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Classificação CDC das feridas e das infecções do sítio cirúrgico, cicatrização em fases, fatores de risco e as medidas de prevenção com evidência (profilaxia em até 60 minutos, normotermia, antissepsia com clorexidina-alcool). Cobre ainda diagnóstico e tratamento da ISI e o reconhecimento e conduta na deiscência de parede abdominal.
[1] Berríos-Torres SI, Umscheid CA, Bratzler DW, et al. Centers for Disease Control and Prevention Guideline for the Prevention of Surgical Site Infection, 2017. JAMA Surg. 2017;152(8):784-791 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904 | [2] Allegranzi B, Zayed B, Bischoff P, et al. New WHO recommendations on preoperative measures for surgical site infection prevention: an evidence-based global perspective. Lancet Infect Dis. 2016;16(10):e276-e287 · DOI 10.1016/S1473-3099(16)30398-X | [3] van Ramshorst GH, Nieuwenhuizen J, Hop WCJ, et al. Abdominal wound dehiscence in adults: development and validation of a risk model. World J Surg. 2010;34(1):20-27 · DOI 10.1007/s00268-009-0277-y | [4] Kurz A, Sessler DI, Lenhardt R. Perioperative normothermia to reduce the incidence of surgical-wound infection and shorten hospitalization. N Engl J Med. 1996;334(19):1209-1215 · DOI 10.1056/NEJM199605093341901 | [5] Darouiche RO, Wall MJ, Itani KMF, et al. Chlorhexidine-alcohol versus povidone-iodine for surgical-site antisepsis. N Engl J Med. 2010;362(1):18-26 · DOI 10.1056/NEJMoa0810988 | [6] Classen DC, Evans RS, Pestotnik SL, et al. The timing of prophylactic administration of antibiotics and the risk of surgical-wound infection. N Engl J Med. 1992;326(5):281-286. DOI 10.1056/NEJM199201303260501 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904
A infecção do sítio cirúrgico (ISI) complica de 2 a 5% das cirurgias e responde por cerca de 20% das infecções relacionadas à assistência à saúde, sendo a mais frequente em pacientes cirúrgicos; até 60% são diagnosticadas depois da alta [1]. Ela aumenta a internação em 7 a 11 dias, multiplica reinternações e custo, e eleva a mortalidade. A deiscência de ferida abdominal completa (sutura da fáscia que se abre) ocorre em 0,5 a 3% das laparotomias, com mortalidade de 10 a 20% e hérnia incisional subsequente na maioria [3]. O interno é quem vê a ferida todos os dias na visita: saber diferenciar seroma de ISI, saber quando abrir a ferida, quando antibiótico é necessário e reconhecer o sinal precoce da deiscência são competências cobradas em prova e exigidas no plantão.
A cicatrização é uma sequência ordenada que pode ser interrompida em qualquer ponto: hemostasia (agregação plaquetária com liberação de fatores de crescimento como PDGF e TGF-beta), inflamação (neutrófilos nas primeiras 24-48 horas e macrófagos do segundo ao quarto dia, limpando detritos e dirigindo a fase seguinte), proliferação (fibroblastos depositando colágeno tipo III, angiogênese e epitelização a partir das bordas) e remodelação (substituição gradual do colágeno III pelo tipo I organizado em feixes, com aumento da resistência tensil). O dado cobrado em prova: a resistência final da cicatriz chega a apenas 80% da pele original, e o ganho é lento — cerca de 20% em 3 semanas. Hipóxia tecidual, diabetes descompensado, tabagismo, corticoide, desnutrição (hipoalbuminemia, deficiência de vitamina C e zinco), infecção e tensão na sutura são os sabotadores clássicos.
| Fase | Tempo | Células-chave | Marca característica |
|---|---|---|---|
| Hemostasia | Minutos | Plaquetas | Tampão plaquetário; liberação de PDGF e TGF-beta |
| Inflamação | 1-4 dias | Neutrófilos e macrófagos | Edema, rubor e calor; limpeza de detritos e bactérias |
| Proliferação | 4-21 dias | Fibroblastos, endotélio, queratinócitos | Tecido de granulação, colágeno III, epitelização |
| Remodelação | 3 semanas a 1 ano | Fibroblastos | Colágeno I organizado; resistência final ~80% da original |
A classificação de ferida cirúrgica (CDC/National Research Council) prevê o risco de ISI e orienta duas decisões práticas: a necessidade e o tipo de profilaxia antimicrobiana e o fechamento da incisão. A classe é definida no fim do procedimento, e o cirurgião deve registrá-la na operatória — item que o interno precisa conferir na admissão pós-operatória.
| Classe | Definição | Exemplos | Risco esperado de ISI |
|---|---|---|---|
| I - Limpa | Sem inflamação; tratos respiratório, digestivo e geniturinário não abertos; fechamento primário | Hernioplastia eletiva, tireoidectomia, safenectomia | 1-5% |
| II - Limpa-contaminada | Trato respiratório, digestivo ou geniturinário aberto sob controle, sem derramamento significativo | Colecistectomia eletiva, histerectomia eletiva | 3-11% |
| III - Contaminada | Derramamento agudo não purulento do trato digestivo ou quebra de técnica estéril; feridas traumáticas abertas recentes | Perfuração recente de apêndice, trauma aberto <4 h | 10-17% |
| IV - Infectada/suja | Inflamação clínica preexistente ou víscera perfurada tardia; conteúdo purulento encontrado | Peritonite fecal, abscesso apendicular | >27% |
Nas classes III e IV, quando o fechamento primário é desejado, a alternativa clássica é o fechamento primário retardado: a ferida é deixada aberta com curativo e suturada entre 3 e 5 dias, depois do pico de contaminação, reduzindo ISI ao custo de cicatriz mais longa. Esse é um conceito de prova recorrente.
A ISI tem três camadas, e identificá-las muda conduta. A ISI incisional superficial compromete pele e tecido subcutâneo até 30 dias da cirurgia (90 dias com implante) e se define por drenagem purulenta da incisão, cultivo de líquido/têcido obtido por aspiração estéril, ou dor localizada, calor, eritema e edema com abertura intencional da incisão pelo cirurgião (cultura negativa descarta). A ISI incisional profunda compromete fáscia e músculo, com os mesmos prazos, e acrescenta deiscência profunda espontânea, febre ≥38 °C com dor localizada ou abscesso profundo à imagem. A ISI de órgão/espaço compromete qualquer estrutura manipulada além da fáscia: abscesso ou cultura positiva em espaço anatômico operado. Um detalhe que separa quem domina o tema: coleções estéreis (seroma, hematoma) não são ISI — só há ISI se a incisão for aberta e houver cultura positiva ou drenagem purulenta [1].
Em números utilizáveis: ISI complica 2 a 5% dos procedimentos e responde por cerca de 20% das infecções hospitalares; em cirurgia colorretal, sem as medidas de prevenção modernas, taxas de 15 a 25% eram comuns [1]. Até 60% das ISI aparecem depois da alta, o que transforma a consulta ambulatorial e a orientação de curativo em instrumento de vigilância. O paciente com ISI interna em média 7 a 11 dias a mais, dobra a chance de reinternação e de UTI, e o custo do episódio multiplica-se por 2 a 5 em relação à cirurgia não complicada. Mortalidade atribuível existe e é relevante: estudos de coorte estimam risco de óbito 2 a 3 vezes maior em portadores de ISI profunda ou de órgão/espaço.
A ferida contamina-se no intraoperatório e nas primeiras horas; a infecção se estabelece quando o inóculo e a virulência superam a defesa local e sistêmica. O limiar clássico é de 10^5 unidades formadoras de colônia por grama de tecido, mas corpos estranhos (fios, telas, próteses) reduzem o limiar em milhares de vezes. Fatores locais: necrose, espaço morto, hematoma e seroma (meios de cultura perfeitos), hipoperfusão local, tensão da sutura e tecida inadequada. Fatores sistêmicos: idade avançada, diabetes com hiperglicemia perioperatória, tabagismo, obesidade, hipoalbuminemia, corticoterapia e imunossupressão, e estado físico ASA 3 a 5. O índice de risco NNIS combina três variáveis — ASA 3 ou mais, ferida de classe III ou IV e duração da cirurgia acima do percentil 75 do procedimento — e mostra bem o efeito aditivo: cerca de 1 a 2% de ISI sem nenhum fator, passando de 10% com os três presentes. A técnica cirúrgica (manipulação gentil, hemostasia, eliminação de espaço morto) é o fator mais potente e o único integralmente modificável pela equipe.
O quadro típico explode entre o 3º e o 7º dia pós-operatório: febre com dor crescente na ferida, eritema, calor, edema e, quando a coleção aponta para a pele, drenagem purulenta. Diferenciais obrigatórios: seroma (flutuação indolor, conteúdo seroso amarelo-claro, sem febre relevante), hematoma (massa dolorosa azulada, piora nas primeiras 48 horas, sem piora progressiva do eritema) e reação a fio. Na ISI profunda, a dor e a febre predominam e a parede dura e endurecida além da incisão; na de órgão/espaço, o quadro é de sepse sem foco evidente, com íleo persistente — aqui a tomografia com contraste endovenoso é o exame. Investigação mínima: abrir o ponto suspeito com cultura do material profundo (swab de borda não serve), hemoculturas se houver sepse, leucograma e PCR; ultrassonografia à beira-leito localiza coleção subcutânea em segundos.
O princípio é controle da fonte local: abrir a incisão na extensão da coleção, cultivar o material, remover fios infiltrados e necrose, e deixar cicatrizar por segunda intenção com curativos (da gaze umedecida clássica aos curativos avançados), com revisão diária. A ISI superficial aberta, sem celulite extensa nem sinais sistêmicos, NÃO precisa de antibiótico — a resposta é mecânica. Antibiótico entra em três situações: celulite progressiva com extensão maior que 5 cm ao redor da ferida, sinais sistêmicos (febre, taquicardia, leucocitose) e ISI profunda ou de órgão/espaço. A cobertura depende da origem: pele e partes moles pedem cobertura de estafilococos e estreptococos (cefalexina ou dicloxacilina); origem digestiva pede gram-negativos e anaeróbios (piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6h, ou ceftriaxona 1-2 g + metronidazol 500 mg IV); risco de MRSA pede vancomicina 15-20 mg/kg IV 8/8h ou linezolida 600 mg VO 12/12h; duração típica de 5 a 7 dias, guiada pela evolução.
| Cenário | Conduta | Antibiótico típico (adulto) e duração |
|---|---|---|
| ISI superficial aberta, sem celulite extensa nem sepse | Abrir, cultivar, curativo e revisão diária | Nenhum antibiótico obrigatório |
| Celulite >5 cm ou sinais sistêmicos | Abrir + antibiótico para estafilococo/estreptococo | Cefalexina 500 mg VO 6/6h (ou dicloxacilina), 5-7 dias |
| Origem colorretal/digestiva | Abrir/drenar + cobertura de gram-negativos e anaeróbios | Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6h ou ceftriaxona + metronidazol, 5-7 dias |
| Suspeita de MRSA (risco, recidiva) | Abrir/drenar + cobertura antistafilocócica resistente | Vancomicina 15-20 mg/kg IV 8/8h ou linezolida 600 mg 12/12h, 5-7 dias |
| Abscesso de órgão/espaço | Tomografia + drenagem percutânea ou cirúrgica | Mesma cobertura da origem digestiva, guiada por cultura |
Deiscência é a separação da sutura da fáscia, parcial ou total; evisceração é a saída de órgãos pela ferida. O pico ocorre entre o 5º e o 10º dia, quando o edema diminui e a sutura já carrega a força total do esforço do paciente. Os fatores de risco consolidados no modelo de van Ramshorst (validado em mais de 800 pacientes) são cirurgia de urgência, obesidade, tosse, DPOC, ascite, icterícia, anemia perioperatória, sexo masculino e idade avançada — e a taxa global de evisceração nos hospitais do estudo girou em torno de 1 a 3%, com mortalidade elevada [3]. O sinal precursor mais cobrado: drenagem de líquido serossanguíneo rosado pela ferida (desproporcional à incisão), que antecede a deiscência em horas a poucos dias. Sensação súbita de rompimento, dor em queimação e saída de epíploon ou alça confirmam. Conduta: cobrir com compressas estéreis umedecidas com soro fisiológico, NPO, acesso venoso, analgesia e levá-la ao centro cirúrgico — evisceração não se resolve no leito; a parede é recolocada em blocos (sutura monofilamentar de absorção lenta, como PDS, passando além da área de fragilidade), e o objetivo imediato é evitar perda de víscera, contaminação e fístula enterocutânea.
Para prevenir, a técnica de fechamento manda: sutura contínua de monofilamentar de absorção lenta, com relação comprimento de fio/comprimento de ferida de pelo menos 4:1 (pontos afastados e pouco comprimidos, o princípio de Jenkins), fechamento em bloco na laparotomia mediana, e controle dos fatores modificáveis (corrigir anemia, retirar sonda gástrica, evitar tosse, drenar ascite). Quando a parede não pode ser fechada por sepse extrema, usa-se pressão negativa temporária (vacuum) no abdome aberto, com planejamento de fechamento em 5 a 10 dias.
A ISI superficial bem tratada cicatriza por segunda intenção em 2 a 6 semanas, com baixa morbidade além do custo em curativos; as profundas e as de órgão/espaço evoluem com abscesso residual, sepse prolongada, fístula e necessidade de reoperação. Após deiscência completa de laparotomia, a mortalidade fica entre 10 e 20%, e a hérnia incisional aparece em 20 a 30% dos sobreviventes, muitas vezes com indicação de reparo programado [3]. Fatores de mau prognóstico associados: idade avançada, imunossupressão, sepse de foco abdominal não controlado e perda de substância de parede. Do lado da prevenção, os quatro alvos com maior retorno em toda a enfermaria cirúrgica são: antibiótico no tempo certo e sem exagero de duração, normotermia, glicemia abaixo de 200 mg/dL e curativo/seguimento correto depois da alta.
1.Segundo a classificação CDC, até quando a ISI incisional pode ser diagnosticada após cirurgia sem implante, e quando há implante?
2.Colecistectomia eletiva em que o trato biliar foi aberto sob controle, sem derramamento, classifica-se como ferida:
3.Qual o timing correto da profilaxia antimicrobiana com cefazolina?
4.Qual medida reduz comprovadamente a ISI e é recomendada por ambas as diretrizes CDC 2017 e OMS 2016?
5.Paciente em cirurgia colorretal eletiva. O esquema de prevenção de ISI recomendado pelo CDC inclui:
6.Dia 5 de cirurgia limpa: incisão com pequena flutuação indolor, conteúdo seroso amarelo, sem febre. O material não foi cultivado. Como classificar e tratar?
7.ISI superficial aberta, cultura com Staphylococcus aureus sensível, paciente afebril, celulite menor que 2 cm ao redor. A conduta com antibiótico é:
8.Qual achado antecede com mais frequência a deiscência completa de uma laparotomia entre o 5º e o 10º dia?
9.Paciente apresenta evisceração de epíploon pela ferida no 8º dia pós-operatório. A conduta imediata correta é:
10.Sobre a cicatrização, qual afirmação está correta?
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