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Definições com números (≥5 e ≥10 medicamentos), o problema das diretrizes que ignoram comorbidade (Boyd), os exemplos clássicos dos Critérios de Beers 2023 e dos critérios STOPP/START v3, o protocolo de deprescrição em 5 passos, os alvos de alto valor com regras de desmame e a conduta prática na visita do paciente pluripatológico.
[1] Salive ME. Multimorbidity in Older Adults. Epidemiol Rev. 2013;35(1):75-83 · DOI 10.1093/epirev/mxs009 | [2] Boyd CM, Darer J, Boult C, et al. Clinical Practice Guidelines and Quality of Care for Older Patients With Multiple Comorbid Diseases. JAMA. 2005;294(6):716-724 · DOI 10.1001/jama.294.6.716 | [3] Masnoon N, Shakib S, Kalisch-Ellett L, et al. What is polypharmacy? A systematic review of definitions. BMC Geriatr. 2017;17(1):230 · DOI 10.1186/s12877-017-0621-2 | [4] American Geriatrics Society. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081 · DOI 10.1111/jgs.18372 | [5] O'Mahony D, Cherubini A, Guiteras AR, et al. STOPP/START criteria for potentially inappropriate prescribing in older people: version 3. Eur Geriatr Med. 2023;14(4):625-632 · DOI 10.1007/s41999-023-00777-y | [6] Scott IA, Hilmer SN, Reeve E, et al. Reducing Inappropriate Polypharmacy: The Process of Deprescribing. JAMA Intern Med. 2015;175(5):827-834 · DOI 10.1001/jamainternmed.2015.0324 | [7] Melo LA, Lima KC. Prevalência e fatores associados a multimorbidades em idosos brasileiros. Ciênc Saúde Coletiva. 2020;25(10):3869-3877 · DOI 10.1590/1413-812320202510.34492018 · DOI 10.1007/s41999-023-00777-y
A internação do paciente pluripatológico é a rotina da enfermaria clínica: a maioria dos pacientes idosos hospitalizados tem duas ou mais doenças crônicas e usa cinco ou mais medicamentos. O problema tem nome e número: seguindo diretrizes ao pé da letra para cada doença isolada, um paciente com 7 a 11 diagnósticos passaria a receber 12 a 19 medicamentos — e Boyd e colaboradores mostraram no JAMA que menos de 4% das recomendações dessas diretrizes sequer mencionam comorbidades. O resultado é a cascata iatrogênica: uma droga gera sintoma, o sintoma vira nova doença, a nova doença vira nova droga, e o paciente sai do hospital com mais risco do que entrou. Este artigo organiza as definições que caem em prova (multimorbidade, polifarmácia, PIM, omissão prescritiva), as ferramentas de triagem (Beers 2023 e STOPP/START v3, com os exemplos clássicos de cada) e o protocolo de deprescrição passo a passo, com as regras de desmame aplicáveis na visita de hoje.
Multimorbidade (pluripatologia) é a coexistência de duas ou mais doenças crônicas — físicas ou mentais, com ou sem diagnóstico formal — no mesmo indivíduo; algumas definições usam corte de três ou mais. Polifarmácia, pela definição mais reproduzida na literatura (revisão sistemática que analisou mais de cem estudos e achou o corte ≥5 como o mais frequente), é o uso concomitante de cinco ou mais medicamentos; a hiperpolifarmácia começa em dez. As duas categorias centrais de prescrição problemática: o medicamento potencialmente inapropriado (PIM) — droga, dose ou duração cujo risco supera o benefício esperado, existindo alternativa mais segura — e a omissão prescritiva potencialmente inapropriada (PPO, critérios START) — a indicação verdadeira que ninguém prescreveu, cujo exemplo canônico é a fibrilação atrial com CHA2DS2-VASc alto sem anticoagulante. Fecha o repertório a cascata iatrogênica: o efeito adverso de uma droga é interpretado como nova doença e tratado com outra droga — o erro é acorrentar prescrições, não interromper a cadeia.
Exemplo clássico para fixar: AINE prescrito para dor osteoarticular eleva a pressão arterial e causa retenção de sódio → acrescenta-se um anti-hipertensivo → o anti-hipertensivo causa tosse (IECA) ou hipotensão ortostática → novo sintoma → nova droga → tontura e queda → analgésico e opioide → constipação → laxante. Na versão mais cobrada em prova: metoclopramida produz sintomas parkinsonianos no idoso → interpretados como doença de Parkinson de início → levodopa → alucinações → antipsicótico. Interromper a cascata exige reconhecer o efeito adverso como causa e suspender a droga original, não acrescentar a terceira. A contagem de medicamentos é apenas um sinalizador: acima de cinco, o risco de reação adversa escala de forma desproporcional — é a base estatística do corte ≥5, não um número mágico.
A multimorbidade cresce com a idade: atinge cerca de metade dos adultos acima de 65 anos e 70-80% dos acima de 85 em coortes internacionais compiladas por Salive. No Brasil, estudos populacionais confirmam o padrão: o trabalho de Melo e Lima com idosos brasileiros e análises da Pesquisa Nacional de Saúde situam a multimorbidade na casa de um terço dos idosos da comunidade, com faixas de 25-45% conforme o critério de contagem. A polifarmácia acompanha a multimorbidade: 15-25% dos idosos da comunidade e 40-60% dos internados ou institucionalizados usam cinco ou mais medicamentos. A prescrição potencialmente inapropriada, medida por Beers ou STOPP, varia de 30% a 60% nas séries brasileiras de idosos — intervalo confirmado pela revisão sistemática nacional com Critérios de Beers. O dado mais útil para o interno: a própria polifarmácia é o preditor mais consistente de PIM — a cada medicamento adicionado à lista, cresce a chance de prescrição inapropriada — e é na internação, quando a lista é reescrita, que a revisão tem o maior rendimento.
Os desfechos associados são exatamente os que a prova pede. Reações adversas a medicamentos respondem por cerca de 5% das internações gerais e por 10-15% das internações de idosos (intervalos da literatura; séries com pacientes muito polimedicados chegam acima disso). Queda e fratura de quadril com benzodiazepínicos, antipsicóticos, antidepressivos sedativos e esquemas anti-hipertensivos excessivos. Delirium com anticolinérgicos, benzodiazepínicos e opioides. Hipoglicemia grave com sulfonilureas e insulina em alvos apertados. Sangramento digestivo e lesão renal com AINE crônico. Somam-se os efeitos silenciosos: interações farmacocinéticas (claritromicina elevando níveis de estatina com rabdomiólise; AINE somado a anticoagulante duplicando sangramento), perda de adesão acima de cinco a sete frascos, erro de administração domiciliar e custo. Em resumo: a polifarmácia é o vetor que transforma cada nova prescrição em aposta — e a revisão estruturada da lista é a única jogada que reduz todos esses desfechos ao mesmo tempo.
Os Critérios de Beers da American Geriatrics Society (atualização 2023) são a lista norte-americana de medicamentos potencialmente inapropriados no idoso, organizada em cinco listas: drogas a evitar na maioria dos idosos; drogas a evitar em doenças e síndromes específicas; drogas a usar com cautela; interações farmacológicas a evitar; e ajustes por função renal. Os critérios STOPP/START (versão 3, europeia, 2023) são a alternativa com duas vantagens didáticas: organização por sistemas fisiológicos e inclusão das OMISSÕES — são 190 critérios no total, sendo 133 STOPP e 57 START. Nas provas, não caem as listas inteiras: caem os exemplos clássicos de cada uma. Saber citar meio dosado de cada tabela abaixo resolve a questão.
| Classe ou droga (Beers 2023) | Por que evitar | Alternativa usual |
|---|---|---|
| Difenidramina e anti-histamínicos de 1ª geração | Anticolinérgicos: confusão, delirium, retenção urinária, queda | Anti-histamínicos de 2ª geração ou tratar a causa |
| Diazepam e benzodiazepínicos de meia-vida longa | Acumulação, queda, fratura, delirium, dependência | Desmame gradual e higiene do sono; melatonina conforme caso |
| Amitriptilina e outros tricíclicos | Anticolinérgicos e hipotensores ortostáticos | Duloxetina ou abordagem não farmacológica conforme a indicação |
| AINE crônico (ibuprofeno, diclofenaco, ketoprofeno) | Sangramento digestivo, lesão renal aguda, descompensação de IC e HAS | Paracetamol ou dipirona; AINE tópico se necessário |
| Insulina em escala de correção isolada (sem basal) | Hipoglicemia sem controle glicêmico real | Esquema basal com correção definida |
| Digoxina >0,125 mg/dia | Toxicidade com função renal reduzida | ≤0,125 mg/dia e reavaliar a indicação |
| Nitrofurantoína com clearance <30 mL/min | Ineficácia e toxicidade neurológica e pulmonar | Antimicrobiano conforme antibiograma e função renal |
| IPP por mais de 8 semanas sem indicação | Fratura, infecção por C. difficile, deficiências | Descontinuar ou desmamar |
| Tipo (STOPP/START v3) | Exemplo clássico | Conduta |
|---|---|---|
| STOPP: benzodiazepínico em queda ou fratura recente | Clonazepam em idoso com queda há 3 meses | Suspender com desmame gradual, nunca abrupto |
| STOPP: AINE em insuficiência cardíaca | Diclofenaco em IC com fração reduzida | Retirar; analgesia com paracetamol/dipirona |
| STOPP: triplo bloqueio do sistema renina-angiotensina | IECA + BRA + espironolactona simultâneos | Manter no máximo dois; checar potássio e função renal |
| STOPP: ISRS com hiponatremia documentada | Sertralina com sódio de 128 mEq/L | Trocar de classe ou rever; corrigir o sódio |
| STOPP: dois fármacos do mesmo grupo | Omeprazol + esomeprazol prescritos juntos | Suspender a duplicidade — erro típico de conciliação |
| START: anticoagulação em fibrilação atrial | CHA2DS2-VASc ≥2 (mulher ≥3) sem anticoagulante | Prescrever; o medo de queda raramente supera o risco de AVC |
| START: betabloqueador em IC com fração reduzida | IC com FE ≤40% sem betabloqueador | Iniciar e titular após estabilização do quadro agudo |
| START: vitamina D e cálcio | Idoso com queda e deficiência documentada | Suplementar conforme dosagem e exposição solar |
Deprescrição é o processo planejado e supervisionado de reduzir ou suspender medicamentos cujos danos superam os benefícios para aquele paciente, naquele momento, com metas explícitas. O protocolo de Scott e colaboradores (JAMA Internal Medicine, 2015) é o roteiro de prova em cinco passos: (1) identificar todos os medicamentos atuais e o motivo de cada um existir; (2) identificar os potencialmente inapropriados (Beers, STOPP, interações, indicações que expiraram); (3) priorizar — o que suspender primeiro, ponderando risco, benefício restante e preferência do paciente; (4) planejar e executar com paciente e família — o que será suspenso, como, o que observar; (5) monitorar, apoiar e documentar — efeito da retirada, recidiva da doença de base, reavaliação programada. A evidência mostra que revisão e deprescrição reduzem PIM de forma consistente; o efeito sobre internação e mortalidade é menos previsível — o que não diminui o valor do processo na enfermaria, onde a lista está aberta.
| Alvo de deprescrição | Como fazer | Efeito de retirada a vigiar |
|---|---|---|
| IPP sem indicação ativa (Beers: >8 semanas) | Suspensão direta ou desmame em 2-4 semanas (dose em dias alternados) | Rebote secretor com azia transitória — orientar o paciente antes |
| Benzodiazepínico | Desmame lento: reduzir cerca de 25% da dose a cada 2-4 semanas | Insônia, ansiedade, tremor; convulsão é rara e ligada a desmame muito rápido |
| Antipsicótico em sintomas comportamentais de demência estáveis | Reduzir gradualmente após meses de estabilidade, com plano de reavaliação | Recidiva comportamental; reavaliar risco-benefício a cada passo |
| Sulfonilurea ou insulina apertada no frágil | Relaxar o alvo glicêmico primeiro; simplificar o esquema | Hiperglicemia sintomática é rara com alvo de 8-8,5% |
| Anticolinérgicos (oxibutinina, hidroxizina) | Suspensão direta em geral, com alternativa para o sintoma original | Recidiva da urgência urinária ou da urticária tratada |
| Estatina em doença avançada | Discussão compartilhada; suspender quando expectativa curta e foco em conforto | Sem rebote clínico relevante no curto prazo |
Na alta do pluripatológico, a lista entregue deve diferenciar o que é novo, o que mudou de dose e o que foi SUSPENSO — com o motivo —, porque as discrepâncias relevantes de alta são, em sua maioria, suspensões e ajustes não comunicados. A revisão estruturada (com farmacêutico clínico quando disponível) reduz discrepâncias, e a consulta de revisão em 1-2 semanas — na atenção primária ou no ambulatório — deve checar a nova lista, esclarecer dúvidas e retomar o plano de desmame iniciado na internação. Monitorização específica após cada mudança: potássio e função renal depois de mexer no bloqueio do sistema renina-angiotensina ou no diurético; glicemia capilar após ajustes de hipoglicemiante; pressão arterial sentado e em pé depois de reduzir anti-hipertensivos; reavaliação cognitiva e de sintomas urinários após retirar anticolinérgicos. O desfecho que define sucesso: o paciente sai com MENOS medicamentos de risco do que entrou, mantendo as indicações verdadeiras — inclusive as que costumam ser esquecidas, como anticoagulação, estatina, vitamina D e tratamento de osteoporose.
1.Qual a definição mais aceita de polifarmácia e de hiperpolifarmácia?
2.O que Boyd e colaboradores (JAMA 2005) demonstraram sobre diretrizes clínicas em pacientes com múltiplas doenças?
3.Por que a difenidramina é alvo dos Critérios de Beers?
4.Os critérios STOPP/START na versão 3 se diferenciam do Beers por qual característica central?
5.Idoso em uso simultâneo de IECA, BRA e espironolactona. Qual a leitura correta?
6.Qual é o primeiro passo do protocolo de deprescrição de Scott e colaboradores?
7.IPP mantido há anos sem indicação ativa. Qual a conduta segundo os Critérios de Beers e a literatura de deprescrição?
8.Idoso com FA, CHA2DS2-VASc 4, sem anticoagulação 'porque cai com frequência'. A conduta com melhor suporte é:
9.Qual o alvo de HbA1c adequado para diabético frágil de 88 anos com risco de hipoglicemia?
10.Qual cenário descreve corretamente uma cascata iatrogênica?
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