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Classificação da crise (moderada, grave, risco de vida) com limiares de saturação e fala, doses por peso de salbutamol, ipatrópio, corticoide sistêmico e magnésio, o papel do espaçador com câmara e o diferencial com bronquiolite e corpo estranho. Fecha com critérios de UTI, de alta e o pacote de prevenção de recaída.
[1] Solé D, Wandalsen GF, Camelo-Nunes IC, Naspitz CK; Grupo ISAAC Brasileiro. Prevalence of symptoms of asthma, rhinitis, and atopic eczema among Brazilian children and adolescents identified by the International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC) - Phase 3. J Pediatr (Rio J). 2006 · DOI 10.2223/jped.1521 | [2] Ebmeier S, Thayabaran D, Braithwaite I, et al. Trends in international asthma mortality: analysis of data from the WHO Mortality Database from 46 countries (1993-2012). Lancet. 2017;390(10098):935-945 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)31448-4 | [3] Papi A, Brightling C, Pedersen SE, Reddel HK. Asthma. Lancet (Seminário). 2018;391(10122):783-800 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)33311-1 | [4] Castro-Rodriguez JA, Rodrigo GJ. Beta-agonists through metered-dose inhaler with valved holding chamber versus nebulizer for acute exacerbation of wheezing or asthma in children under 5 years of age: a systematic review with meta-analysis. J Pediatr. 2004 · DOI 10.1016/j.jpeds.2004.04.007 | [5] Rodrigo GJ, Castro-Rodriguez JA. Anticholinergics in the treatment of children and adults with acute asthma: a systematic review with meta-analysis. Thorax. 2005;60(9):740-746 · DOI 10.1136/thx.2005.047803 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)33311-1
A asma é a doença crônica mais comum da infância e uma das principais causas de internação pediátrica: no ISAAC fase 3, cerca de 24% dos escolares brasileiros de 6 e 7 anos e 23% dos adolescentes de 13 e 14 anos relataram sibilância nos últimos 12 meses, colocando o Brasil entre os países com maior sintomatologia asmática do mundo [1]. A boa notícia é temporal: entre 1993 e 2012, a mortalidade por asma caiu na grande maioria dos 46 países com dados confiáveis, reflexo direto do uso de corticoide inalatório e do tratamento padronizado das crises [2]. Para o interno da enfermaria, a competência central é dupla: graduar a crise corretamente (moderada, grave, risco de vida), porque a conduta depende disso, e prescrever com dose por peso sem hesitar: salbutamol 0,15 mg/kg por nebulização, ipatrópio somado na grave, corticoide sistêmico nas primeiras horas e magnésio intravenoso quando a crise não cede.
Asma é inflamação crônica das vias aéreas em que participam mastócitos, eosinófilos e linfócitos T helper 2 com suas citocinas (IL-4, IL-5, IL-13), com hiper-reatividade brônquica e obstrução variável e reversível [3]. Crise aguda (exacerbação) é a piora aguda ou subaguda de sintomas — dispneia, tosse, sibilância, aperto torácico — com queda da função pulmonar. A classificação prática na porta de entrada separa três grupos e depende de parâmetros simples de beira de leito: capacidade de falar, nível de consciência, saturação e resposta ao broncodilatador. Duas regras que salvam: a gravidade não se mede pelo volume da sibilância (sibilância que desaparece pode ser obstrução crítica), e criança que já chega falando palavras em vez de frases está no grupo grave.
| Parâmetro | Leve a moderada | Grave | Risco de vida iminente |
|---|---|---|---|
| Fala | Frases completas | Palavras curtas, esforço para falar | Incapaz de falar; confusão ou sonolência |
| Consciência | Alerta | Agitado, inquieto | Exausto, obtundado ou paradoxalmente calmo |
| Sibilância | Moderada, expiratória | Intensa, inspiratória e expiratória | Silêncio torácico (fluxo quase nulo) |
| SpO2 | 95% ou mais | 92-94% | Menor que 92% |
| Musculatura acessória | Uso leve | Tiragem intensa (subcostal, intercostal, supraesternal) | Fadiga com movimento paradoxal tóraco-abdominal |
| Resposta ao salbutamol inicial | Rápida e sustentada | Parcial, recidiva em 1-2 horas | Mínima ou ausente |
No Brasil, o ISAAC fase 3 documentou prevalência de sibilância nos últimos 12 meses em torno de 24% em escolares e 23% em adolescentes, com variações regionais expressivas [1]. A hospitalização por crise é a expressão da doença não controlada, e os fatores que a predispõem devem ser registrados na admissão porque mudam o plano de alta: ser exacerbador frequente (duas ou mais exacerbações por ano), não adesão ao corticoide inalatório, técnica inalatória incorreta, exposição à fumaça de cigarro, rinite mal controlada, obesidade e privação socioeconômica. História prévia de internação em UTI ou intubação por asma define risco elevado de asma quase fatal e exige vigilância redobrada. Apesar da queda consistente da mortalidade global [2], a maioria dos óbitos continua associada a subestimação da gravidade por pacientes e profissionais e ao atraso do corticoide sistêmico.
Três mecanismos somados estreitam a luz brônquica: broncoespasmo (contração do músculo liso), edema da mucosa (inflamação) e hipersecreção de muco espesso (plastrões brônquicos nos casos extremos). Em crianças, a via aérea pequena e a parede torácica complacente amplificam o efeito: o ar fica preso distalmente (air trapping), o pulmão hiperinsufla, o diafragma se achata e o trabalho respiratório dispara. A hipoxemia precoce decorre do desequilíbrio ventilação-perfusão; a hipercapnia é tardia e sinistra, pois indica fadiga muscular e hipoventilação global — criança com PaCO2 normal ou elevada na gasometria está pior do que aparenta. O silêncio torácico corresponde a fluxo tão baixo que não gera mais sibilância: é sinal de obstrução crítica, não de melhora. O gatilho mais comum da crise infantil é a infecção viral (rinovírus em particular), somado a alérgenos, exercício, ar frio e poluição.
A crise típica chega com tosse paroxística, sibilância e dispneia piorando à noite e ao esforço. O exame estruturado mede: frequência respiratória por idade, saturação em ar ambiente, capacidade de falar e de alimentar, tiragem, cianose, nível de consciência e, na criança maior de 5-6 anos, pico de fluxo expiratório comparado ao melhor valor pessoal (grave: menor que 50%; risco de vida: menor que 33%). Sinais que mudam tudo em segundos: silêncio torácico, cianose, incapacidade de falar, sonolência, agitação resistente ao oxigênio (hipercapnia) e bradicardia progressiva — em pediatria, bradicardia é prelúdio de parada. A taquicardia é esperada pela doença e pelo salbutamol; o pulso paradoxal desaparece na crise muito grave por fluxo insuficiente e é sinal tardio.
O diagnóstico da crise é clínico e o tratamento não espera exame. Raio-X de tórax não é rotineiro: reserva-se à suspeita de complicação (pneumotórax, pneumomediastino, atelectasia), corpo estranho, pneumonia ou resposta inadequada ao tratamento. A gasometria é para a crise grave ou piora clínica: hipoxemia com PaCO2 normal ou elevada pede UTI, porque a oximetria isolada não detecta hipercapnia. Hemograma, PCR e cultura só quando infecção bacteriana é hipótese real. O pico de fluxo orienta a resposta na criança cooperadora. Os diferenciais obrigatórios variam por idade e são a parte da prova que separa asma de tudo o mais.
| Diagnóstico diferencial | Pista clínica | Manobra decisiva |
|---|---|---|
| Bronquiolite | Menor de 2 anos, primeira sibilância, coriza e tosse prévias, epidemia sazonal | Idade e história; broncodilatador dá resposta parcial e não muda a evolução |
| Corpo estranho | Início abrupto durante alimentação ou brincadeira, sibilância unilateral, tosse persistente | Raio-X em inspiração e expiração; broncoscopia se a suspeita persistir |
| Pneumonia bacteriana | Febre alta, taquipneia, foco de condensação à ausculta, toxicidade | Raio-X com condensação; antibiótico quando documentada |
| Laringotraqueíte | Estridor inspiratório, tosse de latido, piora noturna | Dexametasona e adrenalina nebulizada no estridor; não é doença do parênquima |
O pilar é a combinação de broncodilatador beta-2 agonista inalatório com corticoide sistêmico precoce. O corticoide administrado na primeira hora reduz internações e a necessidade de doses repetidas de salbutamol, e a via oral é tão eficaz quanto a intravenosa quando a criança tolera. O oxigênio tem alvo de saturação de 94% a 98%; abaixo de 92% a crise é grave e o suporte é contínuo. A tabela abaixo é a que precisa estar na cabeça no plantão.
| Fármaco | Dose pediátrica | Máximo | Observações |
|---|---|---|---|
| Salbutamol por nebulização | 0,15 mg/kg por dose (mínimo 2,5 mg, máximo 5 mg) | 5 mg por dose | Crise grave: a cada 20 minutos nas 3 primeiras doses; depois a cada 1-4 h conforme resposta |
| Salbutamol nebulização contínua | 0,3-0,5 mg/kg/h | 15 mg/h | Crise grave refratária, em fluxo de oxigênio e com monitorização |
| Salbutamol spray + espaçador | 2-6 jatos (0,1 mg por jato) por aplicação | Conforme gravidade | Tão eficaz quanto nebulizador, inclusive em menores de 5 anos [4]; mais rápido e menos tremor |
| Brometo de ipatrópio nebulização | 250-500 mcg por dose (500 mcg se maior de 20 kg) | 500 mcg por dose | Somar ao salbutamol, 3 doses a cada 20 minutos na crise grave; reduz internação [5] |
| Prednisolona VO | 1-2 mg/kg/dia | 60 mg/dia | 3-5 dias, sem necessidade de desmame; começa na chegada |
| Dexametasona VO | 0,6 mg/kg/dia | 16 mg/dia | Alternativa de 1-2 dias, vantagem de palatabilidade e adesão |
| Metilprednisolona IV | 1 mg/kg por dose a cada 6 h | 60 mg por dose | Quando a via oral não é tolerada ou na crise que ameaça intubação |
| Sulfato de magnésio IV | 25-50 mg/kg em 20 min | 2 g | Crise grave que não responde; monitorar PA, reflexos e diurese |
Medidas de suporte: oxigênio para saturação de 94% a 98%, hidratação enteral precoce quando possível, posição sentada confortável, antitérmico apenas se febre e nenhuma sedação — sedativo deprime o centro respiratório e mascara o esforço. A reavaliação formal a cada 20 a 60 minutos usa os mesmos parâmetros da admissão. Antibiótico não é rotina da crise de asma: reserva-se à pneumonia ou infecção bacteriana documentada. A aminofilina intravenosa não é mais tratamento padrão; fica confinada à UTI pediátrica em casos selecionados e monitorados.
A alta exige criança em ar ambiente com saturação estável acima de 94% por pelo menos 3 a 4 horas, salbutamol a cada 4-6 horas sem critérios de gravidade e família treinada. A receita de saída inclui: salbutamol por câmara para resgate (2 jatos a cada 4-6 horas conforme necessidade), complemento do corticoide oral (total de 3-5 dias de tratamento) e, na crise significativa ou primeira crise, início ou retomada do corticoide inalatório diário — o corticoide inalatório é a base da prevenção, e a não adesão a ele é a maior causa de readmissão [3]. O plano de ação escrito (quando aumentar o resgate, quando procurar serviço) e a consulta de reavaliação em 1 a 4 semanas fecham o pacote. Antes de liberar: checar técnica inalatória na prática, tabagismo passivo em casa, rinite associada (tratar) e vacinação em dia (influenza anual).
As complicações da crise grave incluem pneumomediastino e pneumotórax (escape aéreo por ruptura de alvéolos hiperinsuflados), atelectasias por tampão de muco, acidose respiratória e parada cardiorrespiratória por hipóxia — a fadiga é o mecanismo final e o silêncio torácico é o alerta. O salbutamol em dose alta pode elevar o lactato sem significar choque (hiperlactatemia beta-2). O prognóstico da crise tratada cedo é excelente: a maioria das crianças melhora em 24 a 72 horas. O desfecho de longo prazo depende do controle: asma não controlada com corticoide inalatório se cronifica com remodelamento da parede brônquica (hipertrofia de músculo liso, espessamento da membrana basal, hiperplasia de células caliciformes) e queda funcional que não reverte, enquanto o tratamento regular preserva função e reduz exacerbações [3]. Os poucos óbitos se concentram em asmas quase fatais prévias, atraso do corticoide e subestimação da gravidade — as três falhas que uma enfermaria bem organizada elimina [2].
1.Qual a dose de salbutamol por nebulização na crise aguda pediátrica?
2.Por que o brometo de ipatrópio é somado ao salbutamol na crise grave?
3.Qual o esquema de corticoide sistêmico na crise de asma?
4.Qual achado define risco de vida iminente na crise de asma?
5.Qual o papel do espaçador com câmara (válvula) na crise aguda?
6.Qual a dose de sulfato de magnésio intravenoso na crise grave refratária?
7.Quando o raio-X de tórax é indicado na crise de asma?
8.Gasometria com PaCO2 de 52 mmHg e pH 7,28 em criança com asma grave significa:
9.Qual a conduta com antibióticos na crise de asma?
10.Qual critério essencial para alta da enfermaria?
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