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O guia prático da admissão na enfermaria de clínica médica: anamnese estruturada, exame físico de entrada e estratificação de risco com NEWS2, índice de Charlson e Clinical Frailty Scale. Reúne as triagens obrigatórias (CAM, Braden, Morse, MNA-SF), a montagem da lista de problemas e os pedidos iniciais das primeiras 24 horas, com valores de corte e armadilhas de prova.
[1] Verghese A, Horwitz RI. In praise of the physical examination. BMJ. 2009;339:b5448 · DOI 10.1136/bmj.b5448 | [2] Charlson ME, Pompei P, Ales KL, MacKenzie CR. A new method of classifying prognostic comorbidity in longitudinal studies: development and validation. J Chronic Dis. 1987;40(5):373-383 · DOI 10.1016/0021-9681(87)90171-8 | [3] Rockwood K, Song X, MacKnight C, et al. A global clinical measure of fitness and frailty in elderly people. CMAJ. 2005;173(5):489-495 · DOI 10.1503/cmaj.050051 | [4] Inouye SK, van Dyck CH, Alessi CA, et al. Clarifying confusion: the confusion assessment method. Ann Intern Med. 1990;113(12):941-948 · DOI 10.7326/0003-4819-113-12-941 | [5] Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-810 · DOI 10.1001/jama.2016.0287 | [6] Prytherch DR, Smith GB, Schmidt PE, Featherstone PI. ViEWS—Towards a national early warning score for detecting adult inpatient deterioration. Resuscitation. 2010;81(8):932-937 · DOI 10.1016/j.resuscitation.2010.04.014 · DOI 10.1503/cmaj.050051
A internação começa muito antes do primeiro laudo: começa na admissão, quando o interno — na prática, o médico que mais conhece o caso na enfermaria — coleta a história, faz o exame físico, monta a lista de problemas e assina os primeiros pedidos. Erros cometidos nesse momento se propagam por toda a hospitalização: a história medicamentosa mal coletada na entrada está entre as maiores fontes de dano evitável, com erros descritos em até dois terços das admissões em revisões sistemáticas, e um exame físico apressado perde sinais que mudam a conduta nas primeiras horas. O valor da observação clínica direta e do exame físico bem feito na admissão segue insubstituível mesmo na era da imagem e do laboratório [1]. Este artigo organiza o processo em etapas verificáveis: anamnese estruturada, exame de entrada, escores de estratificação (NEWS2, índice de Charlson, Clinical Frailty Scale), triagens obrigatórias (CAM, Braden, Morse, MNA-SF), lista de problemas e pedidos iniciais, com os valores de corte que as bancas cobram.
Admissão é um processo com ordem, não um formulário a preencher. A primeira pergunta é de segurança: o paciente está estável? Sinais vitais completos (pressão arterial, frequências cardíaca e respiratória, saturação, temperatura, glicemia capilar e nível de consciência) precisam estar registrados na chegada, e qualquer instabilidade hemodinâmica, respiratória ou neurológica desloca o fluxo de trabalho: primeiro estabiliza-se (vias, oxigênio, volume, reavaliação seriada), depois se detalha a história. Nos Estados Unidos e em boa parte da Europa, a avaliação médica inicial do paciente internado deve ocorrer em até algumas horas da entrada, e o padrão operacional aceitável é: sinais vitais e triagem imediata na chegada, avaliação médica nas primeiras horas e admissão completa — anamnese, exame, escores, pedidos e registro — em até 24 horas.
A anamnese de admissão tem blocos fixos: identificação, queixa principal na fala do paciente com duração, história da doença atual (HDA), antecedentes pessoais e familiares, medicação prévia, alergias, hábitos, história social e revisão de sistemas. A identificação vai além do nome: idade, sexo, procedência, estado civil, escolaridade, ocupação e com quem mora — esses dados definem rede de apoio, risco de readmissão e plano de alta. A HDA é narrativa com cronologia: início e evolução dos sintomas, características (localização, qualidade, intensidade, irradiação, fatores de melhora e piora), sintomas associados, medidas já tomadas e contexto (viagem, contato com doentes, medicamentos novos, internações recentes). Números valem ouro: quantos graus de febre, quantos episódios de vômito, quantos quilos de perda de peso em quanto tempo.
A técnica importa tanto quanto o roteiro: começa-se com perguntas abertas (conte o que aconteceu) e fecha-se com as dirigidas, sem interromper o paciente nos primeiros minutos — pacientes raramente relatam a queixa principal de forma espontânea se são cortados antes. Uma pergunta separa admissões medíocres de admissões boas: por que agora? O paciente tem hipertensão há 20 anos, mas internou hoje — o que mudou? A resposta revela o gatilho da descompensação (aderência, infecção, droga nova, evento agudo) e costuma ser o fio que organiza todo o caso. Em idosos, a HDA precisa incluir a função basal antes do quadro atual: andava sozinho? cuidava da casa? dirigia? reconhecia pessoas? A função basal é a régua contra a qual se mede qualquer deterioração durante a internação, inclusive o delirium.
Antecedentes pessoais devem trazer diagnóstico com tempo de evolução e tratamento em curso: escrever apenas 'diabético' é informação perdida — o correto é 'diabetes tipo 2 há 12 anos, em metformina 850 mg de 12/12 h e insulina glargina 20 UI à noite, HbA1c recente de 8,4%'. Cirurgias prévias, internações anteriores (por quê e quando), transfusões e eventos trombóticos entram no mesmo padrão. Antecedentes familiares focam o que muda conduta: doença coronariana precoce, cânceres hereditários, trombofilias. Hábitos precisam de carga: tabagismo em maços-ano, álcool em dose padrão por semana (com rastreio estruturado quando houver suspeita), drogas ilícitas, atividade física. A medicação domiciliar é o bloco com maior potencial de dano quando mal coletado: omissões de anticoagulantes, insulina, anticonvulsivantes, levodopa ou imunossupressores produzem eventos graves dentro de 24 a 72 horas.
O exame físico de admissão é completo, mas com foco dirigido pela HDA, e começa pelas mãos (pulseira, acesso, dispositivos), sinais vitais e impressão geral (aspecto, nível de consciência, desconforto respiratório, dor, hidratação, cor da pele e mucosas). A sequência céfalo-caudal clássica evita buracos: pele e anexos (lesões, cateteres, feridas, áreas de apoio — sacar úlcera de pressão na entrada é falha registrável), cabeça e pescoço (ictéricia, linfonodos, turgência jugular, tireoide, sopros carotídeos), tórax (expansão, murmúrio vesicular, ruídos adventícios, sons cardíacos, bulhas e sopros), abdome (ruídos, dor à palpação, visceromegalias, massas, hérnias, sopros), membros (edema, pulsos, cianose, deformidades, força e mobilidade) e exame neurológico sumário (Glasgow ou ACVPU, pupilas, força, sensibilidade, marcha quando possível).
Três escores estruturam o risco do paciente recém-admitido e respondem perguntas distintas: o NEWS2 mede a probabilidade de deterioração nas próximas horas; o índice de Charlson mede a carga de comorbidade e o prognóstico de longo prazo; a Clinical Frailty Scale mede a reserva funcional. O NEWS2 (National Early Warning Score 2, do Royal College of Physicians britânico) é a versão consolidada do ViEWS, escore desenvolvido e validado para detectar deterioração de pacientes internados [6], e soma sete parâmetros de 0 a 3 pontos cada, com total de 0 a 20.
| Parâmetro | Pontuação do NEWS2 (faixas) |
|---|---|
| Frequência respiratória | 0: 12-20 irpm | 1: 9-11 | 2: 21-24 | 3: ≤8 ou ≥25 |
| Saturação de O2 (SpO2) | 0: ≥96% | 1: 94-95% | 2: 92-93% | 3: ≤91% (escala 1; escala 2 para risco de hipercapnia) |
| Oxigênio suplementar | 0: ar ambiente | 2: qualquer oxigênio suplementar |
| Pressão arterial sistólica | 0: 111-219 mmHg | 1: 101-110 | 2: 91-100 | 3: ≤90 |
| Frequência cardíaca | 0: 51-90 bpm | 1: 41-50 ou 91-110 | 2: 111-130 | 3: ≤40 ou ≥131 |
| Consciência (ACVPU) | 0: alerta | 3: novo confundimento ou resposta só a voz, dor ou nenhuma |
| Temperatura | 0: 36,1-38,0 °C | 1: 35,1-36,0 ou 38,1-39,0 | 3: ≤35,0 ou ≥39,1 |
Os limiares de ação do NEWS2 são fixos e cobrados: total de 1 a 4 define risco baixo (monitorização de rotina, reavaliação a cada 6-12 horas); 3 pontos em um único parâmetro exigem reavaliação urgente do parâmetro alterado; total ≥5 define risco médio-alto e pede resposta clínica URGENTE — avaliação por profissional com competência em doença aguda, decisão sobre nível de cuidado e monitorização no mínimo horária; total ≥7 define risco alto e pede resposta EMERGENCIAL, com avaliação por equipe de resposta rápida ou terapia intensiva e monitorização contínua. No risco de hipercapnia (DPOC avançada, acidose respiratória), usa-se a escala 2 de SpO2, com alvo de saturação de 88-92%, para não pontuar erroneamente o paciente crônico.
A Clinical Frailty Scale, derivada do Estudo Canadian Study of Health and Aging [3], gradua a fragilidade em 9 níveis a partir da função e do uso de apoio: 1 muito apto; 2 apto; 3 bem, com doenças tratadas; 4 vulnerável (limitação leve, não dependente); 5 levemente frágil (precisa de ajuda para atividades instrumentais como finanças, transporte, limpeza pesada); 6 moderadamente frágil (precisa de ajuda para tomar banho e sair de casa); 7 gravemente frágil (dependência parcial para atividades de vida diária, como higiene íntima e toalete); 8 muito frágil (dependência total e frequentemente terminal); 9 terminal. Escore ≥5 define fragilidade e deve constar no prontuário da admissão: fragilidade muda metas de cuidado, intensidade terapêutica (a decisão de escalar para UTI), risco de delirium, queda e reinternação — e é informação que se perde se não for registrada na entrada.
