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Como conduzir a visita diária na enfermaria de clínica médica: o checklist de revisão de cada paciente, o reconhecimento precoce da deterioração com o NEWS2 e o sistema de resposta rápida, e as condutas de suporte que mudam desfecho. Reúne oxigenoterapia com alvos definidos, profilaxias obrigatórias (TEP, úlcera de estresse, delirium, lesão por pressão), metas de glicemia e transfusão, critérios de alta e handover estruturado.
[1] Prytherch DR, Smith GB, Schmidt PE, Featherstone PI. ViEWS—Towards a national early warning score for detecting adult inpatient deterioration. Resuscitation. 2010;81(8):932-937 · DOI 10.1016/j.resuscitation.2010.04.014 | [2] O'Driscoll BR, Howard LS, Earis J, Mak V. BTS guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings. Thorax. 2017;72(Suppl 1):ii1-ii90 · DOI 10.1136/thoraxjnl-2016-209729 | [3] Starmer AJ, Spector ND, Srivastava R, et al. Changes in medical errors after implementation of a handoff program. N Engl J Med. 2014;371(19):1803-1812 · DOI 10.1056/NEJMsa1405556 | [4] Finfer S, Chittock D, Li Y, et al. Intensive versus conventional glucose control in critically ill patients (NICE-SUGAR). N Engl J Med. 2009;360(13):1283-1297 · DOI 10.1056/NEJMoa0810625 | [5] Kahn SR, Lim W, Dunn AS, et al. Prevention of VTE in nonsurgical patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012;141(2 Suppl):e195S-e226S · DOI 10.1378/chest.11-2296 | [6] Maharaj R, Raffaele I, Wendon J. Rapid response systems: a systematic review and meta-analysis. Crit Care. 2015;19:223 · DOI 10.1186/s13054-015-0973-y | [7] Hébert PC, Wells G, Blajchman MA, et al. A multicenter, randomized, controlled clinical trial of transfusion requirements in critical care (TRICC). N Engl J Med. 1999;340(6):409-417 · DOI 10.1056/NEJM199902113400601 | [8] Inouye SK, Bogardus ST, Charpentier PA, et al. A multicomponent intervention to prevent delirium in hospitalized older patients (HELP). N Engl J Med. 1999;340(9):669-676 · DOI 10.1056/NEJM199903043400901 · DOI 10.1016/j.resuscitation.2010.04.014
A visita diária é o motor do cuidado hospitalar: é nela que o paciente internado é reexaminado, o plano é reescrito e a deterioração é captada antes do alarme. A maioria dos eventos adversos graves da enfermaria — parada cardiorrespiratória, transferência não planejada para UTI, óbito — é precedida de horas ou dias de sinais vitais anormais que ninguém revisitou, e sistemas estruturados de resposta à deterioração reduzem mortalidade intra-hospitalar adulta em metanálise (OR 0,82; IC 95% 0,74-0,92) [6]. O interno é quem tem a maior densidade de contato com o paciente, e a qualidade da visita — o que se revisa, em que ordem, com quais metas — determina se o hospital tem quatro dias de internação aproveitados ou quatro dias de complicações. Este artigo monta a visita em blocos: método e checklist, deterioração e escalonamento, suporte de base (oxigênio, fluidos, nutrição), profilaxias, metas terapêuticas, alta e handover.
A visita tem quatro objetivos explícitos: (1) reavaliar o paciente fisicamente e comparar com os dias anteriores; (2) interpretar os dados novos (exames, eventos do plantão, resposta ao tratamento); (3) reescrever o plano do dia com metas mensuráveis; (4) atualizar o plano de alta — que começa no dia da admissão e é revisado todos os dias. A visita individual segue o método SOAP: S (subjective) é o relato do paciente — dor em número, sono, apetite, evacuações, diurese, dispneia no esforço; O (objective) são sinais vitais com TENDÊNCIA (não o valor isolado), exame físico focado, exames laboratoriais e de imagem, balanço hídrico e curvas; A (assessment) é a síntese: como o paciente evolui frente à hipótese, o que mudou na lista de problemas; P (plan) é o plano escrito por problema. A passagem de pauta (rounding rápido de plantão) não substitui a visita: uma responde 'o que aconteceu', a outra responde 'o que vamos fazer hoje e qual é a saída'.
Três regras de ouro fazem a visita valer: examinar o paciente todos os dias — a visita à beira do leito captra sopro novo, abafamento, edema, confusão incipiente e dor que o computador não mostra; revisar cada dispositivo e cada droga diariamente (precisa? qual a menor dose? pode ser oral? pode sair?); e terminar cada paciente com uma frase de saída — 'alta esperada em tal dia, dependendo de tal exame'. O planejamento de alta precoce reduz tempo de internação e readmissões, e sem ele a enfermaria funciona como estacionamento de pacientes.
A revisão sistemática existe porque a memória falha sob 15 pacientes. Um roteiro fixo, na mesma ordem para todos, elimina o esquecimento das decisões de baixo glamour — que são justamente as que evitam complicações. O roteiro pode ser memorizado como eventos, sinais, dispositivos, exames, drogas, comida, mobilidade, profilaxias, metas, alta.
| Bloco da visita | O que revisar | Decisão típica do dia |
|---|---|---|
| Eventos das 24 h | Relatório de enfermagem: febre, hipotensão noturna, arritmia, queda, dor, alteração de consciência | Investigar evento novo; repetir culturas; chamar especialista |
| Sinais vitais e tendência | Curvas de PA, FC, FR, SpO2, temperatura; NEWS2 do dia | NEWS2 ≥5: escalonamento urgente conforme protocolo |
| Balanço hídrico e dieta | Ingesta e eliminação, diurese, peso diário, tolerância à dieta | Ajustar fluidos; liberar/avançar dieta; suspender sonda se trófica |
| Dispositivos | Sonda vesical, acesso venoso, drenos, oxigênio: data, indicação, necessidade | Cada dispositivo todo dia: precisa? pode sair? pode trocar de via? |
| Exames | Resultados novos e pendentes; revisar indicação de exames repetidos | Ajustar conduta pelo resultado; cancelar exame inútil |
| Medicamentos | Doses, vias, interações, ajuste renal, antibiótico (reavaliar em 48-72 h), IV para oral | Descalonar antibiótico; suspender PPI sem indicação; trocar IV por oral |
| Mobilidade e função | Deambulou? fisioterapia? função comparada à basal; confusão (CAM) | Prescrever mobilização; fisioterapia; medidas antidelirium |
| Profilaxias | TEP (escore), úlcera de estresse (indicação vigente), pele (Braden), quedas (Morse) | Iniciar, manter, ajustar dose renal ou suspender o que perdeu indicação |
| Metas e alta | Metas explícitas do dia; barreiras de alta; encaminhamentos; família informada | Reescrever plano; agendar alta; preparação da conciliação de saída |
O NEWS2 soma sete parâmetros (frequência respiratória, SpO2 com escala especial para risco de hipercapnia, uso de oxigênio, pressão arterial sistólica, frequência cardíaca, consciência ACVPU e temperatura), de 0 a 3 pontos cada, com total de 0 a 20 — o escore foi derivado e validado para captar deterioração de pacientes internados [1]. Os limiares de resposta são o conteúdo que as bancas cobram: total ≥5 define risco médio-alto e exige resposta URGENTE (avaliação por profissional com competência em doença aguda, decisão sobre local de cuidado, monitorização no mínimo horária); total ≥7 define risco alto e exige resposta EMERGENCIAL (avaliação por equipe crítica ou de resposta rápida, monitorização contínua); 3 pontos em um único parâmetro pede reavaliação urgente desse parâmetro. Na visita, o NEWS2 serve para dois usos: confirmar que o paciente está melhorando (a tendência cai) e acionar o protocolo formal quando sobe.
O sistema de resposta rápida (RRT/médico de emergência) existe para trazer a UTI ao leito da enfermaria: a metanálise de 2015 mostrou redução da mortalidade intra-hospitalar adulta (OR 0,82) com implantação desses sistemas [6]. Critérios clássicos de acionamento que todo interno deve decorar: via aérea ameaçada; FR <8 ou >30; SpO2 <90% com oxigênio; PA sistólica <90 mmHg ou queda ≥40 mmHg do basal; FC <40 ou >130; novo confundimento ou rebaixamento (ACVPU alterado); convulsão repetida; lactato ≥4; e o critério subjetivo — qualquer pessoa preocupada com o paciente. A demora no acionamento é a falha mais comum: a pior conduta é 'observar mais uma hora' sem plano escrito.
