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Revisão completa da imunidade adaptativa para provas: propriedades cardinais, desenvolvimento e seleção tímica dos linfócitos T, os três sinais de ativação com MHC I e II, subpopulações Th1/Th2/Th17/Tfh/Treg, biologia das células B, centro germinativo com hipermutação somática e troca de classe, isotipos de imunoglobulinas, memória imunológica, imunodeficiências correlatas e terapias modernas como CAR-T e inibidores de checkpoint.
[1] Bonilla FA, Oettgen HC. Adaptive immunity. J Allergy Clin Immunol. 2010;125(2 Suppl 2):S33-S40 · DOI 10.1016/j.jaci.2009.09.017 · PMID 20061006 | [2] Chaplin DD. Overview of the immune response. J Allergy Clin Immunol. 2010;125(2 Suppl 2):S3-S23 · DOI 10.1016/j.jaci.2009.12.980 | [3] Abbas AK, Lichtman AH, Pillai S. Cellular and Molecular Immunology. 10ª ed. Elsevier; 2022 | [4] Murphy K, Weaver C. Janeway's Immunobiology. 9ª ed. Garland Science; 2017 | [5] Maude SL, Laetsch TW, Buechner J, et al. Tisagenlecleucel in Children and Young Adults with B-Cell Lymphoblastic Leukemia. N Engl J Med. 2018;378(5):439-448 · DOI 10.1056/NEJMoa1709866 · PMID 29385370 · DOI 10.1016/j.jaci.2009.09.017
A imunidade adaptativa é o ramo da resposta imune mediado por linfócitos T e B que reconhece antígenos específicos por meio de receptores gerados aleatoriamente por recombinação somática. A imunidade inata responde em minutos a horas com receptores codados na linhagem germinativa (TLRs, NLRs, complemento), mas não melhora com a repetição da exposição. A resposta adaptativa é mais lenta (dias), porém entrega três atributos que a inata não tem: especificidade fina para epítopos únicos, diversidade de repertório estimada em cerca de 10 elevado a 9 especificidades distintas de TCR e BCR no indivíduo adulto, e memória imunológica, que faz a segunda exposição ser mais rápida, mais intensa e mais eficaz. Na prática clínica, praticamente tudo depende desse sistema: a resposta às vacinas, a rejeição de transplantes, as doenças autoimunes e alérgicas, os mecanismos de escape tumoral e as terapias modernas (anticorpos monoclonais, inibidores de checkpoint, CAR-T). Para as provas de imunologia, os temas mais cobrados são a restrição ao MHC, os três sinais de ativação, a seleção tímica e o correlato fenotípico das imunodeficiências primárias.
Define-se imunidade adaptativa como o conjunto de respostas efetoras antigênico-específicas mediadas por linfócitos, que se desenvolvem após exposição ao antígeno, são amplificadas por expansão clonal e deixam memória de longa duração. Ela se divide em imunidade celular (mediada por linfócitos T, contra antígenos intracelulares apresentados por MHC) e imunidade humoral (mediada por anticorpos produzidos por plasmócitos derivados de linfócitos B, contra antígenos extracelulares). As propriedades cardinais, cobradas em prova como lista, são a seguir.
