carregando…
carregando…
Como decidir quem entra na UTI: os três critérios do guideline SCCM/ESICM de triagem, as prioridades 1 a 4, os escores APACHE II e SOFA com seus componentes e valores, os limiares de alarme (lactato, PAM, pressão intra-abdominal) e a conversa sobre objetivos de cuidado que sustenta toda admissão.
[1] Nates JL, Nunnally M, Bagiriuni E, et al. ICU Admission, Discharge, and Triage Guidelines: A Framework to Enhance Clinical Operations, Development of Institutional Policies, and Further Research. Crit Care Med. 2016;44(8):1553-1602 · DOI 10.1097/CCM.0000000000001856 | [2] Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-810 · DOI 10.1001/jama.2016.0287 | [3] Knaus WA, Draper EA, Wagner DP, Zimmerman JE. APACHE II: A Severity of Disease Classification System. Crit Care Med. 1985;13(10):818-829 · DOI 10.1097/00003246-198510000-00009 | [4] Kaukonen KM, Bailey M, Suzuki S, Pilcher D, Bellomo R. Systemic Inflammatory Response Syndrome Criteria in Defining Severe Sepsis. N Engl J Med. 2015;372(17):1629-1638 · DOI 10.1056/NEJMoa1415236 | [5] Kirkpatrick AW, Roberts DJ, De Waele J, et al. Intra-abdominal hypertension and the abdominal compartment syndrome: updated consensus definitions and clinical practice guidelines from the World Society of the Abdominal Compartment Syndrome. Intensive Care Med. 2013;39(7):1190-1206 · DOI 10.1007/s00134-013-2906-z · DOI 10.1097/CCM.0000000000001856
A decisão de admitir um paciente na UTI é uma das mais consequentes da medicina hospitalar: leito de terapia intensiva é recurso escasso, caro e potencialmente iatrogênico, e a porta errada nos dois sentidos custa vidas. O paciente grave admitido tardiamente, depois de horas de deterioração na enfermaria, chega com mais disfunção de órgão e pior prognóstico; o paciente estável internado sem necessidade recebe cateteres, sedação e delirium sem benefício. O guideline conjunto da SCCM/ESICM organiza a decisão em três perguntas: o paciente precisa de intervenção intensiva, ele vai se beneficiar dela e o que dizem seu prognóstico basal e sua vontade [1]. Este artigo transforma essas perguntas em critérios objetivos com valores: prioridades de triagem, APACHE II e SOFA com componentes, qSOFA, lactato, PAM e pressão intra-abdominal, além do roteiro prático para o interno que é chamado a opinar sobre uma admissão.
A UTI não é uma enfermaria mais grave: é um local definido pela associação de três coisas, monitorização contínua de parâmetros que mudam conduta em minutos, suporte de função de órgãos (via aérea definitiva, ventilação mecânica, vasopressores, terapia renal substitutiva) e razão enfermeiro-paciente alta (1:1 a 1:4 conforme o perfil). A admissão se justifica quando pelo menos uma dessas três condições faz diferença no desfecho. Um paciente com via aérea ameaçada, um choque que exige titulação de noradrenalina e um pós-operatório instável precisam de UTI; um paciente estável que apenas precisa de observação prolongada não precisa, e o custo não é só financeiro: ventilação desnecessária e cateteres desnecessários produzem pneumonia associada à ventilação mecânica, bacteremia e delirium.
O guideline de admissão, alta e triagem da SCCM/ESICM estrutura a decisão em quatro prioridades, que combinam a necessidade de suporte intensivo com o potencial de benefício [1]. A lógica é sempre a mesma: UTI é para quem precisa de intervenção intensiva E tem chance real de sair melhor com ela.
