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Ensina as definições de sepse pediátrica do SIRS ao critério Phoenix, a triagem da pneumonia pela taquipneia da OMS, os antimicrobianos com doses por peso da diretriz PIDS/IDSA e o protocolo da primeira hora do Surviving Sepsis pediátrico, incluindo a lição do FEAST sobre o bolus de fluido.
[1] Weiss SL, Peters MJ, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign International Guidelines for the Management of Septic Shock and Sepsis-Associated Organ Dysfunction in Children. Pediatr Crit Care Med. 2020;21(2):e52-e106 · DOI 10.1097/PCC.0000000000002198 | [2] Schlapbach LJ, Watson RS, Sorce LR, et al. International Consensus Criteria for Pediatric Sepsis and Septic Shock (Phoenix). JAMA. 2024;331(8):665-675 · DOI 10.1001/jama.2024.0179 | [3] Bradley JS, Byington CL, Shah SS, et al. The Management of Community-Acquired Pneumonia in Infants and Children Older Than 3 Months of Age: Clinical Practice Guidelines by the Pediatric Infectious Diseases Society and the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;53(7):e25-e76 · DOI 10.1093/cid/cir531 | [4] Maitland K, Kiguli S, Opoka RO, et al. Mortality after Fluid Bolus in African Children with Severe Infection (FEAST). N Engl J Med. 2011;364(26):2483-2495 · DOI 10.1056/NEJMoa1101549 | [5] Hartman ME, Linde-Zwirble WT, Angus DC, Watson RS. Trends in the Epidemiology of Pediatric Severe Sepsis. Pediatr Crit Care Med. 2013;14(7):686-693 · DOI 10.1097/PCC.0b013e3182917fad · DOI 10.1097/PCC.0000000000002198
Pneumonia e sepse são as duas faces do mesmo problema na enfermaria pediátrica: a pneumonia é a principal causa infecciosa de morte em menores de 5 anos no mundo, com cerca de 740 mil óbitos anuais, e a sepse é a via final mais letal de qualquer infecção na criança, com incidência na ordem de 1 caso grave por 1.000 crianças-ano nos dados de população norte-americanos, nos quais a mortalidade caiu ao longo dos anos 2000 sem deixar de ser relevante [5]. As bancas de residência cobram três blocos dessa cena: as definições (do SIRS de 2005 ao critério Phoenix de 2024 [2]), as doses por peso dos antimicrobianos da diretriz PIDS/IDSA [3] e o pacote da primeira hora do Surviving Sepsis pediátrico [1], que no Brasil inclui uma lição nacional de segurança que vem da África: o ensaio FEAST mostrou que o bolus indiscriminado de fluido aumenta mortalidade na infecção grave sem choque [4]. Este artigo organiza os dois quadros como o interno os encontra: do reconhecimento à prescrição, com números.
Durante quase duas décadas, o padrão foi a conferência internacional de 2005: sepse pediátrica = SIRS (2 de 4 critérios — temperatura acima de 38,5 ou abaixo de 36 °C; frequência cardíaca acima de 2 desvios-padrão para a idade; frequência respiratória acima de 2 desvios-padrão; leucometria acima ou abaixo de 2 desvios-padrão ou bastonemia acima de 10%) associada a infecção suspeita ou confirmada; sepse grave = sepse com disfunção cardiovascular, ARDS ou duas ou mais outras disfunções de órgão; choque séptico = sepse com hipotensão que persiste após 40 mL/kg de reposição de volume. Em 2024, o critério Phoenix substituiu essa arquitetura por disfunção de órgão direta: pontuam-se 4 sistemas (respiratório, cardiovascular, coagulação, neurológico) e define-se sepse pediátrica como 2 ou mais pontos totais incluindo ao menos 1 ponto cardiovascular ou neurológico; choque séptico é sepse com ao menos 1 ponto cardiovascular [2]. O componente cardiovascular pontua 1 quando existe qualquer vasoativo em uso ou dois dos seguintes: pressão arterial média abaixo do percentil 5 para a idade, lactato acima de 5 mmol/L e acidose metabólica inexplicada (déficit de base acima de 5 mEq/L); pontua 2 quando o vasoativo coexiste com qualquer um desses três. No exame, identifique qual critério a questão usa: definidos por SIRS ainda aparecem, mas a sepse que vale desfecho hoje é a do Phoenix.
| Conceito | Consenso 2005 (SIRS) | Phoenix 2024 |
|---|---|---|
| Sepse | SIRS (2 de 4) + infecção suspeita ou confirmada | ≥2 pontos entre respiratório, cardiovascular, coagulação e neurológico, com ≥1 ponto cardiovascular ou neurológico |
| Sepse grave | Sepse + disfunção cardiovascular, ARDS ou ≥2 outras disfunções | Termo abandonado; a disfunção é o próprio critério |
| Choque séptico | Sepse + hipotensão persistente após 40 mL/kg de fluido | Sepse + ≥1 ponto cardiovascular (vasoativo, PAM <P5 por idade, lactato >5 mmol/L, déficit de base >5) |
| Base | Resposta inflamatória (SIRS) | Disfunção de órgão medida (score por sistema) |
| Aplicação | 2 meses a 18 anos | Prematuro de 37 semanas corrigidas a 18 anos, fora do período neonatal |
Na pneumonia, a carga é concentrada: a maioria absoluta das mortes ocorre em menores de 5 anos em países de renda baixa e média, o Streptococcus pneumoniae segue como agente bacteriano isolado mais importante, e os vírus respiratórios (sincicial, influenza) dominam no lactente — em grande parte das crianças há sobreposição entre infecção viral e bacteriana, o que impede decisões por exclusão. A vacinação antipneumocócica conjugada reduziu a doença invasiva por sorotipos vacinais e a hospitalização por pneumonia em vários países. Na sepse, os estudos de população dos Estados Unidos mostraram aumento da incidência detectada ao longo da década de 2000 (melhor captura e real aumento) com queda paralela da mortalidade hospitalar, que hoje se situa na casa de um dígito nos grandes centros pediátricos, porém com morbilidade significativa entre sobreviventes [5]. Os focos mais comuns variam com a idade: respiratório e dispositivo vascular no internado, geniturinário e abdominal no lactente, e meningococcia no adolescente — a informação que direciona a antibioticoterapia empírica.
Na pneumonia, o patógeno alcança o parênquima por inalação ou aspiração, vence as defesas locais (mucociliar, macrófago alveolar) e desencadeia consolidação com enchimento alveolar — a disfunção é hipoxêmica por curto-circuito, e o risco sistêmico aparece quando a bacteremia ou a resposta inflamatória transbordam o pulmão. Na sepse, a mesma arquitetura muda de escala: componentes microbianos ativam receptores de reconhecimento padrão e disparam tempestade de citocinas, ativação difusa do endotélio, extravasamento capilar, microtrombose e disfunção miocárdica — o choque distributivo pediátrico, no qual a queda da resistência vascular sistêmica convive com hipovolemia relativa por extravasamento capilar e débito cardíaco frequentemente alto. A especificidade pediátrica está na compensação: a criança sustenta o débito pela frequência cardíaca (o miocárdio jovem tem pouca reserva para elevar o volume sistólico), de modo que taquicardia progressiva com má perfusão antecede por horas a hipotensão, que é sinal tardio e pré-parada. Daí a centralidade da perfusão clínica (capilar, diurese, sensório) e do lactato na triagem, e daí a lição do FEAST: em crianças africanas com infecção grave e ausência de hipotensão ou hipoperfusão grave, o bolus de fluido (albumina ou salina) aumentou a mortalidade em 14 dias — 10,5% com salina e 10,6% com albumina contra 7,3% no controle, risco relativo de cerca de 1,45 [4] — ou seja, fluido é medicamento com efeito adverso, indicado quando há choque e reavaliado a cada bolus [1].
A pneumonia na criança tem três sinais-âncora: taquipneia (o mais sensível dos achados e critério da OMS para tratar), tiragem subcostal (indica esforço e doença de vias baixas) e ausculta alterada (crepitações focais ou broncofonia), que somada à febre alta sem fonte clara e à dor torácica ou abdominal (muito comum na pneumonia basal) fecha o quadro. A taquipneia da OMS tem limiares por idade que precisam estar na ponta da língua porque servem tanto para diagnóstico quanto para decidir referência: conta-se um ciclo completo em 60 segundos, na criança calma e sem febre recente pelo esforço. Os sinais de perigo que definem gravidade e pedem internação imediata são: cianose ou SpO2 abaixo de 90% em ar ambiente, gemência, aleteio nasal, tiragem grave, recusa total de ingesta ou vômito de tudo, convulsão, alteração do sensório, estridor em repouso e desidratação associada. Na sepse, o quadro é mais traiçoeiro: lactente apresenta com má succão, irritabilidade inconsolável ou hipotonia, temperatura instável — inclusive hipotermia —, e o único achado pode ser a preocupação da mãe; na criança maior, febre com calafrio, taquicardia fora de proporção, pele marmórea e queda do nível de atividade. Febre + taquicardia + má perfusão = avaliar sepse na hora; nunca atribuir o quadro a 'post-viral' sem checar perfusão, lactato e urina.
| Idade | Limiar de taquipneia da OMS | Implicação prática |
|---|---|---|
| Menor de 2 meses | FR ≥60 irpm | Qualquer pneumonia é referência prioritária; lactente pequeno decompensa rápido |
| 2 a 11 meses | FR ≥50 irpm | Taquipneia + tiragem define doença baixa que precisa avaliação |
| 12 a 59 meses | FR ≥40 irpm | Critério de tratamento no nível primário se sem sinais de perigo |
| 5 a 12 anos | FR ≥30 irpm | Limiares das diretrizes de pneumonia para idade escolar |
| Acima de 12 anos | FR ≥20-24 irpm | Aproxima-se do limiar adulto; valorizar tendência |
Na pneumonia, a radiografia não é rotina no quadro ambulatorial leve (não muda conduta nem desfecho), mas é indicada em toda criança internada, na hipóxia, na falha de tratamento e na suspeita de complicação; consolidação lobar alveolar favorece etiologia bacteriana e hiperinsuflação com infiltrado intersticial sugere viral. PCR e procalcitonina não distinguem com segurança viral de bacteriano e jamais substituem a clínica; servem, na melhor das hipóteses, como apoio de tendência. Hemocultura antes do antibiótico é padrão no internado com quadro moderado a grave (positiva em minoria, mas quando positiva muda terapia); painéis moleculares respiratórios podem reduzir antibiótico em cenários selecionados. Na sepse, a regra é medir perfusão, não esperar pressão: lactato sérico em toda criança com suspeita e fator de risco (o limiar de 2 mmol/L funciona como sinal de triagem e o de 5 mmol/L entra no critério cardiovascular do Phoenix [2]), gasometria com déficit de base, glicemia (hipoglicemia é emergência própria do lactente), hemograma com fórmula, eletrólitos, função renal e culturas de sangue antes do antibiótico, sem atrasar a primeira dose além do mínimo necessário [1]. Urocultura em toda febre sem fonte no lactente, e punção lombar quando meningite entra no diferencial, com timing conforme a estabilidade.
A diretriz PIDS/IDSA estrutura a escolha por três variáveis: idade, imunização antipneumocócica completa ou não e gravidade. Criança internada, imunizada e sem critério grave recebe ampicilina intravenosa (a evidência mostra cobertura suficiente para o pneumococo sensível); quadro grave, falha prévia de antibiótico ou não imunizada pede ceftriaxona ou cefotaxima; suspeita de atípico (idade escolar, tosse prolongada, quadro subagudo) soma macrolídeo; e pneumonia pós-influenza com piora rápida levanta sempre Staphylococcus aureus, com oxacilina (sensível) ou cobertura anti-MRSA conforme epidemiologia local. Suporte paralelo: oxigênio para SpO2 abaixo de 90-92%, hidratação oral preferida e intravenosa apenas quando necessária, antitérmico para conforto e alta com critério de afebrilidade e tolerância oral.
| Cenário | Droga e dose (pediátrica) | Observações |
|---|---|---|
| CAP leve, ambulatorial, imunizada | Amoxicilina 90 mg/kg/dia dividida em 2 doses, 5-10 dias | Alta dose para vencer resistência relativa do pneumococo; reavaliar em 48-72 h |
| Internada, leve-moderada, imunizada | Ampicilina IV 150-200 mg/kg/dia dividida de 6/6 h | Cobertura suficiente do pneumococo sensível na criança vacinada [3] |
| Grave, não imunizada ou falha prévia | Ceftriaxona IV 50-75 mg/kg/dia (75-100 se suspeita de meningite) ou cefotaxima | Reavaliar foco e considerar imagem se sem resposta em 48 h |
| Suspeita de atípico (acima de 5 anos, subagudo) | Azitromicina 10 mg/kg no 1º dia, depois 5 mg/kg/dia por 4 dias | Soma-se ao betalactâmico no internado grave quando atípico no diferencial |
| Pós-influenza, piora rápida (suspeita de S. aureus) | Oxacilina IV 150-200 mg/kg/dia de 6/6 h; se MRSA local: vancomicina 60-80 mg/kg/dia de 6/6 h | Pensar em necrose e empiema; imagem precoce |
| Critério de término | Mínimo de 5 dias totais e 48 h afebril; troca IV-oral quando afebril 24-48 h e tolerando | Registrar data de término no leito desde a prescrição inicial |
Na pneumonia, as complicações que o interno deve procurar por imagem quando a febre persiste além de 48-72 horas de antibiótico adequado são o derrame parapneumônico e o empiema (drenar quando moderado a grande ou com impacto clínico; fibrinolítico intrapleural ou cirurgia videoassistida nos loculados), a necrose pulmonar (pneumatoceles e sequestro de perfusão, típicos do S. aureus) e a bacteremia persistente. Dois desdobramentos clássicos aparecem em prova: a síndrome hemolítico-urêmica associada a pneumonia pneumocócica (anemia microangiopática, plaquetopenia e lesão renal após pneumonia) e a ARDS pediátrica como forma grave de falência. Na sepse, a mortalidade caiu, mas a morbilidade segue: disfunção multiorgânica na fase aguda, lesão renal que às vezes exige terapia de substituição, e sequelas neurocognitivas e funcionais nos sobreviventes, o que fundamenta o seguimento pós-UTI. Fatores de mau prognóstico consistentes: idade menor de 1 ano, desnutrição, imunossupressão, demora no antibiótico e refratariedade ao fluido na primeira hora — ou seja, quase tudo o que depende do reconhecimento precoce que este artigo descreve.
1.Segundo a OMS, qual o limiar de taquipneia que caracteriza pneumonia no lactente de 2 a 11 meses?
2.Segundo o consenso de 2005, o choque séptico pediátrico definia-se por:
3.No critério Phoenix (2024), o componente cardiovascular pontua 1 quando:
4.Qual foi o achado central do ensaio FEAST que mudou o uso de fluidos na infecção grave pediátrica?
5.Segundo o Surviving Sepsis pediátrico (2020), o vasoativo de primeira escolha no choque séptico da criança é:
6.Criança de 2 anos, imunizada, internada com pneumonia leve-moderada, sem sinais de gravidade. Qual antimicrobiano inicial recomenda a diretriz PIDS/IDSA?
7.Pneumonia pós-influenza com piora rápida e nova consolidação densa. Qual agente deve entrar de imediato no raciocínio?
8.Qual é o critério de duração do antibiótico na pneumonia internada sem complicação?
9.Sobre o papel dos exames no diagnóstico da pneumonia pediátrica, é correto afirmar:
10.Lactente de 4 meses com hipotermia (35,6 °C), recusa alimentar e capilar de 4 segundos. Qual é a conduta correta?
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