A admissão fecha com um pacote de triagens curtas, cada uma com corte definido e conduta acoplada. Elas existem porque as complicações que mais custam dias de internação — delirium, queda, lesão por pressão, desnutrição, descondicionamento — são previsíveis e preveníveis quando o risco é marcado no primeiro dia.
O fechamento intelectual da admissão é a lista de problemas no formato orientado a problemas: cada problema ativo (diagnóstico estabelecido, síndrome clínica, achado não explicado, problema social, dispositivo) numerado, com plano próprio, revisado e atualizado todos os dias. O problema principal recebe a hipótese diagnóstica de admissão com os diferenciais ranqueados por probabilidade e gravidade — e a regra é registrar o que precisa ser EXCLUÍDO nas primeiras 24-48 horas, não apenas a hipótese favorita. Ancoragem é o erro clássico: aceitar o diagnóstico de encaminhamento (veio internado como pneumonia, mas a dispneia é insuficiência cardíaca) sem testar alternativas. Um parágrafo de raciocínio clínico explícito na admissão — por que esta hipótese, por que os demais diferenciais são menos prováveis — vale mais do que dez exames pedidos por insegurança.
| Síndrome de admissão | Não pode faltar na entrada | Diferenciais a excluir em 24-48 h |
|---|---|---|
| Dor torácica | ECG em ≤10 min, marcadores de necrose, radiografia, dupla antiagregação se IAM confirmado | Síndrome coronariana aguda, embolia pulmonar (escore de Wells), dissecção de aorta, pericardite, pneumotórax |
| Dispneia aguda | SpO2, radiografia, BNP/NT-proBNP quando indeterminado, gasometria se hipoxemia | Insuficiência cardíaca descompensada, pneumonia, TEP, DPOC descompensada, derrame pleural |
| Confusão aguda (idoso) | CAM, glicemia, eletrólitos, função renal, ura/EAS, revisão de drogas | Delirium (infecção, retenção urinária, fecaloma, hiponatremia, droga), AVC, hematomasubdural, status epilepticus não convulsivo |
| Queda em idoso | PA ortostática, FC, glicemia, exame neurológico focado, revisão de drogas, Braden e Morse | Síncope cardíaca (arritmia, estenose aórtica), hipotensão ortostática, TEC associado, convulsão |
| Febre sem foco claro | Hemoculturas (2 a 4 frascos) antes do antibiótico, ura/EAS, radiografia de tórax, histórico de procedimentos | Pneumonia, infecção urinária, bacteriemia por cateter, endocardite, abscesso oculto, trombose |
Os pedidos de admissão (admission orders) seguem roteiro mnemônico e cobrem, de forma explícita, tudo que o paciente precisa — e o que precisa ser suspenso. A regra de ouro: tudo que depende de decisão diária (dieta, oxigênio, analgesia, mobilização) deve ter parâmetro escrito na admissão, para que a enfermagem não fique sem instrução durante a noite.
A admissão vale o que o registro vale. O documento precisa conter: data e hora, fonte da informação (paciente, familiar, prontuário anterior) e sua confiabilidade, anamnese completa com negativos relevantes, exame físico com valores, alergias com tipo de reação, lista de problemas, hipótese diagnóstica com diferenciais, plano escrito e identificação do responsável. Comunicação escrita e falada seguem estrutura: para passar o caso usa-se o SBAR (Situação, Background/contexto, Avaliação, Recomendação), que força a síntese e reduz perda de informação na transição de turno. Detalhes que parecem burocracia são proteção médico-legal e assistencial: horário da avaliação, hora da primeira dose de antibiótico em sepse, hora do ECG na dor torácica, quem foi chamado e quando. O interno que registra pensa melhor; o que não registra, esquece e não transmite.
1.No NEWS2, um paciente com total de 6 pontos (sem nenhum parâmetro isolado em 3) requer qual conduta?
2.Na escala de SpO2 do NEWS2, qual parâmetro pontua automaticamente 2 pontos?
3.Qual a combinação de critérios da CAM que define delirium?
4.No índice de Charlson, quais condições valem 6 pontos cada?
5.Segundo a Clinical Frailty Scale, a partir de qual escore se define fragilidade?
6.Qual definição operacional de sepse foi adotada pela Sepsis-3?
7.Por que registrar a função cognitiva basal do idoso na admissão?
8.Na coleta da medicação domiciliar na admissão, qual prática reduz mais o dano?
9.Paciente admitido por tontura e queda: qual medida do exame de entrada tem maior impacto imediato na conduta?
10.No índice de Charlson ajustado pela idade, cada década acima de 50 anos adiciona:
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