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Revisão completa das principais zoonoses bacterianas cobradas em prova: leptospirose, brucelose, febre maculosa brasileira, febre Q, bartonelose, carbúnculo, tuberculose bovina, pasteurelose e melioidose. Inclui fisiopatologia, diagnósticos com critérios e esquemas terapêuticos com doses, além da abordagem One Health aplicada à prevenção.
[1] Adisasmito WB, Almuhairi S, Behravesh CB, et al. One Health: A new definition for a foundational and integrative paradigm for health. One Health. 2022;4:100437 · DOI 10.1016/j.onehlt.2022.100437 | [2] Jones KE, Patel NG, Levy MA, et al. Global trends in emerging infectious diseases. Nature. 2008;451(7181):990-993 · DOI 10.1038/nature06536 | [3] Haake DA, Levett PN. Leptospirosis in humans. Curr Top Microbiol Immunol. 2015;387:65-97 · DOI 10.1007/978-3-662-45059-8_5 | [4] Dean AS, Crump L, Greter H, Schelling E, Zinsstag J. Clinical manifestations of human brucellosis: a systematic review and meta-analysis. PLoS Negl Trop Dis. 2012;6(12):e1929 · DOI 10.1371/journal.pntd.0001929 | [5] Biggs HM, Behravesh CB, Bradley KK, et al. Diagnosis and Management of Tickborne Rickettsial Diseases: Rocky Mountain Spotted Fever, Ehrlichioses, and Anaplasmosis - United States. MMWR Recomm Rep. 2016;65(RR-2):1-44 · https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/65/rr/rr6502a1.htm | [6] Eldin C, Mélenotte C, Mediannikov O, et al. From Q Fever to Coxiella burnetii Infection: a Paradigm Change. Clin Microbiol Rev. 2017;30(1):115-190 · DOI 10.1128/CMR.00045-16 | [7] Brasil. Ministério da Saúde. Leptospirose: o que é, causas, sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção · https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/l/leptospirose · DOI 10.1016/j.onehlt.2022.100437
Cerca de 60% dos agentes infecciosos humanos conhecidos têm origem animal, e aproximadamente 75% das doenças infecciosas emergentes são zoonóticas, segundo a análise clássica de Jones e colaboradores publicada na Nature em 2008. No Brasil, três situações explicam a maior parte dos casos que aparecem nas provas e nos pronto-socorros: enchentes com exposição a água e lama contaminadas por urina de roedores (leptospirose), consumo de leite cru e queijo frescal artesanal (brucelose e tuberculose bovina) e exposição a carrapatos em áreas de Mata Atlântica e campos (febre maculosa brasileira). A abordagem One Health, formalizada em 2021 pelo painel de especialistas OHHLEP da OMS, reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas são interdependentes, e é exatamente essa integração que sustenta a vigilância e a prevenção dessas doenças. Para a prova, o aluno precisa dominar quatro eixos de cada zoonose: agente e reservatório, porta de entrada e via de transmissão, método diagnóstico de confirmação e droga de escolha com dose e duração.
Zoonose é a infecção ou doença naturalmente transmissível entre animais vertebrados e seres humanos, seja por contato direto, por vetores, ou por água e alimentos contaminados. A classificação mais útil para a prova organiza as zoonoses bacterianas por agente, reservatório e principal via de transmissão, porque a epidemiologia, a profilaxia e a conduta terapêutica derivam diretamente desses elementos.
| Agente | Reservatório ou fonte | Via principal de transmissão | Doença humana |
|---|---|---|---|
| Leptospira interrogans (mais de 200 sorovares) | Rattus norvegicus e outros roedores (urina) | Água e lama contaminadas em pele macerada | Leptospirose |
| Brucella abortus, B. suis, B. melitensis, B. canis | Bovinos, suínos, caprinos, ovinos e cães | Leite cru, queijo frescal, aerossol de parto | Brucelose |
| Rickettsia rickettsii | Carrapatos Amblyomma (capivaras e cavalos) | Picada de carrapato (adesão prolongada) | Febre maculosa brasileira |
| Coxiella burnetii | Ovinos, bovinos e caprinos (parto e placenta) | Inalação de aerossóis e leite cru | Febre Q aguda e crônica |
| Bartonella henselae | Gatos (vetor: pulga Ctenocephalides felis) | Arranhadura ou lambedura | Doença da arranhadura do gato |
| Bacillus anthracis | Bovinos, ovinos e solo (esporos por décadas) | Pele lesionada (couros e lã), inalação | Carbúnculo (antraz) |
| Mycobacterium bovis | Bovinos com tuberculose | Leite cru e derivados | Tuberculose zoonótica, extrapulmonar |
| Burkholderia pseudomallei | Solo e água de regiões tropicais | Inalação, pele lesada, aspiração | Melioidose |
A leptospirose é a zoonose de maior impacto urbano no Brasil: é doença de notificação compulsória, com 3 a 5 mil casos anuais registrados no SINAN, letalidade global em torno de 5 a 10% e mortalidade que chega a 15-20% nas formas graves internadas; no mundo, estimativas apontam cerca de 1 milhão de casos graves e 60 mil mortes por ano. A brucelose é endêmica em regiões pecuárias brasileiras, causada principalmente por B. abortus (bovina) e B. suis (suína) via queijo minas frescal e leite não pasteurizado, com cerca de 500 mil casos notificados no mundo por ano; é doença ocupacional clássica de veterinários, ordenhadores e trabalhadores de abatedouros. A febre maculosa brasileira, causada por R. rickettsii, concentra-se em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, transmitida sobretudo pelo carrapato-estrela Amblyomma sculptum em áreas com capivaras; notificam-se algumas centenas de casos ao ano, com letalidade histórica de 25 a 40%, muito superior à da febre maculosa norte-americana (inferior a 1%). A febre Q é sabidamente subdiagnosticada, com soroprevalência relatada entre 10 e 30% em trabalhadores rurais em diversas séries. A doença da arranhadura do gato é uma das causas mais frequentes de linfadenopatia regional crônica benigna em crianças e adolescentes.
A doença é bifásica. A fase septicêmica (4 a 9 dias) cursa com febre alta, cefaleia, calafrios, mialgias intensas de panturrilha e região lombar, hiperemia conjuntival sem secreção (achado quase patognomônico), náuseas e vômitos; a fase imune, após a queda da febre, concentra as complicações. A forma grave, doença de Weil, ocorre em 5 a 10% dos casos e é definida pela tríade icterícia, insuficiência renal aguda e síndrome hemorrágica (epistaxe, gengivorragia, petéquias, hemorragias pulmonares), com miocardite e arritmias como causa possível de morte. O diagnóstico durante epidemias é clínico-epidemiológico e o tratamento nunca deve aguardar a confirmação laboratorial.
| Exame | Janela ideal | Interpretação |
|---|---|---|
| PCR em sangue e urina | Sangue na 1ª semana; urina a partir do 10º dia | Método mais precoce; excelente em surtos |
| IgM ELISA ou teste rápido | A partir do 5º ao 7º dia de doença | Sensibilidade de 70-90% na 2ª semana; reações cruzadas possíveis |
| MAT (microaglutinação) | Amostras pareadas com intervalo de 2 a 4 semanas | Padrão-ouro sorológico: quadruplicamento do título ou título único de 1:800 ou mais em área endêmica |
| Hemocultura | 1ª semana, em meio EMJH ou Fletcher | Positiva em parte dos casos; crescimento lento, até 6 semanas |
Após incubação de 2 a 8 semanas (meses em inóculos baixos), instala-se febre ondulante (undulante) com sudorese noturna de odor característico, artralgias migratórias, lombalgia, anorexia e perda de peso. Ao exame chamam atenção hepatoesplenomegalia, linfadenopatia, sacroileíte e, em homens, orquiepididimite, que é a complicação geniturinária mais frequente. A espondilodiscite lombar com osteófitos anteriores (sinal do pedis vertebrais) é a complicação osteoarticular clássica. No laboratório: sorologia de aglutinação em tubo (reação de Wright) com título de 1:160 ou mais, ou anticorpos bloqueadores 2-mercaptoetanol (2-ME) de 1:80 ou mais, sugere doença ativa; a hemocultura em meio de Castaneda é positiva em 15 a 70% dos casos, com maior rendimento na fase aguda; a PCR auxilia os casos difíceis. O dado decisivo é epidemiológico: consumo de queijo frescal ou leite cru, ou contato com partos e abortamentos de animais em atividade ocupacional rural ou veterinária.
O quadro clássico é febre alta (39 a 40 graus), cefaleia intensa, mialgias e exantema maculopapular que surge entre o 3º e o 5º dia em punhos e tornozelos, generaliza-se e inclui palmas e plantas, tornando-se petequial; trombocitopenia, hiponatremia e elevação de transaminases completam o perfil laboratorial. A escara de inoculação (pápula necrótica negra no local da picada) está presente em 20 a 40% dos pacientes brasileiros e é praticamente patognomônica quando encontrada. O diagnóstico é clínico-epidemiológico na presença de febre com exantema e exposição a ambiente silvestre, rural ou a carrapatos: a sorologia por imunofluorescência indireta costuma ser negativa na primeira semana e serve para confirmação retrospectiva, por isso nunca deve atrasar o tratamento.
| Doença | Pista clínica | Diagnóstico | Tratamento no adulto |
|---|---|---|---|
| Febre Q aguda | Síndrome gripal, pneumonia atípica, hepatite granulomatosa | IFA com anticorpos de fase II predominantes | Doxiciclina 100 mg 12/12 h por 14 dias |
| Febre Q crônica | Endocardite cultura-negativa em valvopata, febre arrastada | IFA com anticorpos de fase I de 1:800 ou mais | Doxiciclina 100 mg 12/12 h + hidroxicloroquina 200 mg 8/8 h por 18 meses ou mais |
| Doença da arranhadura do gato | Linfadenopatia regional 1 a 3 semanas após arranhadura; síndrome de Parinaud (conjuntivite com adenomegia pré-auricular) | Sorologia IgG anti-B. henselae 1:64 ou mais; PCR; coloração de Warthin-Starry | Autolimitada em 2 a 4 meses; azitromicina 500 mg no 1º dia e 250 mg do 2º ao 5º se adenomegia volumosa ou dolorosa |
| Carbúnculo cutâneo | Pápula que evolui para vesícula e escara negra com edema duro e indolor em manipulador de couro ou lã | Cultura e PCR da lesão | Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12 h ou doxiciclina 100 mg 12/12 h por 7 a 10 dias |
| Tuberculose por M. bovis | Linfadenite cervical ou tuberculose abdominal em consumidor de leite cru | Cultura e testes moleculares | Esquema com rifampicina, isoniazida e etambutol, atento à resistência natural à pirazinamida |
| Pasteurelose | Celulite rapidamente progressiva (menos de 24 h) após mordedura de gato ou cão | Clínica e cultura de secreção | Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12 h por 7 dias |
| Melioidose | Pneumonia, abscessos viscerais ou sepse em paciente diabético do Nordeste brasileiro, especialmente Ceará | Cultura de B. pseudomallei | Meropeném 2 g IV 8/8 h por 10 a 14 dias ou mais, seguido de cotrimoxazol por 3 a 6 meses |
| Cenário | Droga de escolha | Esquema no adulto | Duração |
|---|---|---|---|
| Leptospirose leve | Doxiciclina | 100 mg VO 12/12 h | 7 dias |
| Leptospirose leve em gestante | Amoxicilina | 500 mg VO 8/8 h | 7 dias |
| Leptospirose grave (doença de Weil) | Penicilina G cristalina | 1,5 a 2 MIU IV 6/6 h | 7 dias |
| Alternativa na doença grave | Ceftriaxona | 1 a 2 g IV uma vez ao dia | 7 dias |
| Brucelose não complicada | Doxiciclina + rifampicina | 100 mg 12/12 h + 600 a 900 mg ao dia | 6 semanas |
| Brucelose com espondilite ou complicações | Doxiciclina + aminoglicosídeo | 100 mg 12/12 h + estreptomicina 1 g IM ao dia (ou gentamicina 5 mg/kg/dia por 7 dias) | 6 semanas do esquema oral e 2 a 3 semanas do injetável |
| Brucelose em crianças menores de 8 anos | Cotrimoxazol + rifampicina | Sulfametoxazol-trimetoprim 8-10 mg/kg/dia de trimetoprim + rifampicina 15-20 mg/kg/dia | 6 semanas |
| Febre maculosa brasileira | Doxiciclina | 100 mg 12/12 h (criança: 2,2 mg/kg 12/12 h, máximo 100 mg) | 7 dias ou até 3 dias após o desaparecimento da febre |
| Febre Q aguda | Doxiciclina | 100 mg 12/12 h | 14 dias |
O suporte na doença de Weil é decisivo: balanço hídrico rigoroso, terapia renal substitutiva quando indicada, correção de distúrbios eletrolíticos e monitorização de arritmias por miocardite. A reação de Jarisch-Herxheimer pode ocorrer nas primeiras horas de antibiótico na leptospirose e na brucelose; ela é manejada com analgesia e hidratação, sem contraindicação ao tratamento. A quimioprofilaxia da leptospirose está indicada para exposições de curta duração em grupos de risco (recuperadores de enchentes, militares, trabalhadores de limpeza urbana e esgoto): doxiciclina 200 mg VO em dose única semanal durante o período de exposição e por até 7 dias após o seu fim. Gestantes com doença leve recebem amoxicilina; nas formas graves, penicilina G ou ceftriaxona, que são seguras na gestação.
Na leptospirose, a mortalidade das formas graves permanece entre 5 e 20% mesmo com tratamento adequado, conduzida por insuficiência renal, hemorragias (sobretudo pulmonar) e miocardite; sobreviventes podem manter comprometimento renal residual. Na brucelose, a recaída ocorre em 5 a 15% dos casos, quase sempre por esquema incompleto, duração insuficiente ou monoterapia; espondilodiscite, orquiepididimite, neurobrucelose e endocardite, esta a principal causa de morte, exigem esquemas prolongados e seguimento sorológico. Na febre maculosa brasileira, iniciar a doxiciclina após o 5º dia de sintomas multiplica a letalidade; sobreviventes podem evoluir com amputações por vasculite grave, sequelas neurológicas e hipoacusia. Na febre Q crônica, o esquema de 18 meses ou mais com doxiciclina e hidroxicloroquina, guiado pela queda dos anticorpos de fase I, cura a maioria dos casos de endocardite quando a adesão é mantida, com substituição valvar quando indicada.
1.Homem de 34 anos, 5 dias após remover lama de enchente, apresenta febre de 39 graus, mialgias intensas de panturrilhas, hiperemia conjuntival sem secreção, icterícia e creatinina de 3,2 mg/dL. Qual o antimicrobiano de escolha?
2.Qual exame é considerado padrão-ouro sorológico para confirmação de leptospirose?
3.O esquema padrão para brucelose não complicada em adulto no Brasil é:
4.A principal via de transmissão da brucelose humana no Brasil é:
5.Criança de 7 anos com febre há 4 dias, cefaleia e exantema maculopapular que inclui palmas e plantas, com história de passeio em área de mata no interior de Minas Gerais. A conduta correta é:
6.Sobre o diagnóstico laboratorial da febre Q crônica, é correto afirmar:
7.Adolescente com linfadenopatia cervical axilar dolorosa de 3 semanas, com lesão cutânea já cicatricizada no antebraço após arranhadura de gato filhote. O agente e a conduta correta são:
8.A quimioprofilaxia recomendada para prevenção de leptospirose em trabalhadores com exposição de curta duração em área de enchente é:
9.Aproximadamente qual proporção das doenças infecciosas emergentes em humanos tem origem zoonótica?
10.Trabalhador de frigorífico apresenta celulite de mão com progressão em menos de 24 horas após mordedura de gato. O agente mais provável e o tratamento são:
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