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Revisão completa da evolução dos modelos de ativação imune: self/non-self de Burnet, sinal inato de Janeway e danger model de Matzinger. Cobre PAMPs e DAMPs, receptores PRR (TLRs, NLRs, RLRs e lectinas), inflamassomo NLRP3, sinais 1 e 2 da ativação de linfócitos T, apresentação cruzada e as consequências clínicas: adjuvantes vacinais, gota, transplante e imunidade antitumoral.
[1] Abbas AK, Lichtman AH, Pillai S. Abbas Imunologia Celular e Molecular. 10ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022 · capítulos de imunidade inata e ativação de linfócitos | [2] Matzinger P. Tolerance, Danger, and the Extended Family. Annu Rev Immunol. 1994;12:991-1045 · DOI 10.1146/annurev.iy.12.040194.005015 | [3] Matzinger P. The Danger Model: A Renewed Sense of Self. Science. 2002;296(5566):301-305 · DOI 10.1126/science.1071059 | [4] Kumar H, Kawai T, Akira S. Pathogen recognition in the innate immune response. Biochem J. 2009;420(1):1-16 · DOI 10.1042/BJ20090272 · PMID 19382893 | [5] Ridker PM, Everett BM, Thuren T, et al. Antiinflammatory therapy with canakinumab for atherosclerotic disease (CANTOS). N Engl J Med. 2017;377(12):1119-1131 · DOI 10.1056/NEJMoa1707914 · DOI 10.1146/annurev.iy.12.040194.005015
Por que o organismo monta resposta imune contra um enxerto, contra um tumor, mas tolera trilhões de bactérias na luz intestinal e um feto que carrega metade dos genes de outro indivíduo? A resposta a essa pergunta estruturou um dos debates intelectuais mais importantes da imunologia do século XX e convergiu para um conceito que hoje organiza vacinologia, autoimunidade, transplante e oncologia imunológica: a imunidade adaptativa não decide sozinha o que atacar. Ela recebe instruções da imunidade inata, que detecta padrões moleculares de microrganismos e sinais de alarme liberados por células que morrem de forma violenta. Entender esse eixo PRR-PAMP-DAMP e os sinais 1 e 2 de ativação linfocitária é entender por que adjuvante existe, por que a gota inflama sem nenhum micróbio e por que inibidores de checkpoint funcionam apenas em alguns tumores.
A teoria da seleção clonal, formulada por MacFarlane Burnet (prêmio Nobel de 1960, dividido com Peter Medawar pelos estudos de tolerância imunológica), estabeleceu que linfócitos nascem com receptores aleatórios e que os clones que reagem contra o próprio corpo são deletados durante o desenvolvimento: o sistema imune aprenderia a distinguir self de non-self no timo e na medula óssea. O modelo explicou a tolerância central, a tolerância a antígenos encontrados na vida embrionária (experiências de Medawar com camundongos) e a especificidade da resposta adaptativa, e permanece a base da imunologia moderna.
Em 1989, Charles Janeway propôs, em conferência que ficou célebre (Approaching the asymptote), que o sistema imune inato carrega receptores codificados na linhagem germinativa (pattern recognition receptors, PRRs) que reconhecem padrões moleculares conservados e essenciais dos microrganismos (pathogen-associated molecular patterns, PAMPs), ausentes das células de mamífero: lipopolissacarídeo de Gram-negativos, ácido lipoteicóico de Gram-positivos, peptidoglicano, flagelina, DNA bacteriano rico em CpG não metilado, RNA de fita dupla viral. O reconhecimento de um PAMP por uma célula apresentadora de antígeno seria o sinal zero: ele licenciaria a célula dendrítica a expressar moléculas de coestimulação e citocinas, sem as quais o linfócito T não responde apropriadamente. A previsão teórica foi confirmada em 1997, quando Medzhitov e Janeway clonaram o homólogo humano do receptor Toll de Drosophila, e explodiu com a identificação da família dos Toll-like receptors e das demais classes de PRRs, trabalho que rendeu o Nobel de 2011 a Beutler e Hoffmann (dividido com Steinman, pelas células dendríticas).
Em 1994, Polly Matzinger publicou na Annual Review of Immunology o artigo Tolerance, Danger, and the Extended Family, propondo que o sistema imune não responde ao que é estranho, mas ao que é perigoso: células do próprio corpo que sofrem estresse, dano ou morte não programada liberam ou expõem sinais de alarme (mais tarde chamados DAMPs, danger-associated molecular patterns) que ativam as células apresentadoras de antígeno. O professor da resposta imune, no danger model, não é o self nem o non-self, é a célula dendrítica que recebeu sinal de perigo. Em 2002, na Science, Matzinger refinou o modelo: o sistema imune seria um sistema de defesa em camadas que responde a alarmes teciduais, e a tolerância dependeria da ausência desses alarmes no contexto em que o antígeno é encontrado.
