carregando…
carregando…
Da classificação DSM-5 à conduta à beira-leito: critérios diagnósticos com prazos, rotina de exames da primeira crise psicótica, tabela de doses de todos os antipsicóticos, manejo da agitação, definição e tratamento da esquizofrenia refratária com clozapina, profilaxia de recaída e monitoramento metabólico.
[1] Leucht S, Cipriani A, Spineli L, et al. Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: a multiple-treatments meta-analysis. Lancet. 2013;382(9896):951-962 · DOI 10.1016/S0140-6736(13)60733-3 | [2] Leucht S, Tardy M, Komossa K, et al. Antipsychotic drugs versus placebo for relapse prevention in schizophrenia: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2012;379(9831):2063-2071 · DOI 10.1016/S0140-6736(12)60239-6 | [3] Kahn RS, Fleischhacker WW, Boter H, et al. Effectiveness of antipsychotic drugs in first-episode schizophrenia and schizophreniform disorder: an open randomised clinical trial. Lancet. 2008;371(9618):1085-1097 · DOI 10.1016/S0140-6736(08)60486-9 | [4] Siskind D, McCartney L, Goldschlager R, Kisely S. Clozapine v. first- and second-generation antipsychotics in treatment-refractory schizophrenia: systematic review and meta-analysis. Br J Psychiatry. 2016;209(5):385-392 · DOI 10.1192/bjp.bp.115.177261 | [5] National Institute for Health and Care Excellence. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management. NICE Clinical Guideline CG178. 2014 · Link: nice.org.uk/guidance/cg178 · DOI 10.1016/S0140-6736(13)60733-3
A primeira crise psicótica chega à enfermaria de duas formas: como emergência psiquiátrica franca, com agitação e risco, ou disfarçada em enfermaria clínica — o paciente com paranoia que não toma medicação, recusa comida e exames, ou o idoso com alucinações que parece demência. A conduta do interno organiza-se em quatro decisões: separar psicose primária de secundária, fechar o diagnóstico pela cronologia (dias, semanas, meses), iniciar antipsicótico na dose certa e montar a estratégia de manutenção, porque o desfecho da esquizofrenia depende menos da droga escolhida e mais de adesão e continuidade — a metanálise de Leucht mostrou recaída de 64% com placebo contra 27% com antipsicótico em 7-12 meses [2]. Este artigo percorre classificação, critérios, exames, doses, agitação, clozapina e alta.
No DSM-5, o espectro da esquizofrenia organiza-se pela duração e pela amplitude dos sintomas, e a cronologia é o critério que o examinador cobra: o quadro psicótico de menos de 1 mês com retorno completo é transtorno psicótico breve; de 1 a 6 meses, transtorno esquizofreniforme; acima de 6 meses com disfunção, esquizofrenia. Afastadas essas, restam o transtorno delirante (delírios persistentes por ≥1 mês sem outros sintomas nucleares, funcionamento preservado fora do tema delirante), o transtorno esquizoafetivo (episódios de humor major concomitantes à psicose, com pelo menos 2 semanas de psicose sem humor) e os quadros secundários — por substância ou por condição médica. A catatonia, no DSM-5, deixou de ser subtipo da esquizofrenia e virou especificador de qualquer transtorno, com tratamento próprio (benzodiazepina e ECT).
| Diagnóstico | Duração | Diferença nuclear |
|---|---|---|
| Transtorno psicótico breve | <1 mês | Retorno completo ao funcionamento prévio |
| Transtorno esquizofreniforme | 1-6 meses | Mesmos critérios da esquizofrenia, prazo insuficiente |
| Esquizofrenia | ≥6 meses (≥1 mês de fase ativa) | Disfunção social ou ocupacional sustentada |
| Transtorno delirante | ≥1 mês | Só delírios (frequentemente não bizarros); resto preservado |
| Transtorno esquizoafetivo | Variável | Humor major presente na maioria; ≥2 semanas de psicose sem humor |
| Psicose por substância | Durante/≤1 mês após exposição | Cronologia com álcool, cocaína, anfetamina, cannabis ou retirada |
| Psicose por condição médica | Variável | Evidência fisiológica ou laboratorial da causa |
A esquizofrenia tem prevalência ao longo da vida de aproximadamente 0,7% (arredondada para 1% nos livros), sem predomínio por sexo na frequência, mas com fenotipias diferentes: o início nos homens se concentra entre 18 e 25 anos e costuma ser mais grave, com mais sintomas negativos; nas mulheres, o pico é no meio da terceira década, com segundo pico após os 45 anos. O suicídio mata cerca de 5% dos pacientes ao longo da vida, e 40% a 50% tentam suicídio alguma vez; o risco é maior no início da doença e após altas hospitalares. Fatores de risco cobrados em prova: nascimento urbano, migração, complicações obstétricas, história familiar (risco de 10% em irmão, cerca de 50% em gêmeo monozigótico) e uso de cannabis na adolescência, que eleva o risco de forma dose-dependente com o uso precoce e intenso.
A hipótese dopaminérgica continua sendo o esqueleto: a hiperatividade da via mesolímbica explica os sintomas positivos — o modelo é a psicose anfetamínica (a anfetamina libera dopamina e reproduz paranoia), e todos os antipsicóticos eficazes bloqueiam o receptor D2, com ocupação necessária de 65% a 72% para efeito terapêutico; acima de cerca de 80% surgem efeitos extrapiramidais e, na via tuberoinfundibular, hiperprolactinemia. A hipofunção mesocortical (dopamina baixa no córtex pré-frontal) explica sintomas negativos e cognitivos — e por isso a dopamina não pode ser simplesmente suprimida. A hipótese glutamatérgica (hipofunção do NMDA, modelada por fenciclidina e ketamina, que produzem sintomas positivos e negativos) e o modelo neurodesenvolvimentista (lesão sutil na gestação, com sintomas expressando-se na maturação pré-frontal da adolescência) completam o quadro que a prova cobra: esquizofrenia é transtorno neurodesenvolvimental com dopaminergia mesolímbica desregulada.
Os sintomas agrupam-se em quatro domínios. Positivos: alucinações (na esquizofrenia, tipicamente auditivas — vozes em terceira pessoa comentando ou ordenando; alucinação visual aponta para causa orgânica), delírios (persecutórios, de referência, e os pensamentos inserido, transmitido ou retirado, sinais de primeiro rank de Schneider), discurso desorganizado e comportamento desorganizado ou catatônico. Negativos: embotamento afetivo, alogia, avolição, anedonia e associalidade — pior prognóstico funcional e fraca resposta à dopaminobloqueio. Cognitivos: prejuízo de atenção, memória de trabalho e funções executivas, o melhor preditor de desfecho funcional. Desorganização: discurso e comportamento. O curso tem fase pródromica (retirada social, queda escolar, excentricidade, meses a anos), fase psicótica ativa e fases de resíduo com sintomas negativos persistentes. Na enfermaria clínica, atentar para: recusa alimentar por delírio de envenenamento, agitação por vozes imperativas e automutilação ou risco suicida — as três indicações de intensificação imediata.
Critérios do DSM-5 para esquizofrenia: dois ou mais dos seguintes, por pelo menos 1 mês (menos, se tratado), sendo pelo menos um do primeiro grupo — delírios, alucinações, discurso desorganizado; os outros dois são comportamento catatônico ou desorganizado e sintomas negativos; disfunção social ou ocupacional; sinais contínuos por ≥6 meses; exclusão de transtorno esquizoafetivo e de humor com sintomas psicóticos; e não atribuível a substância ou condição médica. A regra prática da primeira crise: toda psicose é secundária até prova em contrário, e a investigação mínima pré-tratamento é obrigatória porque as drogas alteram os exames.