| NEWS2 total | Classificação | Resposta mínima esperada |
|---|---|---|
| 0 | Baixíssimo | Monitorização de rotina (≥12 h) |
| 1-4 | Baixo | Reavaliação a cada 6-12 h; revisar o parâmetro que pontuou |
| 3 em um parâmetro | Baixo-médio | Reavaliação urgente do parâmetro e aumento da frequência de monitorização |
| ≥5 | Médio-alto | Resposta URGENTE: avaliação clínica imediata, decide local de cuidado; monitorização ≥ horária |
| ≥7 | Alto | Resposta EMERGENCIAL: equipe crítica/resposta rápida, monitorização contínua |
Oxigênio é droga: tem indicação, alvo e efeitos adversos. A diretriz britânica de oxigenoterapia define os alvos: SpO2 92-96% para a maioria dos pacientes agudos; 88-92% para quem tem risco de hipercapnia (DPOC grave com hipercapnia documentada, acidose respiratória, apneia obstrutiva do sono, obesidade grave, bronquiectasias e fibrose cística) [2]. Abaixo do alvo, suplementa-se; acima do alvo em paciente não hipoxêmico, suspende-se. Oxigênio NÃO está indicado apenas para aliviar dispneia sem hipoxemia — a dispneia tem tratamento próprio (postura, opioides em cuidado paliativo, tratamento da causa). Dispositivos: cateter nasal 1-5 L/min (FiO2 aproximada 0,24-0,44), máscara simples 5-10 L/min (0,40-0,60), máscara com reservatório 10-15 L/min (0,60-0,90), máscara de Venturi 0,24-0,50 (a mais precisa, preferida no risco de hipercapnia) e cateter nasal de alto fluxo (até 60 L/min, FiO2 até 1,0 com leve pressão positiva).
| Dispositivo | Fluxo típico | FiO2 aproximada | Observação |
|---|---|---|---|
| Cateter nasal | 1-5 L/min | 0,24-0,44 | Confortável; FiO2 varia com a FR do paciente |
| Máscara simples | 5-10 L/min | 0,40-0,60 | Mínimo de 5 L/min para evitar reinalação de CO2 |
| Máscara com reservatório | 10-15 L/min | 0,60-0,90 | Hipoxemia moderada-grave transitória |
| Máscara de Venturi | conforme diluidor (4-15 L/min) | 0,24-0,50 | FiO2 mais precisa; preferida em risco de hipercapnia |
| Cateter de alto fluxo | até 60 L/min | até 1,0 | DPOC descompensada e insuficiência respiratória hipoxêmica |
Fluidos na enfermaria seguem a mesma lógica de qualquer droga: indicação, dose, via, duração e critério de retirada. Cristaloides balanceados (Ringer lactato, Plasma-Lyte) são a escolha padrão de manutenção e reposição; soro fisiológico 0,9% em grandes volumes produz acidose hiperclorêmica; hipotônicos (SG 5%, SF 0,45%) são causa clássica de hiponatremia iatrogênica em idosos hospitalizados. A prescrição racional escreve volume e tempo (por exemplo, SF 0,9% 1.000 mL em 8 h apenas até dietas serem liberadas) e monitora com balanço hídrico e peso diário. Nutrição: via enteral sempre que o trato digestivo funciona, iniciar em 24-48 h quando houver risco nutricional, liberar dieta oral o quanto antes com consistência adequada ao risco de aspiração, e revisar diariamente se a via de nutrição ainda se justifica.
As profilaxias são as condutas mais subestimadas da visita — nenhum paciente clínico adulto deve sair da visita sem decisão documentada sobre elas. No tromboembolismo, o paciente clínico usa o escore de Padua: câncer ativo (3 pontos), VTE prévio (3), mobilidade reduzida ≥3 dias (3), trombofilia conhecida (3), trauma ou cirurgia ≤1 mês (2), idade ≥70 anos (1), insuficiência cardíaca ou respiratória (1), IAM ou AVC isquêmico (1), obesidade com IMC ≥30 (1), terapia hormonal em curso (1); total ≥4 define alto risco e indica heparina de baixo peso molecular — enoxaparina 40 mg SC 1x/dia iniciada nas primeiras 24 horas, reduzida para 20 mg/dia quando o clearance de creatinina é <30 mL/min [5]. Com contraindicação a heparina (sangramento ativo, TIT prévia, alto risco de sangramento), usa-se compressão pneumática intermitente.
