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Como lidar com a dor abdominal nova do paciente hospitalizado: classificação visceral-parietal-referida, causas clínicas e cirúrgicas do internado, mapa por quadrantes, escore de Alvarado com valores, escolha racional da imagem, doses da conduta inicial e os sinais de alarme que exigem o cirurgião na mesma hora.
[1] Macaluso CR, McNamara RM. Evaluation and Management of Acute Abdominal Pain in the Emergency Department. Int J Gen Med. 2012;5:789-797 · DOI 10.2147/IJGM.S25936 | [2] Saunders DI, Murray D, Pichel AC, et al. Variations in Mortality After Emergency Laparotomy: The First Report of the UK Emergency Laparotomy Network. Br J Anaesth. 2012;109(3):368-375 · DOI 10.1093/bja/aes165 | [3] Amara Y, Leppäniemi A, Catena F, et al. Diagnosis and Management of Small Bowel Obstruction in Virgin Abdomen: A WSES Position Paper. World J Emerg Surg. 2021;16:39 · DOI 10.1186/s13017-021-00379-8 | [4] Working Group IAP/APA Acute Pancreatitis Guidelines. IAP/APA Evidence-Based Guidelines for the Management of Acute Pancreatitis. Pancreatology. 2013;13(4 Suppl 2):e1-e15 · DOI 10.1016/j.pan.2013.07.063 | [5] Ohle R, O'Reilly F, O'Brien KK, et al. The Alvarado Score for Predicting Acute Appendicitis: A Systematic Review. BMC Med. 2011;9:139 · DOI 10.1186/1741-7015-9-139 · DOI 10.2147/IJGM.S25936
Dor abdominal responde por cerca de 10% dos atendimentos de emergência e por uma fatia expressiva das intercorrências da enfermaria [1]. No paciente internado, dor abdominal nova tem lógica própria: o diferencial soma as síndromes cirúrgicas agudas clássicas às causas iatrogênicas e hospitalares — pós-operatório, constipação por opioides, colite por C. difficile, colecistite acalculosa do paciente crítico, retenção urinária. E o preço do atraso é alto: na primeira auditoria do UK Emergency Laparotomy Network, a mortalidade em 30 dias da laparotomia de emergência foi de 11,7%, com variação extrema entre hospitais, e o tempo até a sala cirúrgica é o principal fator modificável [2]. Este artigo entrega a rota prática do interno: classificar a dor, montar o diferencial por região, aplicar escores e imagem com critério, tratar desde já e reconhecer a hora de chamar o cirurgião.
Dor abdominal não é um tipo só de dor. A visceral nasce de distensão, tracionamento ou isquemia de órgão oco e de cápsulas de órgãos cheios, conduzida por fibras C bilaterais: é difusa, mal localizada na linha média por região embrionária (epigástrio para estômago e duodeno, periumbilical para intestino delgado, hipogástrio para cólon distal), em cólica ou peso, com náusea, sudorese e agitação. A parietal (somática) nasce da inflamação do peritônio parietal, conduzida por fibras Aδ: é bem localizada, intensa, constante, agravada por movimento, tosse e palpação, com defesa e rigidez. A referida projeta-se longe do órgão por convergência de aferentes na medula: dor escapular na doença biliar, dor no ombro no sangue subfrênico, dor inguinal no cólon. Distinguir os três tipos é o primeiro passo da triagem cirúrgica [1].
| Tipo de dor | Mecanismo | Característica clínica | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Visceral | Distensão/tracionamento de órgão oco; fibras C bilaterais | Difusa, mal localizada, em cólica ou peso; náusea e sudorese comuns | Obstrução intestinal, cólica ureteral, colecistite inicial, pancreatite |
| Parietal | Inflamação do peritônio parietal; fibras Aδ somáticas | Bem localizada, intensa, agravada por movimento e tosse; defesa e rigidez | Perfuração de úlcera, apendicite com peritonite, diverticulite perfurada |
| Referida | Convergência de aferentes no corno posterior da medula | Localiza longe do órgão; pele hipersensível sem dor profunda | Dor escapular na biliar; ombro no hemoperitônio; inguinal no cólon |
As cadeias fisiopatológicas explicam a evolução e a janela de conduta. Na obstrução intestinal, a dilatação proximal do segmento aumenta a secreção e reduz a absorção (terceiro espaço), a distensão ativa o reflexo de vômito e a desidratação, e a pressão crescente na parede compromete primeiro o fluxo venoso e depois o arterial: é a transição para estrangulamento, com necrose, translocação bacteriana e sepse [3]. Na isquemia mesentérica, a dor é precoce e intensa porque o órgão morre de dentro para fora — o exame físico permanece tranquilizador enquanto o lactato ainda está normal; quando o peritônio se inflama e o lactato sobe, o atraso já consumiu a janela de salvamento. Na perfuração, o conteúdo séptico contamina o peritônio e produz peritonite química seguida de bacteriana, com resposta inflamatória sistêmica. Em todas as cadeias, o denominador comum é o mesmo: quanto mais tarde o diagnóstico, maior a mortalidade [2].
