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Reconhecimento estruturado da criança criticamente doente na admissão: Triângulo de Avaliação Pediátrico, ABCDE com sinais vitais por idade, fórmulas de peso, escores PEWS e Glasgow, critérios Phoenix de sepse, critérios de internação em enfermaria e UTI pediátrica e as doses das condutas da primeira hora.
[1] Dieckmann RA, Brownstein D, Gausche-Hill M. The Pediatric Assessment Triangle: A Novel Approach for the Rapid Evaluation of Children. Pediatr Emerg Care. 2010;26(4):312-315 · DOI 10.1097/PEC.0b013e3181d6db37 | [2] Weiss SL, Peters MJ, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign International Guidelines for the Management of Septic Shock and Sepsis-Associated Organ Dysfunction in Children. Pediatr Crit Care Med. 2020;21(2):e52-e106 · DOI 10.1097/PCC.0000000000002198 | [3] Parshuram CS, Dryden-Palmer K, Foster C, et al. Effect of a Pediatric Early Warning System on All-Cause Mortality in Hospitalized Pediatric Patients: The EPOCH Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;319(10):1002-1011 · DOI 10.1001/jama.2018.0948 | [4] Topjian AA, Raymond TT, Atkins D, et al. Part 4: Pediatric Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S469-S523 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000901 | [5] Parshuram CS, Hutchison J, Middaugh K. Development and initial validation of the Bedside Paediatric Early Warning System score. Crit Care. 2009;13(4):R135 · DOI 10.1186/cc7998 | [6] Sanchez-Pinto LN, Bennett TD, DeWitt PE, et al. Development and Validation of the Phoenix Criteria for Pediatric Sepsis and Septic Shock. JAMA. 2024;331(8):675-686 · DOI 10.1001/jama.2024.0196 · DOI 10.1097/PEC.0b013e3181d6db37
A criança tem reserva fisiológica para disfarçar a doença grave: compensa com taquicardia e vasoconstrição por horas e depois colapsa em minutos. A parada cardiorrespiratória pediátrica é, na grande maioria, asfixiante — desfecho final de hipoxemia e choque não tratados —, e não primariamente arrítmica como no adulto, o que faz do reconhecimento precoce a intervenção mais efetiva do plantão. Na admissão, o interno precisa executar uma sequência estruturada: Triângulo de Avaliação Pediátrico (PAT) em segundos, ABCDE com valores por idade, cálculo de peso e das doses, e decisão de destino — enfermaria, unidade intermediária ou UTI pediátrica. As bancas cobram exatamente esses números: cortes de pressão arterial por idade, fórmula de peso, volume do bolus, doses de adrenalina e a conduta diante da bradicardia.
Criança grave é a que tem disfunção de órgão instalada ou iminente — falência respiratória, choque, rebaixamento do sensório, convulsão que não cede — independentemente do diagnóstico de base. A classificação útil na admissão é fisiológica, porque orienta o suporte imediato antes de qualquer etiqueta diagnóstica: insuficiência respiratória (hipoxêmica ou hipercápnica; de via aérea alta, como crupe e corpo estranho, ou baixa, como bronquiolite, asma e pneumonia), choque, lesão neurológica aguda e descompensação metabólica ou endócrina (cetoacidose diabética, insuficiência adrenal, intoxicações). Dentro do choque, a divisão do PALS é a que cai em prova:
A criança mantém a pressão arterial com taquicardia e vasoconstrição até perder cerca de 25-30% do volume sanguíneo — hipotensão é, portanto, sinal tardio de choque. O lactente depende do diafragma (costelas horizontais, músculos acessórios ineficazes), consome mais oxigênio por quilo e fadiga rapidamente: o trabalho respiratório que subitamente 'melhora' pode ser exaustão, e não recuperação. A resposta final à hipoxemia e à acidose é bradicardia, marcador de pré-parada; a criança pequena, com pouca reserva glicogênica, entra em hipoglicemia e hipotermia, fechando o ciclo da deterioração. Esse padrão explica por que a parada pediátrica é asfixiante e por que oxigenação, ventilação e volume precedem qualquer droga no algoritmo [4].
