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Ensina como escolher a medida-resumo e o gráfico corretos para cada tipo de variável, como ler e construir forest plot, Kaplan-Meier e curvas ROC, como apresentar efeito, intervalo de confiança e valor de p, e como evitar os erros gráficos clássicos cobrados em provas e defendidos nas diretrizes de relato.
[1] Weissgerber TL, Milic NM, Winham SJ, Garovic VD. Beyond Bar and Line Graphs: Time for a New Data Presentation Paradigm. PLoS Biol. 2015;13(4):e1002128 · DOI 10.1371/journal.pbio.1002128 | [2] von Elm E, Altman DG, Egger M, et al. The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) Statement. Lancet. 2007;370(9596):1453-1457 · DOI 10.1016/S0140-6736(07)61602-X | [3] Schulz KF, Altman DG, Moher D; CONSORT Group. CONSORT 2010 Statement: updated guidelines for reporting parallel group randomised trials. BMJ. 2010;340:c332 · DOI 10.1136/bmj.c332 | [4] Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71 · DOI 10.1136/bmj.n71 | [5] Tufte ER. The Visual Display of Quantitative Information. 2nd ed. Cheshire: Graphics Press; 2001 · DOI 10.1371/journal.pbio.1002128
Coletar dados é só metade do método: a forma como os dados são resumidos e exibidos decide o que o leitor entende — e o que ele entende errado. Uma média apresentada onde a distribuição é assimétrica, uma barra de erro de erro-padrão-da-média onde se esperava desvio-padrão ou um eixo Y truncado mudam completamente a percepção do resultado. Provas de metodologia exploram exatamente isso: dada a variável, qual medida e qual gráfico; dado o desenho, qual diretriz de relato; dado o efeito, como expressá-lo (risco relativo, redução absoluta, número necessário para tratar). Este artigo organiza essas decisões em tabelas de decisão prontas para usar em provas, TCC, pôsteres e artigos.
Toda escolha estatística e gráfica começa pela classificação da variável. Variáveis qualitativas (categóricas) podem ser nominais, quando as categorias não têm ordem (sexo, tipo sanguíneo, etiologia de anemia), ou ordinais, quando existe hierarquia entre categorias (escore de Glasgow, classificação de Killip, dor em escala verbal). Variáveis quantitativas podem ser discretas, resultantes de contagem (número de internações, número de filhos), ou contínuas, medidas em escala numérica com valores intermediários possíveis (pressão arterial, peso, tempo de internação em horas). A distinção importa porque a natureza da variável determina a medida-resumo adequada, o teste estatístico permitido e o gráfico correto — e porque escalas ordinais como Glasgow e Killip, embora numéricas, são tratadas como ordinais e resumidas por mediana e intervalo interquartílico, nunca por média e desvio-padrão.
| Tipo de variável | Exemplos clínicos | Medida-resumo correta | Gráfico adequado |
|---|---|---|---|
| Qualitativa nominal | Sexo, etiologia, sangue, óbito (sim/não) | Frequência absoluta e relativa (porcentagem) | Gráfico de barras ou setores (poucas categorias) |
| Qualitativa ordinal | Glasgow, Killip, NYHA, dor verbal | Moda, mediana e intervalo interquartílico | Barras ordenadas pelas categorias; box-plot |
| Quantitativa discreta | Número de internações, de episódios de dor | Média e desvio-padrão (se simétrica) ou mediana e IIQ | Histograma ou diagrama de pontos |
| Quantitativa contínua | Pressão arterial, peso, hemoglobina, tempo | Média e DP se simétrica; mediana e IIQ se assimétrica | Histograma, box-plot, dispersão (duas variáveis) |
| Temporal até evento | Sobrevida, tempo até reinternação | Mediana de sobrevida e estimativa de Kaplan-Meier | Curva de Kaplan-Meier |
A tabela é a forma mais densa e precisa de apresentar dados: um leitor consegue comparar dezenas de valores em uma tabela que um gráfico não comportaria. A tabela de distribuição de frequências organiza os dados em classes (para variáveis contínuas, classes de amplitude fixa) com suas frequências absolutas (ni), relativas (percentuais), acumuladas ou não. Tabelas de contingência cruzam duas variáveis categóricas — a tabela 2x2 é o formato central da pesquisa clínica: em um ensaio, as células são evento/no grupo tratamento, evento/no controle, sem evento/tratamento, sem evento/controle, e delas derivam risco, risco relativo, diferença de risco e número necessário para tratar. A Tabela 1 de um artigo (características basais) é uma convenção consagrada: linhas são variáveis, colunas são grupos, e o teste de cada linha indica se os grupos eram comparáveis na randomização.
A média aritmética usa todos os valores e é a melhor medida de centro para distribuições simétricas, mas é sensível a valores extremos (outliers): uma internação de 90 dias desloca a média de permanência de uma enfermaria inteira. A mediana divide a distribuição ao meio (50% abaixo, 50% acima), é resistente a outliers e é a medida de centro para distribuições assimétricas e variáveis ordinais. A moda indica o valor mais frequente e serve para variáveis nominais. Nenhuma medida de centro dispensa uma medida de dispersão: o desvio-padrão quantifica o espalhamento médio em torno da média; o intervalo interquartílico (Q3 - Q1) cobre os 50% centrais dos dados e acompanha a mediana; a amplitude (máximo - mínimo) usa só dois valores e ignora tudo no meio; o coeficiente de variação (DP/média x 100) permite comparar dispersão entre variáveis de unidades diferentes.
| Medida | Definição | Quando usar | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Média | Soma dos valores dividida por n | Distribuição simétrica, variável contínua | Sensível a outliers; sozinha não descreve nada |
| Mediana | Valor central (percentil 50) | Distribuição assimétrica, ordinais, presença de outliers | Não usa toda a informação dos valores |
| Moda | Valor mais frequente | Variáveis nominais | Pode não existir ou não ser única |
| Desvio-padrão (DP) | Raiz quadrada da variância; dispersão em torno da média | Complemento da média em distribuições simétricas | Em distribuição normal, cerca de 95% dos valores entre média +/- 2 DP |
| Intervalo interquartílico (IIQ) | Diferença entre o 3o e o 1o quartil (Q3 - Q1) | Complemento da mediana | Reportar como mediana (IIQ 25-75%) |
| Amplitude | Máximo menos mínimo | Descrição rápida | Ignora a distribuição interna dos dados |
| Coeficiente de variação | DP dividido pela média, vezes 100 | Comparar dispersão entre variáveis/grupos de unidades diferentes | Só faz sentido para variáveis de razão com média positiva |
O desvio-padrão descreve a variabilidade dos INDIVÍDUOS da amostra; o erro-padrão da média (EPM = DP dividido pela raiz quadrada de n) descreve a variabilidade da MÉDIA estimada se o estudo fosse repetido muitas vezes; o intervalo de confiança de 95% é o intervalo que, em repetições do estudo, conteria o verdadeiro valor do parâmetro em 95% das vezes. Como o EPM divide o DP pela raiz de n, amostras grandes produzem barras de erro ridiculamente pequenas que sugerem precisão inexistente dos indivíduos — usar EPM no lugar de DP para descrever variabilidade é a forma mais comum de inflar artificialmente a aparência de significância em figuras. Regra prática para figuras: para descrever os dados, use DP ou, preferencialmente, pontos individuais; para estimar parâmetros (médias, diferenças, riscos), use intervalo de confiança de 95%. Com n = 25 e DP = 10 mmHg, o EPM é 2 mmHg — a figura com EPM encolhe cinco vezes a dispersão real.
