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Classificação de Clavien-Dindo grau a grau, reconhecimento precoce e manejo do sangramento pós-operatório com gatilhos transfusionais da era restritiva, diferenciação entre íleo paralítico e obstrução mecânica com o que a evidência permite usar, e estratificação de risco trombótico pelo escore de Caprini com esquemas e doses de profilaxia.
[1] Dindo D, Demartines N, Clavien PA. Classification of Surgical Complications: A New Proposal With Evaluation in a Cohort of 6336 Patients and Results of a Survey. Ann Surg. 2004;240(2):205-213 · DOI 10.1097/01.sla.0000133083.54934.ae | [2] Gould MK, Garcia DA, Wren SM, et al. Prevention of VTE in Nonorthopedic Surgical Patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: ACCP Guidelines. Chest. 2012;141(2 Suppl):e227S-e277S · DOI 10.1378/chest.11-2297 | [3] Caprini JA. Risk assessment as a guide for the prevention of the many faces of venous thromboembolism. Am J Surg. 2010;199(1 Suppl):S3-S15 · DOI 10.1016/j.amjsurg.2009.10.006 | [4] Kozek-Langenecker SA, Ahmed AB, Afshari A, et al. Management of severe perioperative bleeding: guidelines from the European Society of Anaesthesiology. Eur J Anaesthesiol. 2017;34(6):332-395 · DOI 10.1097/EJA.0000000000000630 | [5] Hébert PC, Wells G, Blajchman MA, et al. A Multicenter, Randomized, Controlled Clinical Trial of Transfusion Requirements in Critical Care (TRICC). N Engl J Med. 1999;340(6):409-417 · DOI 10.1056/NEJM199902113400601 | [6] Verma S, Nelson R. Prophylactic nasogastric decompression after abdominal surgery. Cochrane Database Syst Rev. 2007;(3):CD004929 · DOI 10.1002/14651858.CD004929.pub3 | [7] Traut U, Brügger L, Kunz R, et al. Systemic prokinetic pharmacologic treatment for postoperative adynamic ileus following abdominal surgery in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2008;(3):CD004930 · DOI 10.1002/14651858.CD004930.pub3 | [8] Gustafsson UO, Scott MJ, Schwenk W, et al. Guidelines for Perioperative Care in Elective Colonic Surgery: Enhanced Recovery After Surgery (ERAS Society) Recommendations. World J Surg. 2013;37(2):259-284 · DOI 10.1007/s00268-012-1772-0 | [9] Brandão D, Cândido MJ, Rollo HA, et al. Anticoagulantes orais diretos para o tratamento da trombose venosa profunda: revisão de revisões sistemáticas. J Vasc Bras. 2018;17(4):310-317 · DOI 10.1590/1677-5449.005518 · DOI 10.1097/01.sla.0000133083.54934.ae
Complicações acometem de 15 a 40% dos pacientes submetidos a cirurgias de grande porte e são a principal ponte entre uma internação rotineira e a terapia intensiva: a maior parte delas manifesta-se entre o 1º e o 10º dia de pós-operatório, exatamente quando o paciente está na enfermaria sob vigilância do interno. Três situações concentram os plantões: o sangramento (a emergência que mata em minutos a horas), o íleo paralítico (a causa mais comum de atraso de alta em cirurgia abdominal) e a trombose venosa (a complicação prevenível por excelência). Este artigo organiza a linguagem comum de gravidade (Clavien-Dindo), os sinais precoces de cada complicação, as doses e os gatilhos da era da transfusão restritiva e o escore de Caprini aplicado na admissão de todo paciente cirúrgico.
Comunicar complicações sem critério objetivo gera relatórios inúteis. A classificação de Clavien-Dindo, validada em coorte de 6.336 pacientes, gradua a complicação pelo TRATAMENTO necessário, não pelo sintoma, e é o padrão de auditoria e publicação cirúrgica [1]. Duas regras tornam-na aplicável na enfermaria: cada grau mais alto exige terapia mais invasiva (não necessariamente pior prognóstico por si), e a complicação só é crônica se persiste na alta, recebendo o sufixo d. É ela que você escreve no prontuário ao discutir o caso com o cirurgião.
| Grau | Definição (pelo tratamento exigido) | Exemplo na enfermaria |
|---|---|---|
| I | Desvio da evolução normal sem necessidade de tratamento além de antieméticos, antitérmicos, analgésicos, diureticos, eletrolitos e fisioterapia; abertura de ferida no leito | Íleo que cede com jejum e correção de potássio |
| II | Tratamento medicamentoso além do permitido no grau I, incluindo antimicrobianos e TRANSFUSÃO | Infecção urinária em uso de cefazolina; transfusão de 1 concentrado |
| IIIa | Reintervenção SEM anestesia geral | Punção e drenagem percutânea de coleção guiada por ultrassom |
| IIIb | Reintervenção COM anestesia geral | Reoperação por sangramento ou lavagem de abscesso em centro cirúrgico |
| IVa | Falência de UM órgão, incluindo terapia de substituição renal | Insuficiência respiratória com ventilação mecânica |
| IVb | Falência de MÚLTIPLOS órgãos | Choque séptico com suporte de duas ou mais funções |
| V | Óbito do paciente | Óbito no pós-operatório |
O sangramento pós-operatório tem três janelas típicas. Imediato (primeiras 24 horas): falha de hemostasia na sala (ligadura solta, suíço hemostático mal feito) ou coagulopatia dilucional/hipotermia da própria cirurgia. Intermediário (3 a 10 dias): infecção da linha de sutura com erosão vascular, necrose de pressão ou queda de escara — período clássico de sangramento de anastomose e de úlcera de estresse. Tardio (após 1 semana): erosão por dreno, pseudoaneurisma e complicações de anticoagulação. O reconhecimento depende de aceitar uma verdade fisiológica: no paciente jovem, a volemia e a compensação simpática sustentam a pressão arterial com perdas de até 30% do volume sanguíneo — taquicardia, pele fria e oligúria ANTECEDEM a hipotensão em horas.
Os sinais objetivos que obrigam ação: frequência cardíaca >120 ou taquicardia sem explicação; pressão de pulso estreitada; diurese <0,5 mL/kg/h; queda de hemoglobina >2 g/dL entre hemogramas consecutivos; dreno com sangue novo e >100-200 mL/h por 2-4 horas; distensão abdominal nova ou massa; ansiedade e agitação (hipoperfusão cerebral, não 'nervosismo'); e queda da saturação com radiografia de tórax normal (pense em abdome). Lembre dos compartimentos cegos: retroperitônio (hematoma de psoas, fratura pélvica), coxa (síndrome compartimental após punção femoral), tórax (hemotórax sob dreno funcionando mal) e intraperitoneal sob dreno entupido.
| Hemocomponente/fator | Indicação principal | Dose e alvo |
|---|---|---|
| Concentrado de hemácias | Hb <7 g/dL em paciente estável; <8 g/dL com doença cardiovascular ou sangramento sintomático | 1 unidade eleva a Hb em ~1 g/dL; reavaliar clínica e exame após cada unidade |
| Concentrado de plaquetas | <10.000/mcL profilático; <50.000 com sangramento ou procedimento; 50-100.000 em neurocirurgia e cirurgia ocular | 1 pool ou 1 unidade por 10 kg; checar contagem de 1 h e 24 h |
| Plasma fresco congelado | INR >1,5 com sangramento ativo ou procedimento urgente; deficiências múltiplas de fatores | 10-15 mL/kg; reavaliar INR após |
| Crioprecipitado / fibrinogênio | Fibrinogênio <150-200 mg/dL com sangramento (coagulação intravascular disseminada, transfusão maciça) | 1 pool por 10 kg ou concentrado 2-4 g; alvo >150 mg/dL |
| Ácido tranexâmico | Sangramento fibrinolítico: trauma, cirurgia cardíaca, ortopédica, pós-parto | 1 g EV em 10 min + 1 g em 8 h; iniciar precocemente |
O ensaio TRICC randomizou pacientes críticos euvolêmicos para transfundir com Hb <7 g/dL ou <10 g/dL: o braço restritivo não teve pior mortalidade (18,7% contra 23,3% em 30 dias) e teve menos complicações cardíacas, inaugurando a era restritiva [5]. As diretrizes europeias de sangramento perioperatório consolidaram os gatilhos atuais e acrescentaram o princípio do manejo dirigido por laboratório e testes point-of-care, com correção sequencial de fatores, fibrinogênio e plaquetas em vez de plasma empírico [4]. Tradução prática para o interno: 'transfundir para deixar em 10' é conduta abandonada; quem define a transfusão é a combinação de gatilho numérico com estado clínico (hipoxemia, isquemia, sangramento ativo, doença coronariana).
Após laparotomia, a função motora volta em sequência previsível: intestino delgado em cerca de 24 horas, estômago em 24-48 horas e cólon em 48-72 horas (até 3-5 dias em cirurgias abertas extensas). Íleo é a combinação de distensão abdominal, ausência de eliminação de flatus e fezes e dor difusa NÃO cólica; chama-se prolongado quando ultrapassa 3 a 5 dias e passa a atrasar alta e alimentação. Acomete 10-25% das cirurgias colorretais abertas, com menor frequência em laparoscópicas e protocolos ERAS [8]. A fisiopatologia soma o reflexo simpático inibitório do trauma e da manipulação, mediadores inflamatórios peritoneais e efeitos farmacológicos — os opioides são o fator dose-dependente mais relevante e modificável.
Antes de tratar 'íleo', exclua as causas que imitam: hipocalemia e hipomagnesemia, hipotireoidismo, antimicrobianos e anticolinérgicos, sepse intra-abdominal e, na pegadinha clássica das provas, o hematoma retroperitoneal (pós-pancreatite, punção femoral, fratura de coluna), que produz íleo prolongado com dor lombar e sinais de neuropatia femoral. E diferencie do obstrutivo, porque a conduta muda.
| Característica | Íleo paralítico | Obstrução mecânica |
|---|---|---|
| Dor | Difusa, contínua, sem cólica | Cólica em ondas, com períodos de acalmia |
| Distensão | Difusa e simétrica | Assimétrica; ondas peristálticas visíveis |
| Ruídos hidroaéreos | Ausentes ou hipoguiados | Aumentados, metálicos, sincronizados com a dor |
| Radiografia/TC | Gás difuso em todas as alças, incluindo reto e sigmoide, sem ponto de transição | Alças dilatadas em degraus, ponto de transição, ar ausente distalmente |
| Sinais de alarme | Febre e leucocitose sugerem causa intra-abdominal (peritonite, coleção) | Dor localizada, acidose, defesa: estrangulamento ou alça fechada |
| Conduta | Clínica: correção eletrolítica, minimizar opioide, mobilização | Descompressão; cirurgia se isquemia, alça fechada ou falha clínica |
A tríade de Virchow (estase, lesão endotelial, hipercoagulabilidade) está maximizada no pós-operatório: cirurgia maior >45 minutos, malignidade, cateter central e imobilização somam-se ao paciente. A trombose venosa profunda pós-cirúrgica é silenciosa em boa parte dos casos e seu desfecho temido, a embolia pulmonar, tem mortalidade de 25-30% quando não tratada, reduzida a menos de 5% com anticoagulação adequada — por isso a profilaxia é o desfecho de segurança mais auditado do hospital. O modelo de Caprini organiza os fatores em pontos e estratifica todo paciente cirúrgico na admissão [3].
| Caprini total | Risco e profilaxia recomendada (CHEST [2]) |
|---|---|
| 0 | Muito baixo: deambulação precoce isolada |
| 1-2 | Baixo: heparina não fracionada 5.000 U SC 12/12h OU compressão pneumática intermitente |
| 3-4 | Moderado: HNF 5.000 U SC 8/8h OU enoxaparina 40 mg SC 1x/dia; associar mecânica conforme o risco de sangramento |
| ≥5 | Alto: enoxaparina 40 mg SC 1x/dia + compressão pneumática intermitente; cirurgia oncológica abdominal ou pélvica de alto risco: estender profilaxia por 28-35 dias |
As tabelas clássicas do modelo estimam risco relativo de algum evento trombótico de 10-20% (1-2 pontos), 20-40% (3-4) e 40-80% (≥5) sem profilaxia; validações modernas com profilaxia universal mostram taxas absolutas bem menores, o que não muda a lógica: quanto maior o escore, mais intensa a profilaxia. Detalhes que caem em prova: enoxaparina 40 mg SC 1x/dia (20 mg se clearance de creatinina <30 mL/min), primeira dose habitual 12 horas após a cirurgia; HNF 5.000 U SC 8/8h no moderado e 6/6h no alto risco, preferida na disfunção renal grave; fondaparinux 2,5 mg SC/dia na alergia à heparina ou trombocitopenia induzida por heparina; e COM CATETER PERIDURAL, respeitar intervalo de pelo menos 12 horas entre dose profilática de heparina de baixo peso molecular e colocação ou retirada do cateter.
TVP provocada por cirurgia: anticoagulação por 3 meses. Os anticoagulantes orais diretos (apixabana, rivaroxabana) são hoje primeira escolha no provocado transitório, conforme a revisão de revisões brasileira publicada no Jornal Vascular Brasileiro [9], com heparina de baixo peso molecular mantida como preferência em câncer ativo avançado e na disfunção renal grave. Deambulação precoce com anticoagulação plena não piora a extensão do trombo e deve ser estimulada. Nas complicações de longo prazo, a síndrome pós-trombótica (edema, hiperpigmentação, úlcera) atinge até metade dos casos de TVP proximal mal tratada; a embolia pulmonar maciça e a migração embólica durante reoperações do paciente não profilaxiado são os finais que a auditoria tenta impedir.
1.Paciente transfundido com 2 concentrados de hemácias no pós-operatório. Pela classificação de Clavien-Dindo, qual o grau mínimo da complicação que motivou a transfusão?
2.Qual o gatilho transfusional de hemoglobina no paciente estável, segundo o ensaio TRICC?
3.Taquicardia de 120 bpm com PA normal e queda de Hb de 2 g/dL no 1º dia pós-operatório representa:
4.Sobre a sonda nasogástrica no pós-operatório abdominal, a revisão Cochrane concluiu que a descompressão profilática de rotina:
5.Qual combinação diferencia melhor obstrução mecânica de íleo paralítico?
6.Sobre procinéticos sistêmicos no íleo paralítico, a revisão Cochrane de Traut et al. concluiu:
7.Paciente de 66 anos com câncer colorretal, laparotomia eletiva de 3 horas, em uso de anticoncepcional hormonal. Qual o Caprini mínimo e a profilaxia?
8.Qual a conduta correta sobre HBPM profilática em paciente com cateter peridural para analgesia?
9.TVP poplítea provada no 5º dia após colectomia curativa. Qual o plano de anticoagulação padrão hoje?
10.Qual afirmação sobre sangramento pós-operatório é correta?
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