O PAT é uma avaliação visual e auditiva, feita da porta do quarto em cerca de 30 segundos, antes de tocar o paciente, que categoriza a gravidade em três eixos e direciona a prioridade de atendimento [1]. Ele não substitui os sinais vitais: antecipa-os, e é o único instrumento de triagem que funciona igual no lactente e no adolescente.
| Eixo | O que se observa da porta | Interpretação |
|---|---|---|
| Aparência | Tônus, interatividade, consolabilidade, olhar e voz, choro | Reflete oxigenação e perfusão cerebrais: a criança que 'parece doente' tem prioridade alta |
| Trabalho respiratório | Tiragens, batimento de asa de nariz, estridor, sibilância, gemido, posição de trípode | Distingue desconforto compensado de falência respiratória iminente |
| Circulação para a pele | Palidez, marmoreio, cianose, livedo | Marca a vasoconstrição compensatória do choque antes da queda da pressão |
A combinação dos eixos gera padrões: trabalho respiratório aumentado com aparência alterada e circulação anormal define falência cardiorrespiratória iminente (prioridade máxima); respiração ruidosa com aparência preservada sugere desconforto compensado; aparência alterada com trabalho respiratório normal aponta dor, intoxicação, estado pós-ictal, hipoglicemia ou lesão neurológica; circulação para a pele anormal com respiração tranquila levanta choque ou anemia grave. A acurácia do PAT para identificar criança de alto risco é alta em estudos pré-hospitalares e de emergência (sensibilidade reportada, conforme o estudo, entre cerca de 80% e 95%, com especificidade menor), e seu maior valor é padronizar a primeira impressão do olhar menos experiente [1].
Os cortes de anormalidade mudam com a idade, e aplicar valores de adulto é o erro mais comum. Valores aproximados segundo as diretrizes AHA/PALS:
| Idade | FC (bpm) | FR (irpm) | Corte de hipotensão (PAS) | Peso aproximado |
|---|---|---|---|---|
| Recém-nascido a termo | 100-180 | 30-60 | < 60 mmHg | 3,3-3,5 kg |
| Lactente (1-12 meses) | 100-160 | 30-53 | < 70 mmHg | ~7-10 kg (10 kg ao ano) |
| Pré-escolar (1-5 anos) | 90-150 | 22-37 (1-3 a); 20-28 (3-6 a) | < 70 + 2 x idade | (idade + 4) x 2 kg |
| Escolar (6-12 anos) | 70-120 | 18-25 | < 70 + 2 x idade | ~20-40 kg |
| Adolescente (> 12 anos) | 60-100 | 12-20 | < 90 mmHg | padrão adulto |
Fórmulas que resolvem a admissão: peso aproximado entre 1 e 10 anos = (idade + 4) x 2 kg — aos 12 meses, cerca de 10 kg, o triplo do peso de nascimento; em emergência, a fita de comprimento do tipo Broselow é a recomendação formal do PALS para estimar peso e doses [4]. Hipotensão é PAS menor que 70 mmHg no lactente, menor que 70 + 2 x idade entre 1 e 10 anos e menor que 90 mmHg a partir dos 10 anos. O manguito deve ter bolsa com largura correspondente a cerca de 40% da circunferência do braço: manguito estreito superestima a pressão e largo subestima. Diurese esperada: 1-2 mL/kg/h no lactente e 0,5-1 mL/kg/h na criança maior — registrar a fralda é dado clínico, não burocracia.
O PEWS (Pediatric Early Warning Score) pontua comportamento, sistema cardiovascular e respiratório, com cortes por idade para frequências cardíaca e respiratória e pontos por demanda de oxigênio, somados ao juízo da enfermagem. O BedsidePEWS, validado por Parshuram e colaboradores, vai de 0 a 26 pontos, e o corte de 7 ou mais acionou consulta de terapia intensiva na sequência de estudos [5]. No EPOCH, ensaio randomizado com 1.405 pacientes hospitalizados, o sistema com BedsidePEWS não reduziu a mortalidade de forma significativa (2,5% contra 2,1%), mas padronizou o acionamento da UTI e reduziu a duração da internação — a mensagem é que o escore organiza a resposta, mas não substitui o olhar clínico nem a cultura de escala [3].
O Glasgow pediátrico adapta apenas a resposta verbal: 5 pontos para a criança que sorri, está orientada e segue objetos; 4 para a que chora mas se consola; 3 para choro persistente e consolabilidade inadequada; 2 para agitação ou gemidos; 1 para nenhuma resposta. Abertura ocular e resposta motora são iguais às do adulto, e soma de 8 ou menos indica proteção da via aérea [4].
| Pontos | Abertura ocular | Resposta verbal (criança) | Resposta motora |
|---|---|---|---|
| 6 | — | — | Obedece a comandos |
| 5 | Espontânea | Sorri, orientado, segue objetos, reage | Localiza a dor |
| 4 | Ao comando | Chora, mas se consola | Retira da dor |
| 3 | À dor | Choro persistente, consolabilidade inadequada | Flexão anômala (decorticação) |
| 2 | — | Agitação ou gemidos | Extensão anômala (decerebração) |
| 1 | Nenhuma | Nenhuma | Nenhuma |
Em 2024, os critérios Phoenix substituíram a definição de sepse pediátrica baseada em SIRS: sepse exige pontuação total de 2 ou mais nos quatro domínios (respiratório, cardiovascular, coagulação e neurológico), com ao menos 1 ponto em respiratório ou cardiovascular; choque séptico é definido por 1 ou mais ponto no domínio cardiovascular [6]. À beira do leito, suspeita clínica de infecção com hipoperfusão e lactato maior que 2 mmol/L aciona o protocolo da primeira hora sem esperar a pontuação formal.
A mortalidade em UTI pediátrica brasileira fica em torno de 6-13% conforme o perfil do serviço, com sepse, doenças crônicas complexas dependentes de tecnologia e câncer entre as principais causas. A maioria das paradas em hospital é precedida de horas de piora documentável — taquicardia, aumento do trabalho respiratório, elevação do PEWS —, exatamente o que os sistemas de alerta e as equipes de resposta rápida existem para captar [3,5]. Iatrogenia é desfecho evitável: infecção de corrente sanguínea, sobrecarga hídrica e lesão por pressão são alvo de checklist diário. A sobrevivência à doença crítica pediátrica carrega sequelas — fraqueza adquirida na UTI e alterações cognitivas e comportamentais —, o que sustenta o seguimento pós-UTI multidisciplinar.
1.Quais são os três eixos do Triângulo de Avaliação Pediátrico?
2.Lactente em crise asmática entra em bradicardia de 52 bpm com má perfusão. Qual a primeira medida?
3.Qual o corte de hipotensão sistólica para a criança de 1 a 10 anos?
4.Qual o peso aproximado de uma criança de 6 anos pela fórmula clássica?
5.Segundo o Surviving Sepsis Campaign pediátrico 2020, qual a reposição inicial no choque séptico da criança?
6.Criança em choque séptico quente, vasodilatado, com extremidades quentes. Qual vasopressor de primeira linha?
7.Criança recebeu 50 mL/kg de cristaloide e continua em choque. Como se classifica e qual o próximo passo?
8.Qual escore de Glasgow pediátrico indica necessidade de proteção da via aérea?
9.Adolescente com anafilaxia e hipotensão, sem parada. Qual a via e dose de adrenalina?
10.O que o ensaio randomizado EPOCH mostrou sobre o BedsidePEWS?
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