| Causa | Pistas clínicas | Exame que fecha |
|---|---|---|
| Delirium | Início agudo, atenção flutuante, alucinações visuais ou táteis, ciclo pior à noite | CAM (início agudo e flutuante + desatenção) e causa subjacente |
| Estimulantes (cocaína, anfetamina) | Paranoia com midríase, taquicardia, sudorese; cronologia com uso | Toxicológico de urina |
| Cannabis | Uso precoce e intenso; raramente psicose isolada, mas aumenta risco e piora curso | História colateral e toxicológico |
| Abstinência alcoólica | Delirium com tremor, sudorese, alucinações visuais 48-72 h após cessar | História e CAGE; resposta a benzodiazepina |
| Hipertireoidismo | Agitação, taquicardia, perda de peso, tremor fino | TSH |
| Encefalite anti-NMDA | Jovem mulher; psicose rápida com convulsões, discinesias orofaciais, disautonomia, hipoventilação | Líquor com anticorpos anti-NMDA; RM/EEG |
| Demência com corpos de Lewy | Alucinações visuais recorrentes bem formadas + parkinsonismo + flutuação cognitiva | Clínica; sensibilidade extrema a antipsicóticos |
| Esquizofrenia (primária) | Sem alteração de consciência; conteúdo delirante organizado; início típico 18-25 anos | Critérios do DSM-5 após exclusão das acima |
A metanálise em rede de Leucht (15 antipsicóticos, mais de 21.000 pacientes) fechou duas discussões: todas as drogas da classe são superiores ao placebo nos sintomas positivos, e a clozapina é a mais eficaz, seguida de amissulprida, olanzapina e risperidona [1]. A escolha individualiza pelo perfil: no primeiro episódio, doses menores (metade a dois terços da dose crônica) e preferência por atípicos com bom perfil metabólico — o EUFEST mostrou, em 498 pacientes de primeiro episódio, descontinuação em 1 ano variando de 37% (olanzapina) a 72% (haloperidol), com melhor controle sintomático nos atípicos [3]. Para trocas, use a equivalência clorpromazina-haloperidol: 100 mg de clorpromazina equivalem a cerca de 2 mg de haloperidol, 2 mg de risperidona, 5 mg de olanzapina ou 75 mg de quetiapina.
| Antipsicótico | Dose no adulto | Dose em 1º episódio | Efeito adverso definidor |
|---|---|---|---|
| Haloperidol | 2-20 mg/d | 1-5 mg/d | EPS e acatisia; QTc na via IV |
| Risperidona | 2-6 mg/d | 1-3 mg/d | Hiperprolactinemia e ortostatismo |
| Olanzapina | 5-20 mg/d | 5-10 mg/d | Ganho de peso e dislipidemia (o pior do grupo com clozapina) |
| Quetiapina | 300-750 mg/d | 150-300 mg/d | Sedação e ortostatismo; perfil extrapiramidal mais limpo |
| Aripiprazol | 10-30 mg/d | 10-15 mg/d | Acatisia; perfil metabólico e de prolactina favoráveis |
| Ziprasidona | 40-160 mg/d com alimento | 40-80 mg/d | QTc prolongado |
| Clozapina | 300-600 mg/d | Reservada à refratária | ANC, miocardite, constipação, sedação, metabólico |
A ordem é verbal, farmacológica e, por último, mecânica. Primeiro: ambiente calmo, observador treinado, oferta de comida e bebida, abordagem respeitosa e não provocativa — a maioria das crises resolve sem contenção. Se precisar de droga: lorazepam 1-2 mg IM ou oral; haloperidol 2-5 mg IM (repetir em 30-60 min se necessário), com biperideno ou prometazina se histórico de distonia; olanzapina 10 mg IM é alternativa eficaz, mas NÃO deve ser somada a benzodiazepina parenteral no intervalo de 1 h pela queda de pressão e depressão respiratória; droperidol 5-10 mg IM é opção com ECG disponível. Haloperidol IV exige monitorização cardíaca contínua por QTc. Contenção física é último recurso, por tempo mínimo, com registro e vigilância de sinais vitais — e a recusa informada do paciente competente deve ser respeitada fora de risco iminente.
Refratariedade define-se como falha de dois antipsicóticos distintos em dose adequada (equivalente a ≥400-600 mg de clorpromazina) por pelo menos 6 semanas cada, com adesão comprovada — idealmente por nível sérico. Antes de rotular, repasse a lista de erros: dose baixa, adesão parcial, uso ativo de substâncias e psicose secundária não diagnosticada. Cumpridos os critérios, a clozapina é a única estratégia com eficácia comprovada na refratária — superior aos demais antipsicóticos em sintomas totais, positivos e negativos na metanálise de Siskind [4] — e tem indicação adicional na redução do comportamento suicida na esquizofrenia. Protocolo prático: iniciar 12,5 mg à noite, titulando 25-50 mg/d a cada 1-2 dias até 300-600 mg/d; nível sérico alvo de 350-600 ng/mL; efeito clínico avaliado após 6-8 semanas na dose-alvo. O custo é a vigilância: contagem absoluta de neutrófilos semanal por 6 meses, quinzenal por mais 6 e mensal depois (descontinuar definitivamente se ANC <500/mm³); troponina e PCR semanais nas primeiras 4 semanas pela miocardite; registro intestinal diário com laxativo pela constipação e íleo; convulsão dose-dependente acima de 600 mg/d; e o pior perfil metabólico da classe.
A regra que organiza o prognóstico é a de Leucht: em 7-12 meses, recaem 64% dos pacientes que suspendem o antipsicótico contra 27% dos que mantêm — número necessário para tratar de 3, com recaídas mais frequentes e hospitalizações maiores no grupo placebo [2]. Desse número decorre a conduta: após o primeiro episódio, manter o antipsicótico por 1 a 2 anos antes de discutir suspensão gradual; após múltiplos episódios, manutenção indefinida com revisão anual de dose e efeitos. Quando a adesão oral falha, os depósitos (LAIs) resolvem: risperidona 25-50 mg IM a cada 2 semanas, paliperidona 39-150 mg mensal, aripiprazol 400 mg mensal ou decanoato de haloperidol 50-200 mg a cada 4 semanas. A alta da internação psiquiátrica exige: sintoma-alvo controlado, plano de medicação acordado com o paciente, acompanhamento ambulatorial marcado (idealmente em até 7 dias), psicoeducação familiar — intervenção familiar e TCC para psicoses reduzem recaída [5] — e checagem de risco suicida, que é maior justamente nas primeiras semanas após a alta.
1.Paciente apresenta quadro psicótico completo há 4 meses, com disfunção ocupacional. Qual diagnóstico pelo DSM-5?
2.Segundo o DSM-5, para diagnosticar esquizofrenia exige-se pelo menos:
3.O que a metanálise de Leucht (2012) demonstrou sobre a suspensão do antipsicótico na esquizofrenia estável?
4.Qual é a definição operacional de esquizofrenia refratária antes de indicar clozapina?
5.A ocupação de receptores D2 necessária para efeito antipsicótico e o limiar aproximado de efeitos extrapiramidais são, respectivamente:
6.Paciente agitado recebe olanzapina 10 mg IM. Qual associação é proibida em menos de 1 hora?
7.Alucinações visuais recorrentes bem formadas + parkinsonismo + flutuação cognitiva em idoso apontam para:
8.Jovem mulher com psicose de início rápido, convulsões, discinesias orofaciais e disautonomia. Investigação prioritária?
9.Sobre a clozapina na esquizofrenia refratária, qual afirmação é correta?
10.Paciente estável em risperidona apresenta inquietação motora intensa e incapacidade de permanecer sentado, sem piora de delírios. Conduta?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar