carregando…
carregando…
A entrevista psiquiátrica completa do setting à apresentação de caso, o exame do estado mental item a item (aspecto, psicomotricidade, linguagem, humor e afeto, pensamento, percepção, cognição, insight e juízo), a tri-avaliação de risco com condutas por nível e as escalas com pontos de corte (PHQ-9, GAD-7, MMSE, HAM-D, C-SSRS, CIWA-Ar).
[1] Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW. The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure. J Gen Intern Med. 2001;16(9):606-613 · DOI 10.1046/j.1525-1497.2001.016009606.x | [2] Spitzer RL, Kroenke K, Williams JBW, et al. A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7. Arch Intern Med. 2006;166(10):1092-1097 · DOI 10.1001/archinte.166.10.1092 | [3] Folstein SE, Folstein MF, McHugh PR. Mini-mental state: a practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res. 1975;12(3):189-198 · DOI 10.1016/0022-3956(75)90026-6 | [4] Hamilton M. A rating scale for depression. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 1960;23(1):56-62 · DOI 10.1136/jnnp.23.1.56 | [5] Posner K, Brown GK, Stanley B, et al. The Columbia-Suicide Severity Rating Scale: initial validity and internal consistency findings from three multisite studies with adolescents and adults. Am J Psychiatry. 2011;168(12):1266-1277 · DOI 10.1176/appi.ajp.2011.10111704 | [6] Sullivan JT, Sykora K, Schneiderman J, et al. Assessment of alcohol withdrawal: the revised clinical institute withdrawal assessment for alcohol scale (CIWA-Ar). Br J Addict. 1989;84(11):1353-1357 · DOI 10.1111/j.1360-0443.1989.tb00737.x | [7] Gelder MG, Andreasen NC, Lopez-Ibor JJ, Geddes JR, eds. New Oxford Textbook of Psychiatry. 3ª ed. Oxford University Press. 2012 · DOI 10.1093/med/9780199696758.001.0001 · DOI 10.1176/appi.ajp.2011.10111704
A avaliação psiquiátrica é a habilidade técnica central do internato em saúde mental, e o exame do estado mental (EEM) é para a psiquiatria o que o exame físico é para as demais especialidades: uma descrição objetiva, estruturada e reprodutível do funcionamento do paciente no momento do atendimento. Quadros psiquiátricos respondem por parcela expressiva das consultas de emergência e das internações clínicas, e a maior parte dos erros graves nessa área não vem de falta de diagnóstico refinado, mas de avaliação mal feita: risco suicida não perguntado, abstinência não identificada, psicose confundida com agitação. Este artigo organiza o roteiro completo, do preparo da entrevista à apresentação de caso em plantão, com as escalas e cortes cobrados em prova.
A entrevista psiquiátrica dura de 30 a 60 minutos e exige ambiente que proteja tanto o sigilo quanto o entrevistador: sala privada, acesso livre à porta, alarme ou colega informado quando há risco de agitação, e remoção de objetos potencialmente usados como arma. A ordem clássica das perguntas vai do aberto ao fechado: começa-se com a queixa na fala do paciente e termina-se com perguntas específicas de screening por grupo sindrômico, porque a informação espontânea orienta onde aprofundar. Documente as palavras do paciente quando forem responsivas (a queixa principal se escreve entre aspas do relato, sem traduzi-la), e reavalie risco de forma explícita sempre que a conversa tocar morte, álcool, drogas ou violência.
O exame do estado mental descreve objetivamente o funcionamento mental no momento da consulta, do mesmo modo que o exame físico descreve o corpo no momento. Diferentemente da história, que narra o curso temporal pelo relato do paciente, o EEM é escrito no tempo presente, em linguagem descritiva e sem rótulos diagnósticos: não se escreve paciente psicótico no EEM, escreve-se o que foi observado e deixado registrado. A estrutura é canônica e deve ser percorrida inteira, mesmo quando um item parece normal, porque a ausência de alteração em cada item é informação clínica e jurídica.
| Item do EEM | O que se observa ou avalia | Exemplos de registro descritivo |
|---|---|---|
| Aspecto e apresentação | Higiene, vestimenta, postura, contato visual, aparentar idade | Descuidado, vestimenta incompatível com clima, contato visual evitado |
| Psicomotricidade | Agitação, retardo, estereotipias, tiques, acatisia, tremores | Retardo psicomotor global com imobilidade prolongada |
| Linguagem e fala | Fluência, velocidade, volume, prosódia, neologismos | Fala hiperverbal, com volume alto e pressão de fala |
| Humor | Estado interno relatado pelo paciente (o clima subjetivo) | Humor relatado como depressivo e vazio |
| Afeto | Expressão emocional observada (intensidade, labilidade, reatividade) | Afeto disfórico, plano e não reativo |
| Pensamento: forma e curso | Coerência, lógica, organização discursiva | Discurso acelerado com fuga de ideias |
| Pensamento: conteúdo | Delírios, obsessões, fobias, ideação suicida ou homicida | Relato de perseguição por vizinhos, com convicção absoluta |
| Percepção | Alucinações, ilusões, despersonalização, desrealização | Relato de vozes masculinas comentando o comportamento |
| Consciência | Nível de vigilância e orientação geral | Vigil, hipervigil com atenção flutuante |
| Cognição | Orientação, atenção, memória, cálculo, abstração, praxia | Orientado têmporo-espacialmente; evocação de três palavras com falha de duas |
| Insight | Reconhece o quadro, atribui a doença, aceita tratamento | Reconhece sintomas, atribui a estresse do trabalho (insight parcial) |
| Juízo | Avalia consequências e decide de modo compatível | Juízo comprometido para gastos, sem reconhecer prejuízo financeiro |
Os primeiros itens do EEM começam antes da primeira pergunta, quando o paciente entra na sala. Achados mapeiam direto em hipóteses: retardo psicomotor, hipofonia e contato visual evitado apontam para episódio depressivo; hiperverbalidade, pressão de fala e apresentação extravagante apontam para episódio maníaco; estereotipias e maneirismos sugerem esquizofrenia ou transtorno do neurodesenvolvimento; acatisia (incapacidade de ficar parado, com desconforto interno) é efeito de antipsicóticos e se distingue da agitação ansiosa porque o paciente descreve inquietação interna; tremor grosseiro com sudorese sugere abstinência alcoólica; disartria e confusão sugerem intoxicação ou delirium e obrigam a investigação orgânica imediata; e afasia é lesão neurológica focal, não incoerência psicótica, e essa distinção muda o destino do paciente.
Humor é o clima emocional interno, subjetivo e prolongado, que o paciente relata quando perguntado como está se sentindo; registra-se com a palavra que ele usa: deprimido, eufórico, ansioso, irritável, vazio, ambivalente ou sem humor. Afeto é a manifestação observável do estado emocional no momento, descrita pelo examinador em três dimensões: intensidade (plano, embotado, exaltado), labilidade (estável ou líbil) e reatividade (reativo ou não reativo), além da adequação ao conteúdo discursivo. O par clássico de prova: humor depressivo com afeto disfórico plano e não reativo no episódio depressivo; humor eufórico de conteúdo expansivo com afeto líbil no episódio maníaco; afeto inapropriado quando o paciente ri ao narrar perda; e embotamento afetivo como achado frequente na esquizofrenia crônica.
A forma e o curso do pensamento avaliam como o discurso se organiza: coerente e lógico é o padrão normal; a circunstancialidade adiciona detalhes excessivos mas retorna ao ponto; a tangencialidade foge do tema e não retorna; a fuga de ideias acelera o discurso com trocas por associação sonora ou casual e é típica da mania; a incoerência (salada de palavras) rompe a gramática e aparece na esquizofrenia grave e no delirium; o bloqueio interrompe o discurso e o paciente perde a linha; a perseveração repete a mesma resposta para perguntas diferentes; e os neologismos criam palavras novas. O conteúdo avalia sobre o que se pensa: delírios (convicção falsa, absoluta e não corrigível por argumentação), obsessões, fobias, ruminações, ideação suicida e homicida.
Alucinação é percepção sem estímulo externo, vivida como real e localizada no espaço externo; a alucinação auditiva de vozes comentando ou dialogando é típica da esquizofrenia, enquanto alucinações visuais e táteis obrigam a suspeitar de causa orgânica, intoxicação ou abstinência (as alucinações visuais miúdas e transitórias da alucinose alcoólica são exemplo). Ilusão é distorção de um estímulo real (o barril visto como assombro), e se corrige ao esclarecer o estímulo. A pseudoalucinação é vivida como interna e menos real. Despersonalização é a estranheza do próprio corpo ou self; desrealização, do mundo externo; e as vivências hipnagógicas (ao adormecer) e hipnopômpicas (ao despertar) são normais.
A consciência avalia o nível de vigilância: vigil, hipervigil (delirium), sonolento, obtuso. A avaliação cognitiva formal é feita pelo Mini-Exame do Estado Mental de Folstein, com 30 pontos distribuídos em orientação temporal (5), orientação espacial (5), registro de três palavras (3), atenção e cálculo com os setes seriados (5), evocação das três palavras (3) e linguagem com nomeação, repetição, comando em três etapas, leitura, escrita e cópia de figura (8). O corte tradicional de 24 pontos sugere comprometimento, com ajuste obrigatório por escolaridade (menos anos de estudo reduzem o escore sem doença) [3]. Duas regras de prova: o MMSE é instrumento de rastreio, não diagnostica demência sozinho (o diagnóstico exige declínio adquirido com prejuízo funcional e outro domínio afetado), e no delirium o achado dominante é a atenção flutuante.
Insight é a compreensão do paciente sobre seu próprio quadro, avaliado em degraus: reconhece que há sintomas, aceita que eles decorrem de doença mental, reconhece a necessidade de tratamento. Insight parcial é o termo médio: o paciente reconhece algo diferente em si, mas atribui a causas externas (estresse, feitiço, verme). Juízo é a capacidade de avaliar uma situação e suas consequências e de decidir de modo compatível, e se registra como preservado ou comprometido (por exemplo, juízo comprometido para gastos no episódio maníaco). Os dois itens sustentam decisões práticas do internato: adesão ao tratamento, necessidade de internação involuntária e avaliação de capacidade civil, que é decisão médica multidisciplinar com respaldo formal.
Toda avaliação psiquiátrica termina com avaliação de risco em três eixos: risco para si (suicídio), risco para terceiros (violência) e risco clínico imediato (abstinência, intoxicação, instabilidade orgânica). O eixo do suicídio usa a escada de perguntas: ideação passiva, ideação ativa, plano, meios ao alcance, tentativas prévias; a tentativa prévia é o maior preditor isolado de nova tentativa, e a Columbia-Suicide Severity Rating Scale estrutura o rastreio em perguntas que categorizam ideação e comportamento com validade em adolescentes e adultos [5]. No eixo da violência perguntam-se ideias, planos, histórico de agressão, acesso a armas de fogo, delírio persecutório, impulsividade e intoxicação, e o dever de proteger terceiros permite quebrar o sigilo quando há ameaça concreta. No eixo clínico, abstinência de álcool e benzodiazepínicos pode matar: tremor, sudorese, taquicardia, convulsão e delirium tremens aparecem em 24 a 72 horas da última dose, e o CIWA-Ar guia a gravidade e o tratamento.
| Instrumento | Aplicação | Interpretação com cortes |
|---|---|---|
| PHQ-9 | Autorreportado, 9 itens de depressão | 5 leve; 10 moderada (sensibilidade 88% e especificidade 88% para depressão maior); 15 moderadamente grave; 20 grave [1] |
| GAD-7 | Autorreportado, 7 itens de ansiedade | 5 leve; 10 moderada (sensibilidade 89% e especificidade 82% para TAG); 15 grave [2] |
| HAM-D (17 itens) | Aplicada por clínico treinado, entrevista estruturada | 0-7 normal; 8-16 leve; 17-23 moderada; ≥24 grave [4] |
| MMSE | Cognição aplicada por examinador, 30 pontos | <24 sugere comprometimento, ajustado por escolaridade; rastreia, não diagnostica demência [3] |
| C-SSRS | Rastreio de risco suicida por entrevista | Perguntas de ideação e comportamento categorizam gravidade e orientam conduta [5] |
| CIWA-Ar | Abstinência alcoólica, 10 itens, reavaliável em série | <8 leve; 8-15 moderada; >15 grave, com benzodiazepínico guiado por escore |
Dois cuidados de prova: a HAM-D é aplicada pelo clínico e não pelo paciente, ao contrário do PHQ-9 e do GAD-7, e a resposta ao tratamento quantifica-se por queda de pelo menos 50% do escore, com remissão definida por escore baixo (menos de 7 na HAM-D, menos de 5 no PHQ-9). Escalas complementam a avaliação clínica; nenhuma substitui a entrevista e o EEM, que continuam sendo a base diagnóstica.
1.Qual a diferença entre humor e afeto no exame do estado mental?
2.Paciente diz ouvir duas vozes que comentam seu comportamento. Como se classifica?
3.MMSE de 21 pontos em senhora com 4 anos de escolaridade, sem prejuízo funcional. Melhor interpretação?
4.Qual instrumento é aplicado pelo clínico (e não autorreportado) para graduar depressão?
5.No PHQ-9, o corte de 10 pontos apresenta qual desempenho para depressão maior na atenção primária?
6.Sobre a escada de perguntas de risco suicida, a sequência correta é:
7.Homem com 48 horas de abstinência, tremor grosseiro, sudorese e CIWA-Ar de 18. Conduta?
8.Qual achado do EEM é típico de delirium?
9.Quais são sintomas de primeira ordem de Schneider, fortes para esquizofrenia?
10.Na apresentação de caso psiquiátrica, onde o EEM entra e como deve ser escrito?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar