Choque & HemodinâmicaRevisão didática · ATLS 10ª edição e diretrizes europeias08/10/2026
Trauma na emergência cirúrgica: ATLS, choque hemorrágico e controle de dano
Avaliação primária ABCDE passo a passo, classes de choque hemorrágico I a IV, FAST e e-FAST com acurácia real, ácido tranexâmico dentro da janela de 3 horas, transfusão maciça 1:1:1, hipotensão permissiva, indicações de laparotomia, cirurgia de controle de dano e síndrome compartimental abdominal.
[1] Spahn DR, Bouillon B, Cerny V, et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Crit Care. 2019;23(1):98 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-3 | [2] Shakur H, Roberts I, Bautista R, et al. Effects of tranexamic acid on death, vascular occlusive events, and blood transfusion in trauma patients with significant haemorrhage (CRASH-2). Lancet. 2010;376(9734):23-32 · DOI 10.1016/S0140-6736(10)60835-5 | [3] Holcomb JB, Tilley BC, Baraniuk S, et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma (PROPPR). JAMA. 2015;313(5):471-482 · DOI 10.1001/jama.2015.12 | [4] Netherton S, Milenkovic V, Taylor M, Davis PJ. Diagnostic accuracy of eFAST in the trauma patient: a systematic review and meta-analysis. CJEM. 2019;21(6):727-738 · DOI 10.1017/cem.2019.381 | [5] Sierink JC, Treskes K, Edwards MJR, et al. Immediate total-body CT scanning versus conventional imaging and selective CT scanning in patients with severe trauma (REACT-2): a randomised controlled trial. Lancet. 2016;388(10045):673-683 · DOI 10.1016/S0140-6736(16)30932-1 | [6] Kirkpatrick AW, Roberts DJ, De Waele J, et al. Intra-abdominal hypertension and the abdominal compartment syndrome: updated consensus definitions and clinical practice guidelines from the World Society of the Abdominal Compartment Syndrome. Intensive Care Med. 2013;39(7):1190-1206 · DOI 10.1007/s00134-013-2906-z | [7] Coccolini F, Roberts DJ, Ansaloni L, et al. The open abdomen in trauma and non-trauma patients: WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2018;13:7 · DOI 10.1186/s13017-018-0167-4 | [8] Diório SM, Fraga GP, Dutra Júnior JA, et al. Fatores preditivos de morbidade e mortalidade no trauma hepático. Rev Col Bras Cir. 2008;35(6):397-405 · DOI 10.1590/S0100-69912008000600010 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-3
O trauma é a principal causa de morte na primeira metade da vida e responde por cerca de 4,4 milhões de óbitos por ano no mundo; entre as mortes evitáveis, a hemorragia é campeã, responsável por 30 a 40% dos óbitos por trauma, a maioria nas primeiras horas. É esse intervalo que o ATLS (Advanced Trauma Life Support) organiza: avaliação primária ABCDE que trata lesões na ordem em que matam, com reanimação ocorrendo EM PARALELO ao exame, e não depois dele. Para o interno na sala de trauma, o papel não é decorar a sequência: é executar tarefas que mudam desfecho — garantir vias e amostras, acionar o banco de sangue, registrar horários, correr as bombas e manter o controle da temperatura. Este artigo percorre o ABCDE, as classes de choque hemorrágico, a imagem de bolso, a transfusão 1:1:1, as indicações de laparotomia e a cirurgia de controle de dano.
Mortes por lesões
4,4 milhões/ano
no mundo; primeira causa de óbito abaixo dos 45 anos
Hemorragia
30-40%
das mortes por trauma, a maioria nas primeiras horas
Ácido tranexâmico
até 3 h
1 g EV em 10 min + 1 g em 8 h; após 3 h é nocivo (CRASH-2 [2])
Transfusão maciça
1:1:1
hemácias:plasma:plaquetas; melhor hemostasia no PROPPR [3]
Hipotensão permissiva
PAS 80-90
até controle do sangramento; EXCETO trauma cranioencefálico grave
Compartimento abdominal
PIA >20 mmHg
+ nova disfunção de órgão = síndrome compartimental (WSACS [6])
01O enquadramento: distribuição trimodal e a hora de ouro
A morte por trauma segue a distribuição trimodal clássica: pico imediato (segundos a minutos, por lesão de tronco, medula alta, coração ou aorta, quase inalcançável por qualquer sistema), pico precoce (minutos a horas, dominado pela hemorragia — o alvo exato do ATLS e da chamada hora de ouro, um princípio de priorização e não um cronômetro) e pico tardio (dias a semanas, por sepse e falência multiorgânica, influenciado pela qualidade da reanimação inicial). A conclusão prática que cai em prova: o que mata nas primeiras horas é hemorragia e hipóxia, e por isso A e C vêm antes de tudo; a avaliação primária é repetida ciclicamente a cada piora, e a secundária (cabeça aos pés, com anamnese e AMPLE) só começa quando o paciente está fisiologicamente estabilizado.
02Avaliação primária: o ABCDE na prática
A — Via aérea com proteção cervical: paciente que fala tem via aérea pérvia e perfusão razoável; manobras de tração da mandíbula (jaw thrust) SEM hiperextensão cervical, aspiração dirigida. GCS ≤8, obstrução progressiva ou hipoxemia refratária = via aérea definitiva: intubação de sequência rápida com estabilização cervical em linha neutra por segundo auxiliar; se intubação falha, via aérea cirúrgica (cricotireoidostomia).
B — Respiração: exponha todo o tórax; avalie frequência, simetria, trabalho acessório, enfisema subcutâneo e SpO2. Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico CLÍNICO (desvio de traqueia, ausência de murmúrio, distensão jugular, hipotensão) e trata-se antes de qualquer radiografia: descompressão com agulha no 5º espaço intercostal na linha axilar anterior (preferido na 10ª edição) ou no 2º EIC hemiclavicular (posição clássica), seguida de dreno torácico; ferida torácica aberta recebe curativo oclusivo de três lados e dreno.
C — Circulação com controle do sangramento: dois acessos calibrosos (16-18G) em fossa cubital ou acesso intraósseo se houver falha; colher amostras na punção. Controle de sangramento externo com pressão direta e torniquete em membros; colete pélvico nos grandes trocânteres em politrauma com instabilidade; FAST e radiografias de tórax e pelve como adjuntos do C. Volume: cristaloide balanceado aquecido, NO MÁXIMO cerca de 1 L; choque que persiste = sangue tipo O (O-negativo em mulheres em idade fértil) e protocolo de transfusão maciça.
D — Déficit neurológico: GCS detalhado (olhos, verbal, motor), pupilas, sinais lateralizantes, glicemia capilar; deterioração neurológica muda a prioridade e antecipa a tomografia de crânio.
E — Exposição e ambiente: despachar as roupas cortando-as, evitar hipotermia (cobertor térmico, fluidos aquecidos), rolagem em bloco com exame do dorso, reto (tônus, sangue, próstata alta) e períneo; sonda vesical só depois de excluir lesão uretral (sangramento no meato, escroto em páprica, próstata alta).
03Choque no trauma: as classes I a IV e as pegadinhas da idade
No trauma, assuma choque hemorrágico até prova em contrário e classifique-o pela resposta fisiológica, não pela pressão arterial: no adulto jovem, a compensação simpática sustenta a PA com perdas de 15 a 30% da volemia, e hipotensão significa que a reserva já acabou. A tabela do ATLS (referida a um adulto de 70 kg) é o mapa de gravidade mais cobrado em prova de residência.
Parâmetro
Classe I
Classe II
Classe III
Classe IV
Perda volêmica
<15%
15-30%
30-40%
>40%
Volume (adulto 70 kg)
<750 mL
750-1.500 mL
1.500-2.000 mL
>2.000 mL
Frequência cardíaca
<100
100-120
120-140
>140
Pressão arterial
Normal
Normal
Reduzida
Muito reduzida
Pressão de pulso
Normal
Reduzida
Reduzida
Reduzida/imensurável
Frequência respiratória
14-20
20-30
30-40
>35
Estado mental
Levemente ansioso
Ansioso
Confuso
Letárgico
Diurese
≥30 mL/h
20-30 mL/h
5-15 mL/h
Desprezível
As pegadinhas da idade: o idoso e o paciente betabloqueado NÃO taquicardizam — a hipotensão pode ser o primeiro sinal, e o limiar de urgência é menor; a criança compensa com taquicardia e pele fria por muito tempo, hipotensão pediátrica significa descompensação iminente, e bradicardia precede parada; a gestante perde mais volume antes de decompensar e precisa de reposição 1,2 a 1,5 vez maior, sempre com deslocamento uterino para a esquerda. E nem todo choque no trauma é hemorrágico: pneumotórax hipertensivo (obstrutivo), tamponamento (FAST subxifoide, tríade de Beck), choque neurogênico (hipotensão COM bradicardia e pele quente seca, por perda do tônus simpático) e o hematoma pélvico massivo entram no diagnóstico diferencial do paciente que não responde a volume.
04Controle do sangramento: hipotensão permissiva, TXA e transfusão 1:1:1
Hipotensão permissiva: alvo de PAS 80-90 mmHg (ou pulso radial palpável) até o controle cirúrgico do sangramento, em trauma penetrante SEM lesão craniana grave. EXCEÇÃO ABSOLUTA: no traumatismo cranioencefálico, cada episódio de PAS <90 mmHg aproximadamente dobra a mortalidade — a pressão de perfusão cerebral manda, e o alvo é mais alto.
Ácido tranexâmico: 1 g EV em 10 minutos + 1 g em infusão de 8 horas, INICIADO em até 3 horas do trauma (CRASH-2: mortalidade por sangramento de 4,9% com TXA contra 5,7% com placebo e redução da mortalidade geral de 16,0% para 14,5% [2]); iniciado após 3 horas, aumenta a mortalidade por sangramento.
Fluidos: preferir cristaloide balanceado (Ringer lactato, plasmalyte) aquecido e limitar (cerca de 1 L); grande volume de soro fisiológico 0,9% produz acidose hiperclorêmica e agrava a coagulopatia.
Sangue: choque persistente após ~1 L ou classe III-IV ao primeiro contato = protocolo de transfusão maciça com razão 1:1:1 (hemácias:plasma:plaquetas); no PROPPR a razão 1:1:1 não mudou a mortalidade primária de 24 h e 30 dias, mas alcançou hemostasia mais rápido e reduziu a morte por exsanguinação nas primeiras 24 horas [3].
Coadjuvantes obrigatórios: cálcio iônico após hemocomponentes (corrigir <1,1 mmol/L), fibrinogênio acima de 150-200 mg/dL, aquecimento ativo — a tríade letal (hipotermia, acidose, coagulopatia) ganhou o quarto elemento, a hipocalcemia, formando o diamante da morte [1].
05Imagem no trauma: FAST, e-FAST e tomografia
O FAST (Focused Assessment with Sonography in Trauma) examina quatro janelas: espaço hepatorrenal (bolsa de Morison), periesplênico, pélvico (fundo de saco de Douglas/perivesical) e pericárdico (subxifoide). O eFAST acrescenta a varredura torácica: ausência de sliding pleural com sinal em código de barras no modo M diagnosticar pneumotórax com acurácia superior à radiografia supina, e líquido acima do diafragma identifica hemotórax. Em metanálise, a acurácia do eFAST mostra especificidade alta e consistente (acima de 95%) e sensibilidade menor e variável entre estudos (na faixa de 70-90%), o que define as duas regras de ouro: FAST POSITIVO em paciente instável aponta para a sala de cirurgia; FAST NEGATIVO não exclui lesão — retroperitônio, vísceras ocas, contusão de órgão parenquimatoso e pacientes obesos ou com enfisema subcutâneo escapam, exigindo reexames seriados ou tomografia se estável [4].
No paciente instável, o pacote de imagem do trauma bay é FAST + radiografia de tórax + radiografia de pelve, feitas em minutos, ao lado da reanimação. No paciente estável ou estabilizado, a tomografia de corpo inteiro precoce é o padrão: o ensaio randomizado REACT-2 comparou TC total imediata contra radiografias seguidas de TC seletiva e não encontrou redução significativa de mortalidade em 30 dias (19,3% contra 20,5%), porém encurtou o tempo até a TC, até o diagnóstico e até a intervenção, consolidando a via rápida à TC quando o paciente tolera sair da sala [5].
06Laparotomia no trauma: as indicações que o interno precisa reconhecer
Trauma contuso + instabilidade + FAST positivo: laparotomia imediata, sem tomografia.
Hemotórax maciço (>1.500 mL no dreno inicial) ou dreno torácico com retorno >200 mL/h por 2-4 h: toracotomia.
Trauma contuso + instabilidade + FAST negativo: repensar a fonte (tórax, pelve, retroperitônio, fêmur, externo); tomografia somente se conseguir estabilizar.
Trauma penetrante de tronco + instabilidade: sala de cirurgia, sem exames que atrasem.
Ferimento abdominal penetrante com evisceração, peritonite, hemorragia ativa, lesão diafragmática suspeita ou objeto empalado (fixado no local, retirado apenas em centro cirúrgico): laparotomia.
Projétil de arma de fogo com trajeto presumidamente transperitoneal: laparotomia é o padrão de prova; centros com tomografia disponível selecionam estáveis — o estável com arma branca segue tomografia com contraste ou exploração dirigida da ferida.
Dois órgãos merecem nota especial. No fígado contuso, a grande maioria dos pacientes estáveis evolui sem cirurgia, com embolização angiográfica como recurso central nos casos com extravasamento; na sala, o sangramento parenquimatoso se controla com manobra de Pringle (pinçamento do pedículo hepático) e packing peri-hepático, e a série brasileira de Campinas identificou choque à admissão, transfusão maciça e lesões associadas como fatores de pior morbimortalidade no trauma hepático [8]. No baço, o manejo não operatório com tomografia é a regra no estável, e a esplenectomia obriga a vacinação antipneumocócica, antimeningocócica e contra Haemophilus influenzae b.
07Cirurgia de controle de dano
O conceito nasceu da constatação de que o paciente morre da tríade letal, não da lesão: em fisiologia quebrada, o reparo anatômico perfeito é mortal. A cirurgia de controle de dano é uma laparotomia abreviada em três fases, indicada por pH <7,2, lactato >5 mmol/L, temperatura <34-35°C, transfusão acima de 10 unidades, hipotensão persistente na mesa ou lesões combinadas maiores.
Fase 1 — laparotomia abreviada: controlar sangramento (packing hepático e pélvico, ligaduras, shunts vasculares quando o reparo definitivo não cabe no tempo; REBOA como ponte em centros habilitados), controlar contaminação (suturar ou capotonar alças — NÃO fazer anastomose) e fechar temporariamente (bolsa de Bogotá, pressão negativa) [7].
Fase 2 — UTI: reaquecer para >36°C, corrigir acidose (lactato como guia), coagulopatia (plasma, plaquetas, fibrinogênio, ácido tranexâmico) e cálcio; angioembolização complementar quando indicada; vigilância de hipertensão intra-abdominal.
Fase 3 — reabordagem programada em 24-48 horas, quando lactato em queda, temperatura normalizada e coagulograma corrigido: retirada de packing, reparos definitivos e anastomoses; o fechamento da parede, idealmente na primeira semana, é a meta das diretrizes WSES para o abdome aberto [7].
08Síndrome compartimental abdominal e abdome aberto
A reanimação maciça incha o conteúdo do abdome numa parede que perdeu compliance: o consenso WSACS define hipertensão intra-abdominal como pressão intra-abdominal (PIA) ≥12 mmHg sustentada (medida pela bexiga, em decúbito dorsal, no fim da expiração) e síndrome compartimental abdominal como PIA >20 mmHg associada a NOVA disfunção de órgão (oligúria, piora da ventilação, aumento do lactato) [6]. Os grupos de risco são os reanimados com >3-5 L ou >6-10 unidades, pacientes com packing hepático, peritonite, pancreatite e queimados. O tratamento escala de medidas temporárias (descompressão gástrica, sedação e paralisia, paracentese, posicionar) para a descompressão cirúrgica com laparostomia, porque a demora encarece a mortalidade, que passa de 40%. O abdome aberto resultante exige proteção das alças com pressão negativa, reposição hídrica e proteica enorme e alerta permanente para a fístula enteroatmosférica [7].
09O papel do interno na sala de trauma
Antes de tudo: falar com o paciente durante o A — orientar, tranquilizar e obter a história AMPLE (alergias, medicamentos, passados, última refeição, evento/mechanismo).
Circulação: cortar roupas, aplicar cobertor térmico, montar os acessos, colher os tubos (hemograma, coagulograma, gasometria, tipagem) e despachá-los com nome e horário.
Sangue: saber o número do banco de sangue, acionar o protocolo de transfusão maciça, checar cada bolsa e registrar hora de início e fim de cada componente.
Registro: horários de chegada, de cada intervenção e de cada exame — a auditoria de mortalidade reconstrói o caso por eles.
Bombas e fluidos: rodar infusões aquecidas, vigiar temperatura e contar o volume infundido em voz alta.
Comunicação: relatar em SBAR nas transferências e repetir em voz alta os achados do examinador para o time ouvir (FAST positivo, GCS caindo).
Pergunta que define a cultura do serviço: ONDE ESTÁ O SANGUE? — tórax, abdome, pelve/retroperitônio, fêmur, chão.
10Pontos de prova e erros comuns
P
Motociclista chega com PAS 80 mmHg, FC 136, GCS 14, distensão abdominal e FAST com líquido no espaço hepatorrenal. Conduta imediata?
V
Choque hemorrágico classe III: protocolo de transfusão maciça 1:1:1, ácido tranexâmico 1 g + 1 g em 8 h, colete pélvico, radiografias de tórax e pelve em paralelo e LAPAROTOMIA imediata — instável com FAST positivo não vai para tomografia [4].
P
Paciente estável após queda de altura com dor abdominal e FAST negativo. Próximo passo?
V
FAST negativo não exclui lesão: estável = tomografia de corpo inteiro precoce com contraste e reexames seriados, pois retroperitônio e vísceras ocas escapam ao ultrassom [4,5].
P
Laparotomia de controle de dano com packing hepático; 24 h depois: pH 7,34, lactato 2,1, temperatura 36,4°C, coagulograma normal. Conduta?
V
Fisiologia corrigida: reabordagem programada para retirada do packing e reparos definitivos (anastomoses se seguras), com meta de fechamento da parede na primeira semana [7].
P
Paciente reanimado de choque hemorrágico evolui com oligúria, PIA de 24 mmHg e piora do lactato. Diagnóstico e conduta?
V
Síndrome compartimental abdominal (PIA >20 mmHg + nova disfunção de órgão [6]): medidas temporárias (SNG, sedação e paralisia, paracentese) e descompressão cirúrgica urgente com laparostomia.
P
Vítima de queda de 6 metros com PAS 78 mmHg, FC 46 bpm e pele quente e seca. Qual choque e qual droga?
V
Padrão de choque neurogênico (hipotensão com bradicardia e sem vasoconstrição periférica): excluir primeiro hemorragia (FAST, tórax, pelve) e usar noradrenalina; volume só moderado, e fenilefrina pura agravaria a bradicardia.
11Referências
[1] Spahn DR, Bouillon B, Cerny V, et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: fifth edition. Crit Care. 2019;23(1):98 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-3
[2] Shakur H, Roberts I, Bautista R, et al. Effects of tranexamic acid on death, vascular occlusive events, and blood transfusion in trauma patients with significant haemorrhage (CRASH-2). Lancet. 2010;376(9734):23-32 · DOI 10.1016/S0140-6736(10)60835-5
[3] Holcomb JB, Tilley BC, Baraniuk S, et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma (PROPPR). JAMA. 2015;313(5):471-482 · DOI 10.1001/jama.2015.12
[4] Netherton S, Milenkovic V, Taylor M, Davis PJ. Diagnostic accuracy of eFAST in the trauma patient: a systematic review and meta-analysis. CJEM. 2019;21(6):727-738 · DOI 10.1017/cem.2019.381
[5] Sierink JC, Treskes K, Edwards MJR, et al. Immediate total-body CT scanning versus conventional imaging and selective CT scanning in patients with severe trauma (REACT-2): a randomised controlled trial. Lancet. 2016;388(10045):673-683 · DOI 10.1016/S0140-6736(16)30932-1
[6] Kirkpatrick AW, Roberts DJ, De Waele J, et al. Intra-abdominal hypertension and the abdominal compartment syndrome: updated consensus definitions and clinical practice guidelines from the World Society of the Abdominal Compartment Syndrome. Intensive Care Med. 2013;39(7):1190-1206 · DOI 10.1007/s00134-013-2906-z
[7] Coccolini F, Roberts DJ, Ansaloni L, et al. The open abdomen in trauma and non-trauma patients: WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2018;13:7 · DOI 10.1186/s13017-018-0167-4
[8] Diório SM, Fraga GP, Dutra Júnior JA, et al. Fatores preditivos de morbidade e mortalidade no trauma hepático. Rev Col Bras Cir. 2008;35(6):397-405 · DOI 10.1590/S0100-69912008000600010
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10 questões comentadas
1.Paciente de trauma com GCS 7 e proteção cervical em curso. Qual a conduta sobre a via aérea?
2.Vítima de acidente com desvio de traqueia, murmúrio abolido à direita, distensão jugular e PAS 70 mmHg. Qual a conduta imediata?
3.Trauma contuso com perda estimada de 1.200 mL em adulto de 70 kg. Qual a classe de choque hemorrágico esperada?
4.Sobre o ácido tranexâmico no trauma, o CRASH-2 demonstrou:
5.Qual o achado central do PROPPR sobre a razão 1:1:1 na transfusão maciça?
6.Paciente instável com FAST positivo. Qual a conduta?
7.Qual a principal limitação do FAST que o interno deve lembrar ao interpretar um exame negativo?
8.Sobre hipotensão permissiva no trauma, qual afirmação é correta?
9.Quais os critérios atuais de síndrome compartimental abdominal pelo consenso WSACS?
10.Na laparotomia de controle de dano, qual conduta pertence à fase 1?
Pergunta 1Distribuição trimodal da morte por trauma
RespostaPico imediato (tronco, medula alta, coração, aorta); pico precoce (minutos-horas, HEMORRAGIA — alvo do ATLS e da hora de ouro); pico tardio (dias-semanas, sepse e falência multiorgânica).
Pergunta 2Critérios de via aérea definitiva no trauma
RespostaGCS ≤8, obstrução progressiva ou hipoxemia refratária: intubação de sequência rápida com estabilização cervical em linha; falha = cricotireoidostomia.
Pergunta 3Pneumotórax hipertensivo: diagnóstico e tratamento
RespostaCLÍNICO: desvio de traqueia, murmúrio abolido, jugulares distendidas, hipotensão. Descompressão imediata por agulha (5º EIC linha axilar anterior na 10ª edição; 2º EIC hemiclavicular clássico) + dreno torácico. NENHUM exame antes.
Pergunta 4Classes de choque hemorrágico (ATLS, adulto 70 kg)
RespostaI: <15% (<750 mL), FC <100, PA normal. II: 15-30% (750-1.500 mL), FC 100-120, PA NORMAL. III: 30-40% (1.500-2.000 mL), FC 120-140, hipotensão, confusão. IV: >40% (>2.000 mL), FC >140, letargia, anúria.
Pergunta 5Ácido tranexâmico no trauma (CRASH-2)
Resposta1 g EV em 10 min + 1 g em infusão de 8 h, iniciado ATÉ 3 h do trauma: mortalidade por sangramento 4,9% vs 5,7% e geral 14,5% vs 16,0% [2]. Após 3 h: nocivo.
Pergunta 6PROPPR: o que provou sobre 1:1:1
RespostaSem diferença de mortalidade global (24 h/30 dias), mas hemostasia mais rápida e menos morte por exsanguinação em 24 h (9,2% vs 14,6%): base da razão balanceada no protocolo de transfusão maciça [3].
Pergunta 7FAST: janelas e regra de ouro
Resposta4 janelas: hepatorrenal (Morison), periesplênica, pélvica e pericárdica. FAST positivo + instável = laparotomia. FAST negativo NÃO exclui: retroperitônio, vísceras ocas, obesos e enfisema escapam (sensibilidade 70-90%, especificidade >95% [4]).
Pergunta 8eFAST: o que acrescenta
RespostaVarredura torácica: pneumotórax (ausência de sliding + código de barras no modo M, acurácia superior à radiografia supina) e hemotórax (líquido acima do diafragma).
Pergunta 9REACT-2: tomografia de corpo inteiro
RespostaTC total imediata versus seletiva: sem redução significativa de mortalidade em 30 dias (19,3% vs 20,5%), porém menos tempo até TC, diagnóstico e intervenção. Padrão no estável [5]; no instável, radiografias de tórax e pelve no trauma bay.
Pergunta 10Hipotensão permissiva e a exceção
RespostaPAS 80-90 mmHg (pulso radial palpável) até o controle do sangramento em trauma penetrante sem TCE. EXCEÇÃO: TCE grave — PAS <90 aproximadamente dobra mortalidade; prioridade é a pressão de perfusão cerebral.
Pergunta 11Indicações de laparotomia no trauma
RespostaContuso instável + FAST positivo; hemotórax maciço (>1.500 mL ou dreno >200 mL/h); penetrante instável; evisceração, peritonite, hemorragia ativa, objeto empalado, lesão diafragmática; projétil transperitoneal (padrão de prova).
Pergunta 12Fases da cirurgia de controle de dano
Resposta1) Laparotomia abreviada: packing/ligaduras/shunts, contaminação SEM anastomose, fechamento temporário. 2) UTI: reaquecer >36°C, corrigir acidose, coagulopatia e cálcio. 3) Reabordagem em 24-48 h quando fisiologia corrigida; fechamento na 1ª semana [7].
RespostaPIA >20 mmHg (medida pela bexiga) + NOVA disfunção de órgão; hipertensão intra-abdominal = PIA ≥12 mmHg. Risco: reanimação maciça, packing, peritonite. Tratamento definitivo: descompressão cirúrgica [6].
Pergunta 14Choque neurogênico no trauma
RespostaLesão medular alta: hipotensão COM bradicardia e pele quente/seca (perda do tônus simpático). Noradrenalina (alfa + beta-1), volume moderado; fenilefrina pura agrava a bradicardia; excluir hemorragia primeiro.
Referencial teórico
fontes oficiais desta página
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