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Revisão completa das arboviroses urbanas transmitidas pelo Aedes aegypti: classificação e sinais de alarme da dengue, realimentação volêmica por grupos (A a D) com volumes, diagnóstico laboratorial (NS1, sorologia, RT-PCR) com janelas, fisiopatologia do agravamento por anticorpos, síndrome congênita do Zika, artrite crônica da chikungunya e vacinas (Qdenga e Dengvaxia).
[1] World Health Organization. Dengue: guidelines for diagnosis, treatment, prevention and control. New edition. Geneva: WHO; 2009 · https://www.who.int/publications/i/item/9789241547871 | [2] Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico - adulto e criança. Brasília: Ministério da Saúde; 2011 · ISBN 978-85-334-2001-4 · http://bvsms.saude.gov.br | [3] Simmons CP, Farrar JJ, Nguyen VV, Wills B. Dengue. N Engl J Med. 2012;366(15):1423-1432 · DOI 10.1056/NEJMra1110265 | [4] Biswal S, Reynales H, Saez-Llorens X, et al. Efficacy of a Tetravalent Dengue Vaccine in Healthy Children and Adolescents. N Engl J Med. 2019;381(21):2009-2019 · DOI 10.1056/NEJMoa1903869 | [5] Pialoux G, Gaüzère BA, Jauréguiberry S, Strobel M. Chikungunya, an epidemic arbovirosis. Lancet Infect Dis. 2007;7(5):319-327 · DOI 10.1016/S1473-3099(07)70107-X | [6] Musso D, Gubler DJ. Zika Virus. Clin Microbiol Rev. 2016;29(3):487-524 · DOI 10.1128/CMR.00072-15 | [7] Rasmussen SA, Jamieson DJ, Honein MA, Petersen LR. Zika Virus and Birth Defects - Reviewing the Evidence for Causality. N Engl J Med. 2016;374(20):1981-1987 · DOI 10.1056/NEJMsr1604338 · DOI 10.1056/NEJMra1110265
Dengue, Zika e chikungunya são arboviroses urbanas transmitidas principalmente pelo mosquito Aedes aegypti que compartilham febre e exantema, mas divergem em complicação-chave: a dengue causa escape plasmático e choque, o Zika causa malformações congênitas e a chikungunya causa artrite incapacitante. A dengue é a arbovirose mais importante do mundo: a OMS estima 100 a 400 milhões de infecções por ano, com cerca de metade da população mundial exposta em mais de 129 países endêmicos. Em 2024, o Brasil viveu a maior epidemia da história, com cerca de 6 milhões de casos prováveis e quase 6 mil óbitos por dengue, além de surtos graves de chikungunya no Norte e Nordeste. Para a prova, o estudante precisa sair sabendo: sinais de alarme da dengue e manejo por grupos A a D com volumes de hidratação, janelas dos testes diagnósticos (NS1, IgM, RT-PCR), contraindicação de anti-inflamatórios e aspirina, e os diferenciais clínicos entre as três arboviroses.
Arboviroses são vírus mantidos em ciclos entre artrópodes (arthropod-borne) e vertebrados; no meio urbano brasileiro, o vetor dominante é o Aedes aegypti, mosquito diurno que se reproduz em água parada. Existem quatro sorotipos de vírus dengue (DENV 1 a 4); a infecção por um sorotipo confere imunidade permanente ao mesmo sorotipo e proteção temporária e parcial aos demais, e é a infecção secundária heterotípica que concentra o risco de dengue grave. Desde 2009 a OMS substituiu a classificação antiga (febre hemorrágica da dengue e síndrome do choque da dengue) por uma classificação mais sensível para a prática: dengue sem sinais de alarme, dengue com sinais de alarme e dengue grave, que correspondem, no protocolo brasileiro, aos grupos A/B, C e D de manejo.
O Brasil concentra a maior carga de dengue das Américas, com epidemias cíclicas de 3 a 5 anos associadas à entrada ou predomínio de novos genótipos e sorotipos (em 2024, cocirculação de DENV 1, 2 e 3). A chikungunya foi introduzida no país em 2014 (Feira de Santana, Bahia) e estabeleceu transmissão endêmica, com surtos de alta letalidade em idosos e recém-nascidos; a Zika causou a emergência nacional de microcefalia em 2015-2016, com epicentro em Pernambuco, levando a OMS a decretar emergência de saúde pública internacional. Todas as três doenças são de notificação compulsória no SINAN. Fatores de risco para dengue grave: infecção secundária heterotípica, extremos de idade (lactentes e idosos), gestação, diabetes, hipertensão, doença renal crônica, obesidade e hepatopatias. A letalidade da dengue grave tratada oportunamente cai para menos de 1%, mas o choque não reconhecido e mal hidratado pode matar em horas, o que faz do reconhecimento da fase crítica o coração da prova.
Na dengue, o vírus infecta dendríticos dérmicos, monócitos e macrófagos; a viremia e a proteína NS1 circulantes ativam complemento, mastócitos e cascata de citocinas (TNF-α, IL-6, IL-8), com disfunção do glicocálix endotelial e abertura das junções interendoteliais, gerando o escape plasmático característico da fase crítica. O mecanismo clássico cobrado em prova é o agravamento dependente de anticorpos (ADE): anticorpos não neutralizantes de uma infecção prévia por outro sorotipo formam complexos vírus-anticorpo que facilitam a entrada via receptores Fc-gama dos monócitos, aumentando a carga viral e a liberação de citocinas, por isso a dengue secundária é mais grave. A trombocitopenia combina supressão medular direta, destruição periférica imune e consumo; o aumento do hematócrito não é desidratação apenas, é hemoconcentração pelo escape de plasma.
Dengue clássica: febre alta (39-40 °C) de início súbito por 2 a 7 dias, cefaleia, dor retroorbitária, mialgias e artralgias intensas (febre quebra-ossos), prostração, náuseas, exantema maculopapular que pode surgir na convalescência com descamação e prurido, petéquias e prova do laço positiva. A chikungunya diferencia-se pela artralgia devastadora, simétrica, de mãos, punhos, tornozelos e pés, com incapacitação para marcha e, frequentemente, edema periarticular, além de febre alta de início abrupto com queda rápida em 2-3 dias. O Zika é a mais branda das três: febre baixa (37,5-38,5 °C) ou ausente, exantema maculopapular pruriginoso que começa no rosto e desce, conjuntivite não purulenta (hiperemia sem secreção), artralgia de pequenas articulações com edema, cefaleia e astenia, resolvendo-se em 3-7 dias.
| Achado | Dengue | Zika | Chikungunya |
|---|---|---|---|
| Febre | Alta (39-40 °C), 2-7 dias | Baixa ou ausente | Alta, abrupta, com queda em 2-3 dias |
| Sintoma dominante | Mialgia e cefaleia com dor retroorbitária, prostração | Exantema pruriginoso descendente | Poliartralgia simétrica incapacitante de pequenas articulações |
| Sinal ocular | Dor retroorbitária sem conjuntivite | Conjuntivite não purulenta (hiperemia sem pus) | Incomum |
| Exantema | Maculopapular, pode ser convalescente | Maculopapular pruriginoso, face para os pés | Maculopapular em parte dos casos (com descamação) |
| Hemorragia | Petéquias, prova do laço, sangramento de mucosas | Rara e leve | Rara (mais em coinfecção com dengue) |
| Complicação-chave | Escape plasmático, choque, disfunção de órgãos | Síndrome congênita do Zika e Guillain-Barré | Artrite crônica (meses a anos), formas atípicas (encefalite, miocardite) |
O diagnóstico é clínico-epidemiológico e a sorologia nunca atrasa a decisão terapêutica: a suspeita de dengue com sinais de alarme é indicação de internação e hidratação independentemente do resultado laboratorial. Na dengue, o antígeno NS1 (ELISA) é positivo na fase febril, sobretudo nos primeiros 5 dias, com sensibilidade relatada de aproximadamente 60-90% (maior no início e na infecção primária) e especificidade elevada (95-100%); A IgM (ELISA) torna-se positiva a partir do 5º-6º dia e persiste semanas a meses; a RT-PCR detecta RNA viral nos primeiros 5 dias e é o padrão de referência. A prova do laço tem sensibilidade baixa: negativa não exclui dengue. No Zika, a RT-PCR deve ser coletada precocemente em soro e, principalmente, em urina, onde o RNA persiste mais (até 2-3 semanas); a sorologia IgM/IgG sofre reatividade cruzada importante com outros flavivírus, inclusive vacina da febre amarela. Na chikungunya, a RT-PCR é útil na primeira semana (viremia dias 2-7) e a IgM a partir do fim da primeira semana.
| Método | Janela ideal | O que detecta | Limitação principal |
|---|---|---|---|
| NS1 (ELISA) | Dengue: dias 1 a 5 de sintomas | Antígeno viral circulante | Sensibilidade cai após o 5º dia e é menor na infecção secundária tardia |
| RT-PCR | Dengue dias 1-5; Zika soro dias 1-5 e urina até 2-3 semanas; chikungunya dias 2-7 | RNA viral (padrão de referência) | Custo e disponibilidade; Negativa fora da janela virêmica não exclui |
| IgM ELISA | A partir do 5º-6º dia | Infecção recente | Reatividade cruzada entre flavivírus (Zika, dengue, febre amarela vacinal) |
| IgG / par sorológico | Fase convalescente (2-3 semanas após a 1ª amostra) | Infecção pregressa ou soroconversão (aumento de 4 vezes do título) | Não distingue bem sorotipo nem fase aguda isoladamente |
Apoio laboratorial ao manejo da dengue: hemograma (leucopenia com linfopenia, trombocitopenia - tipicamente com nadir entre o 4º e o 7º dia), hematócrito como marcador de hemoconcentração (aumento de 20% ou mais do basal sugere escape plasmático importante), AST/ALT frequentemente elevadas, albumina baixa, e ultrassom mostrando derrame pleural, ascite ou espessamento da parede da vesícula. Diagnósticos diferenciais não arbovirais: leptospirose (icterícia, creatinina elevada, epidemiologia de enchentes), malária (área de mata, esfregaço), influenza e COVID-19, meningococcemia, sepse urinária e, nos exantemáticos, rubéola, sarampo, parvovirose e escarlatina, além das reações medicamentosas.
Não existe antiviral específico para dengue: o tratamento é sintomático e volêmico, e a decisão certa depende do grupo de classificação do paciente. Analgesia com paracetamol 15 mg/kg/dose a cada 6 horas na criança (máximo 4 doses/dia) ou 500-750 mg a cada 6 horas no adulto (máximo 3-4 g/dia). Anti-inflamatórios não esteroides e aspirina são contraindicados pelo risco hemorrágico (e de síndrome de Reye na criança); injeções intramusculares devem ser evitadas; corticoides e imunoglobulina não têm indicação estabelecida. Transfundir concentrado de plaquetas apenas em sangramento grave ou plaquetas abaixo de 10.000/mm³ com alto risco, nunca de rotina.
| Grupo | Quem é | Conduta | Local |
|---|---|---|---|
| A | Dengue sem sinais de alarme e sem fatores de risco | Hidratação oral reforçada, paracetamol, orientação de sinais de retorno | Domiciliar |
| B | Sem sinais de alarme, mas com fatores de risco (gestantes, lactentes menores de 2 anos, idosos, diabetes, hipertensão, doença renal ou hepática, obesidade) | Hidratação oral rigorosa com reavaliação em 24-48 h e plano de retorno claro; internar se intolerância oral | Ambulatorial com vigilância ou enfermaria |
| C | Dengue com sinais de alarme | Internação, hidratação venosa com cristaloide isotônico 5-7 mL/kg/h nas primeiras 1-2 horas, reduzindo para 2-3 mL/kg/h conforme resposta; monitorar hematócrito, diurese e sinais vitais a cada 2-4 h | Enfermaria com monitorização |
| D | Dengue grave (choque, sangramento grave, disfunção de órgãos) | Expansão imediata com bolus de cristaloide isotônico 20 mL/kg em 15-30 minutos (repetir conforme resposta), oxigênio e suporte de órgãos; após estabilização, desacelerar para 5-7 mL/kg/h e depois 2-3 mL/kg/h | UTI ou unidade com capacidade de ressuscitação |
Para o Zika, o manejo é sintomático (repouso, hidratação, paracetamol; evitar AINEs na gestação pelo risco de fechamento precoce do ducto arterioso) e o foco é a vigilância das complicações. Gestantes com exantema agudo ou contato devem ser investigadas com RT-PCR (soro e urina) e sorologia, encaminhadas para pré-natal de alto risco com ultrassonografia serial para pesquisar microcefalia (perímetro cefálico abaixo de 2 desvios-padrão para idade gestacional e sexo), calcificações cerebrais, ventriculomegalia, artrogripose e alterações oculares - o conjunto define a síndrome congênita do Zika. Recomenda-se sexo protegido (preservativo) durante a gestação após exposição ou infecção confirmada do parceiro, dado risco de transmissão sexual. Casos com fraqueza ascendente e arreflexia devem levantar hipótese de síndrome de Guillain-Barré pós-Zika e ser encaminhados para avaliação de imunoglobulina ou plasmaferese.
