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Como a APS organiza o cuidado em saúde mental dentro da RAPS: componentes da rede e base legal, matriciamento na prática, rastreamento com PHQ-9, GAD-7, SRQ-20 e AUDIT com pontos de corte, fluxos de quem fica e quem é referido e manejo do risco suicida. Material para o interno de Saúde Coletiva e MFC.
[1] Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW. The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure. J Gen Intern Med. 2001;16(9):606-613 · DOI 10.1046/j.1525-1497.2001.016009606.x | [2] Spitzer RL, Kroenke K, Williams JBW, et al. A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7. Arch Intern Med. 2006;166(10):1092-1097 · DOI 10.1001/archinte.166.10.1092 | [3] Saunders JB, Aasland OG, Babor TF, et al. Development of the Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT): WHO Collaborative Project on Early Detection of Persons with Harmful Alcohol Consumption-II. Addiction. 1993;88(6):791-804 · DOI 10.1111/j.1360-0443.1993.tb02093.x | [4] Archer J, Bower P, Gilbody S, et al. Collaborative care for depression and anxiety problems. Cochrane Database Syst Rev. 2012;10:CD006525 · DOI 10.1002/14651858.CD006525.pub2 | [5] Koketsu, Escórcio e Santos. Saúde mental na atenção básica: uma experiência de matriciamento a partir da construção coletiva da rede de atenção. Saude Soc. 2009 · DOI 10.1590/S0104-12902009000100024 | [6] Kessels RPC. Patients memory for medical information. J R Soc Med. 2003;96(5):219-222 · DOI 10.1177/014107680309600504 | [7] Mari JJ, Williams P. A validity study of a psychiatric screening questionnaire (SRQ-20) in primary care in the city of Sao Paulo. Br J Psychiatry. 1986;148:23-26 · DOI 10.1192/bjp.148.1.23 · DOI 10.1046/j.1525-1497.2001.016009606.x
Os transtornos mentais comuns, encabeçados por depressão e ansiedade, afetam entre 25% e 35% dos usuários das unidades básicas brasileiras nos estudos de rastreio com o SRQ-20, e a Organização Mundial da Saúde estima cerca de 300 milhões de pessoas vivendo com depressão no mundo. A maior parte delas nunca vai a um CAPS nem a um consultório de psiquiatria: o sofrimento aparece na UBS, muitas vezes disfarçado de dor crônica, insônia, fadiga ou queixa cardíaca atípica. Para o interno de Saúde Coletiva e MFC, isso se traduz em três competências cobradas em prova e em plantão: conhecer a arquitetura da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), aplicar e interpretar os instrumentos de rastreamento com seus pontos de corte e decidir com segurança o que é cuidado da APS, o que exige matriciamento e o que precisa ser referido com urgência. Este artigo organiza essas três frentes com números, fluxos e condutas.
A APS concentra o volume de cuidado em saúde mental de qualquer sistema: é a porta de entrada de primeiro contato, onde a longitudinalidade permite acompanhar o mesmo usuário por anos e onde o contexto familiar e social, que determina adoecimento e recuperação, é visível na consulta. A Organização Mundial da Saúde estima que a maioria das pessoas com transtornos mentais no mundo só é atendida na atenção primária, e a experiência brasileira confirma o padrão: equipes de Saúde da Família detectam, tratam e acompanham a maior parte dos quadros depressivos e ansiosos, reservando o CAPS para a gravidade e a persistência. A base jurídica do modelo brasileiro é a Lei 10.216/2001, que redireciona a assistência psiquiátrica do hospital para a rede territorial e garante os direitos das pessoas com transtornos mentais.
A RAPS foi estruturada pela Portaria nº 3.088/2011 do Ministério da Saúde e integra o SUS como rede de atenção psicossocial, com a APS como coordenadora do cuidado e os CAPS como núcleos especializados no território. O princípio operacional é o cuidado com a mínima restrição possível: crise trata-se preferencialmente em serviço aberto de 24 horas e não em leito hospitalar, convivência social substitui internação prolongada, e toda contrarreferência devolve o usuário à APS com plano de cuidado. Conhecer cada componente e a hora de acioná-lo é conteúdo direto de prova.
| Componente da RAPS | O que faz | Quando a APS aciona |
|---|---|---|
| APS (UBS/ESF) | Porta de entrada prioritária: rastreio, tratamento de transtornos mentais comuns, acompanhamento longitudinal e matriciamento | Sempre: todos os usuários iniciam por aqui e retornam para o seguimento |
| CAPS i / CAPS ii | Atenção psicossocial diária para transtornos graves e persistentes; o CAPS ii amplia equipe e horário de funcionamento | Gravidade e persistência que excedem a APS, com referência e contrarreferência formais |
| CAPS iii (24 horas) | Atenção contínua 24h, com leitos de observação para manejo de crise | Crise intensa que não admite espera, como alternativa à internação hospitalar |
| CAPSad | Tratamento de álcool e outras drogas; versões diurnas e de 24h (CAPSad iii) | Uso nocivo ou dependência com perda de controle; desintoxicação supervisionada |
| Serviços residenciais terapêuticos | Moradias inclusivas para egressos de longas internações psiquiátricas | Não é porta de crise: articulado por gestão e CAPS, não pela UBS em urgência |
| Leitos de acolhimento e psiquiatria no hospital geral | Cuidado intensivo breve durante crise, integrado à rede | Risco de vida (suicídio grave, agitação intratável, comorbidade clínica descompensada) |
| Urgência/emergência, CAPS 24h e SAMU 192 | Classificação de risco e estabilização da crise aguda | Risco iminente; após estabilizar, o retorno se dá à APS e ao CAPS de origem |
Matriciamento é o apoio técnico-clínico-pedagógico em que profissionais de saúde mental compartilham casos com a equipe de APS dentro da própria unidade, transferindo conhecimento e ampliando a resolutividade; é o oposto do encaminhamento, que transfere a responsabilidade do caso. O apoio institucional, conceito complementar, atua sobre a gestão e o funcionamento da equipe, e não sobre o caso clínico. A experiência brasileira documentada em Saúde e Sociedade mostrou que a construção coletiva do matriciamento, com discussões de caso regulares e atendimento conjunto, viabiliza o cuidado de quadros graves na própria UBS e tece a rede antes mesmo de o usuário precisar dela [5]. No internato, o matriciamento aparece como discussão de caso em equipe, consulta compartilhada, supervisão de casos complexos e apoio remoto.
Instrumentos padronizam o que o bom julgamento clínico já desconfia: quantificam gravidade, orientam conduta e permitem seguimento objetivo. Nenhum deles fecha diagnóstico sozinho, porque a confirmação vem da entrevista clínica estruturada, mas todos são conteúdo recorrente de prova e de plantão.
| Instrumento | O que avalia | Pontos de corte | Uso prático na UBS |
|---|---|---|---|
| SRQ-20 | Rastreio de transtornos mentais comuns (20 itens, resposta sim/não) | ≥6 em mulheres e ≥5 em homens (validação brasileira) | Triagem em consulta e em campanhas; positivo abre avaliação clínica |
| PHQ-9 | Depressão (9 itens que espelham os critérios sintomáticos) | 5 leve; 10 moderada; 15 moderadamente grave; 20 grave | Diagnóstico e seguimento; item 9 (pensamentos de morte) exige avaliação de risco |
| GAD-7 | Ansiedade (7 itens, foco em ansiedade generalizada) | 5 leve; 10 moderada; 15 grave | Rastreio de TAG, pânico e fobia social; acompanhar resposta ao tratamento |
| AUDIT | Padrão de consumo de álcool (10 itens, OMS) | 0-7 baixo risco; 8-15 risco; 16-19 nocivo; 20-40 possível dependência | Zonas I a IV com intervenções distintas, da orientação à referência ao CAPSad |
O PHQ-9 valida-se por espelhar os nove critérios sintomáticos da depressão: no estudo original, com corte de 10, apresentou sensibilidade de 88% e especificidade de 88% para depressão maior na atenção primária [1]. O GAD-7, com sete itens de ansiedade, mostrou sensibilidade de 89% e especificidade de 82% para transtorno de ansiedade generalizada com o mesmo corte de 10 [2]. O AUDIT foi desenvolvido pela OMS em projeto colaborativo multinacional para detectar consumo de risco, nocivo e possível dependência em um único instrumento [3]. O SRQ-20, na versão brasileira, indica transtorno mental comum a partir de 6 pontos em mulheres e 5 em homens.
O AUDIT divide o consumo em zonas: 0-7 é consumo de baixo risco (Zona I), manejado com educação em saúde; 8-15 é consumo de risco (Zona II), que pede intervenção breve de 5 a 15 minutos em técnica de entrevista motivacional na própria UBS; 16-19 é uso nocivo (Zona III), com intervenção breve mais intensa, monitoramento próximo e discussão em matriciamento; 20-40 sugere possível dependência (Zona IV), que deve ser referida ao CAPSad, frequentemente com desintoxicação supervisionada. O CAGE complementa em contexto de urgência (duas ou mais respostas positivas são sugestivas), e toda avaliação de consumo pergunta quantidade, padrão e última dose, dados que antecipam a síndrome de abstinência.
Na ansiedade, GAD-7 ≥10 abre avaliação para transtorno de ansiedade generalizada, pânico e fobia social; o tratamento inicial combina psicoterapia cognitivo-comportamental e inibidor de recaptação de serotonina, ambos iniciáveis na APS. Benzodiazepínicos têm espaço limitado: episódios agudos com tempo definido, prescrição em receita de controle especial (lista B1 da Portaria 344/1998) e vigilância de dependência, quedas e prejuízo cognitivo em idosos. Ansiedade e álcool frequentemente coexistem, e tratar o quadro ansioso sem avaliar o consumo de álcool é erro clássico de manejo.
O cuidado colaborativo é a versão estruturada do que o matriciamento faz: gestor de caso, reavaliações programadas, supervisão psiquiátrica e integração formal entre APS e especialidade. A revisão Cochrane de Archer e colaboradores agregou 79 ensaios com 24.308 participantes em depressão e ansiedade: o cuidado colaborativo aumentou a probabilidade de resposta ao tratamento (risco relativo em torno de 1,7) e melhorou desfechos funcionais em comparação com o cuidado habitual, com efeito que se mantém por até 12 meses [4]. Para a prova, a mensagem é direta: integrar APS e especialista é mais eficaz do que encaminhar e esperar.
Todo PHQ-9 com item 9 positivo e toda consulta com sofrimento intenso terminam em avaliação de risco. A evidência é estável: perguntar diretamente sobre suicídio não induz a ideia; alivia, organiza e abre o tratamento. A escada de perguntas avança do geral ao específico: sente-se sem esperança; tem pensado que seria melhor estar morto (ideação passiva); já pensou em se matar (ideação ativa); pensou em como faria (plano); tem os meios ao alcance; já tentou antes. A tentativa prévia é o maior preditor isolado de nova tentativa, e a Columbia-Suicide Severity Rating Scale estrutura essa avaliação em perguntas de rastreio que categorizam ideação e comportamento.
Kessels sintetizou em clássico da comunicação clínica: pacientes esquecem 40% a 80% das informações médicas imediatamente após a consulta, e metade do que é lembrado sai errada [6]. Em saúde mental, onde a psicoeducação é parte do tratamento, isso muda a prática: dar a informação mais importante primeiro, usar linguagem simples e categorizada, repetir a mensagem-chave, entregar orientação escrita e fechar com verificação da compreensão, pedindo que o usuário explique com as próprias palavras o que vai fazer. Nomear o diagnóstico, explicar o curso esperado, o tempo de tratamento e os efeitos adversos dos medicamentos aumenta a adesão, e a adesão é o fator modificável que mais determina recaída.
1.PHQ-9 com escore 12 em usuário de UBS: qual a classificação e a conduta-base?
2.Usuário marca o item 9 do PHQ-9 (pensamentos de estar melhor morto). Qual conduta é obrigatória?
3.AUDIT de 17 pontos (Zona III). Qual a intervenção adequada?
4.AUDIT de 26 pontos com sinais de dependência. Para onde orientar?
5.Qual o ponto de corte do SRQ-20 na validação brasileira para transtorno mental comum?
6.Qual a definição correta de matriciamento?
7.O que distingue o CAPS iii dos demais CAPS?
8.O que a revisão Cochrane sobre cuidado colaborativo mostrou?
9.Segundo Kessels, quanto do que se explica em consulta o paciente esquece, e qual estratégia combate isso?
10.Usuária com PHQ-9 de 12, item 9 negativo, sem risco e primeiro episódio. Qual o melhor fluxo?
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