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Este artigo ensina a estratificar o risco do paciente cirúrgico com a classificação do ASA e o escore de Lee (RCRI), com as porcentagens de eventos que caem em prova. Cobre exames dirigidos (o que pedir e o que não pedir), jejum permissivo, ajuste de medicações crônicas com evidências do POISE e do POISE-2, antibioticoprofilaxia com doses e tempos, profilaxia de tromboembolismo pelo Caprini e as situações que adiam a cirurgia.
[1] Halvorsen S, et al. 2022 ESC Guidelines on cardiovascular assessment and management of patients undergoing non-cardiac surgery. Eur Heart J. 2022;43(39):3826-3924 · DOI 10.1093/eurheartj/ehac270 | [2] Lee TH, et al. Derivation and prospective validation of a simple index for prediction of cardiac risk of major noncardiac surgery. Circulation. 1999;100(10):1043-1049 · DOI 10.1161/01.CIR.100.10.1043 | [3] Devereaux PJ, et al. Effects of extended-release metoprolol succinate in patients undergoing non-cardiac surgery (POISE trial). Lancet. 2008;371(9627):1839-1847 · DOI 10.1016/S0140-6736(08)60601-7 | [4] Devereaux PJ, et al. Aspirin in patients undergoing noncardiac surgery (POISE-2). N Engl J Med. 2014;370(16):1494-1503 · DOI 10.1056/NEJMoa1401105 | [5] Bilimoria KY, et al. Development and evaluation of the universal ACS NSQIP surgical risk calculator. J Am Coll Surg. 2013;217(5):833-842 · DOI 10.1016/j.jamcollsurg.2013.07.385 · DOI 10.1093/eurheartj/ehac270
Cerca de 300 milhões de cirurgias são realizadas por ano no mundo, e a consulta pré-operatória é a única intervenção que reduz risco sem tocar no paciente: ela decide se o procedimento pode ser feito hoje, o que precisa ser otimizado antes, quais exames são realmente necessários e como as medicações crônicas serão ajustadas. A mortalidade da cirurgia não cardíaca varia de menos de 1% nos procedimentos de baixo risco a mais de 5% nas cirurgias vasculares e torácicas maiores, e as complicações cardíacas — infarto perioperatório, lesão miocárdica, insuficiência cardíaca e arritmias — lideram as causas de morte no perioperatório [1]. Para o interno, o conteúdo cai em prova em formato de tabela: classes do ASA, os cinco preditores do escore de Lee com suas porcentagens, horários de jejum, dose e horário da antibioticoprofilaxia e a lista do que suspende o ato cirúrgico.
Avaliação pré-operatória é a consulta médica estruturada que estima o risco absoluto do procedimento para aquele paciente específico e converte o risco em decisões práticas. Não é sinônimo de pedido de exames: exames de rotina universal em pacientes assintomáticos não reduzem eventos perioperatórios, geram falsos positivos que atrasam a cirurgia e expõem o paciente a rastreamento de achados incidentais. Toda solicitação precisa de indicação clínica explícita.
O primeiro passo da estratificação é o procedimento, porque o tipo de cirurgia é o preditor mais forte de complicações cardíacas — mais do que qualquer teste diagnóstico. A diretriz ACC/AHA usa três faixas de risco; a diretriz europeia de 2022 simplificou para duas (baixo risco, <2%; risco elevado, ≥2%), e é essa dicotomia que orienta decisões como dosar troponina no pós-operatório e discutir revascularização prévia [1]. Emergências escapam da estratificação formal: operam-se com otimização mínima e monitorização reforçada.
| Categoria | Desfecho cardíaco esperado | Exemplos típicos |
|---|---|---|
| Baixo risco | <1% (a ESC 2022 chama de <2%) | Endoscopia, cirurgia superficial de pele e mama, catarata, ortopedia menor, ginecológica e urológica menor |
| Risco intermediário | 1-5% | Artroplastia de quadril e joelho, cirurgia abdominal maior, torácica, tireoidectomia, cirurgia de cabeça e pescoço maior, prostatectomia maior |
| Alto risco | >5% | Cirurgia de aorta e revascularização de membros, endarterectomia de carótida com eventos, cirurgias de urgência abdominal grande em paciente instável |
O segundo passo é o paciente. A classificação do estado físico da American Society of Anesthesiologists (ASA) avalia a gravidade da doença sistêmica em seis classes e é o preditor clínico mais citado — e mais cobrado — de desfecho perioperatório; não exige nenhum exame e é atribuída pelo anestesista, com o sufixo E para emergências. O escore de Lee, ou Revised Cardiac Risk Index (RCRI), quantifica o risco de complicações cardíacas graves (morte cardíaca, infarto não fatal ou parada cardíaca não fatal) em cirurgia não cardíaca com seis preditores clínicos de um ponto cada [2].
| Classe ASA | Definição | Desfecho associado |
|---|---|---|
| ASA I | Paciente saudável, sem doença sistêmica | Mortalidade baixa, tipicamente <0,1-0,5% |
| ASA II | Doença sistêmica leve sem limitação funcional (hipertensão controlada, diabetes bem controlado, tabagismo) | Mortalidade baixa, em torno de 0,2-1% |
| ASA III | Doença sistêmica grave com limitação funcional (diabetes com complicações, insuficiência cardíaca compensada, DPOC grave, angina estável) | Mortalidade em 30 dias de aproximadamente 1,8-4% nas séries |
| ASA IV | Doença sistêmica grave com ameaça constante à vida (insuficiência cardíaca descompensada, insuficiência hepatorrenal avançada) | Mortalidade aproximada de 8-23% |
| ASA V | Paciente moribundo; não se espera sobrevivência sem a operação (aneurisma roto com choque) | Mortalidade de aproximadamente 10-50% |
| ASA VI | Paciente com morte cerebral, em captação de órgãos | Categoria organizacional, não de risco individual |
As taxas de desfecho cardíaco grave na coorte original e na validação prospectiva (4.315 pacientes) foram: 0,4% com 0 ponto, 0,9% com 1 ponto, 7,0% com 2 pontos e 11,1% com 3 ou mais [2]. As limitações que a prova adora: o escore foi derivado antes do betabloqueio rotineiro e do reperfuso coronariano moderno, e subestima o risco na cirurgia vascular infrainguinal. Para contornar essas limitações, a calculadora universal do ACS NSQIP (riskcalculator.facs.org), construída com mais de 1,4 milhão de pacientes e 21 preditores, estima oito desfechos individuais e é a ferramenta mais precisa para consentimento informado em cirurgias específicas [5].
Capacidade funcional medida em equivalentes metabólicos (METs) substitui testes caros em quem está assintomático. Subir um lance de escada sem parar, caminhar em subida leve ou realizar atividades domésticas pesadas corresponde a pelo menos 4 METs, limiar abaixo do qual o risco perioperatório aumenta substancialmente. Paciente assintomático com capacidade ≥4 METs não precisa de teste de isquemia, mesmo para cirurgia de risco elevado; paciente com <4 METs ou sintomas limitantes (angina, dispneia a esforços mínimos, síncope de esforço) deve ser encaminhado para avaliação cardiológica antes da cirurgia eletiva.
O teste de isquemia pré-operatório (ergometria, cintilografia ou ecocardiograma com dobutamina) só está indicado quando três condições coexistem: risco elevado pelo escore (na prática, 3 ou mais pontos do RCRI), capacidade funcional desconhecida ou pobre, e probabilidade real de que o resultado mude a conduta — mudar a técnica anestésica, indicar revascularização prévia ou cancelar o procedimento. A diretriz europeia reforça que teste de imagem de isquemia sem potencial de mudança de manejo é desperdício de recurso e atraso cirúrgico [1].
O painel 'completo' de rotina não reduz eventos e produz anormalidades incidentais que atrasam a operação. Cada exame tem indicação clínica específica, e a regra prática do interno é simples: exame sem hipótese não muda conduta e não entra no pedido.
| Exame | Quando indicar | Quando não pedir |
|---|---|---|
| Hemograma (hemoglobina) | Cirurgia com sangramento previsto importante, sintomas de anemia, doença renal, suspeita de diátese hemorrágica | Paciente jovem assintomático de procedimento de baixo risco |
| Creatinina e eletrólitos | Idade ≥60-65 anos, diabetes, hipertensão, doença renal, uso de diurético ou IECA/BRA, cirurgia de risco elevado; a creatinina também compõe o RCRI | Jovem saudável para procedimento menor |
| Coagulograma (INR, TTPa) | Anticoagulante ou antiagregante em uso, história pessoal ou familiar de sangramento, doença hepática, desnutrição grave | Rotina: não prevê sangramento em quem não tem fator de risco |
| Glicemia e HbA1c | Todo paciente diabético; HbA1c para otimização de cirurgia eletiva (alvo geralmente <8%) | Não diabético de baixo risco |
| Eletrocardiograma | Doença cardiovascular conhecida ou estrutural, sintomas, diabetes, hipertensão; idade >50 anos (ACC/AHA) ou ≥65 anos (ESC 2022) conforme a diretriz seguida | Jovem assintomático sem fatores de risco |
| Radiografia de tórax | Cardiopatia ou pneumopatia conhecida, tabagismo intenso, cirurgia torácica ou abdominal alta, dispneia inexplicada | Rotina em paciente estável |
| Ecocardiograma | Sopro não investigado, dispneia sem etiologia clara, suspeita de valvopatia, miocardiopatia ou hipertensão pulmonar | Paciente estável e assintomático |
| Teste de isquemia | Apenas se ≥3 pontos no RCRI, capacidade funcional ruim ou desconhecida e possibilidade de mudar a conduta | Procedimento de baixo risco; paciente assintomático com ≥4 METs |
O jejum reduz o risco de síndrome de Mendelson (pneumonite por aspiração), mas o excesso desidrata, causa fome e hipoglicemia e atrasa recuperação. O padrão atual do ASA, seguido no Brasil, é permissivo: líquidos claros até 2 horas antes da anestesia, incluindo água, soro, café e chá sem leite, suco sem polpa e bebidas com maltodextrina. Álcool não é líquido claro, e leite conta como refeição porque forma coágulo gástrico — com meia-vida gástrica diferente entre leite materno (4 horas) e fórmula ou leite de vaca (6 horas).
| Item ingerido | Jejum mínimo exigido |
|---|---|
| Líquidos claros (água, soro, café ou chá sem leite, suco sem polpa, bebida com carboidrato) | 2 horas |
| Leite materno | 4 horas |
| Fórmula infantil, leite de vaca, refeição leve (torrada, cereal, biscoito) | 6 horas |
| Refeição com carne, fritura ou excesso de gordura | 8 horas |
O ajuste de medicações é o ponto da avaliação pré-operatória com maior densidade de evidência e de pegadinha. A regra geral: manter o que previne evento cardiovascular (estatina, betabloqueador em uso crônico) e o que causa abstinência ou convulsão se interrompido (anticonvulsivante, benzodiazepínico), suspender o que aumenta sangramento ou hipotensão sem ganho (anticoagulante sem indicação de ponte, IECA/BRA), e nunca iniciar medicação de proteção no dia da cirurgia.
| Medicação | Conduta perioperatória | Justificativa e prazos |
|---|---|---|
| Betabloqueador em uso crônico | Manter a dose habitual; nunca iniciar no dia da cirurgia | POISE: iniciar metoprolol reduziu infarto não fatal, mas aumentou mortalidade (3,1% vs 2,3%) e dobrou AVC [3] |
| Estatina | Manter | Reduz infarto perioperatório; suspensão causa rebote de eventos |
| AAS | Manter em prevenção secundária (stent coronariano, prótese valvar, AVC recente); não iniciar de rotina | POISE-2: iniciar AAS não reduziu morte ou infarto (7,0% vs 7,1%) e aumentou sangramento maior (4,6% vs 3,8%) [4] |
| Varfarina | Suspender 5 dias antes (alvo INR <1,5); ponte com heparina apenas se alto risco trombótico (valva mecânica, trombose ≤3 meses) | Meia-vida de 36-42 horas |
| DOAC (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana) | Suspender 24-72 horas conforme droga, função renal e risco de sangramento | Meia-vida curta; dabigatrana exige mais tempo com clearance reduzido |
| IECA e BRA | Suspender 24 horas antes (exceto insuficiência cardíaca descompensada) | Associação com hipotensão intraoperatória refratária a volume |
| Metformina | Manter em cirurgia pequena com função renal normal; suspender no dia em cirurgias maiores e retomar quando função renal estável | Risco de acidose lática com hipoperfusão perioperatória |
| Sulfonilureia e glibenclamida | Suspender no dia da cirurgia | Hipoglicemia grave em jejum; monitorar capilar e alvo 140-180 mg/dL |
| Insulina basal (NPH, glargina) | Reduzir cerca de 20-25% da dose da manhã e monitorar capilar | Evitar hipoglicemia em jejum prolongado |
| Corticoide crônico (>5 mg/dia de prednisona por >3 semanas) | Manter dose habitual e somar hidrocortisona 50-100 mg IV na indução | Supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal: risco de hipotensão e choque sem cobertura |
| Anticonvulsivante, levotiroxina, benzodiazepínico, levodopa | Manter no dia, com gole de água | Suspensão abrupta causa convulsão, descompensação ou abstinência |
A antibioticoprofilaxia tem duas regras que valem ponto em qualquer prova: droga certa e tempo certo. A dose deve estar completa até 60 minutos antes da incisão — cefazolina 2 g IV no adulto, 3 g se peso ≥120 kg —, e drogas que exigem infusão lenta, como vancomicina e fluoroquinolonas, devem começar 120 minutos antes. Na cirurgia colorretal eletiva usa-se esquema com atividade contra anaeróbios (cefoxitina 2 g, ou cefazolina associada a metronidazol, ou preparo oral com neomicina e metronidazol junto ao preparo mecânico). Redose a cada duas meias-vidas da droga (cefazolina: a cada 4 horas) ou após perda sanguínea >1.500 mL. A profilaxia termina em até 24 horas: a diretriz do CDC de 2017 recomenda não manter antimicrobiano após o fechamento da incisão em cirurgia limpa e limpo-contaminada.
A profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente cirúrgico é estratificada pelo escore de Caprini: 3-4 pontos (risco moderado-alto) pedem profilaxia farmacológica ou mecânica; 5 ou mais pontos (alto risco) pedem farmacológica associada à mecânica. O esquema padrão é enoxaparina 40 mg SC 1x/dia (20 mg se clearance de creatinina <30 mL/min) iniciada cerca de 12 horas após a cirurgia, ou heparina não fracionada 5.000 U SC de 8/8 h, somadas à compressão pneumática intermitente e à mobilização precoce. Paciente oncológico submetido a cirurgia abdominal ou pélvica maior recebe profilaxia estendida de 28 a 35 dias.
1.Quantos preditores compõem o RCRI de Lee e quais os riscos de desfecho cardíaco grave com 2 pontos e com 3 ou mais?
2.Qual item NÃO integra o escore de Lee (RCRI)?
3.Paciente com diabetes complicada e insuficiência cardíaca compensada, com limitação funcional. Qual a classe ASA e a mortalidade aproximada associada?
4.O que o ensaio POISE demonstrou sobre iniciar betabloqueador no dia da cirurgia?
5.Sobre o uso de AAS iniciado no perioperatório de pacientes que não o usavam, o POISE-2 mostrou:
6.Os jejuns mínimos para leite de vaca ou fórmula e para líquidos claros são, respectivamente:
7.Sobre IECA e BRA no perioperatório, a conduta padrão é:
8.Em cirurgia limpa eletiva, qual a dose, via e horário-limite da antibioticoprofilaxia com cefazolina?
9.Homem de 40 anos, assintomático, sem comorbidades, para hernioplastia inguinal eletiva. Quais exames pré-operatórios?
10.O teste de isquemia pré-operatório (cintilografia, eco com dobutamina) está indicado quando:
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