| Característica | Imunidade inata | Imunidade adaptativa |
|---|---|---|
| Receptores | PRRs fixos na linhagem germinativa, como TLR4 (LPS) e NLR | TCR e BCR gerados por recombinação V(D)J somática |
| Tempo de resposta | Minutos a horas | Dias; pico da resposta primária em 5 a 10 dias |
| Especificidade | Padrões moleculares conservados (PAMPs) | Epítopos únicos; distingue proteínas com um aminoácido diferente |
| Memória | Ausente; resposta idêntica a cada exposição | Presente; resposta secundária mais rápida, intensa e de maior afinidade |
| Células centrais | Neutrófilos, macrófagos, NK e células dendríticas | Linfócitos T (CD4 e CD8) e linfócitos B |
| Moléculas efetoras | Complemento, citocinas inflamatórias, defensinas | Anticorpos, citocinas regulatórias, citotoxicidade por perforina e granzimas |
| Dependência de MHC | Não requer apresentação antigênica | Linfócitos T só reconhecem péptidos apresentados por MHC I ou II |
Os progenitores linfoides originados na medula óssea colonizam o timo, onde completam a maturação em estágios definidos por marcadores CD4 e CD8. Os timócitos iniciam como duplos-negativos (CD4 negativo e CD8 negativo, estágios DN1 a DN4); no estágio DN3, o rearranjo do locus da cadeia beta do TCR pelas recombinases RAG1 e RAG2 gera o pré-TCR, que sinaliza proliferação e avanço para o estágio duplo-positivo CD4 positivo e CD8 positivo, quando ocorre o rearranjo da cadeia alfa. O TCR maduro alfa-beta então é testado em duas rodadas de seleção no córtex e na medula tímica. Mais de 95% dos timócitos morrem no timo: ou não reconhecem MHC próprio (falha na seleção positiva, morte por negligência) ou reconhecem MHC próprio com afinidade alta (deleção na seleção negativa). A saída do timo é máxima na infância e decai com a involução tímica progressiva após a puberdade, substituída por tecido adiposo (involução lipomatosa), o que explica a pior reconstituição imune de adultos submetidos a transplante de medula ou quimioterapia intensiva.
O linfócito T naive é metabolicamente quiescente e precisa de três sinais integrados para se ativar. O sinal 1 é o reconhecimento específico: o TCR associado ao complexo CD3 (cadeias gama, delta, épsilon e zeta com motivos ITAM) lê o péptido apresentado pelo MHC, enquanto o correceptor CD4 (MHC II) ou CD8 (MHC I) estabiliza a interação. O sinal 2 é a coestimulação: o CD28 do linfócito liga CD80 (B7-1) e CD86 (B7-2) na célula apresentadora maturada por PAMPs ou DAMPs. Sem sinal 2, o reconhecimento do antígeno leva a anergia ou apoptose, mecanismo fisiológico de tolerância periférica e alvo farmacológico (abatacepte, CTLA-4-Ig, no lúpus e na artrite reumatoide). O sinal 3 é a polarização por citocinas do microambiente, que define o destino do linfócito ativado: IL-12 dirige Th1, IL-4 dirige Th2, IL-6 com TGF-beta e IL-23 dirigem Th17, IL-2 e TGF-beta favorecem Treg, e IL-6 com IL-21 induzem Tfh.
| Sinal | Moléculas envolvidas | Consequência |
|---|---|---|
| Sinal 1 — especificidade | TCR-CD3 com péptido-MHC; correceptor CD4 (MHC II) ou CD8 (MHC I) | Transdução via ITAMs, ativação de ZAP-70, NFAT, AP-1 e NF-kB; define qual clone responde |
| Sinal 2 — coestimulação | CD28 do T com CD80/CD86 da APC; pares alternativos ICOS-ICOSL e CD40-CD40L | Evita anergia, permite produção de IL-2 e entrada em ciclo; sem ele há tolerância |
| Sinal 3 — polarização | IL-12, IL-4, IL-6, TGF-beta, IL-23, IL-21 vindas da APC e do ambiente | Define a linhagem filha (Th1, Th2, Th17, Tfh, Treg) e o tipo de resposta efetora |
A ativação é freada por pontos de controle com localização distinta, distinção que cai em prova. O CTLA-4 (CD152) é induzido horas após a ativação e compete com o CD28 pelo CD80/CD86 com afinidade muito maior, atuando principalmente no linfonodo durante o priming; o anti-CTLA-4 ipilimumabe é usado no melanoma. O PD-1 é induzido dias depois nas células T efetoras de tecidos inflamatórios e, ao ligar PD-L1 e PD-L2, limita a atividade efetora na periferia; nivolumabe, pembrolizumabe e atezolizumabe bloqueiam esse eixo com resposta em melanoma, carcinoma pulmonar e vários tumores, ao preço de eventos adversos autoimunes (colite, tiroidite, hepatite, hipofisite), chamados efeitos imunorrelacionados. Tumores que expressam PD-L1 exploram exatamente esse freio para escapar da imunidade celular.
Ativado, o linfócito CD4 diferencia-se em linhagens efetoras definidas por fator transcripcional indutor, citocina de polarização e função. Essa tabela é uma das mais cobradas de imunologia: memorize as tríades fator-citocina-função.
| Linhagem | Fator transcricional | Citocinas marcantes | Função principal e correlato clínico |
|---|---|---|---|
| Th1 | T-bet | Produz IFN-gama e IL-2; induzida por IL-12 | Ativa macrófagos (resposta inflamatória clássica) e ajuda CD8; defesa contra micobactérias e vírus; exarceba doenças mediadas por macrófagos |
| Th2 | GATA3 | Produz IL-4, IL-5 e IL-13; induzida por IL-4 | Recruta eosinófilos, orienta troca de classe para IgE e alternativa ao ativar macrófagos; helmintos e doenças alérgicas como asma e rinite |
| Th17 | RORgammat | Produz IL-17A, IL-17F e IL-22; induzida por IL-6 com TGF-beta e estabilizada por IL-23 | Recruta neutrófilos e mantém barreiras mucocutâneas; essencial contra Candida e bactérias extracelulares; implicada em esclerose múltipla, psoríase e espondiloartrite; alvo dos anti-IL-17 (secuquinumabe) |
| Tfh | Bcl6 | Produz IL-21 e IL-4; migra ao folículo com CXCR5 | Sustenta o centro germinativo: seleciona B, induz hipermutação somática, troca de classe e diferenciação em plasmócito e memória |
| Treg | FOXP3 | Produz IL-10 e TGF-beta; dependente de IL-2 | Suprime respostas (anergy via CTLA-4, citocinas supressoras); tolerância periférica; deficiência de FOXP3 causa IPEX |
O linfócito T CD8 citotóxico reconhece péptidos endógenos (vírus, tumor) em MHC I, presente em praticamente todas as células nucleadas, e mata o alvo por três mecanismos: exocitose de grânulos com perforina, que forma poros na membrana, e granzima B, serina protease que ativa caspases e dispara apoptose; ligação de FasL ao Fas do alvo (via caspase 8); e secreção de IFN-gama, com ação antiviral e aumento da expressão de MHC I nas células vizinhas. Antes de matar, o CD8 faz sinapse imunológica dependente de integrina LFA-1 com ICAM-1 e dirige o conteúdo dos grânulos apenas à célula-alvo, poupando vizinhas. A ativação primária de CD8 naive costuma exigir ajuda de CD4 (licenciamento da APC pelo CD40-CD40L), razão pela qual deficiências de interação T-B e T-APC, como a hiper-IgM por mutação de CD40L, cursam com suscetibilidade a vírus e oportunistas, e não apenas a bactérias piogênicas.
Os linfócitos B completam a maturação na medula óssea, o equivalente humano da bolsa de Fabricius das aves (daí o nome célula B). O desenvolvimento segue estágios ordenados por rearranjos sequenciais das imunoglobulinas: no pro-B, RAG1/2 rearranja o locus da cadeia pesada (DH para JH e então VH para DJH) com adição de nucleotídeos N pela TdT, gerando diversidade de junção; no pré-B, a cadeia pesada mu aparece na membrana pareada com cadeias substitutivas (cadeias leves artificiais), sinaliza proliferação e permite o rearranjo dos loci kappa e lambda; o B imaturo expressa IgM completa e é testado contra antígenos próprios da medula. A tolerância central B tem três desfechos: deleção clonal de autorreativos fortes, edição receptoral (novos rearranjos de cadeia leve que trocam a especificidade, exclusivamente descritos em B) e anergia para os fracos, que migram com meia-vida curta. O B transitional sai para o baço, amadurece e passa a expressar IgM e IgD do mesmo rearranjo (emparelhamento por splicing alternativo de RNA) além dos marcadores CD19, CD20, CD21, CD23 e CD40, que definem o fenótipo B maduro usado em prova e no imunofenótipo de linfomas.
A ativação B ocorre por duas vias com consequências práticas distintas. Na via T-independente, antígenos polivalentes com epitopos repetidos (polissacarídeos capsulares de pneumococo, LPS, DNA bacteriano) reticulam o BCR múltiplas vezes e ativam o B diretamente, sobretudo os B da zona marginal esplênica e os B-1, primeira linha de resposta a antígenos encapsulados: a resposta é rápida, dominada por IgM, com pouca troca de classe, sem hipermutação somática e com memória limitada; é por isso que idosos e crianças pequenas respondem mal às vacinas polissacarídicas puras (exemplo, Pneumovax 23 não induz boa memória antes dos 2 anos). Na via T-dependente, antígenos proteicos são internalizados pelo BCR, processados e apresentados em MHC II ao TCR do Tfh; o sinal 2 vem do CD40 do B ligando CD40L (CD154) do Tfh, e as citocinas (IL-4, IL-21) dirigem a troca de classe. Essa dependência é a base racional das vacinas conjugadas: ao ligar o polissacarídeo capsular a uma proteína carreadora, o epítopo passa a recrutar Tfh, gerando troca de classe, hipermutação e memória duradoura, como nas vacinas antipneumocócicas e anti-Haemophilus conjugadas da infância.
| Característica | Resposta T-independente | Resposta T-dependente |
|---|---|---|
| Antígeno típico | Polissacarídeos capsulares, LPS, epítopos repetidos | Proteínas solúveis, toxoides, vacinas conjugadas |
| Local principal | Zona marginal do baço e folículos extra | Folículos e centro germinativo do linfonodo e do baço |
| Isotipo produzido | IgM predominante, pouca troca de classe | IgG, IgA e IgE após troca de classe orientada por citocinas |
| Hipermutação somática | Ausente; afinidade baixa e invariável | Presente no centro germinativo, com maturação da afinidade |
| Memória | Curta e sem reforço importante | Robusta, com B de memória CD27 positivo e resposta secundária 10 a 100 vezes maior |
| Idade e imaturidade | Precisa zona marginal madura; ruim antes de 2 anos | Presente desde o nascimento, base do calendário vacinal infantil |
Na resposta T-dependente, os B ativados proliferam intensamente e organizam folículos secundários com centro germinativo dividido em zonas funcionais. Na zona escura, os centroblastos dividem-se a cada 6 a 12 horas e submetem os genes das regiões variáveis à hipermutação somática pela enzima AID (citidina desaminase induzida por ativação), que introduce mutações pontuais na taxa de cerca de 10 elevado a menos 3 por base por geração, um milhão de vezes acima da taxa espontânea. Na zona clara, os centrócitos testam a afinidade do BCR pelos antígenos mantidos sobre as células dendríticas foliculares: os que capturam antígeno com alta afinidade o processam, apresentam a Tfh e recebem sinais de sobrevivência (CD40, IL-21); os que falham morrem por apoptose. Rodadas sucessivas de mutação e seleção produzem a maturação da afinidade, fenômeno que explica por que os títulos e a avidez dos anticorpos sobem semanas após a vacinação. Os descendentes seguem dois destinos: plasmóblastos e plasmócitos, que migram à medula óssea e produzem anticorpos por meses a anos (as IgG com meia-vida de 21 dias dependem dessa produção contínua), e células B de memória CD27 positivas, quiescentes e prontas para reativacão rápida.
A AID tem segunda função essencial: a troca de classe (class switch recombination), que substitui a região constante mu por gama, alfa ou épsilon por recombinação das regiões switch, mantendo a mesma especificidade VDJ. As citocinas orientam o destino: IL-4 favorece IgE e IgG4, IFN-gama favorece IgG3 e IgG1 opsonizantes, TGF-beta favorece IgA mucosa, e IL-21 do Tfh é central para todo o processo. Defeitos que interrompem a ajuda T destroem essa arquitetura: na síndrome hiper-IgM ligada ao X, a mutação de CD40L impede o sinal 2 entre T e B, o paciente mantém IgM elevada com IgG, IgA e IgE muito baixas, não forma centros germinativos nem folículos organizados e sofre infecções piogênicas recorrentes somadas a oportunistas como Pneumocystis jirovecii e Criptosporidium (que pode causar colangite esclerosante). Mutação de AID causa forma autossômica recessiva da mesma síndrome, sem o componente de defeito T-macrófago.
Os anticorpos executam cinco funções que devem ser citadas em prova: neutralização de toxinas e vírus (bloqueio da ligação ao receptor), opsonização via receptores Fc de fagócitos, ativação do complemento pela via clássica (C1q liga a porção Fc de IgM ou IgG imóveis no antígeno), citotoxicidade celular dependente de anticorpo (ADCC, com células NK ligando IgG via FcgamaRIII/CD16) e transferência passiva, incluindo o transporte transplacentário ativo de IgG pelo receptor FcRn, que concentra IgG materna no feto a partir da 13ª a 16ª semana com pico no parto. A dominância de cada função depende do isotipo.
| Isotipo | Concentração sérica aproximada no adulto | Meia-vida | Funções marcantes |
|---|---|---|---|
| IgM | 0,4 a 2,3 g/L (cerca de 5 a 10% das Ig) | 5 dias | Pentâmero com 10 sítios (alta avidez); primeira produzida na resposta primária; ativador potente do complemento; monômero é receptor BCR |
| IgG | 7 a 16 g/L (cerca de 70 a 75%) | 21 dias | Opsonização, ADCC e complemento (IgG3 mais potente, depois IgG1 e IgG2); única que atravessa a placenta; subclasses: IgG1 60-70%, IgG2 20-30% contra polissacarídeos, IgG3 5-8%, IgG4 1-4% |
| IgA | 0,7 a 4 g/L no soro; cerca de 5 a 15 g por dia nas secreções | 6 dias | Imunidade de mucosas: dimeriza com cadeia J e é transportada para lágrimas, saliva, leite e trato intestinal pelo componente secretório; neutraliza sem inflamar |
| IgE | cerca de 0,0002 g/L (a menor concentração) | 2 a 3 dias no plasma, semanas nos mastócitos | Liga com alta afinidade o Fc épsilon RI de mastócitos e basófilos: resposta alérgica imediata e defesa contra helmintos |
| IgD | traços (menos de 1%) | 3 dias | Receptor de BCR do linfócito B naive junto com IgM; papel imunorregulador ainda em estudo |
A memória é a marca registrada da imunidade adaptativa e o princípio de toda vacinação. Na resposta primária, o retardo (lag) é de 5 a 10 dias, o isotipo inicial é IgM com posterior troca para IgG, os títulos são modestos e a afinidade, baixa. Na resposta secundária, os clones de memória (T central de memória CCR7 e CD62L altos residentes em linfonodos; T efetor de memória em tecidos; B de memória CD27 positivo) reagem em 1 a 3 dias, produzem de imediato IgG de alta afinidade em títulos 10 a 100 vezes maiores e diferenciam novos plasmócitos. As vacinas vivas atenuadas (sarampo, varicela, rubéola, BCG) mimetizam infecção natural e geram memória duradoura com poucas doses; as inativadas e subunitárias (gripe, hepatite B, COVID de subunidade) exigem adjuvantes (sais de alumínio, MF59) e esquemas de múltiplas doses, como o clássico 0, 1 e 6 meses da vacina contra hepatite B. A imunidade de grupo exige cobertura de 1 menos 1 sobre R0; para sarampo, com R0 de 12 a 18, o alvo ultrapassa 95% da população, meta que explica a exigência de altas coberturas no calendário brasileiro.
Cada etapa do desenvolvimento de T e B tem sua doença-porta. A análise imunológica básica (contagem de linfócitos, subconjuntos por citometria e dosagem de imunoglobulinas) localiza o defeito e praticamente entrega o diagnóstico nos clássicos a seguir.
| Doença | Defeito | Achados laboratoriais | Infecções e pistas clínicas |
|---|---|---|---|
| Síndrome de DiGeorge (deleção 22q11.2) | Hipoplasia tímica e paratireoidiana (terceiro e quarto bolsões) | T baixos com B normais; anticorpos variáveis | Virais, fúngicas e Pneumocystis; hipocalcemia com tetania no RN, cardiopatia conotruncal, fenda palatina |
| Agammaglobulinemia de Bruton (BTK, ligada ao X) | Bloqueio da maturação do pré-B para B na medula | B circulantes ausentes; todas as Ig baixas; tonsilas e folículos linfoides ausentes | Otites, sinusites e pneumonias por piogênicos encapsulados a partir dos 6 meses; giardíase por défice de IgA secretora |
| Hiper-IgM ligada ao X (CD40LG) | Ausência do sinal 2 T-dependente (CD40L) | IgM alta com IgG, IgA e IgE baixas; sem centros germinativos | Piogênicas mais oportunistas: Pneumocystis, Criptosporidium com colangite esclerosante; neutropenia |
| SCID (IL2RG ligada ao X; deficiência de ADA) | Diferenciação linfoide global | Linfócitos muito baixos; T ausentes (com B e NK variáveis conforme o tipo) | Infecções graves e candidíase nos primeiros meses de vida; BCG disseminada; vacina rotavírus contraindicada |
| IPEX (FOXP3) | Falência das Treg | Eosinofilia e IgE altas; autoanticorpos | Enteropatia autoimune, dermatite eczematoide, diabetes neonatal e tireoidite |
| Imunodeficiência comum variável (CVID) | Diferenciação terminal de B (poligênico) | IgG e IgA baixas com número B normal | Infecções sinopulmonares recorrentes no adulto jovem, granulomas, trombocitopenia imune e maior risco de linfoma |
O conhecimento dos mecanismos adaptativos virou medicamento. A reposição de anticorpos com imunoglobulina humana intravenosa (400 a 800 mg por kg a cada 3 a 4 semanas) é o tratamento de imunodeficiências humorais como Bruton e CVID. O rituximabe, anticorpo monoclonal anti-CD20 (375 mg por m quadrado semanal por 4 semanas em linfomas), depleta B CD20 positivos e é usado em linfoide B, lúpus com nefrite e vasculites com ANCA; antes do uso, rastrear hepatite B, pois a reativação é frequente. Os anti-TNF (infliximabe 5 mg por kg) e os anti-IL-17 (secuquinumabe) modulam eixos Th1 e Th17 nas doenças autoimunes. O abatacepte (CTLA-4-Ig) bloqueia coestimulação, e o belatacepte evita rejeição de transplante renal pelo mesmo mecanismo. O auge é a terapia CAR-T: o tisagenlecleucel reprograma linfócitos T do próprio paciente com um receptor quimérico anti-CD19 (dose de 0,2 a 5 milhões de células CAR positivas por kg em pacientes até 50 kg) e alcançou taxa de remissão de 81% em 3 meses na leucemia linfoide aguda B refratária pediátrica e do adulto jovem, no ensaio ELIANA; a principal toxicidade é a síndrome de liberação de citocinas, tratada com tocilizumabe, antagonista do receptor de IL-6.
1.Um linfócito T citotóxico CD8 reconheceu um péptido viral. Qual molécula apresentou esse antígeno e em qual tipo celular?
2.Um lactente de 4 meses com hipocalcemia, tetania, cardiopatia conotruncal e ausência de timo à radiografia tem, no hemograma, linfopenia acentuada. Qual o defeito imunológico?
3.Criança com otites e pneumonias de repetição desde os 6 meses, tonsilas ausentes, ausência de folículos linfoides na biópsia e todas as imunoglobulinas muito baixas. Qual o diagnóstico e o mecanismo?
4.O que acontece com um linfócito T naive que reconhece péptido-MHC com alta afinidade mas sem receber sinal de coestimulação?
5.Menino com infecções piogênicas recorrentes, Pneumocystis jirovecii e colangite por Criptosporidium; dosagens: IgM muito elevada com IgG, IgA e IgE muito baixas. Qual a molécula deficiente?
6.Semanas após a vacinação, os anticorpos contra o antígeno apresentam títulos maiores e afinidade significativamente superior aos da primeira semana. Qual processo explica a melhora da afinidade?
7.Qual linhagem de célula T CD4 é caracterizada por RORgammat, produção de IL-17 e recrutamento de neutrófilos nas barreiras mucocutâneas?
8.Um recém-nascido com sorologia positiva para IgM anti-CMV e IgG materna normal deve ser interpretado como:
9.Qual par de moléculas representa o principal ponto de controle imunológico que age na fase efetora, nos tecidos inflamatórios, e é bloqueado pelo pembrolizumabe?
10.Sobre a resposta T-independente a polissacarídeos capsulares, qual afirmação é correta?
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