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Escala de dor e alvos de tratamento, doses reais de analgésicos não opioides e opioides com equivalências, configuração de PCA, profilaxia e reversão de efeitos adversos com naloxona, analgesia multimodal em camadas, protocolos ERAS e prevenção da opioidização prolongada na alta.
[1] Chou R, Gordon DB, de Leon-Casasola OA, et al. Management of Postoperative Pain: A Clinical Practice Guideline From the American Pain Society, the American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine, and the American Society of Anesthesiologists. J Pain. 2016;17(2):131-157 · DOI 10.1016/j.jpain.2015.12.008 | [2] Canga JC, de Abreu YLB, Fogaça RJ. Multimodal analgesia in postoperative pain. Rev Dor. 2017;18(Supl 1) · DOI 10.5935/1806-0013.20170047 | [3] Verret M, Lauzier F, Zarychanski R, et al. Perioperative Use of Gabapentinoids for the Management of Postoperative Acute Pain: A Systematic Review and Meta-analysis. Anesthesiology. 2020;133(2):265-279 · DOI 10.1097/ALN.0000000000003428 | [4] Brummett CM, Waljee JF, Goesling J, et al. New Persistent Opioid Use After Minor and Major Surgical Procedures in US Adults. JAMA Surg. 2017;152(6):e170504 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0504 | [5] McNicol ED, Ferguson MC, Hudcova J. Patient controlled opioid analgesia versus non-patient controlled opioid analgesia for postoperative pain. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(6):CD003348 · DOI 10.1002/14651858.CD003348.pub3 | [6] Ljungqvist O, Scott M, Fearon KC. Enhanced Recovery After Surgery: A Review. JAMA Surg. 2017;152(3):292-298 · DOI 10.1001/jamasurg.2016.4952 · DOI 10.1016/j.jpain.2015.12.008
Quatro em cada cinco pacientes operados relatam dor nas primeiras 24 a 48 horas, e a maioria dos que doem a classifica como moderada ou intensa: a dor é a queixa mais comum do pós-operatório e o motivo mais frequente de chamado noturno do interno na enfermaria cirúrgica. Além do sofrimento imediato, a dor mal controlada impede a mobilização e a fisioterapia respiratória, favorece atelectasia e pneumonia, retarda a deambulação (com mais trombose) e predispõe à cronificação da dor. O extremo oposto também cobra caro: a prescrição indiscriminada de opioides produz sedação, depressão respiratória, íleo e uma taxa de cerca de 5 a 6% de uso persistente de opioide em pacientes previamente não expostos após cirurgias de grande porte (Brummett et al. [4]). Este artigo organiza a avaliação da dor, as doses reais de cada fármaco, a montagem da analgesia multimodal e o manejo seguro dos opioides, incluindo a reversão com naloxona.
Dor pós-operatória é a dor que surge como consequência direta da agressão tecidual da cirurgia, tipicamente nociceptiva e autolimitada, podendo assumir componente neuropático quando há lesão de nervo (hérnias inguinais, toracotomias, mastectomias). Classifica-se por tempo (aguda até 6 semanas; persistente entre 6 semanas e 3 meses; crônica pós-cirúrgica quando ultrapassa 3 meses segundo a definição da IASP) e por intensidade, medida na escala visual analógica (EVA) ou na escala numérica (EN) de 0 a 10: leve 1 a 3, moderada 4 a 6 e intensa 7 a 10. O alvo prático é EN ≤3 ou, funcionalmente, um paciente capaz de dormir, tossir com eficácia e deambular. A escala deve ser registrada antes e depois de cada intervenção: reavalia-se em 30 a 60 minutos após dose endovenosa e em cerca de 60 minutos após dose oral, e a ausência de registro é falha de qualidade documentável nos indicadores das diretrizes [1].
| Escala numérica (0-10) | Classificação | Conduta típica |
|---|---|---|
| 0 | Sem dor | Manter analgesia de base programada e reavaliar na próxima dose |
| 1-3 | Leve | Analgesia não opioide (acetaminofeno, dipirona, AINE), sem opioide de resgate |
| 4-6 | Moderada | Multimodal + opioide fraco (tramadol, codeína) ou opioide forte oral |
| 7-10 | Intensa | Titulação EV de opioide forte (morfina, fentanil) + multimodal + avaliar bloqueio regional |
| >7 persistente | Dor refratária | Rever diagnóstico antes de redosar: hematoma, síndrome compartimental, isquemia, complicação |
A lesão tecidual libera mediadores (prostaglandina E2, bradicinina, histamina, substância P) que sensibilizam os nociceptores periféricos, fibras A-delta (dor aguda e pontiaguda) e fibras C (dor queimante e difusa), cujo impulso chega aos cornos posteriores da medula. Lá, a repetição do estímulo promove sensibilização central: facilitação dependente do receptor NMDA, fenômeno de wind-up e hiperexcitabilidade persistente, base neurobiológica tanto da hiperalgesia pós-operatória quanto da cronificação. Cada fármaco ataca um ponto diferente dessa cadeia: AINEs e dexametasona inibem a prostaglandina periférica pela ciclo-oxigenase; o acetaminofeno age centralmente em vias serotoninérgicas descendentes e no receptor TRPV1; os opioides ativam receptores mi (μ) pré e pós-sinápticos no corno posterior e no tronco; a cetamina bloqueia o receptor NMDA e interrompe o wind-up; e os anestésicos locais dos bloqueios interrompem a condução nervosa periférica. Combinar mecanismos produz analgesia superior a qualquer droga isolada e permite reduzir a dose de opioide, que é a definição operacional da analgesia multimodal ou opioide-poupadora, padrão das diretrizes brasileiras e norte-americanas [1,2].
| Fármaco | Dose habitual (adulto) | Teto e cautela principal |
|---|---|---|
| Acetaminofeno | 1 g VO ou EV 6/6 h | Máximo 4 g/dia; 3 g/dia em idosos, hepatopatas, alcoolistas e peso <50 kg; hepatotoxicidade na superdosagem |
| Dipirona | 2 g VO ou EV 6/6 h | Máximo 8 g/dia; agranulocitose é rara; hipotensão se infusão rápida |
| Cetoprofeno | 100 mg VO ou EV 8/8-12/12 h | Lesão renal aguda e sangramento; evitar em anastomose intestinal recente |
| Ibuprofeno | 600 mg VO 8/8 h | Mesmas cautelas dos AINEs não seletivos; gastroproteção se fator de risco |
| Parecoxibe | 40 mg EV 12/12 h | COX-2 seletivo: menos sangramento e mais seguro sobre a anastomose; atenção ao risco cardiovascular |
| Dexametasona | 8 mg, dose única intraoperatória | Poupadora de opioide e antiemética; hiperglicemia transitória |
| Cetamina (dose baixa) | 0,1-0,3 mg/kg/h EV | Bloqueio NMDA; taquicardia e alucinações em doses maiores |
| Lidocaína EV | 1-2 mg/kg/h após bolus de 1,5 mg/kg | Cirurgia abdominal maior; proibida em arritmia grave e bloqueio cardíaco |
Os bloqueios regionais completam a base: o bloqueio da bainha do reto (retus) e o bloqueio transverso do abdome (TAP, com ropivacaína 0,25-0,375%, 15-20 mL por lado) cobrem a parede abdominal nas cirurgias laparoscópicas e nas incisões de Pfannenstiel; a epidural torácica é a referência em laparotomia mediana e toracotomia, com analgesia superior e menos complicações pulmonares ao custo de hipotensão e retenção urinária; a infiltração da incisão com anestésico de longa duração serve a praticamente todas as cirurgias. Em protocolos ERAS, a combinação acetaminofeno (ou dipirona) + AINE seletivo de COX-2 + bloqueio de parede cobre a maioria das cirurgias abdominais com opioide mínimo, e é o padrão que a auditoria de qualidade espera encontrar na prescrição [2,6].
O opioide é camada de reforço, não fundação. Escolhe-se por intensidade: fracos (tramadol, codeína) para dor moderada; fortes (morfina, fentanil, oxicodona) para dor intensa ou titulação endovenosa. As equivalências aproximadas são indispensáveis para trocar via ou droga sem sub ou superdosar: 10 mg de morfina EV correspondem a cerca de 30 mg VO (razão 3:1); 100 mcg de fentanil EV equivalem a aproximadamente 10 mg de morfina EV (potência cerca de 100 vezes); 20 mg de oxicodona VO equivalem a 30 mg de morfina VO; e 200 mg de codeína VO equivalem a 30 mg de morfina VO. Na titulação por bolus EV do paciente sem exposição prévia, usa-se morfina 2 a 4 mg a cada 5 a 15 minutos (ou fentanil 25 a 50 mcg em idosos e instáveis), e o consumo da primeira hora serve para calcular a dose basal ou a configuração da analgesia controlada pelo paciente.
| Opioide | Dose habitual (adulto) | Observações de prova |
|---|---|---|
| Tramadol | 50-100 mg VO/EV 6/6-8/8 h (máx. 400 mg/dia) | Fraco; reduz o limiar convulsivo; síndrome serotoninérgica com ISRS e SNRI; náusea e tontura frequentes |
| Codeína | 30-60 mg VO 4/4-6/6 h (máx. 360 mg/dia) | Pró-fármaco ativado pela CYP2D6; contraindicada na amamentação (metabolizador ultrarrápido) |
| Morfina | Titulação 2-4 mg EV; VO 10-30 mg 4/4 h | Referência; metabólito ativo (morfina-6-glicuronídeo) acumula na disfunção renal |
| Fentanil | 25-100 mcg EV; PCA com bolus de 10-20 mcg | Potência cerca de 100 vezes a morfina; sem metabólito ativo renal; preferível em idoso e disfunção renal |
| Oxicodona | 5-10 mg VO 4-6/6 h (liberação imediata) | Liberação controlada NÃO serve para titulação aguda; potência 1,5-2 vezes a morfina oral |
| Metadona | Somente com especialista | Meia-vida imprevisível e prolongamento de QT; não é droga de plantão |
| Meperidina | EVITAR | Metabólito norpeperidina é neurotóxico (convulsões, acúmulo com uso prolongado e na disfunção renal); sem vantagem sobre a morfina |
A analgesia controlada pelo paciente (PCA) com morfina 1 mg por bolus e intervalo de bloqueio de 8 a 10 minutos é o padrão para dor intensa em serviços com monitorização: a revisão Cochrane mostra maior satisfação do paciente e controle da dor no mínimo equivalente ao esquema fixo de enfermagem, com eventos adversos graves semelhantes [5]. Duas regras de segurança são inegociáveis: o botão é do paciente, família e equipe NÃO apertam por ele (a dose de resgate dada por terceiro anula o mecanismo que impede redose antes do bloqueio), e a sedação deve ser avaliada antes de cada dose porque precede a depressão respiratória. Sobre vias: a oral é preferível sempre que o trato digestivo funciona; a endovenosa é para titulação e pacientes em jejum; a intramuscular é dolorosa e de absorção errática, evite. Em cirurgia aberta de grande porte, quando disponível, a epidural torácica supera a PCA sistêmica em analgesia e complicações pulmonares.
Náusea e vômito acometem até um terço dos pacientes em opioide: profilaxe com ondansetrona 4 mg EV ou metoclopramida 10 mg EV e reavaliação. Prurido (liberação de histamina pela morfina) responde a anti-histamínico ou à troca por fentanil; a retenção urinária exige bladder scan e cateterismo se o resíduo superar 500 mL; e a constipação é universal, NUNCA tolerada: prescreve-se laxante estimulante (sene com bisacodil) junto da primeira dose de opioide, porque a ação sobre o intestino não desenvolve tolerância, ao contrário da analgesia. A complicação que mata é a depressão respiratória, e a sequência é previsível: sedação crescente, respiração superficial e bradipneia (frequência <10 irpm). Suspensão do opioide, estímulo e oxigênio resolvem os casos leves; a naloxona é para quando a respiração não sustenta a oxigenação. Em dependente crônico, bolus alto de naloxona precipita abstinência violenta e edema agudo de pulmão: comece baixo e titule.
O uso de opioide por mais de 90 dias após cirurgia eletiva em pacientes sem exposição prévia ocorre em cerca de 6% das cirurgias de grande porte e em proporção semelhante nas pequenas, número alto o suficiente para transformar a receita da alta em ato de risco controlado [4]. As medidas com evidência são: prescrever a menor quantidade possível (idealmente até 7 dias de opioide na alta), educar o paciente para suspender quando a dor aguda ceder, favorecer a multimodal e documentar plano de desmame. Sobre fármacos, os gabapentinoides (gabapentina e pregabalina), que chegaram a ser quase obrigatórios nos protocolos, caíram na metanálise de 2020 do grupo PACT: nenhum ganho analgésico global consistente e aumento de eventos adversos, como sonolência e distúrbios visuais [3]. A meperidina permanece proscrita pela neurotoxicidade da norpeperidina, e a codeína é problema de farmacogenômica: o metabolizador ultrarrápido da CYP2D6 converte dose aparentemente segura em carga perigosa de morfina, o caso historicamente fatal em lactentes amamentados que fundamenta a contraindicação no pós-parto.
1.Paciente sem exposição prévia a opioide, 6 horas após laparotomia, EN 8/10, acordado e estável. Qual a conduta inicial?
2.Qual o teto diário de acetaminofeno em paciente de 80 anos, 55 kg, hepatopatia leve?
3.Por que a meperidina deve ser evitada na dor pós-operatória?
4.Paciente em sertralina recebe tramadol. Qual o risco principal?
5.Depressão respiratória por morfina (FR 8 irpm, SpO2 88%) em paciente dependente de opioide. Qual a dose inicial de naloxona?
6.Qual a configuração clássica da PCA de morfina e a regra de segurança fundamental?
7.Paciente em PCA está frequentemente sonolento, mas desperta ao chamado, com FR 13. Pela escala POSS, qual a conduta?
8.Mulher no pós-parto imediato amamentando solicita analgesia. Qual opioide é contraindicado e por quê?
9.Paciente no 3º dia de colectomia com anastomose colorretal. Qual analgésico deve ser evitado pela evidência de maior risco de deiscência?
10.Sobre opioidização prolongada e adjuvantes, qual afirmação é correta?
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