/12h por 7 a 10 dias |
| L. pneumophila | Grave, diarreia, hiponatremia, CK elevada | Antígeno urinário positivo | Levofloxacino 750 mg/dia ou azitromicina |
| C. psittaci | Contato com aves, esplenomegalia | PCR de escarro; sorologia | Doxiciclina 100 mg 12/12h por 7 a 14 dias |
| C. burnetii (aguda) | Exposição a ruminantes, hepatite com febre | IFI anti-fase II com IgM | Doxiciclina 100 mg 12/12h por 14 dias |
| R. rickettsii | Febre com exantema acral petequial | Trombocitopenia, TGO/TGP elevadas | Doxiciclina empírica imediata |
Para as pneumonias atípicas, o método de escolha atual é a biologia molecular (PCR em tempo real de swab nasofaríngeo ou escarro), com resultados em horas; a sorologia exige pareamento entre amostra aguda e convalescente (4 semanas) com elevação de 4 vezes do título para confirmar e, portanto, é retrospectiva. As aglutininas frias do Mycoplasma são inespecíficas e pouco sensíveis, não servindo para decisão clínica. Para Legionella, o antígeno urinário tem sensibilidade de cerca de 70% a 80% e especificidade próxima de 100% para o sorogrupo 1, com positividade em poucos dias de doença e persistência por semanas; a cultura em BCYE é o método definitivo (permite tipagem e vigilância epidemiológica) e a sonda fluorescente ou PCR somam sensibilidade nos sorogrupos não cobertos pelo antígeno. Para Chlamydia trachomatis, os NAAT de primeira urina ou swab vaginal são padrão-ouro operacional, com sensibilidade acima de 90%, e substituíram a cultura.
Na febre Q, a imunofluorescência indireta diferencia as fases: na doença aguda predominam anticorpos anti-fase II, e a forma crônica é definida por títulos de IgG anti-fase I iguais ou superiores a 1:800, critério adotado pelo CDC, com PCR útil nas primeiras 2 semanas antes da soroconversão. Na febre maculosa, a sorologia de referência no Brasil é a imunofluorescência indireta para IgG, que costuma ser negativa na primeira semana da doença, exigindo pareamento de amostras; a imuno-histoquímica de biópsia de pele da lesão e a PCR em sangue estão disponíveis em laboratórios de referência, mas nenhum resultado deve atrasar a doxiciclina. Na brucelose, o soroaglutinação de Wright (SAT) com título maior ou igual a 1:160, ou elevação de 4 vezes entre amostras, confirma, complementada por hemoculturas prolongadas; na listeriose e nas outras intracelulares facultativas, a cultura de sangue ou líquor resolve. Na Bartonella, a sorologia por imunofluorescência é o teste inicial, com PCR e coloração de Warthin-Starry no tecido ganglionar.
| Agente | Método de escolha | Comentário para a prova |
|---|---|---|
| M. pneumoniae | PCR (NAAT) de nasofaringe | Aglutininas frias são inespecíficas; sorologia é pareada |
| L. pneumophila | Antígeno urinário + cultura em BCYE | Antígeno detecta apenas o sorogrupo 1; sens 70-80% |
| C. trachomatis | NAAT de urina ou swab | Sensibilidade acima de 90%; triagem de assintomáticos |
| C. burnetii | IFI fases I e II | Crônica: IgG anti-fase I maior ou igual a 1:800 |
| R. rickettsii | IFI IgG pareada (referência no Brasil) | Negativa na 1ª semana; nunca atrasar a doxiciclina |
| Brucella spp. | SAT maior ou igual a 1:160 + hemocultura | Hemoculturas prolongadas; avisar o laboratório |
| B. henselae | Sorologia IFA + PCR de gânglio | Coloração de Warthin-Starry no tecido |
| L. monocytogenes | Cultura de sangue ou líquor | Cresce em meios rotineiros; atenção à motilidade |
O princípio unificador é escolher drogas com concentração intracelular: macrolídeos, tetraciclinas e fluoroquinolonas. Na pneumonia adquirida na comunidade ambulatorial, a ATS/IDSA 2019 aceita amoxicilina alta (1 g a cada 8 horas) quando o objetivo é cobrir apenas pneumococo, mas o aluno deve reconhecer os cenários em que a cobertura de atípicos é preferida: comorbidades, uso prévio de antibióticos, surtos institucionais e pneumonia grave. Nas internações em enfermaria sem risco de resistência, a associação beta-lactâmico (ampicilina-sulbactam, ceftriaxona) mais macrolídeo, ou monoterapia com fluoroquinolona respiratória, cobre os atípicos. Em pacientes graves em UTI, a associação beta-lactâmico mais macrolídeo (ou mais fluoroquinolona respiratória) é mandatória, pois a Legionella está entre os agentes potencialmente fatais desse grupo.
| Droga | Dose em adultos | Via | Duração usual |
|---|---|---|---|
| Azitromicina | 500 mg no 1º dia, depois 250 mg/dia (ou 500 mg/dia) | VO ou IV | 3 a 5 dias (até 10 na legionelose) |
| Claritromicina | 500 mg a cada 12 horas | VO | 7 a 14 dias |
| Doxiciclina | 100 mg a cada 12 horas | VO ou IV | 7 a 14 dias (21 ou mais em zoonoses) |
| Levofloxacino | 750 mg uma vez ao dia | VO ou IV | 5 dias (pneumonia); 7 a 14 na legionelose |
| Moxifloxacino | 400 mg uma vez ao dia | VO ou IV | 7 a 14 dias |
| Cloranfenicol | 50 mg/kg/dia fracionado a cada 6 horas | VO ou IV | 7 dias (alternativa na febre maculosa) |
Esquemas específicos valem memorização separada. Legionelose grave ou em imunossuprimido: levofloxacino 750 mg/dia por 5 a 10 dias ou azitromicina 500 mg/dia por 5 a 10 dias, estendendo para até 3 semanas em transplantados. Febre Q aguda: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas por 14 dias; febre Q crônica (endocardite): doxiciclina 100 mg a cada 12 horas associada à hidroxicloroquina 200 mg a cada 8 horas por pelo menos 18 meses, com monitoramento da concentração plasmática de doxiciclina (alvo acima de 5 microgramas/mL), a associação que reduz recaídas; na gestação, substituir a doxiciclina por sulfametoxazol-trimetoprima. Psitacose: doxiciclina por 7 a 14 dias. Brucelose sem complicações: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas por 6 semanas combinada a aminoglicosídeo (estreptomicina 1 g IM/dia por 2 a 3 semanas ou gentamicina 5 mg/kg/dia por 7 dias); a alternativa doxiciclina mais rifampicina por 6 semanas tem mais recaídas; espondilodiscite exige no mínimo 3 meses de tratamento. Febre maculosa brasileira: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas por 7 dias (ou até 48 a 72 horas após a defervescência), iniciada empiricamente na suspeita clínica.
Nas demais intracelulares: doença da arranhadura do gato em imunocompetente é autolimitada, com azitromicina (500 mg no 1º dia e 250 mg do 2º ao 5º) reservada a adenomegalia volumosa ou sintomas persistentes, preferindo aspiração com agulha a incisão e drenagem; em imunossuprimidos, doxiciclina mais rifampicina ou azitromicina. Listeriose do sistema nervoso: ampicilina 2 g IV a cada 4 horas (ou 200 a 300 mg/kg/dia) somada à gentamicina 2 mg/kg IV a cada 8 horas por sinergia, mantendo o esquema por 21 dias na meningite, com o alerta clássico de que as cefalosporinas não têm atividade contra Listeria, erro fatal em empíricos de meningite em idosos. Tularemia: estreptomicina 1 g IM a cada 12 horas por 7 a 14 dias (ou gentamicina), com doxiciclina ou ciprofloxacino por via oral como alternativas de 14 dias; não há transmissão autóctone bem documentada no Brasil, mas o agente é cobrado como zoonose do hemisfério norte. Chlamydia trachomatis genital uncomplicada: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas por 7 dias é o esquema preferido do CDC 2021, com azitromicina 1 g em dose única como alternativa, além de tratamento de parceiros.
A febre maculosa brasileira é a riquétsiose mais letal das Américas e merece seção própria por duas razões: o diagnóstico é clínico-epidemiológico e o atraso terapêutico mede em dias a diferença entre cura e óbito. O Ministério da Saúde recomenda tratar empiricamente todo paciente com febre alta acompanhada de exantema (sobretudo petequial e acral), cefaleia e trombocitopenia que esteve nos 14 dias anteriores em área endêmica ou com carrapatos, sabendo que a letalidade historicamente ultrapassa 30% no país. A imunofluorescência indireta é o teste de referência, mas é negativa na primeira semana na maioria dos casos, e o tratamento não deve jamais aguardar sorologia, biópsia ou PCR. A doxiciclina por via oral ou venosa é a droga de escolha inclusive em crianças pequenas e gestantes quando a doença ameaça a vida, entendimento consolidado a partir de evidências de que cursos curtos não produzem manchamento dentário ou hipoplasia óssea relevantes, com o cloranfenicol reservado como alternativa em gestantes.
Na vigilância, a notificação é compulsória e a investigação busca o local provável de infecção (área rural com capivaras e carrapato estrela, ou área urbana arborizada com cães e carrapato amarelo), orientando medidas de controle ambiental e o acompanhamento de comunicantes com febre. A prevenção individual baseia-se em repelentes com DEET ou icaridina, roupas claras de manga longa, barreiras de permetrina e, principalmente, na inspeção corporal rigorosa e remoção cuidadosa do carrapato o mais precocemente possível após atividades em mata ou capim, sabendo que a transmissão da riquétsia exige carrapato alimentado por horas, de modo que a remoção rápida reduz o risco. Para legionelose, a prevenção é estrutural: planos de gestão de água em hospitais e hotéis com manutenção de temperaturas inadequadas ao crescimento, cloração e monitoramento. Para listeriose, gestantes e idosos devem evitar queijos não pasteurizados, frios embalados prolongadamente e peixes defumados refrigerados; para brucelose e febre Q, pasteurização do leite, uso de EPI no manejo de partos animais e vacinação de rebanhos bovinos.
As complicações separam os grupos em provas de clínica. Na legionelose, a progressão para insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica e síndrome da angústia respiratória aguda, além de falência renal e choque séptico, ocorre com frequência, e a letalidade fica entre 5% e 10% em tratados e pode dobrar em imunossuprimidos. Na febre maculosa, o retardo da doxiciclina leva a vasculite cerebral, meningoencefalite, edema pulmonar não cardiogênico, choque, necrose cutânea e gangrena de extremidades com amputações, além de sequelas neurológicas como surdez neurosensorial e déficits focais em sobreviventes. No Mycoplasma, as complicações extrapulmonares dominam: Stevens-Johnson, anemia hemolítica com hemoglobinúria, miocardite, meningoencefalite e polirradiculoneuropatia desmielinizante. Na brucelose, a cronicidade traz espondilodiscite lombar, orquite, artrites periféricas e, raramente, endocardite de válvula aórtica que pode exigir troca valvar. Na febre Q, a endocardite crônica cursa meses a anos com febre baixa, perda de peso, ferritina muito elevada e vegetações pouco cultiváveis, podendo evoluir para insuficiência cardíaca. Na listeriose, a meningite do idoso tem mortalidade da ordem de 20% a 30%, e a infecção neonatal precoce (granulomatose infantiseptica) tem mortalidade elevada apesar do tratamento.
Fechando o raciocínio para a prova: diante de pneumonia com curso insidioso ou com pistas sistêmicas atípicas (diarreia, hiponatremia, exantema acral, linfadenopatia após contato com animais), o estudante deve pensar imediatamente em agente intracelular, escolher o diagnóstico laboratorial correto (PCR para respiratórias, antígeno urinário para Legionella, IFI pareada para riquétsias e Coxiella, SAT e hemocultura para Brucella) e aplicar o esquema com dose e duração adequados, lembrando que a única emergência empírica inegociável do grupo é a doxiciclina na febre maculosa brasileira.
1.Um homem de 58 anos, tabagista, internado com pneumonia lobar grave, apresenta diarreia, hiponatremia de 128 mEq/L e elevação de CK e transaminases, sem melhora após 72 horas de ceftriaxona. Qual o exame com melhor relação sensibilidade-especificidade para o agente mais provável?
2.Sobre o Mycoplasma pneumoniae, qual estrutura ou componente está ausente e explica a resistência inata aos beta-lactâmicos?
3.Qual meio de cultura é necessário para isolar Legionella pneumophila?
4.Criança de 7 anos com febre há 4 dias, cefaleia e exantema petequial iniciado nos punhos e tornozelos, com trombocitopenia, vinda de área rural de São Paulo. Qual a conduta imediata?
5.Fazendeiro com febre ondulante há 3 semanas, sudorese noturna, lombalgia e espondilodiscite lombar na ressonância. Qual par confirma o diagnóstico de brucelose?
6.Qual é o critério sorológico que define febre Q crônica por Coxiella burnetii?
7.Idoso diabético com meningite bacteriana e líquor com predomínio neutrofílico recebe ceftriaxona sem melhora; a cultura cresceu bacilo gram-positivo beta-hemolítico com motilidade em cambalhota a 25 graus Celsius. Qual o antimicrobiano correto?
8.Adolescente com papula no antebraço após arranhadura de gato e linfadenopatia axilar dolorosa de 3 centímetros há 6 semanas, afebril. Qual a conduta adequada?
9.Paciente com pneumonia comunitária grave em UTI. Segundo a ATS/IDSA 2019, qual esquema garante cobertura para agentes atípicos, incluindo Legionella?
10.Gestante de 26 semanas com diagnóstico de febre Q aguda. Qual a conduta antimicrobiana indicada?
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