carregando…
carregando…
Revisão completa das infecções relacionadas à assistência à saúde: critérios diagnósticos da ANVISA, patógenos multirresistentes (MRSA, VRE, ESBL, carbapenemases), tratamento com doses e bundles de prevenção (cateter, ventilação, sonda vesical e cirurgia). Inclui o impacto da pandemia de COVID-19 sobre a resistência e os programas de controle de infecção.
[1] World Health Organization. Global report on infection prevention and control 2024. Genebra: WHO; 2024 · ISBN 978-92-4-010398-6 | [2] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Critérios Diagnósticos de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde. 2ª ed. Brasília: ANVISA; 2017 · https://www.gov.br/anvisa | [3] Buetti N, Marschall J, Drees M, et al. Strategies to prevent central line-associated bloodstream infections in acute-care hospitals: 2022 Update. Infect Control Hosp Epidemiol. 2022;43(5):553-569 · DOI 10.1017/ice.2022.87 | [4] Klompas M, Branson R, Cawcutt K, et al. Strategies to prevent ventilator-associated pneumonia, ventilator-associated events, and nonventilator hospital-acquired pneumonia in acute-care hospitals: 2022 Update. Infect Control Hosp Epidemiol. 2022;43(6):687-713 · DOI 10.1017/ice.2022.88 | [5] Murray CJL, Ikuta K, Sharara F, et al. Global burden of bacterial antimicrobial resistance in 2019: a systematic analysis. Lancet. 2022;399(10325):629-655 · DOI 10.1016/S0140-6736(21)02724-0 | [6] Magill SS, Edwards JR, Bamberg W, et al. Multistate point-prevalence survey of health care-associated infections. N Engl J Med. 2014;370(13):1198-1208 · DOI 10.1056/NEJMoa1306801 | [7] Pronovost P, Needham D, Berenholtz S, et al. An intervention to decrease catheter-related bloodstream infections in the ICU. N Engl J Med. 2006;355(26):2725-2732 · DOI 10.1056/NEJMoa061115 · DOI 10.1016/S0140-6736(21)02724-0
Infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) são aquelas adquiridas durante o processo de cuidado, e não presentes nem em incubação no momento da admissão. Elas representam o evento adverso mais frequente da assistência hospitalar: a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 7 em cada 100 pacientes hospitalizados em países de alta renda e até 15 em cada 100 em países de baixa e média renda adquiram pelo menos uma IRAS, proporção que pode chegar a 30% em unidades de terapia intensiva. Para a prova, o aluno precisa dominar quatro eixos: a definição e os critérios diagnósticos por síndrome, os patógenos e seus mecanismos de resistência, o tratamento empírico e dirigido com doses, e os bundles de prevenção — o conteúdo mais cobrado em provas de infectologia, clínica médica e prova de residência.
O tema ganhou urgência extra depois da pandemia de COVID-19. A sobrelotação de UTIs, a ventilação prolongada, o uso de corticoides e imunossupressores e a fadiga dos profissionais elevaram as taxas de infecção associada a dispositivos e aceleraram a seleção de patógenos multirresistentes. O relatório global de prevenção e controle de infecção da OMS de 2024 estima que, das 4,95 milhões de mortes associadas à resistência antimicrobiana em 2019, cerca de 770 mil por ano estão ligadas a patógenos resistentes adquiridos no ambiente de saúde. Paradoxalmente, o mesmo relatório mostra que apenas 6% dos países cumprem todos os requisitos mínimos de programas de prevenção e controle de infecção (PCI), apesar de 71% possuírem programa ativo.
A definição operacional clássica, usada pela ANVISA e pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC/NHSN), considera IRAS toda infecção que se manifesta em geral 48 a 72 horas após a admissão, que não estava presente nem em incubação na internação. Infecções que aparecem até 48 horas após alta hospitalar, ou associadas a procedimentos realizados na hospitalização anterior, também contam como relacionadas à assistência. Em lactentes, a infecção adquirida por via transplacentária (ex.: citomegalovírus, toxoplasmose congênita) é considerada congênita, e não IRAS. O termo IRAS substituiu a expressão infecção hospitalar justamente para abranger serviços extra-hospitalares: ambulatórios, atendimento domiciliar, hemodiálise e unidades de longa permanência.
| Síndrome | Dispositivo/fator associado | Patógenos típicos | Indicador epidemiológico |
|---|---|---|---|
| Pneumonia associada à ventilação (PAVM) | Tubo orotraqueal, mais de 48 h de ventilação | Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii, K. pneumoniae, S. aureus | Casos por 1.000 dias de ventilação |
| Infecção primária da corrente sanguínea associada a cateter (ITPVC) | Cateter venoso central | CoNS, S. aureus, Candida spp., gram-negativos MDR | Casos por 1.000 dias de cateter central |
| Infecção do trato urinário associada a cateter (ITU-AC) | Sonda vesical de demora | E. coli, K. pneumoniae, Enterococcus, Candida, Providencia | Casos por 1.000 dias de sonda vesical |
| Infecção de sítio cirúrgico (ISC) | Incisão cirúrgica | S. aureus, estreptococos, E. coli, anaeróbios conforme sítio | Casos por 100 cirurgias realizadas |
| Diarreia associada ao cuidado | Antibióticos (fluoroquinolonas, cefalosporinas) | Clostridioides difficile | Casos por 10.000 altas ou por 100.000 pacientes-dia |
No maior inquérito de prevalência norte-americano (183 hospitais, NEJM 2014), 4,0% dos pacientes internados tinham pelo menos uma IRAS no dia da avaliação, o que projetava cerca de 648 mil infecções por ano em hospitais de cuidados agudos; pneumonia (cerca de 22% dos casos, incluindo a associada à ventilação) e infecções gastrintestinais (17%, dominadas por C. difficile) lideraram o ranking, seguidas por infecção urinária, corrente sanguínea e sítio cirúrgico. Na UTI o risco é multiplicado: pacientes críticos têm dispositivos invasivos, antibioterapia prévia, imunossupressão e permanência prolongada, os quatro grandes fatores de risco clássicos.
No Brasil, a vigilância nacional coordenada pela ANVISA (Programa Nacional de prevenção de IRAS, com boletins semestrais publicados a partir do sistema de notificação hospitalar) mostra consistentemente taxas mais altas que as de redes norte-americanas comparáveis. Em UTIs adulto, os boletins apontam, em termos aproximados, densidades de incidência de 8 a 12 PAVM por 1.000 dias de ventilação, 2 a 4 ITPVC por 1.000 dias de cateter central e 4 a 6 ITU-AC por 1.000 dias de sonda vesical, com variação importante entre regiões e perfil da unidade. Estudos brasileiros de prevalência em hospitais gerais encontram taxas ao redor de 6% a 14%, maiores em unidades críticas e em serviços de maior complexidade.
O capítulo pós-pandemia merece atenção: em 2020, redes de vigilância dos EUA documentaram aumentos de 30% a 50% nas taxas de infecção da corrente sanguínea associada a cateter em comparação com 2019, reflexo de lotação acima da capacidade, profissionais não familiarizados com protocolos, escassez de EPI e preferência por acesso femoral em pacientes prono. Entre 2022 e 2024 as taxas melhoraram parcialmente, mas não retornaram ao pré-pandemia em várias redes — e a resistência seguiu crescendo, com maior proporção de enterobactérias produtoras de carbapenemase e de Acinetobacter resistente a carbapenêmicos em relatórios da ECDC, do CDC e da OMS.
O grupo ESKAPE concentra os patógenos de maior impacto e resistência: Enterococcus faecium (VRE), Staphylococcus aureus (MRSA), Klebsiella pneumoniae (ESBL e carbapenemases), Acinetobacter baumannii (carbapenemases OXA), Pseudomonas aeruginosa (resistência por mutações cromossômicas e porosas) e Enterobacteriaceae em geral. A lista de patógenos prioritários da OMS (BPPL 2024) coloca na categoria crítica as enterobactérias resistentes a carbapenêmicos e à cefalosporina de terceira geração e o Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos — exatamente os perfis que dominam os surtos de UTI brasileiras. O estudo de carga global da resistência (Lancet 2022) estimou 4,95 milhões de mortes associadas e 1,27 milhão diretamente atribuídas à resistência bacteriana em 2019, com as infecções respiratórias e da corrente sanguínea liderando a mortalidade.
| Patógeno | Mecanismo de resistência | Marcador/genes | Opções terapêuticas típicas |
|---|---|---|---|
| S. aureus resistente à meticilina (MRSA) | PBP2a de baixa afinidade a betalactâmicos | gene mecA; detecção por ágar cromogênico, aglutinação para PBP2a ou PCR | Vancomicina (AUC/MIC 400-600), daptomicina, linezolida, ceftarolina |
| Enterococcus faecium (VRE) | Peptidoglicano de baixa afinidade | genes vanA (alto nível, transferível) e vanB | Linezolida, daptomicina (dose alta), ampicilina se sensível |
| Enterobactérias produtoras de ESBL | Betalactamases de espectro estendido que hidrolisam cefalosporinas de 3ª geração | blaCTX-M (principal); fenótipo: sensível a cefoxitina, resistente a ceftriaxona | Carbapenêmicos (meropenem), cefepima não é opção confiável em infecção grave |
| Enterobactérias carbapenemásicas (CPE) | Carbapenemases que hidrolisam carbapenêmicos | KPC (blaKPC), NDM, OXA-48, VIM; triagem com agar cromogênico, confirmação por mCIM/eCIM, Carba NP ou PCR | Ceftazidima-avibactam (KPC, OXA-48), meropenem-vaborbactam, colistina, amicacina, tigeciclina |
| Acinetobacter baumannii carbapenêmico | Carbapenemases OXA-23/OXA-24 e oxacilinases intrínsecas | OXA-23-like, OXA-66; testes fenotípicos de screening em imipenem | Polimixina B/colistina, sulbactama em dose alta, minociclina, combinações com amicacina |
| Pseudomonas aeruginosa MDR | Perda de porinas, efluxo, betalactamases induzíveis | Resistência a piperacilina-tazobactam e cefepima sugere MDR | Ceftolozano-tazobactam, ceftazidima-avibactam, colistina, meropenem estendido em infusão |
As IRAS associadas a dispositivos compartilham um mecanismo central: o biofilme. Bactérias aderem à superfície do cateter, sonda ou tubo, produzem matriz de exopolissacarídeo (glicocálix) e formam comunidades sessis com gradientes de oxigênio e nutriente. Dentro do biofilme, as bactérias dividem lentamente e são 100 a 1.000 vezes menos suscetíveis aos antimicrobianos, além de protegidas da fagocitose. Células planctônicas liberadas do biofilme podem atingir a corrente sanguínea — por isso a cura definitiva da infecção de cateter geralmente exige a RETIRADA do dispositivo, e a falha clínica após 48-72 h de terapia adequada com cateter mantido é indicação de remoção.
Na cadeia de transmissão exógena, as mãos do profissional são o veículo dominante: contato direto com o paciente colonizado ou com o ambiente próximo (cama, grades, monitores — que podem permanecer contaminados por dias, sobretudo com A. baumannii e C. difficile) seguido de contato com outro paciente. Daí o papel central da higiene das mãos nos cinco momentos da OMS: antes do contato com o paciente, antes de procedimento asséptico, após exposição a fluidos, após o contato com o paciente e após o contato com o entorno. Vias complementares incluem gotículas (influenza, SARS-CoV-2), aerossóis (tuberculose, sarampo) e veículos comuns (broncoscópios, soluções multidose, água).
Febre é o sinal de alerta mais frequente, mas é inespecífica e pode estar ausente em idosos, neutropênicos e pacientes em uso de corticoide. Cada síndrome tem a sua combinação característica, e o reconhecimento precoce depende de correlacionar o quadro com o dispositivo presente e o tempo de uso. Nunca esqueça: deterioração clínica inexplicada em paciente com cateter central ou drenagem prolongada deve levantar hipótese de infecção da corrente sanguínea até prova em contrário.
No Brasil, a vigilância usa os critérios diagnósticos padronizados da ANVISA (Critérios Diagnósticos de IRAS, 2ª edição, 2017, baseados no NHSN/CDC), obrigatórios para notificação e comparáveis entre serviços. A regra geral exige sinais/sintomas clínicos compatíveis MAIS achados laboratoriais ou de imagem — a positividade microbiológica isolada define colonização, e não infecção. A tabela resume os critérios operacionais mais cobrados.
| Síndrome | Critérios essenciais (resumo ANVISA/NHSN) | Exames complementares |
|---|---|---|
| ITPVC | Hemocultura positiva para patógeno reconhecido em pelo menos 1 amostra (S. aureus, Candida, gram-negativos) OU 2 amostras de CoNS com intervalo menor que 48 h, sem outra fonte; sintomas (febre, calafrios) e cateter presente no momento ou nas 48 h anteriores | Duas amostras de hemocultura (uma periférica e outra do cateter, ou duas periféricas) antes do antibiótico; tempo diferencial de positividade maior que 2 h aponta o cateter; cultura da ponta por método semi-quantitativo de Maki (maior que 15 UFC) |
| PAVM | Infiltrado novo ou progressivo em radiografia de tórax MAIS pelo menos 2 de: febre maior que 38 °C ou hipotermia, leucocitose maior que 12.000/mm3 ou leucopenia, e secreção traqueal purulenta modificada; após mais de 48 h de ventilação | Cultura quantitativa do lavado broncoalveolar (maior ou igual a 10 elevado a 4 UFC/mL) ou do aspirado traqueal (maior ou igual a 10 elevado a 5 UFC/mL); Gram da secreção tem alta especificidade quando positivo |
| ITU-AC | Sintomas (febre maior que 38 °C, urgência, suprapúbica) sem outra causa MAIS urina com piúria (mais de 10 leucócitos/mm3 no sedimento) e urocultura com mais de 10 elevado a 5 UFC/mL de não mais que 2 espécies | Urocultura quantitativa; hemácias e nitritos orientam, mas não definem; em paciente sondado, trocar a sonda antes de colher melhora o rendimento |
| ISC superficial | Dentro de 30 dias da cirurgia: secreção purulenta da incisão OU cultura positiva OU reopened por infecção, com envolvimento restrito a pele e tecido subcutâneo | Cultura de secreção da ferida coletada de forma asséptica; hemocultura se febre; imagem (tomografia/ultrassom) se suspeita de coleção profunda |
| C. difficile | Diarreia (3 ou mais evacuações amolecidas em 24 h) sem laxante, associada a teste positivo para toxina A/B ou GDH mais toxina, ou colonoscopia com pseudomembranas | Algoritmo em dois ou três passos: GDH (alta sensibilidade, baixa especificidade) seguido de EIA de toxina A/B; PCR (NAAT) detecta gene toxigênico e é altamente sensível — positivo em portador assintomático |
Detalhes técnicos valem ponto de prova: hemoculturas devem ser coletadas antes do primeiro antimicrobiano, com duas amostras de sítios distintos e volume de 8 a 10 mL por frasco em adultos (o volume é o principal determinante do rendimento — cada mL adicional aumenta a positividade em cerca de 3%). O tempo diferencial de positividade entre amostra do cateter e periférica maior que 2 horas tem boa acurácia para identificar o cateter como fonte. Na PAVM, escalas como o CPIS (Clinical Pulmonary Infection Score, máximo 12 pontos; escore acima de 6 sugere pneumonia) ajudam, mas não substituem o julgamento clínico. Procalcitonina e PCR podem apoiar decisão de suspender antibiótico, com parcimônia na interpretação.
O tratamento das IRAS segue três mandamentos: iniciar empírico e amplo quando há sepse, obter culturas antes da primeira dose, e descalçar (desescalar) assim que a identificação e a susceptibilidade chegam. O controle da fonte é insubstituível: remover o cateter, drenar coleções, desbridar tecido necrótico e descontinuar dispositivos desnecessários. A escolha empírica depende do perfil local de resistência — em serviços com alta prevalência de enterobactérias produtoras de carbapenemase, o esquema inicial de infecção grave já nasce com ceftazidima-avibactam ou polimixina.
| Cenário | Droga | Dose em adultos com função renal normal | Duração típica |
|---|---|---|---|
| MRSA: bacteremia, endocardite | Vancomicina | Ataque de 25-30 mg/kg IV (máx. 3 g), depois 15-20 mg/kg IV a cada 8-12 h guiado por AUC/MIC 400-600 | Bacteremia não complicada: mínimo de 7 dias a partir da primeira hemocultura negativa; complicada (endocardite, metástase): 4-6 semanas |
| MRSA: alternativa em falha/vancomicinemia elevada | Daptomicina | 8-10 mg/kg IV uma vez ao dia (não usar em pneumonia — inativada pelo surfactante) | Conforme foco: 7-14 dias (bacteremia), 4-6 semanas (endocardite) |
| MRSA: pneumonia | Linezolida (preferência por penetração pulmonar) ou vancomicina | Linezolida 600 mg IV/VO a cada 12 h | 7 dias |
| Enterobactérias ESBL, infecção grave | Meropenem | 1-2 g IV a cada 8 h, infundido em 3 h (infusão estendida maximiza farmacodinâmica) | Conforme síndrome: bacteremia 7 dias, pneumonia 7 dias, ITU 7 dias (3-5 se não complicada) |
| Carbapenemase KPC ou OXA-48 | Ceftazidima-avibactam | 2,5 g IV a cada 8 h, infundido em 2 h | 7-14 dias conforme foco e resposta |
| Acinetobacter baumannii carbapenêmico | Polimixina B ou colistimetato de sódio | Polimixina B: ataque 2,5 mg/kg IV, manutenção 1,25-1,5 mg/kg a cada 12 h; colistina: ataque de 9 milhões UI, manutenção de 4,5 milhões UI a cada 12 h | 7-14 dias; considerar associação com amicacina ou minociclina em pneumonia |
| VRE (E. faecium) | Linezolida ou daptomicina | Linezolida 600 mg a cada 12 h; daptomicina 10-12 mg/kg/dia IV em bacteremia | Bacteremia: 7-14 dias; endocardite: 4-6 semanas |
| C. difficile inicial (não grave a grave) | Vancomicina VO OU fidaxomicina VO | Vancomicina 125 mg VO a cada 6 h; fidaxomicina 200 mg VO a cada 12 h; metronidazol 500 mg VO a cada 8 h apenas se sem acesso às anteriores | 10 dias; fulminante: vancomicina VO 500 mg a cada 6 h + metronidazola IV |
| Empírico de PAVM com risco de MDR | Piperacilina-tazobactama + vancomicina (ou meropenem + vancomicina se colonização prévia por ESBL) | Pip-tazo 4,5 g IV a cada 6 h; meropenem 2 g IV a cada 8 h; vancomicina conforme AUC | Suspender em 7 dias se estabilização clínica (descalço guiado por cultura) |
Bundle é o pacote de medidas baseadas em evidência que, aplicadas conjuntamente (all or none), reduzem de forma mensurável a incidência de IRAS. O clássico estudo de Pronovost em Michigan (NEJM 2006) mostrou redução de até 66% nas infecções de corrente sanguínea associadas a cateter central com a implantação de checklist durante a inserção — marco do movimento de segurança do paciente. Os bundles abaixo seguem as recomendações internacionais (SHEA/IDSA/APIC, atualizações 2022-2023) e os cadernos da ANVISA.
Além dos bundles por dispositivo, três estratégias horizontais protetem todos os pacientes. Primeira: higiene das mãos com preparação alcoólica 70% (esfregaço de 20-30 s) nos cinco momentos, reservando água e sabão para mãos visivelmente sujas e para cuidados em C. difficile (o álcool não inativa esporos). Segunda: precauções adicionais baseadas na transmissão, com quarto privativo e EPI para patógenos MDR e agrupamento (coorte) de pacientes colonizados em surtos. Terceira: descolonização de portadores de MRSA em alto risco (cirurgias cardíacas e ortopédicas de alto volume, UTIs com prevalência alta): mupirocina 2% tópica nasal 2 vezes ao dia por 5 dias associada a banhos com clorexidina 2%.
| Patógeno/condição | Precaução | Quarto | Detalhe que cai em prova |
|---|---|---|---|
| MRSA, ESBL, VRE, CPE, A. baumannii MDR | Contato | Privativo (ou coorte em surto) | Avental e luvas ao entrar no quarto; equipamentos dedicados; continuar enquanto durar a colonização (CPE: indefinidamente na maioria dos serviços) |
| C. difficile | Contato | Privativo preferencial | Sabão e água para as mãos (álcool não mata esporos); limpeza terminal com hipoclorito a 0,5-0,6% |
| Influenza, SARS-CoV-2, meningococo (primeiras 24 h) | Gotículas | Privativo com máscara cirúrgica a 1 metro | Meningococo: quimioprofilaxia de contatos íntimos com ciprofloxacino 500 mg VO dose única ou rifampicina |
| Tuberculose pulmonar bacilífera, sarampo | Aerossóis | Pressão negativa, N95/FFP2 | Manter até 2 semanas de terapia eficaz com resposta clínica (suspeita de resistência: mais tempo) |
Programas de stewardship (uso racional de antimicrobianos) são obrigatórios e sua estrutura foi consagrada pela diretiva da ANVISA RDC 222/2018, que exige nos hospitais com leitos de UTI a composição de serviço de controle e prevenção de infecção com equipe multidisciplinar (médico, de preferência infectologista, enfermeiro e farmacêutico), avaliação prospectiva com feedback de prescrições de antimicrobianos restritos, fluxo de autorização e indicadores de consumo (DDD por 100 leitos-dia) e de resistência. O pacote mínimo com melhor evidência inclui: autorização prévia para drogas de reserva, descalço guiado por cultura em 48-72 h, duração definida na prescrição (a data de parada), troca de IV para VO quando estável (sequential therapy) e protocolos de empiria local baseados em microbiologia do próprio serviço.
As IRAS prolongam a internação (em média 4 a 9 dias extras, mais na PAVM e na bacteremia), elevam custos e aumentam a mortalidade. A bacteremia associada a cateter por S. aureus tem mortalidade atribuível estimada em 12% a 25% e complicações metastáticas (endocardite, osteomielite, abscessos) em 10% a 30% — obrigando ecocardiograma e reavaliação de duração. A PAVM cursa com mortalidade bruta alta (reflete a gravidade de base) e mortalidade atribuível em torno de 10%; a ITU-AC raramente mata, mas é porta de entrada para bacteriemia por gram-negativos em idosos. C. difficile grave evolui para megacólon tóxico, need de colectomia e choque, com mortalidade que pode superar 30% nas formas fulminantes; recorre em 15% a 25% dos casos, geralmente 1 a 3 semanas após o fim do tratamento, e recorrência múltipla indica transplante de microbiota fecal.
1.Um paciente internado há 5 dias por ICC desenvolve febre de 38,6 °C, e a urocultura revela mais de 100.000 UFC/mL de E. coli, sem sintomas urinários e sem piúria relevante. O antibiograma mostra sensibilidade a ceftriaxona. Qual a conduta?
2.Segundo a ANVISA e o NHSN/CDC, o intervalo pós-admissão habitual para caracterizar uma infecção como relacionada à assistência à saúde é de:
3.O patógeno que encabeça a categoria crítica da lista de patógenos prioritários da OMS (BPPL 2024) e é endêmico em UTIs brasileiras, com resistência a carbapenêmicos mediada por oxacilinases, é:
4.Sobre o bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação, a medida que foi REMOVIDA das recomendações SHEA/IDSA de 2022, por associação com possível aumento de mortalidade, foi:
5.Paciente com cateter central há 12 dias apresenta pico febril coincidente com a infusão. Hemocultura periférica e do cateter crescem Klebsiella pneumoniae produtora de KPC. Além de remover o cateter, o antimicrobiano de primeira escolha é:
6.Na vigilância de infecção da corrente sanguínea associada a cateter, o achado laboratorial que melhor identifica o cateter como fonte da bacteremia é:
7.A dose de ataque e a meta de exposição da vancomicina IV em adulto com bacteremia por MRSA e função renal normal são, respectivamente:
8.Paciente com 68 anos, em uso de ceftriaxona por pneumonia há 10 dias, desenvolve diarreia aquosa profusa, febre, leucocitose de 18.000/mm3 e dor abdominal. Toxina A/B de C. difficile positiva. O tratamento de escolha é:
9.Sobre a duração do tratamento, associe corretamente: bacteremia não complicada por enterobactéria, PAVM com boa resposta e ISC limpa com coleção drenada têm, em geral, duração de:
10.Um serviço detecta aumento de casos de ITU-AC por Providencia stuartii em pacientes cateterizados internados em alas vizinhas. A primeira medida da comissão de controle de infecção hospitalar deve ser:
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar