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Como prescrever com segurança no paciente internado: elementos obrigatórios da prescrição, regras de escrita que evitam erro de 10 vezes, ajuste renal e hepático com exemplos de doses, e o processo formal de conciliação medicamentosa na admissão, na transferência e na alta. Reúne polifarmácia e critérios de Beers, os cinco passos da desprescrição, o problema do rótulo falso de alergia à penicilina e o checklist da prescrição de alta.
[1] Cornish PL, Knowles SR, Marchesano R, et al. Unintended medication discrepancies at the time of hospital admission. Arch Intern Med. 2005;165(4):424-430 · DOI 10.1001/archinte.165.4.424 | [2] Tam VC, Knowles SR, Cornish PL, et al. Frequency, type and clinical importance of medication history errors at admission to hospital: a systematic review. CMAJ. 2005;173(5):510-515 · DOI 10.1503/cmaj.045311 | [3] 2023 AGS Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081 · DOI 10.1111/jgs.18372 | [4] Scott IA, Hilmer SN, Reeve E, et al. Reducing inappropriate polypharmacy: the process of deprescribing. JAMA Intern Med. 2015;175(5):827-834 · DOI 10.1001/jamainternmed.2015.0324 | [5] Shenoy ES, Macy E, Rowe T, Blumenthal KG. Evaluation and management of penicillin allergy: a review. JAMA. 2019;321(2):188-199 · DOI 10.1001/jama.2018.19283 | [6] Masnoon N, Shakib S, Kalisch-Ellett L, Caughey GE. What is polypharmacy? A systematic review of definitions. BMC Geriatr. 2017;17:230 · DOI 10.1186/s12877-017-0621-2 · DOI 10.1001/archinte.165.4.424
A internação é o momento de maior risco medicamentoso da vida do paciente: cada transição de cuidado — chegar ao hospital, trocar de setor, ir para casa — quebra a continuidade da lista de medicamentos e abre espaço para omissões, duplicidades e doses erradas. As revisões sobre história medicamentosa na admissão relatam erros em até 67% das internações [2], e as discrepâncias não intencionais — o que o paciente tomava em casa e não aparece, ou aparece errado na prescrição hospitalar — foram documentadas em mais da metade dos pacientes admitidos, com a omissão de medicamento domiciliar como tipo mais frequente [1]. Prescrever é procedimento com regras: este artigo organiza a prescrição hospitalar em partes verificáveis — anatomia do documento e regras de escrita, as decisões de cada linha, ajuste renal e hepático, conciliação nos três momentos, polifarmácia e Beers, desprescrição em cinco passos, alergia à penicilina e prescrição de alta.
Três mecanismos concentram o dano. Primeiro, a quebra de informação: a lista de medicamentos de casa existe na memória do paciente, nas caixas da gaveta e em farmácias diferentes — nunca em um único lugar confiável — e quem não reconstrói essa lista prescreve sobre um espaço em branco. Segundo, a mudança de contexto: função renal que piora, dieta que para, jejum para exames, droga nova para o quadro agudo — cada uma dessas variáveis pode exigir suspensão, ajuste ou troca de via, e a prescrição que não é revisada diariamente vira relíquia. Terceiro, o acúmulo: o paciente entra com 8 medicamentos, recebe mais 6 para o quadro agudo e sai com 12 — nenhum prescrito com a intenção de continuar, nenhum suspenso formalmente. O antídoto comum aos três mecanismos é o mesmo: conciliação formal em cada transição e revisão diária linha a linha.
A prescrição válida e segura contém, para cada medicamento: nome genérico completo (sem abreviação), dose com unidade escrita (mg, g, mL, mcg, unidade), via de administração, intervalo ou horário de administração, duração quando aplicável (antimicrobianos, analgesia, corticoide em curto curso), e orientações especiais (com ou sem comida, jejum, diluição, velocidade de infusão). O documento precisa ainda de data, identificação completa do paciente, nome, registro e assinatura do prescritor — em prescrição digital, assinatura eletrônica. Requisitos legais variam pouco entre países; o que muda desfecho são as regras de escrita que evitam erro de magnitude, sistematizadas por institutos de segurança do paciente: zero à esquerda sim (0,5 mg), zero à direita nunca (5,0 mg escreve-se 5 mg), 'unidade' e 'unidade internacional' sempre por extenso, 'mcg' ou 'micrograma' no lugar do símbolo micro, 'mL' no lugar de 'cc', e nome de fármaco nunca abreviado.
| Prática perigosa | Como o erro acontece | Escrever assim |
|---|---|---|
| U ou UI | Lido como zero ou 4: insulina 10 U prescrita, 100 UI administradas | unidade ou unidade internacional, por extenso |
| Símbolo de micro (µg) | Lido como mg: dose 1.000 vezes maior | mcg ou micrograma |
| Zero à direita (5,0 mg) | Vírgula passa despercebida: 50 mg administrados | 5 mg (zero à esquerda é obrigatório: 0,5 mg) |
| cc | Confundido com U ou com outra unidade | mL |
| MS, MSO4, MgSO4 | Confundidos entre morfina e sulfato de magnésio | sulfato de morfina ou sulfato de magnésio, por extenso |
| Nome do fármaco abreviado | Metoprolol e metronidazol, hidralazina e hidroclorotiazida | nome genérico completo |
| 'gtt', 'sd', '@' | Símbolos e siglas ambíguos para a enfermagem | gotas; tomar; em |
Duas práticas complementares reduzem erro sem custo: escrever a INDICAÇÃO ao lado do medicamento quando houver risco de confusão ou uso condicional (por exemplo, insulina rápida 'se glicemia capilar acima de 250 mg/dL') e prescrever parâmetros, não intenções — 'laxante se 3 dias sem evacuação' é prescrição; 'laxante se necessário' é adivinhação. A prescrição hospitalar também é o lugar onde se cancela: todo medicamento suspenso durante a internação precisa constar como suspenso, com motivo, ou reaparecer na alta por inércia.
Cada linha da prescrição responde a sete perguntas, na ordem: (1) a droga é a certa para a indicação? (2) a dose está certa para este paciente — peso, idade, função renal e hepática? (3) a via é a adequada (a oral sempre que o trato digestivo funciona)? (4) o intervalo respeita a meia-vida e a vida do paciente (uma vez ao dia à noite quando possível)? (5) qual a duração (nada de antimicrobiano ou corticoide sem prazo definido)? (6) precisa de ajuste renal ou hepático? (7) interage com o que já está prescrito, ou duplica classe? Para a pergunta do ajuste renal, a ferramenta é o clearance de creatinina pela fórmula de Cockcroft-Gault: CrCl = [(140 - idade) x peso (kg) x 0,85 (se mulher)] / [72 x creatinina sérica (mg/dL)] — com a resenha de que a creatinina precisa estar estável e que peso ideal magro é o correto em obesidade e caquexia.
| Fármaco | Regra prática de ajuste | Observação de segurança |
|---|---|---|
| Enoxaparina | Profilaxia: 40 mg SC/dia; 20 mg/dia se CrCl <30 mL/min. Terapêutica: 1 mg/kg SC 12/12 h; 1 mg/kg 1x/dia se CrCl <30 | Peso <50 kg e obesidade pedem atenção individual; monitorar plaquetas (TIT) |
| Metformina | Contraindicada se CrCl <30 mL/min; suspender antes de contraste iodado, hipoxia, choque ou piora renal aguda | Risco de acidose láctica; suspender, não reduzir, nas situações de risco |
| Vancomicina | Ajuste por função renal com monitorização do nível vale | Nefrotoxicidade aumenta com aminoglicosídeos e diuréticos |
| Dabigatrana | Contraindicada se CrCl <30 mL/min | Outros DOACs têm regras próprias por clearance e peso |
| Levofloxacino | Reduzir dose quando CrCl <50 mL/min | Também ajusta-se o intervalo, não apenas a dose |
| Digoxina | Dose por peso magro e função renal; manter nível baixo | Intoxicação em idoso: náusea, visão amarelada, arritmia |
| Paracetamol | Máximo de 2 g/dia em hepatopatia ou consumo abusivo de álcool | Dose padrão de 3-4 g/dia vale para fígado sadio |
| Benzodiazepínicos | Evitar em idoso (critério de Beers); se inevitável, menor dose e menor prazo | Quedas, delirium, acidentes de trânsito e dependência |
Conciliação medicamentosa é a comparação formal da lista completa e atualizada de medicamentos do paciente com cada nova prescrição, feita em TODAS as transições de cuidado — admissão, transferência entre setores e alta. O insumo do processo é a melhor história medicamentosa possível (BPMH): não é perguntar 'o senhor toma algum remédio?', é reconstruir a lista com nome, dose, via, frequência, tempo de uso e real adesão de cada fármaco, usando ao menos duas fontes — paciente e família, caixas e frascos, receitas, contato com farmácia, prontuário ou aplicativo de saúde. A BPMH inclui o que o paciente esquece de contar: compra livre (AINEs, antiácidos, vitaminas), inaladores, colírios, adesivos, injetáveis domiciliares (insulina, anticoagulante), fitoterápicos e medicamentos de outras pessoas da casa.
A conciliação não é formalidade farmacêutica: é resposta a um problema medido. Na admissão hospitalar, discrepâncias não intencionais foram encontradas em mais da metade dos pacientes avaliados, e a omissão de medicamento domiciliar dominou a lista de tipos [1]; nas revisões sistemáticas de história medicamentosa, a frequência de erros chegou a 67% das admissões, e uma parcela expressiva dos erros — da ordem de um quarto nos estudos que classificaram gravidade — tinha potencial de causar desconforto moderado ou deterioração clínica [2]. O paciente típico do erro não é o de caso exótico: é o idoso polimedicado com diabetes, hipertensão e fibrilação atrial, que entra com anticoagulante, insulina, betabloqueador e levodopa — e sai da admissão sem um deles. Nenhum grupo profissional resolve sozinho: médico coleta e decide, farmácia audita, enfermagem administra e informa — a checagem é um sistema, não uma boa vontade.
Polifarmácia é definida na literatura, em sua forma mais adotada, pelo uso de 5 ou mais medicamentos concomitantes [6] — número que, por si, não é erro: polifarmácia apropriada existe quando cada droga tem indicação vigente. O problema clínico é a prescrição potencialmente inapropriada, e os critérios operacionais são os de Beers (atualização de 2023 da American Geriatrics Society) e o par STOPP/START. Exemplos que todo interno precisa reconhecer na prescrição de idoso: benzodiazepínicos e hipnóticos Z (quedas, fraturas, delirium, acidentes), anticolinérgicos de primeira geração como difenhidramina (confusão, retenção urinária, piora cognitiva), anti-inflamatórios não esteroides em uso crônico sem proteção (sangramento digestivo, lesão renal), glibenclamida (hipoglicemia prolongada em idoso) e amitriptilina como primeira escolha para neuropatia (carga anticolinérgica alta) [3]. A regra operacional da visita é contar drogas e perguntar por cada uma: 'por que este paciente está tomando isto HOJE?' — resposta vaga é convite à desprescrição.