O gráfico existe para tornar um padrão visível em segundos; escolhido errado, esconde o padrão. A regra básica segue a variável: categóricas comparam frequências em barras (o eixo começa em zero); contínuas têm sua distribuição mostrada em histograma; a relação entre duas contínuas vai em diagrama de dispersão; evolução temporal de uma medida vai em gráfico de linhas; comparação de distribuições entre grupos fica clara em box-plots, que exibem mediana, quartis, amplitude e outliers de uma vez. O artigo de Weissgerber e colaboradores (PLoS Biology, 2015) mostrou que praticamente todos os artigos de periódicos de alto impacto de fisiologia usavam barras ou linhas para amostras pequenas, ocultando a distribuição, outliers e a adequação dos pressupostos dos testes — a recomendação dos autores é exibir os pontos individuais sempre que o tamanho da amostra permitir, e nunca resumir n menor que 10 por grupo em barras de média.
| Pergunta / variáveis | Gráfico correto | Não use |
|---|---|---|
| Comparar frequências de categorias (nominal) | Barras (com eixo iniciando em zero) | Setores 3D com muitas categorias |
| Distribuição de uma variável contínua | Histograma (ou curva de densidade) | Barras de médias sem dispersão |
| Comparar distribuição contínua entre grupos | Box-plot ou pontos individuais | Barras de média isoladas, sobretudo com n pequeno |
| Associação entre duas contínuas | Dispersão (com reta de regressão se couber) | Barras lado a lado |
| Evolução de uma medida no tempo | Linhas (uma por grupo) | Setores |
| Composição de um todo (poucas categorias) | Setores simples ou barras empilhadas | Setores 3D ou com mais de 5-6 fatias |
| Sobrevida ao longo do tempo com censura | Kaplan-Meier | Barras de sobrevivência em um ponto único |
| Gráfico | O que mostra | Como ler / onde aparece |
|---|---|---|
| Forest plot | Resultado de cada estudo e o pooled da metanálise | Cada linha é um estudo: quadrado proporcional ao peso, linha horizontal = IC 95%; o losango resume o efeito combinado; se o losango cruza a linha de nulidade, o efeito não é significante |
| Kaplan-Meier | Probabilidade de permanecer livre do evento ao longo do tempo | Escada decrescente; cada degrau é um evento; pacientes censurados aparecem como marcas; compare curvas com log-rank e expresse efeito em hazard ratio |
| Curva ROC | Capacidade discriminatória de um teste contínuo | Sensibilidade (eixo Y) versus 1 - especificidade (eixo X); quanto mais próximo do canto superior esquerdo, melhor; resumo numérico = área sob a curva (0,5 = acaso; 0,9 = excelente) |
| Bland-Altman | Concordância entre dois métodos de medida | Diferença entre métodos (Y) versus média dos métodos (X); concórdância = pontos dentro dos limites de concordância de 95% (média +/- 1,96 DP) |
| Fluxograma CONSORT/PRISMA | Trilha dos participantes/estudos | Randomizados, perdas e analisados (CONSORT); identificados, excluídos, incluídos na síntese (PRISMA); transparência de perdas e viés |
Resultados clínicos devem ser apresentados como tamanho de efeito com intervalo de confiança, e não apenas como valor de p. As medidas de efeito para desfechos binários derivam todas da tabela 2x2: risco no grupo tratamento (a/n1), risco no controle (c/n2), risco relativo (RR = risco tratamento/risco controle), redução de risco relativo (RRR = 1 - RR), redução de risco absoluto (ARR = risco controle - risco tratamento) e número necessário para tratar (NNT = 1/ARR). Exemplo numérico completo: em um ensaio com 100 pacientes por grupo, incidência de 10% no tratamento e 20% no controle, RR = 0,50, RRR = 50%, ARR = 10 pontos percentuais e NNT = 10 — ou seja, tratar 10 pacientes evita 1 evento. Note a pegadinha clássica: um mesmo RR de 0,50 pode corresponder a ARR de 10% (NNT 10) em alto risco ou de 0,1% (NNT 1.000) em baixíssimo risco — a mídia e o material promocional de laboratórios adoram RRR, mas a decisão clínica depende do risco absoluto do seu paciente.
Para o valor de p, as boas práticas de relato (e a maioria dos periódicos de alto impacto) pedem o valor exato (p = 0,03) em vez de apenas p menor que 0,05; p não menor que 0,05 não prova ausência de efeito (estudo pode estar subdimensionado — o CI largo denuncia); e p não mede magnitude de efeito nem probabilidade de a hipótese nula ser verdadeira. Diferenças de médias relatam diferença de médias com IC 95%; razões (RR, OR, HR) relatam razão com IC 95%, lembrando que o CI cruzando 1 significa não significância. Para variáveis de desfecho contínuas com transformação (log), o efeito volta expresso como razão de médias geométricas — detalhe que separa relatos sofisticados de relatos ingênuos.
Diretrizes de relato (reporting guidelines) são checklists que garantem que os elementos essenciais de cada desenho de estudo apareçam no manuscrito — elas não julgam a qualidade do estudo, mas a transparência com que ele foi descrito. As três cobradas em prova: CONSORT 2010 (25 itens e fluxograma obrigatório) para ensaios randomizados de grupos paralelos, publicada no BMJ em 2010; STROBE (22 itens) para estudos observacionais — coorte, caso-controle e transversal —, publicada no Lancet em 2007; e PRISMA 2020 (27 itens e fluxograma de identificação/seleção dos estudos) para revisões sistemáticas, publicada no BMJ em 2021. O repositório EQUATOR Network reúne todas as diretrizes existentes, incluindo as voltadas a desenhos específicos (SPIRIT para protocolos, TRIPOD para modelos preditivos, CARE para relatos de caso). Antes de submeter qualquer trabalho — e antes de criticar metodologicamente um artigo em prova —, cheque o desenho contra a diretriz correspondente.
| Desenho de estudo | Diretriz | Elemento mais cobrado |
|---|---|---|
| Ensaio randomizado controlado (grupos paralelos) | CONSORT 2010 (BMJ; 25 itens) | Fluxograma de randomização, perdas e análise; registro prévio do ensaio; cegamento descrito por participante/profissional/avaliador |
| Cohorte, caso-controle, transversal | STROBE (Lancet; 22 itens) | Como foram definidos expostos e desfechos, estratégia de análise de perdas e seguimento, e o esforço para controlar confusão (pareamento, estratificação, regressão) |
| Revisão sistemática com/sem metanálise | PRISMA 2020 (BMJ; 27 itens) | Fluxograma de seleção dos estudos, risco de viés (ferramentas Cochrane), heterogeneidade e certeza da evidência (GRADE) |
1.Um estudo compara o escore de Glasgow na admissão entre três grupos. Qual a forma adequada de resumir e grafar essa variável?
2.Amostra com n = 25 e desvio-padrão de 10 mmHg. Qual o erro-padrão da média?
3.Ensaio com 100 pacientes por grupo: evento em 10% no tratamento e 20% no controle. Qual o NNT?
4.A diretriz de relato obrigatória para ensaios randomizados de grupos paralelos, com fluxograma de participantes, é:
5.Para examinar a associação entre idade e pressão arterial sistólica em 200 pacientes, o gráfico correto é:
6.A crítica central do artigo de Weissgerber (PLoS Biology, 2015) aos gráficos de barras em amostras pequenas é que eles:
7.Um gráfico de barras compara duas taxas de cura de 78% e 82% com o eixo Y iniciando em 75%. O efeito visual é:
8.O gráfico de Kaplan-Meier serve para:
9.Uma variável com distribuição fortemente assimétrica à direita (tempo de internação) deve ser resumida por:
10.Em um forest plot, o que representa o losango (diamante) e a linha horizontal de cada estudo, respectivamente?
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