A Qdenga (TAK-003) é vacina viva atenuada tetravalente, com esquema de 2 doses por via subcutânea (0 e 3 meses), aprovada na Europa a partir dos 4 anos de idade. No ensaio de fase 3 TIDES, com mais de 20 mil crianças e adolescentes de 4 a 16 anos da Ásia e América Latina, a eficácia em 12 meses foi de 80,2% contra dengue sintomática e 95,4% contra hospitalização, sendo menor em baseline soronegativos (cerca de 75%). O Brasil incorporou a Qdenga ao calendário em 2024, iniciando a campanha em municípios de alta transmissão, priorizando adolescentes de 10 a 14 anos. Já a Dengvaxia (CYD-TDV) só pode ser aplicada em soropositivos para dengue (a partir dos 9 anos), porque estudos mostraram aumento de dengue grave e hospitalização em soronegativos vacinados - a vacina age como primeira infecção silenciosa: essa é a pegadinha clássica. Para chikungunya, a FDA aprovou em 2023 a vacina viva atenuada de dose única VLA1553 (IXCHIQ) para adultos com risco aumentado de exposição; não há vacina contra Zika licenciada.
Dengue: as complicações maiores (choque por escape plasmático, sangramento grave, disfunção hepática, cardíaca, neurológica ou renal) concentram-se na fase crítica; com reconhecimento precoce e hidratação adequada a letalidade é menor que 1%, mas choque persistente mal manejado pode ultrapassar 10-20% em serviços despreparados. Zika: a complicação que definiu a epidemia é a síndrome congênita (microcefalia e alterações de neuroimagem, oculares e articulares), além de Guillain-Barré no adulto; a infecção aguda é benigna na grande maioria. Chikungunya: a artralgia persistente é a principal causa de carga de doença crônica, com impacto funcional e laboral por meses a anos; formas neuroinvasivas e miocardite são raras, porém graves. Seguimento: alta apenas após estabilização hemodinâmica na dengue; seguimento ambulatorial da artrite pós-chikungunya com reabilitação; seguimento multidisciplinar especializado das crianças com síndrome congênita do Zika.
1.Menina de 9 anos com dengue há 4 dias apresenta hoje queda da febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, letargia e hepatomegalia dolorosa. Esses achados caracterizam:
2.O principal mecanismo que explica a maior gravidade da dengue secundária heterotípica é:
3.Sobre as fases clínicas da dengue, assinale a correta:
4.O teste ideal para confirmar dengue em paciente no 2º dia de febre é:
5.Adulto com dengue grave, hipotenso e oligúrico na enfermaria. A primeira medida terapêutica é:
6.A analgesia correta na fase aguda da dengue é:
7.Gestante no 1º trimestre com exantema maculopapular pruriginoso descendente, febre baixa e hiperemia conjuntival sem secreção. A hipótese principal e o risco fetal são:
8.A complicação mais característica e incapacitante da chikungunya é:
9.Sobre a vacinação contra dengue, assinale a correta:
10.Paciente com dengue na fase de recuperação, após choque tratado, mantém hidratação venosa alta e desenvolve dispneia com creptantes basais. O mecanismo é:
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