| Prioridade | Perfil do paciente | Conduta |
|---|---|---|
| Prioridade 1 | Instável e com necessidade iminente de suporte intensivo (via aérea definitiva, ventilação mecânica, vasopressores, diálise de urgência) e grande chance de recuperação; inclui pós-operatório instável de grande porte | Admitir imediatamente na UTI |
| Prioridade 2 | Instável ou com sinais de alarme que exigem monitorização próxima e intervenção rápida se piorar; comorbidades que podem descompensar; deterioração recente na enfermaria | Admitir ou manter em limiar de admissão com plano escrito e reavaliação curta |
| Prioridade 3 | Instável, mas com baixa probabilidade de se beneficiar do máximo suporte: doença de base avançada, prognóstico ruim mesmo com intervenção, fragilidade extrema | Em geral não admitir para suporte pleno; individualizar, discutir metas e organizar suporte alternativo ou paliativo |
| Prioridade 4 | Sem indicação de UTI: fase final de doença terminal definida como foco de conforto, paciente estável que não se beneficiaria, critérios institucionais de exclusão | Não admitir; organizar cuidados dirigidos a objetivos acordados |
A sepse é o arquétipo de admissão na UTI e sua principal causa de morte: pela definição Sepsis-3, pacientes com aumento de SOFA de 2 ou mais pontos têm mortalidade intrahospitalar em torno de 10%, e o subgrupo com choque séptico (vasopressor para manter PAM ≥65 mmHg mais lactato acima de 2 mmol/L apesar de volume) passa de 40% [2]. Além da sepse, ocupam leitos de UTI a insuficiência respiratória aguda que exige ventilação mecânica, o pós-operatório de cirurgias de grande porte, o trauma grave, a síndrome coronariana instável, as intoxicações com risco de instabilidade e as descompensações de doenças crônicas (DPOC, insuficiência cardíaca, cirrose, doença renal).
A oferta de leitos contextualiza a triagem: países de alta renda reportam de 8 a mais de 20 leitos de UTI por 100.000 habitantes, enquanto o Brasil opera em uma faixa aproximada de 2 a 3 por 100.000, com distribuição desigual entre regiões e dependência da rede SUS (valores aproximados e variáveis conforme o período). Nesse cenário, a qualidade da decisão na porta pesa. E a porta não pode depender dos critérios SIRS: a coorte australiana de Kaukonen mostrou que 12,1% dos pacientes com sepse grave, infecção comprovada e hipoperfusão preenchiam menos de 2 critérios SIRS na admissão, com mortalidade comparável aos que preenchiam, ou seja, um em cada oito pacientes gravemente doentes passaria despercebido por um filtro baseado em febre, leucocitose e taquicardia [4].
A deterioração que termina em UTI quase sempre segue um dos quatro mecanismos de falência de oxigenação e perfusão: distributivo (vasoplegia da sepse e da anafilaxia), hipovolêmico (sangramento e perdas), cardiogênico (falência da bomba) e obstrutivo (TEP maciço, tamponamento, pneumotórax hipertensivo). Em todos, o órgão-alvo passa por um gradiente: sofrimento reversível, disfunção e falência estabelecida. A hipoperfusão tecidual força metabolismo anaeróbio e eleva o lactato; a hipoxemia prolongada e o esforço respiratório exaustivo terminam em fadiga e parada; a oligúria anuncia queda da pressão de filtração renal antes que a creatinina se mova.
O que engana o observador é a fase compensatória: taquicardia, vasoconstrição periférica, taquipneia e oligúria mantêm PAM e SpO2 aparentemente aceitáveis enquanto as reservas se esgotam. Por isso a decisão de admissão deve responder a uma pergunta prospectiva, não descritiva: qual suporte de órgão este paciente provavelmente vai precisar nas próximas 24 a 48 horas? Antecipar via aérea, vasopressor, ventilação ou diálise é o que transforma a triagem em prevenção, e não em socorro tardio.
O APACHE II (Acute Physiology and Chronic Health Evaluation II) é o escore de gravidade clássico de admissão [3]. Somam-se 12 variáveis fisiológicas agudas piores nas primeiras 24 horas (temperatura, PAM, frequência cardíaca, frequência respiratória, oxigenação por PaO2 ou gradiente alvéolo-arterial, pH arterial, sódio, potássio, creatinina, hematócrito, leucócitos e GCS), pontuação por idade (0 a 6 pontos: 0 até 44 anos, 2 de 45 a 54, 3 de 55 a 64, 5 de 65 a 74 e 6 a partir de 75) e saúde crônica (2 pontos em cirurgia eletiva com doença grave de base, 5 em paciente não cirúrgico ou cirurgia de urgência com falência de órgão crônica). O total vai de 0 a 71 e calibra mortalidade hospitalar aproximada: abaixo de 10 pontos, mortalidade inferior a 10%; de 10 a 19, faixa de 15% a 25%; de 20 a 29, faixa de 37% a 50%; acima de 30, acima de 60%. Ele é preditor populacional: orienta comparabilidade e prognóstico em grupo, jamais decide isoladamente o destino de um indivíduo.
O SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) avalia disfunção de órgão em seis sistemas, cada um de 0 a 4, totalizando até 24 pontos, e é a espinha dorsal da definição Sepsis-3 [2]. A sepse é definida como infecção suspeita ou confirmada com aumento agudo de SOFA de 2 ou mais pontos; o choque séptico é o subgrupo com vasopressores necessários para manter PAM ≥65 mmHg e lactato acima de 2 mmol/L após reposição volêmica adequada, com mortalidade acima de 40% [2]. O qSOFA é a versão de triagem rápida à beira do leito: frequência respiratória ≥22 irpm, alteração do estado mental (GCS <15) e PAS ≤100 mmHg; dois ou mais itens sinalizam pior prognóstico e devem disparar busca de disfunção de órgão com SOFA e lactato.
| Sistema SOFA | 0 ponto | 2 pontos | 4 pontos (pior) |
|---|---|---|---|
| Respiração (PaO2/FiO2) | ≥400 | <300 | <100 com PEEP ≥5 cmH2O |
| Coagulação (plaquetas, x10³/µL) | ≥150 | <100 | <20 |
| Hepática (bilirrubina, mg/dL) | <1,2 | 2,0-5,9 | ≥12 |
| Cardiovascular | PAM ≥70 mmHg | Dopamina ≤5 mcg/kg/min ou dobutamina (qualquer dose) | Dopamina >15 mcg/kg/min, adrenalina ou noradrenalina >0,1 mcg/kg/min |
| SNC (GCS) | 15 | 10-12 | <6 |
| Renal (creatinina, mg/dL; diurese) | <1,2 | 2,0-3,4 | ≥5,0 ou diurese <200 mL/dia |
| Ferramenta | Limiar de alarme | Uso na decisão de admissão |
|---|---|---|
| qSOFA | ≥2 de 3 (FR ≥22, GCS <15, PAS ≤100) | Triagem rápida fora da UTI; positivo pede SOFA e lactato |
| NEWS2 | ≥7 pontos | Resposta clínica urgente e discussão de destino crítico |
| Lactato | ≥2 mmol/L anormal; ≥4 mmol/L alto risco | Hipoperfusão; serial define trajetória |
| PAM | <65 mmHg | Define hipotensão e alvo de vasopressor |
| IAP (pressão vesical) | ≥12 mmHg define IAH grau I | Risco em pancreatite, ileo, ascite, queimadura, VM com PEEP alta; ACS: IAP >20 mmHg com nova falência de órgão |
| GCS | ≤8 | Via aérea definitiva e UTI |
Os dois erros da porta têm nomes: undertriage (recusar quem precisava) e overtriage (admitir quem não se beneficia). O undertriage se paga em mortalidade, porque pacientes deteriorados fora da UTI recebem suporte tardio e fragmentado. O overtriage parece seguro e também machuca: ventilação desnecessária expõe a pneumonia associada à ventilação mecânica, cateteres expõem a bacteremia, sedação e imobilização produzem delirium e fraqueza adquirida na UTI, com prevalência de delirium reportada em faixas de 30% a 80% entre pacientes ventilados conforme a população estudada. Admitir para ficar mais seguro, sem objetivo definido, é iatrogenia organizada.
Entre admitir em UTI e recusar existe uma faixa de soluções intermediárias que a triagem madura usa sem constrangimento: unidade semi-intensiva com monitorização contínua sem ventilação invasiva, enfermaria com telemetria e protocolo de observação, sala de recuperação pós-anestésica prolongada, monitorização domiciliar com retorno programado em casos selecionados. O paciente mantido fora da UTI precisa do que o paciente admitido recebe em dobro: critérios objetivos de reavaliação escritos (por exemplo, nova medição de lactato e sinais vitais em 1 a 2 horas, critério explícito de acionamento), responsável nomeado e, se o serviço dispuser, ferramentas de detecção precoce de deterioração. Decidir não admitir sem escrever o plano de vigilância é a forma mais comum de fabricar uma admissão tardia.
Toda admissão tem dois planos paralelos: o técnico (o que suportar) e o de objetivos (para quê suportar). Os objetivos de cuidado definem se a UTI é plataforma de cura, ponte temporária para decisão ou ambiente de conforto, e nasceram de valores do paciente, não do escore. A decisão compartilhada envolve o paciente quando ele tem capacidade, e família ou representante legal quando não tem; o guideline de triagem é explícito que prognóstico basal e preferências do paciente integram a prioridade [1]. Limitar terapêutica de escalada (por exemplo, não intubar ou não subir vasopressor) não é abandonar: mantém-se analgesia, conforto, higiene, comunicação e presença da equipe, que é cuidado intensivo em outro eixo.
Na prática do interno: pergunte cedo qual a compreensão do paciente e da família sobre a doença, documente ordens de escalada e ordens de não reanimação quando acordadas (ordem de não reanimação não cancela condutas básicas de conforto e tratamento em curso), e agende revisão dos objetivos em 24 a 72 horas conforme a resposta ao tratamento. Famílias que participam de conversas estruturadas de objetivos têm menos conflito, menos procedimentos fúteis e menos estresse pós-luto; a evidência mais consistente em comunicação é a de estrutura, não a de fórmula.
A admissão tardia, após horas de deterioração documentada na enfermaria, associa-se consistentemente a maior mortalidade nas coortes publicadas: o paciente chega com mais lactato, mais disfunção de órgão e menos tempo útil de janela terapêutica. O oposto também existe: o paciente admitido por erro de leitura (hipotensão transitória de sedação, alteração isolada de laboratório) recebe exposição iatrogênica sem benefício. A resposta de sistema para os dois erros é a mesma: critérios escritos de admissão, prioridade de triagem formal, plano documentado para quem não entra e reavaliação programada.
Sobre prognóstico, o interno deve dominar o que os escores prometem e o que não prometem. APACHE II e SOFA calibram risco em grupos e acompanham a trajetória de disfunção de órgão (o SOFA serial aos 24 a 48 horas da admissão é mais informativo que o valor isolado), mas nenhum escore substitui o juízo clínico individualizado, e nenhum autoriza encerrar discussão com a família. Pacientes com escolhas de valor diferentes, mesmo com escores idênticos, têm caminhos diferentes, e essa é a essência da medicina intensiva contemporânea.
1.Pela definição Sepsis-3, o choque séptico é definido por:
2.O aumento de quantos pontos no SOFA define disfunção de órgão aguda na sepse?
3.Quais componentes compõem o APACHE II?
4.Paciente com doença oncológica avançada, instável, com baixa probabilidade de se beneficiar de suporte pleno. Pela triagem SCCM/ESICM, corresponde a:
5.Qual achado da coorte de Kaukonen desafia o uso de SIRS como filtro de admissão?
6.Sobre a pressão intra-abdominal na avaliação do paciente crítico, é correto:
7.Homem de 50 anos com pneumonia, FR 26 irpm, GCS 15, PAS 96 mmHg. Qual a leitura correta do qSOFA?
8.No SOFA, o componente cardiovascular com 3 pontos corresponde a:
9.Sobre objetivos de cuidado na admissão, qual conduta está correta?
10.Paciente em deterioração respiratória na enfermaria com GCS 7. A conduta na porta da UTI é:
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar