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Revisão completa do manejo do HIV para provas: quando e como iniciar a TARV, classes e doses dos antirretrovirais, esquemas preferidos do PCDT brasileiro de 2024 e do DHHS, falha terapêutica e resgate, profilaxia de infecções oportunistas, PrEP oral e injetável, PEP em 72 horas e prevenção da transmissão vertical.
[1] Ministério da Saúde do Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos: Módulo 1, Tratamento. Brasília: MS; 2024 · www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts | [2] Ministério da Saúde do Brasil, Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV. Brasília: MS; 2022 · www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts | [3] Panel on Antiretroviral Guidelines for Adults and Adolescents. Guidelines for the Use of Antiretroviral Agents in Adults and Adolescents with HIV. DHHS; 2024 · clinicalinfo.hiv.gov | [4] Günthard HF, Saag MS, Benson CA, et al. Antiretroviral Drugs for Treatment and Prevention of HIV Infection in Adults: 2020 Recommendations of the IAS-USA Panel. JAMA. 2020;324(16):1651-1669 · DOI 10.1001/jama.2020.17025 | [5] Lundgren JD, Babiker AG, Gordin F, et al. Initiation of Antiretroviral Therapy in Early Asymptomatic HIV Infection (START). N Engl J Med. 2015;373(9):795-807 · DOI 10.1056/NEJMoa1506816 | [6] Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, et al. Prevention of HIV-1 Infection with Early Antiretroviral Therapy (HPTN 052). N Engl J Med. 2011;365(6):493-505 · DOI 10.1056/NEJMoa1105243 · DOI 10.1056/NEJMoa1506816
O Brasil foi o primeiro país em desenvolvimento a garantir acesso universal e gratuito à terapia antirretroviral (TARV) pelo SUS, e o manejo do HIV virou tema obrigatório em infectologia, clínica médica e provas de residência. Mais de 1 milhão de brasileiros vivem com HIV, com cerca de 40 a 45 mil novos casos notificados por ano na última década e detecção marcadamente maior em homens que fazem sexo com homens e em mulheres trans. Para a prova, o estudante precisa dominar quatro eixos: tratar todas as pessoas vivendo com HIV independentemente do CD4, prevenir antes da exposição com a PrEP, prevenir depois da exposição com a PEP e prevenir complicações com a profilaxia das infecções oportunistas.
A recomendação atual do PCDT brasileiro (2024), do DHHS e do painel IAS-USA é iniciar TARV para toda pessoa com diagnóstico de HIV, independentemente da contagem de CD4 ou da carga viral, idealmente nos primeiros dias após o diagnóstico. O ensaio estratégico START randomizou 4.685 adultos assintomáticos para início imediato (com CD4 acima de 500) versus início diferido (quando o CD4 caísse a 250) e foi interrompido precocemente por benefício: o grupo de início imediato reduziu em 57 por cento os eventos graves combinados (doenças definidoras e não definidoras de aids e mortes). O HPTN 052 completou o argumento de saúde pública: pessoas com carga viral suprimida transmitiram o HIV a seus parceiros sexuais 96 por cento menos, consolidando o conceito de tratamento como prevenção e a máxima indetectável igual a intransmissível.
| Classe | Representantes | Dose padrão em adultos | Ponto de prova |
|---|---|---|---|
| Inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) | tenofovir (TDF ou TAF), lamivudina, emtricitabina, abacavir, zidovudina | TDF 300 mg/dia; TAF 25 mg/dia; 3TC 300 mg/dia; FTC 200 mg/dia; ABC 300 mg a cada 12 h; AZT 300 mg a cada 12 h | ABC exige HLA-B*5701 negativo (hipersensibilidade grave); TDF exige avaliação renal e óssea; AZT causa anemia e lipodistrofia |
| Inibidores da transcriptase reversa não análogos (ITRNN) | efavirenz, nevirapina, doravirina, etravirina, rilpivirina | EFV 600 mg em jejum à noite; NVP 200 mg a cada 12 h com escalonada inicial; DOR 100 mg/dia; ETR 200 mg a cada 12 h | EFV causa sintomas neuropsíquicos e rash; NVP tem risco de hepatotoxicidade; classe induz ou inibe CYP450 com muitas interações |
| Inibidores da protease potencializados (IP/r ou IP/c) | atazanavir, darunavir, lopinavir com ritonavir ou cobicistate | ATZ/r 300 mais 100 mg/dia; DRV/r 800 mais 100 mg/dia; LPV/r 400 mais 100 mg a cada 12 h | Lipodistrofia, dislipidemia e risco cardiovascular; darunavir tem alta barreira genética; não coadministrar com rifampicina |
| Inibidores da integrase (INI ou INSTI) | dolutegravir, bictegravir, raltegravir, elvitegravir | DTG 50 mg/dia (50 mg a cada 12 h se associado a IP ou em resgate); BIC 50 mg/dia; RAL 400 mg a cada 12 h | Classe preferida mundialmente: potente, bem tolerada e de alta barreira; DTG e TAF associam-se a ganho de peso |
| Inibidores de entrada e fusão | maraviroque, enfuvirtida, ibalizumabe | MVC 300 mg a cada 12 h (ajustar com indutores e inibidores de CYP3A); enfuvirtida 90 mg subcutânea a cada 12 h | Maraviroque exige documentação de vírus CCR5-trópico; enfuvirtida é injetável de resgate |
Fixe a lógica: o esquema padrão sempre combina dois ITRN como base (trás) mais um terceiro agente de outra classe (frente), hoje quase sempre um inibidor da integrase. Monoterapia jamais é aceita, e a troca de um único fármaco de um esquema em falha é a receita para resistência.
O PCDT brasileiro de 2024 estabelece como esquema inicial preferido tenofovir (TDF 300 mg ou TAF 25 mg) associado a lamivudina 300 mg (ou emtricitabina 200 mg) e dolutegravir 50 mg, todos em tomada única diária, existindo apresentação em comprimido único. As diretrizes do DHHS listam como preferidos bictegravir com TAF e FTC (comprimido único) e dolutegravir associado a TAF ou TDF com 3TC ou FTC. Abacavir mais lamivudina com dolutegravir é alternativa para quem não pode usar tenofovir, condicionada a HLA-B*5701 negativo. Sobre o dolutegravir em mulheres em idade reprodutiva, estudos populacionais (como o Tsepamo) mostraram risco de defeito de tubo neural da ordem de 2 a 3 por 1.000 conceptos expostos na concepção, pouco acima do risco de base, e o benefício da alta barreira genética manteve o fármaco como preferido inclusive na gestação.
Falha virológica é a incapacidade de atingir ou manter a supressão viral: o PCDT brasileiro considera falha a carga viral persistente acima de 1.000 cópias/mL após pelo menos 6 meses de tratamento com uso correto relatado. Antes de rotular como resistência, confirme adesão (causa de longe mais comum), tempo de uso, intolerâncias e interações medicamentosas (inclusive fitoterápicos e anticonvulsivantes). O resgate deve conter pelo menos dois, idealmente três, fármacos plenamente ativos guiados por genotipagem: construção clássica é darunavir potencializado com ritonavir mais dolutegravir 50 mg a cada 12 h mais ITRN otimizado. Falha imunológica isolada (CD4 que não sobe apesar de carga viral indetectável) não é indicação de troca de esquema: exige investigar adesão, infecções, neoplasias e fatores como idade e nadir de CD4.
Após o início da TARV, repita a carga viral em 8 a 12 semanas esperando queda de pelo menos 1 log10 cópias/mL e, depois, carga viral e CD4 a cada 3 a 4 meses; com supressão sustentada e CD4 acima de 500, o intervalo pode se alongar para 6 meses em pacientes aderentes. A síndrome inflamatória de reconstituição imune (IRIS ou SIRI) acomete 10 a 30 por cento de quem inicia TARV com imunossupressão avançada, nas primeiras 4 a 8 semanas: piora paradoxal de infecção oportunista prévia ou oculta (tuberculose, micobacterioses, citomegalovírus, criptococose, herpes) pela recuperação abrupta da resposta imune específica. O manejo é manter a TARV, tratar a infecção de base e usar corticoide (prednisona 0,5 a 1 mg/kg/dia com retirada gradual) nos casos graves; casos muito graves e não reconhecidos podem exigir suspensão temporária.
A queda do CD4 define a profilaxia primária. Com a recuperação imune sob TARV, todas podem ser suspensas quando os limiares de CD4 se sustentam acima do corte por pelo menos 3 meses (repetição em duas medidas). Memorize os pares limiar e droga, porque aparecem em prova todos os anos.
| Infecção | Indicação | Esquema de escolha | Critério de suspensão |
|---|---|---|---|
| Pneumocistose (P. jirovecii) | CD4 menor que 200 céls/mm3 | Sulfametoxazol-trimetoprima 800 mais 160 mg/dia (ou 3 vezes por semana) | CD4 acima de 200 por mais de 3 meses |
| Toxoplasmose cerebral | CD4 menor que 100 céls/mm3 com IgG positiva | Mesma sulfametoxazol-trimetoprima em dose diária | CD4 acima de 200 por mais de 3 meses |
| Micobacteriose pelo complexo avium | CD4 menor que 50 céls/mm3 | Azitromicina 1.200 mg 1 vez por semana (ou claritromicina 500 mg a cada 12 h) | CD4 acima de 100 por mais de 3 meses |
| Tuberculose latente | Infecção latente documentada (IGRA ou PPD 5 mm ou mais) após descartar doença ativa | Isoniazida 300 mg/dia (ou 900 mg 2 vezes por semana) por 6 a 9 meses com piridoxina | Completação do esquema |
Não há profilaxia primária de rotina para criptococose ou histoplasmose mesmo em área endêmica: a estratégia é diagnóstico precoce. Vacinas vivas (tríplice viral, varicela, febre amarela) contraindicam-se com CD4 abaixo de 200 céls/mm3, e a BCG é contraindicada em qualquer pessoa vivendo com HIV.
A PrEP oral brasileira usa o comprimido combinado de tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg, 1 comprimido por dia de forma contínua (no restante do mundo, a combinação é tenofovir com emtricitabina, com eficácia equivalente). A proteção máxima para relações sexuais anais é alcançada após 7 dias de uso diário, e para exposição vaginal após 21 dias, diferença que decorre da farmacocinética tecidual e que explica por que o esquema sob demanda não serve para mulheres. O esquema chamado 2-1-1 (event-driven) foi validado apenas em homens que fazem sexo com homens no ensaio IPERGAY, com redução de 86 por cento das infecções: 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação, 1 comprimido 24 horas depois e 1 comprimido 48 horas depois da primeira dose.
| Aspecto | PrEP oral diária | PrEP sob demanda (2-1-1) | Cabotegravir injetável |
|---|---|---|---|
| Esquema | 1 comprimido por dia, contínuo | 2 comprimidos 2 a 24 h antes, 1 após 24 h e 1 após 48 h | 600 mg intramuscular a cada 2 meses, após 2 doses de início com 1 mês de intervalo |
| População validada | Todas, inclusive mulheres e pessoas que injetam drogas | Somente homens que fazem sexo com homens | Homens cis e trans e mulheres trans (HPTN 083) e mulheres cis (HPTN 084) |
| Tempo até proteção máxima | 7 dias para relações anais e 21 dias para vaginais | A partir de 2 horas da dose dupla para tecido anal | Após completar a fase de introdução |
| Eficácia | Superior a 90 por cento com boa adesão; iPrEx mostrou 44 por cento por intenção de tratar, reflexo da adesão irregular | Redução de 86 por cento (IPERGAY) | Redução adicional de 66 por cento versus PrEP oral (HPTN 083) e de 89 por cento (HPTN 084) |
| Monitoramento | Teste Ag/Ab de HIV e creatinina a cada 3 meses; sífilis e outras IST conforme risco | Igual ao diário, orientado aos eventos | Teste Ag/Ab de HIV antes de cada aplicação e rastreamento de integração |
A PrEP é indicada para pessoas com risco substancial e repetido de aquisição: parceria com carga viral detectável ou desconhecida, homens que fazem sexo com homens e mulheres trans com relações anais receptivas sem preservativo consistente, pessoas em contexto de alta prevalência, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis e quem repete PEP. Gravidez e amamentação não contraindicam a PrEP oral. O cabotegravir de ação prolongada, avaliado e incorporado no SUS após recomendação da Conitec, é opção para quem prefere não tomar comprimido diário, exigindo programa de acompanhamento trimestral rigoroso e janela longa após a última dose (os níveis persistem por meses, o que pode selecionar vírus resistente se a infecção ocorrer e não for detectada).
A PEP é indicada após exposição significativa de risco: acidente percutâneo com sangue (risco basal de transmissão de cerca de 0,3 por cento), exposição de mucosa (cerca de 0,09 por cento) ou de pele com solução de continuidade, e exposição sexual receptiva sem proteção com fonte sabidamente infectada com carga viral detectável ou de status desconhecido com alta probabilidade de infecção. Deve começar o mais rápido possível, sempre dentro de 72 horas, e ser mantida por 28 dias completos. O esquema brasileiro atual é tenofovir 300 mg mais lamivudina 300 mg (ou emtricitabina 200 mg) associado a dolutegravir 50 mg, todos 1 vez ao dia; raltegravir 400 mg a cada 12 h é alternativa em caso de intolerância ou interação.
Toda gestante com HIV deve iniciar ou manter TARV o quanto antes, com meta de carga viral indetectável no terceiro trimestre e no parto; o esquema preferido no Brasil é tenofovir mais lamivudina mais dolutegravir, considerado seguro na gestação. Parto vaginal é permitido com carga viral indetectável; com carga viral acima de 1.000 cópias/mL ou desconhecida, indica-se zidovudina intravenosa durante o trabalho de parto (carga de 2 mg/kg na primeira hora, seguida de infusão contínua de 1 mg/kg/h até o clampeamento), associada à consideração de cesárea. O recém-nascido recebe zidovudina oral nas primeiras 2 horas de vida por 6 semanas, escalonada para esquema triplo (com 3TC e nevirapina) quando a mãe não alcançou supressão viral. Com o conjunto de medidas, a transmissão vertical cai dos 15 a 45 por cento sem intervenção para menos de 1 por cento. A amamentação foi historicamente contraindicada no Brasil, com recomendações em atualização à luz da supressão viral sustentada.
Com TARV eficaz e diagnóstico precoce, a expectativa vida de quem vive com HIV aproxima-se da população geral, e a aids tornou-se condição crônica. Persiste, porém, excesso de risco cardiovascular, renal, ósseo, hepático e de neoplasias não definidoras (impulsionado por inflamação residual e por fatores tradicionais), além dos efeitos de classe: ganho de peso com dolutegravir e TAF, dislipidemia e lipodistrofia com inibidores da protease mais antigos, nefrotoxicidade e perda de densidade óssea com TDF, anemia e lipodistrofia com zidovudina. Pacientes com nadir de CD4 muito baixo mantêm risco aumentado de eventos não aids mesmo após recuperação imunológica, o que sustenta as campanhas de testagem rotineira em toda demanda espontânea por serviço de saúde e o início imediato do tratamento.
1.Homem de 34 anos, assintomático, com HIV diagnosticado nesta semana, CD4 de 620 céls/mm3 e carga viral de 8.000 cópias/mL. Qual a conduta?
2.Qual é o esquema inicial preferido para adultos no PCDT brasileiro de 2024?
3.Pessoa vivendo com HIV com CD4 de 140 céls/mm3 está em uso de TARV. Qual profilaxia primária deve estar em curso?
4.Técnico de enfermagem sofreu perfuração percutânea com agulha grosseira de paciente com HIV e carga viral detectável há 10 horas. Qual conduta?
5.Mulher cisgênero de 28 anos solicita PrEP sob demanda (esquema 2-1-1) porque viaja nos fins de semana. Qual a resposta correta?
6.Duas semanas após iniciar TARV com CD4 de 60 céls/mm3, paciente retorna com piora radiológica de tuberculose previamente tratada, febre e aumento de adenomegalias. Qual o diagnóstico e a conduta?
7.Antes de prescrever abacavir, qual exame é obrigatório?
8.O ensaio HPTN 052 (NEJM 2011) demonstrou qual benefício principal do tratamento precoce do HIV?
9.Paciente em TARV há 14 meses relata faltas frequentes; carga viral de 8.500 cópias/mL confirmada em duas amostras. Qual a causa mais provável e o primeiro passo?
10.Qual efeito adverso é característico do dolutegravir e da associação com tenofovir alafenamida?
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