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Revisão completa sobre a estrutura IMRAD do artigo científico: história e função de cada seção (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão), regras de título, resumo estruturado e tabelas, diretrizes de relato (CONSORT, STROBE, PRISMA), critérios de autoria do ICMJE e erros que levam à rejeição.
[1] International Committee of Medical Journal Editors. Recommendations for the Conduct, Reporting, Editing, and Publication of Scholarly Work in Medical Journals. Atualização 2023 · https://www.icmje.org/recommendations/ | [2] Sollaci LB, Pereira MG. The introduction, methods, results, and discussion (IMRAD) structure: a fifty-year survey. J Med Libr Assoc. 2004;92(3):364-371 · PMC442179 | [3] Docherty M, Smith R. The case for structuring the discussion of scientific papers. BMJ. 1999;318(7193):1224-1225 · DOI 10.1136/bmj.318.7193.1224 | [4] Pereira MG. Artigos Científicos: Como Redigir, Publicar e Avaliar. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017 | [5] EQUATOR Network. Library for Health Research Reporting (CONSORT, STROBE, PRISMA e outras diretrizes) · https://www.equator-network.org | [6] Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 6022: Artigo de periódico - Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT; 2018 · DOI 10.1136/bmj.318.7193.1224
O artigo original é a moeda da ciência e, na área da saúde, quase todo ele obedece a um mesmo esqueleto: IMRAD, a sigla de Introduction, Methods, Results and Discussion (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão). O levantamento histórico de Sollaci e Pereira, que cobriu meio século de publicações, mostrou que o formato se espalhou a partir dos anos 1950 e 1960 e tornou-se dominante nos anos 1980, até ser formalizado como exigência pelo Grupo de Vancouver (criado em 1978, hoje ICMJE), cujas Recomendações padronizam manuscritos biomédicos no mundo inteiro. Para o estudante de medicina, dominar o IMRAD é competência tripla: permite escrever relatórios de iniciação científica e artigos com clareza, permite ler criticamente qualquer estudo reconhecendo onde cada informação deve estar, e é tema recorrente de prova em metodologia. A lógica profunda do formato é a mesma do raciocínio clínico: por que a pergunta importa (Introdução), como a evidência foi produzida (Métodos), o que foi encontrado (Resultados) e o que os achados significam (Discussão).
IMRAD é o formato padrão de organização do artigo científico original nas ciências da saúde, em que o texto se desdobra em Introdução, Métodos, Resultados e Discussão, circundado por elementos pré-textuais (título, resumo, palavras-chave) e pós-textuais (referências, tabelas e figuras, agradecimentos, declarações). Sua função é dupla: padronizar a comunicação entre autores, editores, revisores e leitores, permitindo localizar qualquer tipo de informação em local previsível; e espelhar a lógica do método científico, separando rigidamente o que foi feito e observado (evidência) do que o autor pensa sobre isso (interpretação). A padronização é também um instrumento de avaliação pela pares: o revisor checa se os métodos sustentam os resultados e se a discussão não ultrapassa os dados, e as diretrizes de relato (CONSORT, STROBE, PRISMA) são, na prática, checklists que auditam seções específicas do IMRAD.
| Seção do artigo | Função principal | Erro comum que derruba o manuscrito |
|---|---|---|
| Título | Identificar o estudo com precisão, de preferência indicando o desenho | Títulos vagos ou que anunciam conclusão não sustentada |
| Resumo | Condensar objetivo, métodos, resultados principais com números e conclusão | Omitir dados quantitativos ou divergir do texto completo |
| Introdução | Contextualizar, expor a lacuna e declarar o objetivo | Transformar-se em minirrevisão da literatura sem objetivo explícito |
| Métodos | Permitir a reprodução do estudo e julgar a validade | Omitir cálculo amostral, desfechos ou aprovação ética |
| Resultados | Apresentar os dados sem interpretação | Infiltrar comentários e conclusões na seção |
| Discussão | Interpretar achados à luz da literatura e limitações | Repetir os resultados ou concluir além do que os dados permitem |
| Referências | Dar crédito e permitir verificação (estilo Vancouver) | Citações desatualizadas, incompletas ou não consultadas |
A Introdução segue o formato de funil invertido e se constrói em três movimentos: primeiro o contexto (o que se sabe sobre o problema e por que ele importa, com dados de prevalência, mortalidade ou custo), depois a lacuna (o que ainda não se sabe ou a contradição existente na literatura) e, por fim, o objetivo (uma frase clara, geralmente na última linha, do que o estudo se propõe a responder). Em um artigo original ela deve ocupar algo entre 10 e 15% do texto, com 5 a 10 referências bem escolhidas; textos muito longos denunciam que o autor não delimitou a pergunta. O objetivo declarado precisa ser coerente com o desenho descrito nos Métodos e com os desfechos apresentados nos Resultados: objetivo, método e resultado formam o fio condutor que o revisor confere linha a linha.
Os Métodos respondem à pergunta do revisor mais severa: outro pesquisador, com este texto, conseguiria repetir o estudo? A seção descreve, nesta ordem habitual: desenho do estudo (ensaio randomizado, coorte, transversal, caso-controle) e período; cenário e local; participantes com critérios de elegibilidade (inclusão e exclusão); variáveis estudadas com definição operacional dos desfechos, distinguindo desfecho primário de secundários; exposições e intervenções com doses e esquemas quando aplicável; tamanho da amostra com o cálculo que a justifica (erro alfa, poder, tamanho de efeito esperado); processo de amostragem e alocação (incluindo ocultação da alocação e cegamento, nos ensaios); métodos estatísticos por desfecho; e aspectos éticos. Cada item omitido aqui vira limitação na Discussão ou motivo de rejeição: a ausência de cálculo amostral, por exemplo, impede julgar se o estudo tinha poder para detectar o efeito declarado.
As diretrizes de relato, reunidas na rede EQUATOR, traduzem cada desenho de estudo em checklist item a item mapeado sobre as seções do IMRAD, e periódicos de qualidade as exigem na submissão e as publicam junto ao artigo. Elas não avaliam a qualidade da ciência feita, e sim a transparência com que foi relatada, o que já basta para mudar a prática de escrita: redigir com o checklist aberto ao lado previne as omissões que os revisores mais apontam.
| Diretriz | Tipo de estudo | Itens do checklist |
|---|---|---|
| CONSORT 2010 | Ensaio clínico randomizado | 25 itens + fluxograma de fluxo de participantes |
| STROBE | Estudos observacionais (coorte, caso-controle, transversal) | 22 itens |
| PRISMA 2020 | Revisão sistemática e metanálise | 27 itens + fluxograma de seleção |
| CARE | Relato de caso | 13 itens |
Os Resultados apresentam os achados na ordem de importância definida nos Métodos, começando pela descrição da amostra e pelo desfecho primário, sem qualquer interpretação: frases como surpreendentemente ou infelizmente não pertencem à seção, e o comentário sobre significância clínica fica para a Discussão. O texto deve conduzir o leitor pelas tabelas e figuras, destacando os números-chave, sem repetir exaustivamente todo o conteúdo tabular. Tabelas e figuras devem ser autoexplicativas: título completo, unidades, abreviaturas definidas em nota de rodapé e legenda que permita entendê-las sem voltar ao texto; cada uma é citada no corpo (Tabela 1, Figura 2) e não duplica informação já dita em outra. Os dados apresentados são os analisados: o número de participantes de cada análise precisa fechar com o fluxograma, e resultados seletivamente omitidos configuram viés de publicação seletiva dentro do próprio artigo.
A Discussão é a seção mais mal escrita dos artigos, e o editorial clássico de Docherty e Smith no BMJ (1999) propôs uma estrutura em sete parágrafos que se tornou referência: 1) enunciar o achado principal com uma frase; 2) resumir a literatura prévia relevante sobre a pergunta; 3) apresentar o achado novo do estudo e onde ele se encaixa; 4) explicar ou especular sobre mecanismos e diferenças em relação aos estudos anteriores; 5) declarar forças e limitações do estudo (as limitações, de forma honesta e sem defesas automáticas); 6) discutir implicações para prática clínica, política de saúde ou pesquisa futura; 7) concluir com uma frase vinculada aos dados, sem exageros. A regra de ouro é não concluir além do que os resultados sustentam e não repetir a Introdução: a Discussão deve mostrar o que o estudo acrescentou, referenciando a literatura apenas no necessário para situar os achados.
O título deve ser específico e informativo, idealmente indicando população, intervenção ou exposição e desenho do estudo (por exemplo, terminando em ensaio clínico randomizado ou estudo de coorte); títulos com pontos de exclamação, perguntas retóricas ou abreviações não padrão prejudicam a indexação. O resumo, hoje estruturado na maioria dos periódicos de saúde (Objective, Methods, Results, Conclusions), deve conter os números principais do estudo, respeitar o limite usual de 250 a 300 palavras e ser integralmente consistente com o texto completo: divergências entre resumo e artigo são apontadas pelos revisores e pelos leitores críticos. As palavras-chave, em número típico de 3 a 10, devem vir de vocabulários controlados (DeCS para a Literatura Latino-Americana, MeSH para o PubMed), porque são elas que garantem recuperabilidade do artigo nas buscas. A norma ABNT NBR 6022 rege a apresentação de artigos de periódico no Brasil, incluindo elementos pré e pós-textuais.
O ICMJE define autoria por quatro critérios cumulativos: contribuição substancial para a concepção ou desenho, aquisição, análise ou interpretação dos dados; redação ou revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final a publicar; e responsabilidade por todos os aspectos do trabalho na exatidão e integridade do que foi relatado. Obter financiamento, coletar dados ou supervisionar a pesquisa, isoladamente, não conferem autoria: esses papéis devem aparecer nos agradecimentos. Autoria concedida por cortesia (autor convidado) e autor fantasma (quem escreve não aparece, comum em manuscritos produzidos pela indústria) são más práticas que os periódicos perseguem. As declarações de conflito de interesses e de financiamento, o plágio (incluindo autoplagio e a publicação redundante) e a exigência de registro prévio de ensaios clínicos integram o mesmo corpo de ética de publicação; no Brasil, a plataforma Brasil e os sistemas dos periódicos fazem a detecção de similaridade antes da avaliação.
| Critério de autoria ICMJE | O que exige |
|---|---|
| 1 - Contribuição substancial | Participação na concepção e desenho, aquisição, análise ou interpretação dos dados |
| 2 - Redação ou revisão crítica | Elaborar o texto ou revisá-lo intelectualmente de forma relevante |
| 3 - Aprovação final | Concordar com a versão final a ser publicada |
| 4 - Responsabilidade (accountability) | Responder pela exatidão e integridade de todas as partes do trabalho |
O formato também é um roteiro de leitura: a validade interna de um artigo se julga principalmente nos Métodos (o desenho responde à pergunta? o cálculo amostral é adequado? o cegamento é apropriado? os desfechos são objetivos?), enquanto a magnitude e a precisão dos efeitos vêm dos Resultados (tamanho de efeito com intervalo de confiança), e a extrapolação para o paciente concreto se discute na Discussão (limitações e generalizabilidade). Um exercício que rende pontos em qualquer prova: diante de um resumo estruturado, mapear cada frase em sua seção de origem e identificar se alguma afirmação de resultado é, na verdade, interpretação antecipada. Ao redigir, o caminho inverso funciona igualmente: escrever primeiro os Métodos e Resultados (a parte factual), depois a Discussão e por último Introdução, resumo e título, quando o autor já sabe exatamente o que o artigo mostra.
1.A sigla IMRAD corresponde, em ordem, às seções:
2.Na estrutura em funil da Introdução, a sequência correta dos três movimentos é:
3.Qual afirmação NÃO pertence à seção de Resultados?
4.A estrutura recomendada para a Discussão por Docherty e Smith (BMJ, 1999) começa com:
5.Ensaio clínico randomizado, estudo observacional de coorte e revisão sistemática relacionam-se, respectivamente, às diretrizes:
6.Segundo o ICMJE, quantos critérios cumulativos definem a autoria de um manuscrito e qual atividade, isolada, NÃO confere autoria?
7.O cálculo do tamanho amostral e a definição do desfecho primário devem constar obrigatoriamente em qual seção?
8.Sobre tabelas e figuras de um artigo científico, a regra correta é:
9.No Brasil, a realização de pesquisa com seres humanos exige:
10.O levantamento histórico de Sollaci e Pereira (2004) sobre o IMRAD demonstrou que:
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