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Do cálculo do peso predito ao modo ventilatório: indicações, lógica de VCV, PCV e PSV, volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, platô até 30, driving pressure até 14-15, tabela PEEP/FiO2 do ARDSNet, protocolo prático do SDRA com pronação, desmame com SAT e SBT e as complicações que o interno precisa antecipar.
[1] ARDS Network. Ventilation with Lower Tidal Volumes as Compared with Traditional Tidal Volumes for Acute Lung Injury and the Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med. 2000;342(18):1301-1308 · DOI 10.1056/NEJM200005043421801 | [2] Amato MBP, Meade MO, Slutsky AS, et al. Driving Pressure and Survival in the Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med. 2015;372(8):747-755 · DOI 10.1056/NEJMsa1410639 | [3] ARDS Definition Task Force, Ranieri VM, Rubenfeld GD, et al. Acute Respiratory Distress Syndrome: The Berlin Definition. JAMA. 2012;307(23):2526-2533 · DOI 10.1001/jama.2012.5669 | [4] Guérin C, Reignier J, Richard JC, et al. Prone Positioning in Severe Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med. 2013;369(22):2152-2162 · DOI 10.1056/NEJMoa1214103 | [5] Bellani G, Laffey JG, Pham T, et al. Epidemiology, Patterns of Care, and Mortality for Patients With Acute Respiratory Distress Syndrome in Intensive Care Units in 50 Countries (LUNG SAFE). JAMA. 2016;315(8):788-800 · DOI 10.1001/jama.2016.0291 | [6] Yang KL, Tobin MJ. A Prospective Study of Indexes Predicting the Outcome of Trials of Weaning from Mechanical Ventilation. N Engl J Med. 1991;324(21):1445-1450 · DOI 10.1056/NEJM199105233242101 | [7] Kalil AC, Metersky ML, Klompas M, et al. Management of Adults With Hospital-acquired and Ventilator-associated Pneumonia: 2016 Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America and the American Thoracic Society. Clin Infect Dis. 2016;63(5):e61-e111 · DOI 10.1093/cid/ciw353 · DOI 10.1056/NEJM200005043421801
A ventilação mecânica invasiva é o suporte de órgão mais emblemático da UTI e um dos únicos cujo protocolo de segurança mudou desfecho em ensaio randomizado de grande porte: o ARDSNetwork reduziu a mortalidade do SDRA de 39,8% para 31,0% apenas baixando o volume corrente de 12 para 6 mL/kg de peso predito [1]. A lógica central é que o ventilador salva pelo gás e machuca pela mecânica: cada ajuste é um compromisso entre oxigenação, ventilação e lesão induzida pelo ventilador. O interno precisa dominar quatro números (peso predito, volume corrente 6 mL/kg, platô até 30 cmH2O e driving pressure até 14-15 cmH2O), a tabela PEEP/FiO2 e a lógica dos modos VCV, PCV e PSV para não ser refém do aparelho.
A intubação com ventilação mecânica se impõe por três grandes motivos: falência oxigenativa (hipoxemia refratária, PaO2/FiO2 caindo apesar de oxigênio em doses máximas, como na SDRA e na pneumonia grave), falência ventilatória (hipercapnia com acidose respiratória, fadiga de músculos respiratórios, como na DPOC descompensada e na fraqueza neuromuscular) e proteção de via aérea (GCS ≤8, reflexos abolidos, edema de via aérea, cirurgias). Procedimentos também intubam, mas por tempo curto e sob anestesia. A regra prática: intubação eletiva em ambiente controlado é quase sempre melhor do que intubação de urgência em paciente colapsando.
Os modos se classificam por quatro perguntas: o que é fixado pelo ventilador (volume ou pressão), como cada cicla termina (tempo, fluxo ou volume), como dispara (gatilho do paciente por pressão ou fluxo, ou disparo a tempo) e quanto assiste (mandatório total, assistido ou espontâneo). No VCV (volume controlado) o volume corrente é fixo e as pressões variam conforme mecânica pulmonar; no PCV (pressão controlada) a pressão inspiratória é fixa e o volume varia com a complacência; na PSV (pressão de suporte) cada respiração é disparada e ciclada pelo paciente, com pressão de apoio fixa, sendo o modo do desmame e da respiração espontânea.
| Modo | O que é fixo | Ciclagem | Uso típico | Cuidado principal |
|---|---|---|---|---|
| VCV (volume controlado) | Volume corrente (e fluxo) | A tempo | Controle total: intubação recente, coma, bloqueio neuromuscular, estabilização inicial | Picos de pressão dependem de resistência e complacência; monitorar platô |
| PCV (pressão controlada) | Pressão inspiratória (delta sobre PEEP) | A tempo | Fixar pressão quando há fístula aérea, escape por cânula ou preferência institucional na SDRA | Volume varia com complacência; hipercapnia pode passar despercebida sem monitor do VT |
| PSV (pressão de suporte) | Pressão de suporte (SP) | A fluxo (encerra quando o fluxo cai a ~25% do pico) | Respiração espontânea: sedação leve, desmame, teste de respiração espontânea | Depende de esforço do paciente; não protege contra apneia (alarme de apneia é obrigatório) |
| Modos duplos (PRVC/VAPS) | Volume-alvo com pressão regulada ciclado a cada respiração | A tempo | Conciliar constância de volume com pressão mínima | Comportamento varia entre fabricantes; conferir como o ventilador do serviço entrega |
O LUNG SAFE, coorte de 50 países com quase 2.400 pacientes com SDRA, quantificou o mundo real: a SDRA acomete 10,4% das admissões de UTI e 23,4% dos pacientes em ventilação mecânica; apenas 60,2% dos casos são reconhecidos pela equipe assistente; o volume corrente médio praticado foi de 7,6 mL/kg PBW, acima do protocolo; e a mortalidade hospitalar subiu de 34,9% na SDRA leve para 40,3% na moderada e 46,1% na grave [5]. Ou seja: o protocolo protetor existe desde 2000 e ainda é subaplicado, e essa é a lacuna de qualidade que o interno pode reduzir já no primeiro dia.
Outros números enquadram o problema: pneumonia associada à ventilação mecânica complica algo entre 10% e 25% das ventilações prolongadas, o risco cresce a cada dia de tubo, e a fraqueza adquirida na UTI (incluindo a fraqueza diafragmática induzida pelo próprio ventilador em sobreassistência) alonga o desmame. Ventilação mecânica é como droga com indicação, dose, monitorização e efeitos adversos: quanto antes sair, melhor, desde que o paciente esteja pronto.
A lesão induzida pelo ventilador (VILI) tem quatro mecanismos clássicos. O volutrauma é o estiramento excessivo do parênquima, e depende do volume corrente em relação ao peso predito, e não do peso real: obesos têm pulmão do tamanho do pulmão, não do peso. O barotrauma é o dano por pressão (ruptura alveolar com pneumotórax e pneumomediastino), associado a pressões altas de platô. O atelectrauma é o trauma de abrir e fechar: alvéolos colapsados que se abrem a cada ciclagem com cisalhamento repetido, o que a PEEP atenua ao manter o recrutamento. O biotrauma é a liberação de mediadores inflamatórios pelo pulmão agredido, com repercussão sistêmica e lesão de órgãos remotos. Some-se a ergotrauma: esforço espontâneo violento em pulmão lesado (P-SILI) pode estirar regiões dependentes e piorar a lesão.
O conceito que amarra tudo é a pressão transpulmonar (a diferença entre pressão das vias aéreas e pressão pleural), que é a força que realmente distende o pulmão. Como não medimos pleural na rotina, usamos proxies: a pressão de platô estima a pressão de fim de inspiração do sistema respiratório (alvo até 30 cmH2O) e a driving pressure (platô menos PEEP) estima o estiramento dinâmico por unidade de complacência. Na análise multivariável de Amato com 3.562 pacientes de ensaios protetores, a driving pressure foi a variável que melhor explicou a sobrevida: cada acréscimo de 7 cmH2O associou-se a risco relativo de morte de 1,41 [2]. Daí o alvo contemporâneo: driving até 14-15 cmH2O.
O ponto de partida na maioria dos serviços é o VCV. O primeiro cálculo é o peso predito (PBW), que estima o volume pulmonar pela altura e pelo sexo: homem, PBW = 50 + 0,91 x (altura em cm - 152,4); mulher, PBW = 45,5 + 0,91 x (altura em cm - 152,4). O volume corrente inicial é de 6 a 8 mL/kg PBW, reduzindo-se para 6 ou até 4 mL/kg na lesão pulmonar, com frequência respiratória de 15 a 20 irpm (não acima de 35), fluxo inspiratório ajustado para relação I:E de 1:2, FiO2 de 100% no início (titulada rapidamente para SpO2 88-95% ou PaO2 55-80 mmHg) e PEEP de 5 cmH2O sem SDRA ou pela tabela ARDSNet com SDRA. Sensibiliza-se o gatilho (pressão de -1 a -3 cmH2O ou fluxo de 2 a 3 L/min) e configura-se alarmes: pressão inspiratória máxima em 35 a 40 cmH2O, alarme de apneia, limites de volume minuto e de frequência.
Exemplo de PBW: mulher de 1,60 m tem PBW de 45,5 + 0,91 x 7,6 = 52,4 kg; volume corrente a 6 mL/kg é de aproximadamente 315 mL, um número que seca qualquer intuição baseada no peso da balança (uma paciente de 90 kg com essa altura seguiria ventilada com ~315 mL, e não com 540 mL). Analgesia vem antes da sedação, o alvo inicial de RASS é -4 a -5 no primeiro momento da estabilização, e na SDRA moderada-grave com hipoxemia refratária considera-se bloqueio neuromuscular com cisatracurio por 48 horas no início da doença, com monitorização rigorosa de sedação.
A pressão de platô mede-se com pausa inspiratória de 0,5 segundo e deve ficar até 30 cmH2O; se estiver alta, reduz-se o volume corrente (até 4 mL/kg PBW) e corrige-se o que distorce a mecânica: distensão abdominal, derrame pleural, broncoespasmo, obstrução de cânula, posições. A driving pressure (platô menos PEEP) tem alvo de até 14-15 cmH2O; acima disso, a estratégia protetora não foi alcançada mesmo com VT nominal adequado [2]. A oxigenação se ajusta em dois botões: primeiro baixa-se a FiO2 (exposição prolongada acima de 0,6 é tóxica), e a PEEP se usa para manter recrutamento; PEEP mais alta não é oxigenação de graça, eleva pressão intratorácica e pode piorar o ventrículo direito e o débito.
| FiO2 | PEEP (tabela ARDSNet) | Observação |
|---|---|---|
| 0,3 | 5 | Sem necessidade de PEEP adicional |
| 0,4 | 5-8 | Faixa de transição |
| 0,5 | 8-10 | Começa a exigir recrutamento |
| 0,6 | 10 | FiO2 alta há risco de toxicidade em uso prolongado |
| 0,7 | 10-14 | SDRA moderada típica |
| 0,8 | 14 | Reavaliar pronação se P/F <150 |
| 0,9 | 14-18 | Resgate: pronação, bloqueio neuromuscular, considerar transferência para ECMO |
| 1,0 | 18-24 | Hipoxemia refratária; protocolo de resgate formal |
A ventilação (PaCO2) se ajusta pela frequência respiratória, até o limite de 35 irpm; além disso, ganho diminui por tempo expiratório curto. Aceita-se hipercapnia permissiva com pH até 7,20-7,25 [1], exceto em contraindicações relativas: hipertensão intracraniana, gestação e situações em que a acidose desestabiliza hemodinâmica. Se pH cai abaixo de 7,20, aumenta-se volume corrente dentro do limite de platô (até 30 cmH2O aceita VT de 7 a 8 mL/kg em complacências melhores). O recrutamento alveolar agressivo e a PEEP universalmente alta não são rotina: ensaios de PEEP alta não reduziram mortalidade e o alvo é individualizar pela resposta de oxigenação e pela mecânica.
Um ajuste frequentemente esquecido é o auto-PEEP: em paciente com obstrução expiratória (DPOC, asma), o pulmão não esvazia completamente antes da próxima ciclagem e o ar fica aprisionado, somando pressão expiratória final invisível ao ventilador. Detecta-se pela curva de fluxo que não retorna a zero antes da inspiração seguinte ou pela manobra de oclusão expiratória (mede-se a pressão de equilíbrio, geralmente acima de 5 cmH2O na presença clinicamente relevante). O aprisionamento aumenta o trabalho respiratório, distorce o gatilho (o paciente dispara e o ventilador não percebe) e pressuriza o tórax, caindo o débito cardíaco. Tratamento: reduzir frequência respiratória, aumentar fluxo inspiratório (encurta o tempo inspiratório), alongar expiração (relação I:E de 1:3 a 1:4), broncodilatador e, em asma grave, considerar hipercapnia permissiva mais agressiva.
A ventilação é retirada com protocolo, não com intuição. O ciclo diário começa pela pausa de sedação (SAT): reduzir ou suspender sedativos mantendo analgesia, com alvo RASS entre -1 e 0. No paciente desperto, checam-se os pré-requisitos do teste de respiração espontânea (SBT): causa da intubação em resolução, oxigenação segura (PaO2/FiO2 >150 a 200, FiO2 ≤0,4-0,5, PEEP ≤5-8 cmH2O), hemodinâmica estável (sem vasopressor em dose alta, sem isquemia), capacidade de iniciar respirações e secreção manejável. O SBT dura de 30 a 120 minutos em PSV de 5 a 8 cmH2O, tubo T ou CPAP de 5 cmH2O; falha é definida por frequência respiratória acima de 35, SpO2 abaixo de 90%, aumento de frequência cardíaca acima de 20%, desatenção, sudorese ou uso de musculatura acessória progressivo. O índice de respiração superficial rápida (RSBI: frequência dividida pelo volume corrente em litros) menor que 105, proposto por Yang e Tobin, calculado após 1 a 2 minutos de teste ajuda a triagem, com acurácia limitada em idosos e pacientes prolongados [6].
| Domínio | Critério sugerido | Comentário |
|---|---|---|
| Oxigenação | P/F >150-200 com FiO2 ≤0,4-0,5 e PEEP ≤5-8 cmH2O | Contexto da doença de base importa (hipoxêmico crônico aceita alvo menor) |
| Estado neurológico | RASS -1 a 0, desperto, obedece comandos, tosse eficaz | Sedação pesada é a causa mais comum de desmame atrasado |
| Hemodinâmica | Estável, sem isquemia, vasopressor em dose baixa ou zero | Choque ativo adia SBT, mas dose baixa de noradrenalina não é contraindicação absoluta |
| RSBI (f/VT) | <105 respirações/min/L | Triagem rápida; falha em prever sucesso individual em parte dos pacientes |
| Teste (SBT) | 30-120 min sem desconforto significativo | Sucesso do SBT prediz extubação bem-sucedida na maioria; reintubação ocorre em 10-20% em 48 h |
Extubou-se e o trabalho não acabou: profilaxia de sibilância conforme o serviço, oxigênio ou alto fluxo nasal (ventilatório preferencial em pacientes de alto risco, como idosos e cardiopatas, onde reduz reintubação), vigilância de estridor (se o leak do cuff for menor que 110 mL na prova, o risco de edema laríngeo sobe e corticoide prévio pode ser considerado) e plano de reintubação escrito. Pacientes que falham ao SBT retornam ao conforto ventilatório e repetem o teste em 24 horas; repetir o SBT mais de uma vez ao dia não melhora desfecho e cansa o paciente.
1.Qual a fórmula do peso predito (PBW) na mulher e qual o volume corrente de uma paciente de 1,60 m?
2.Paciente em VCV com VT 6 mL/kg PBW apresenta platô de 34 cmH2O. Qual o próximo passo?
3.Como se calcula e qual o alvo da driving pressure?
4.Pela definição de Berlim, SDRA grave corresponde a:
5.Qual o resultado do ARDSNet que fundou a ventilação protetora?
6.Paciente com SDRA moderada, P/F 130 há mais de 3 horas, em tabela ARDSNet. Qual intervenção com benefício de sobrevida demonstrado?
7.Sobre hipercapnia permissiva na ventilação protetora, é aceitável:
8.Qual é o SBT padrão e qual o valor de RSBI que auxilia a triagem do desmame?
9.Sobre a pneumonia associada à ventilação mecânica tardia (≥5 dias), os agentes mais típicos são:
10.Segundo o LUNG SAFE, qual afirmação sobre a SDRA no mundo real é verdadeira?
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