Desprescrição é o processo planejado de reduzir ou suspender medicamentos cujos danos superam os benefícios no contexto atual do paciente — com a mesma formalidade da introdução de uma droga. O roteiro consagrado tem cinco passos: (1) esclarecer todos os medicamentos atuais e o motivo de cada um (incluindo os que outros prescritores iniciaram); (2) identificar candidatas à retirada — fármacos potencialmente inapropriados, sem indicação atual, com benefício que evaporou (bisfosfonato com expectativa de vida curta), ou que tratam efeito colateral de outra droga (prescribing cascade: droga para tontura causada pela droga da pressão); (3) priorizar — retirar primeiro a de maior dano e menor benefício, uma a três por vez; (4) implementar o plano com o paciente: explicação do porquê, retirada gradual (tapering) quando a classe exige — benzodiazepínicos, antidepressivos, betabloqueadores, corticoide, omeprazol em uso longo — e definição de quem retira; (5) monitorar e documentar: sintomas de retirada, recidiva da condição, e a atualização permanente da lista [4]. Suspender não é apagar: é decisão clínica registrada.
Cerca de 10% da população carrega rótulo de alergia à penicilina, mas mais de 90% dessas pessoas toleram penicilinas quando avaliadas com teste cutâneo e desafio oral controlado [5] — o rótulo, em sua maioria, é falso: reações virais transitórias na infância (exantema com amoxicilina), intolerâncias gastrintestinais e histórias de família registradas como alergia pessoal. O custo do rótulo errado é concreto: pacientes rotulados recebem mais vancomicina, fluoroquinolonas e clindamicina, com mais infecção por Clostridioides difficile, mais resistência, estadias mais longas e custo maior. A conduta correta começa na anamnese da admissão: registrar o tipo de reação (exantema, urticária, angioedema, anafilaxia), o tempo de início, a gravidade e quando ocorreu — e distinguir três situações: intolerância (náusea, dor abdominal: não é alergia), hipersensibilidade imediata (urticária, anafilaxia: contraindica penicilinas e exige cautela com cefalosporinas próximas) e reação tardia grave (síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, DRESS, nefrite intersticial: contraindica a droga e, em geral, a classe). Rótulo antigo e vago em paciente que precisa de penicilina é candidata formal à avaliação de desrotulagem, não a uma vida de carbapenem.
A alta reúne todos os riscos: lista misturada (domiciliar + hospitalar), prescritores múltiplos, paciente que sai para outro sistema de saúde sem acesso ao prontuário. O checklist da prescrição de saída fecha o ciclo da conciliação: (1) retomar a lista da BPMH da admissão como base; (2) decidir linha a linha — continua (dose atualizada), suspende-se (com motivo no resumo), inicia-se (com duração e critério de término, como antimicrobiano e anticoagulante pós-TEP); (3) verificar repetição e interação na lista final inteira; (4) conferir ajustes pendentes (renal, hepática) com a função atual; (5) entregar lista impressa ou digital ao paciente e à farmácia, com horários reais do dia do paciente; (6) realizar teach-back: o paciente repete o que vai tomar, para quê, e quais sinais de alerta pedem retorno; (7) registrar no resumo de alta o que foi suspenso e por quê, para que o próximo médico não reinicie por inércia. Regra de bolso: nenhuma alta assinada sem a conciliação linha a linha — a alta é a prescrição que o paciente vai cumprir sozinho, sem equipe para conferir.
1.Qual é a definição de polifarmácia mais adotada na literatura?
2.Segundo a revisão sistemática publicada no CMAJ, erros de história medicamentosa na admissão hospitalar ocorrem em qual frequência?
3.Qual o tipo mais frequente de discrepância não intencional identificada na admissão?
4.Qual medicamento é exemplo clássico de prescrição potencialmente inapropriada em idoso pelos critérios de Beers?
5.Qual é o PRIMEIRO passo do processo de desprescrição?
6.Sobre o rótulo de alergia à penicilina, é correto afirmar:
7.Ao construir a melhor história medicamentosa possível (BPMH) na admissão, a prática correta é:
8.Na fórmula de Cockcroft-Gault, o cálculo do clearance de creatinina da MULHER inclui:
9.Qual das prescrições abaixo segue as regras de escrita segura?
10.Na prescrição de alta, qual prática previne mais eficazmente o erro de transição?
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