No internado, o diferencial tem duas camadas: as síndromes agudas que qualquer paciente pode ter e as causas que o hospital produz. A segunda camada é a mais esquecida e a mais frequente nas discussões de caso perdidas — revisar medicação, volume, procedimentos e antibióticos é parte da anamnese da dor abdominal hospitalar.
A história da dor segue o roteiro OPQRST com foco cirúrgico. Início: dor súbita e máxima desde o primeiro segundo aponta perfuração, ruptura ou isquemia; dor que cresce em horas aponta processo inflamatório; cólica em ondas aponta obstrução de oco (intestino, ureter, bile). Migração: periumbilical para fossa ilíaca direita é a sequência da apendicite. Modificadores: piora com movimento e tosse sugere peritonite; alívio parcial após vômito sugere obstrução alta; dor que se move com a posição é de parede. Contexto: última evacuação e eliminação de flatos, vômitos e seu conteúdo, febre, sangramento digestivo, anticoagulação, cirurgias prévias (aderências) e hérnias. No exame: inspeção (distensão, cicatrizes, hérnias, movimentos respiratórios abortados), ausculta (silêncio abdominal na peritonite tardia; borborygmi metálicos na obstrução), percussão (dor de peritonite, timpanismo), palpação leve antes da profunda, defesa voluntária e involuntária, rigidez em tábua, Murphy, McBurney, pulsos femorais e abdominais, globo vesical e exame das hérnias. Descompressão brusca tem sensibilidade baixa: nunca é obrigatório provocá-la.
| Região | Causas agudas mais comuns | Não esquecer |
|---|---|---|
| Fossa ilíaca direita | Apendicite, Crohn, adenolinfomesenterite, divertículo de Meckel complicado, torsão ovariana, gravidez ectópica | Beta-HCG em toda mulher em idade fértil antes de imagem ou sala |
| Fossa ilíaca esquerda | Diverticulite sigmoide, colite isquêmica, constipação, torsão ovariana | Idoso com FIE e anticoagulação: pensar diverticulite complicada e isquemia |
| Hipocondrio direito | Colecistite e cólica biliar, hepatite, congestão hepática, pneumonia basal direita | Sinal de Murphy; ultrassonografia é o primeiro exame |
| Hipocondrio esquerdo | Infarto esplênico, gastrite e úlcera, pneumonia basal esquerda | Fibrilação atrial como fonte de embolia esplênica |
| Epigástrio | Pancreatite, úlcera péptica (e sua perfuração), IAM inferior, gastrite | ECG em toda dor epigástrica sem explicação; lipase |
| Periumbilical e difusa | Obstrução intestinal, isquemia mesentérica precoce, aneurisma roto, peritonite | Dor desproporcional aos achados físicos = isquemia até prova em contrário |
| Flanco e lombar | Cólica ureteral, pielonefrite, hematoma do psoas, aneurisma | Urina tipo 1; TC quando suspeita de hematoma ou aneurisma |
O escore de Alvarado organiza a suspeita de apendicite e é o escore clássico de prova. Na revisão sistemática de Ohle e colaboradores, com corte em 7 pontos, a sensibilidade foi de 82% e a especificidade de 81% [5] — bom para orientar imagem e cirurgia, insuficiente para decidir sozinho, sobretudo em mulheres em idade fértil e idosos, nos quais a acurácia cai. No laboratório da dor abdominal, cada exame tem pergunta própria: hemograma (leucocitose com desvio), PCR, lipase acima de três vezes o limite superior da normalidade para pancreatite (a amilase é menos específica e normal não exclui pancreatite em curso [4]), transaminases e fosfatase alcalina para via biliar, urina tipo 1, beta-HCG obrigatório em mulher em idade fértil, lactato e gasometria na suspeita de isquemia — lembrando que lactato normal não exclui isquemia precoce.
| Item do escore de Alvarado | Pontos |
|---|---|
| Migração da dor para a fossa ilíaca direita | 1 |
| Anorexia | 1 |
| Náusea e vômito | 1 |
| Sensibilidade na fossa ilíaca direita | 2 |
| Descompressão brusca (rebound) | 1 |
| Febrícula ≥37,3 °C | 1 |
| Leucocitose >10.000/mm³ | 2 |
| Desvio à esquerda >75% de neutrófilos | 1 |
| Total máximo — corte de alta probabilidade: ≥7 (sens 82%, esp 81%) | 10 |
| Exame | Quando usar | Performance e limites |
|---|---|---|
| Radiografia de abdome | Papel limitado hoje: confirmar ar livre (perfuração) e níveis hidroaéreos grosseiros | Exame normal não exclui nada importante |
| Ultrassonografia | Primeira escolha na colecistite (parede >4 mm, sono perivesicular, sinal de Murphy à US) e em gestantes e crianças; à beira do leito no instável | Operador-dependente; gases intestinais atrapalham |
| TC de abdome com contraste venoso | Padrão-ouro da dor aguda indefinida no adulto: obstrução, diverticulite, apendicite, coleções, isquemia (com protocolo angiográfico) [3] | Acurácia em torno de 90-95% para obstrução e apendicite; exige função renal estável e contraste |
| Cintilografia HIDA | Colecistite duvidosa, incluindo a acalculosa do paciente crítico | Sensibilidade em torno de 95-97% |
| ECG e radiografia de tórax | Toda dor epigástrica ou de quadrantes superiores sem explicação | IAM inferior e pneumonia basal imitam abdome agudo |
| Paciente instável | Não vai para a TC: reanimação, US à beira do leito e decisão cirúrgica imediata | TC nunca deve atrasar laparotomia no abdome hemorrágico ou séptico instável |
Duas síndromes merecem protocolo explícito. Na obstrução intestinal de abdome virgem (sem cirurgia ou hérnia evidentes), a TC com contraste é o exame decisivo para distinguir aderência de causa orgânica e sinalizar estrangulamento; na obstrução aderencial sem sinais de complicações, a gastrografina em 24-48 h tem papel diagnóstico e terapêutico, e a cirurgia é reservada aos casos com estrangulamento, alça fechada, peritonite, ou sem resposta ao tratamento clínico [3]. Na pancreatite aguda, o diagnóstico é clínico-laboratorial — dor característica com lipase acima de três vezes o limite — e a TC não é necessária para diagnosticar na admissão; a TC com contraste tem melhor performance após 72 h, quando avaliar necrose, e antibiótico profilático não é indicado; a reanimação com fluido (Ringer lactate) e a nutrição enteral precoce, dentro de 24-72 h conforme a tolerância, são pilares do tratamento [4].
A mortalidade das condições que se escondem atrás da dor abdominal explica a urgência da triagem. A isquemia mesentérica tem mortalidade de 50 a 80%, dominada pelo atraso diagnóstico — dor desproporcional com lactato normal é o momento de agir, não de esperar. O aneurisma de aorta abdominal roto tem mortalidade global de 65 a 80%, porque a maioria morre antes de chegar ao hospital; entre os operados, a sobrevida melhora com transporte e sala rápidos. A pancreatite necrotizante infectada tem mortalidade de 20 a 30%; a colite por C. difficile fulminante passa de 15-30% quando a cirurgia chega tarde. No conjunto, a laparotomia de emergência tem mortalidade em 30 dias em torno de 11-12%, com variação entre centros de praticamente zero a mais de 30% — e o cuidado padronizado (reconhecimento precoce, cirurgia na janela certa, cuidado perioperatório com UTI, metas de reanimação e checklists do tipo NELA) reduziu essa mortalidade nas auditorias seguintes [2]. A mensagem para o interno é direta: o prognóstico do abdome agudo é decidido nas primeiras horas, e a enfermaria é onde essas horas se passam.
1.Dor abdominal bem localizada, intensa, constante e agravada por movimento e tosse corresponde a qual tipo?
2.Idoso com dor abdominal intensa desproporcional a um exame físico aparentemente tranquilo e lactato normal. Qual leitura correta?
3.Qual o critério laboratorial clássico para o diagnóstico de pancreatite aguda?
4.No escore de Alvarado com corte em 7 pontos, quais a sensibilidade e a especificidade descritas na revisão sistemática?
5.Antes de qualquer imagem em mulher em idade fértil com dor abdominal, qual exame é obrigatório?
6.Sobre analgesia na suspeita de abdome agudo cirúrgico, qual afirmação é correta?
7.Paciente instável hemodinamicamente com dor abdominal intensa e suspeita de abdome agudo. Qual a conduta frente à imagem?
8.Na obstrução intestinal aderencial de abdome virgem, sem sinais de complicações, qual papel é atribuído à gastrografina em 24-48 h?
9.Paciente do 5º dia de pós-operatório de cirurgia colorretal com febre e dor crescente. Qual complicação deve ser excluída primeiro?
10.Qual a mortalidade em 30 dias da laparotomia de emergência descrita na primeira auditoria do UK Emergency Laparotomy Network?
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