Glicemia: no paciente agudo, o alvo é 140-180 mg/dL com insulina em esquema corretivo e basal; o controle intensivo (alvo 81-108 mg/dL) do NICE-SUGAR aumentou mortalidade e hipoglicemia grave comparado ao alvo convencional (≤180 mg/dL) — o mesmo princípio vale para o paciente de enfermaria: evita-se tanto a hiperglicemia sustentada quanto a hipoglicemia iatrogênica, e o esquema fixo de insulina regular só de correção não controla diabético nenhum [4]. Transfusão: o limiar restritivo de 7 g/dL é o padrão para pacientes estáveis; no TRICC, a estratégia restritiva (transfundir se Hb <7-9 g/dL) foi ao menos tão segura quanto a liberal (Hb <10-12 g/dL), inclusive no subgrupo com doença cardiovascular [7]. Exceções praticadas: limiar de 8 g/dL em cirurgia ortopédica e em cardiopatia com sintomas, e sempre que houver sangramento ativo, isquemia ou instabilidade. Hb de 7,4 em paciente assintomático não é indicação de concentrado.
Antimicrobianos na enfermaria seguem o ciclo do antimicrobiano responsável: cultura antes da primeira dose sempre que possível, reavaliação obrigatória em 48-72 h com três perguntas — tem infecção mesmo? tem resposta clínica? pode descalar? — troca de IV para oral quando o paciente está hemodinamicamente estável, afebril, com função gastrointestinal preservada e tolerando dieta, e duração mínima eficaz documentada. Antibiótico de amplo espectro que ninguém revisa no terceiro dia é a receita de C. difficile, resistência e nefrotoxicidade. A mesma disciplina vale para PPI sem indicação, benzodiazepínico em idoso e antipsicótico de resgate para delirium sem avaliação de causa reversível.
A alta é decisão clínica com critérios: causa da internação controlada ou em plano ambulatorial viável; estabilidade clínica por pelo menos 24 h (sem febre nova, sem oxigênio em escalada, sem dor mal controlada, deambulando no nível basal ou próximo); conciliação medicamentosa de saída pronta (o que entra, o que sai, o que muda de dose); exames pendentes com plano de resultado; seguimento agendado (consulta, curativo, fisioterapia, home care quando cabível); e paciente e família capacitados — com verificação de compreensão (teach-back), não apenas orientados. O resumo de alta precisa sair em até 24 h, com diagnóstico, o que foi feito, medicação revisada, sinais de alerta que pedem retorno e o responsável pelo seguimento. Alta apressada sem conciliação gera readmissão; alta postergada sem indicação gera infecção, queda e descondicionamento — os dois extremos são falha da equipe, não do paciente.
A transição de cuidado é momento de risco máximo: a informação que não passa, se perde. O programa I-PASS padronizou o handover em cinco passos — I de illness severity (gravidade: estável, vigiar, instável); P de patient summary (resumo: nome, idade, diagnóstico, eventos, condição atual); A de action list (lista de ações do próximo turno); S de situation awareness (contingências: o que pode dar errado e como reagir); S de synthesis by receiver (o receptor repete e confirma). No estudo multicêntrico do NEJM, a implantação reduziu erros médicos em 23% e erros médicos lesivos em 30% [3]. Na prática da enfermaria: passar o caso por paciente, na mesma ordem, com metas explícitas ('se PA cair abaixo de 90, chamar'; 'hemocultura de 24 h pendente — se positiva, repetir e avaliar troca'), e escrever o essencial no registro — handover falado sem registro não sobrevive ao turno.
1.Paciente de enfermaria atinge NEWS2 total de 6 pontos durante a visita. Qual a conduta exigida?
2.Qual o alvo de saturação periférica de oxigênio para paciente com DPOC grave e hipercapnia documentada, segundo a diretriz BTS?
3.Qual o alvo de glicemia no paciente hospitalizado agudo, e qual a evidência que o sustenta?
4.Paciente estável e assintomático tem Hb de 7,3 g/dL no quarto dia de internação. Conduta?
5.Paciente clínico de 74 anos, acamado, com câncer ativo, sem contraindicação a heparina. Qual a profilaxia de TEP?
6.Qual paciente NÃO precisa de profilaxia de úlcera de estresse com PPI?
7.Qual o principal resultado do estudo HELP sobre prevenção de delirium em idosos hospitalizados?
8.A metanálise sobre sistemas de resposta rápida (RRT) em hospitais mostrou:
9.No programa I-PASS avaliado no NEJM de 2014, a implantação do handover estruturado:
10.Paciente com dispneia, SpO2 de 95% em ar ambiente e radiografia normal. Sobre a prescrição de oxigênio:
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