O danger model resolve as falhas do self/non-self de uma vez: a placenta não libera sinais de perigo (e ainda cria barreiras imunossupressoras locais), por isso o feto é tolerado; a microbiota comensal habita a luz intestinal sem causar dano celular e é apresentada em contexto sem alarme, gerando tolerância oral; a resposta a vacinas inativadas só acontece quando o adjuvante fornece o sinal de perigo artificial; o tumor que morre silenciosamente é ignorado, mas o tumor que sofre necrose ou é tratado com radioterapia e quimioterápicos imunogênicos libera DAMPs e vira alvo; enxertos bem preservados, com pouca lesão de isquemia-reperfusão, despertam resposta mais fraca. A crítica clássica ao modelo é que o corpo constantemente renova tecidos por morte celular programada (apoptose) sem inflamação, e a resposta foi justamente essa: morte programada é silenciosa, morte necrótica é barulhenta, e existem circuitos regulatórios (Treg, IL-10, TGF-beta) que mantêm a tolerância nos tecidos em renovação contínua.
PAMPs e DAMPs são os dois grandes grupos de ligantes endógenos dos PRRs, e distinguir um do outro é ponto garantido de prova. PAMPs são moléculas conservadas de microrganismos, essenciais à sua sobrevivência e ausentes no hospedeiro. DAMPs são moléculas do próprio hospedeiro, inócuas em seu compartimento normal (núcleo, mitocôndria, citosol), que se tornam sinalizadoras de perigo quando liberadas ou deslocadas para o espaço extracelular ou para compartimentos onde não deveriam estar. O destino celular define tudo: apoptose empacota o conteúdo em blebs retirados por fagócitos antes de romper a membrana (morte silenciosa, sem DAMPs), enquanto necrose rompe a membrana e despeja o conteúdo (morte barulhenta).
| Grupo | Exemplos | Origem e contexto | Receptor típico |
|---|---|---|---|
| PAMPs | LPS de Gram-negativos; ácido lipoteicóico e peptidoglicano de Gram-positivos; flagelina; DNA CpG não metilado; RNA de fita dupla; beta-glucanos e mananas fúngicas | Componentes essenciais e conservados de microrganismos | TLR4, TLR2, TLR5, TLR9, TLR3, dectin-1 |
| DAMPs nucleares | HMGB1 (cromatina); histonas; DNA próprio | Liberação por necrose; HMGB1 é mediador tardio da sepse (24-72 h) | TLR4, TLR9, RAGE |
| DAMPs mitocondriais | DNA mitocondrial (com CpG, de origem bacteriana); peptídeos N-formilmetionilados; ROS | Trauma e choque rompem mitocôndrias; explicam a inflamação sistêmica pós-trauma | TLR9, FPR1, NLRP3 |
| DAMPs metabólicos | ATP extracelular; ácido úrico (cristais de urato monossódico); cristais de pirofosfato de cálcio | Lise celular e metabolismo alterado; gatilhos da gota e da condrocalcinose | P2X7 (ATP), NLRP3 (cristais) |
| DAMPs de estresse | Proteínas de choque térmico (HSP70, gp96); S100A8/A9; IL-1 alfa pré-formada; fragmentos de ácido hialurônico | Células estressadas que não morrem expõem ou secretam esses sinais | TLR2/TLR4, RAGE, NLRP3 |
Os TLRs são receptores transmembrana com domínio leucina-rich repeat voltado para o lúmen (reconhecimento) e domínio TIR intracelular que recruta adaptadores. Localizam-se na membrana plasmática (TLR1, 2, 4, 5, 6) para detectar componentes de superfície de microrganismos, ou no endossomo (TLR3, 7, 8, 9), onde reconhecem ácidos nucleicos estranhos após internalização. Quase todos sinalizam pelo adaptador MyD88, ativando NF-kB e a produção de citocinas inflamatórias (TNF, IL-1, IL-6, IL-12); TLR3 e TLR4 usam adicionalmente o adaptador TRIF, que ativa IRF3 e a produção de interferon tipo I. O TLR4 é o único que sinaliza pelas duas vias, MyD88 na membrana e TRIF do endossomo.
| Receptor | Ligante principal | Localização | Nota clínica e de prova |
|---|---|---|---|
| TLR4 (+ MD2 e CD14) | LPS de bactérias Gram-negativas; também HMGB1 | Membrana plasmática | Choque endotóxico; a LPS-binding protein transfere o LPS ao CD14/MD2; usa MyD88 e TRIF |
| TLR2/TLR1 (heterodímero) | Lipopeptídeos triacilados, micobactérias | Membrana | Resposta a mycobactérias e treponemas |
| TLR2/TLR6 (heterodímero) | Ácido lipoteicóico de Gram-positivos, zymosan | Membrana | Sepse por Gram-positivos; TLR2 também coopera com dectin-1 contra fungos |
| TLR3 | RNA de fita dupla (intermediário de replicação viral) | Endossomo, via TRIF | Resposta antiviral com interferon tipo I; polimorfismos associados a herpeses graves |
| TLR5 | Flagelina bacteriana | Membrana | Salmonella e outras flageladas; expresso também no intestino |
| TLR7/TLR8 | RNA de fita simples viral (influenza, HIV) | Endossomo, via MyD88 | O imiquimode tópico é agonista de TLR7: usado em verrugas e carcinoma basocelular |
| TLR9 | DNA com CpG não metilado (bactérias e DNA vírus) | Endossomo, via MyD88 | Explica a ativação imune por DNA próprio (LE: complexos anti-DNA) e por DNA mitocondrial |
Os NOD-like receptors (NLRs) são sensores citossólicos. NOD1 e NOD2 reconhecem fragmentos de peptidoglicano que chegam ao citosol (iE-DAP e MDP, respectivamente) e ativam NF-kB; mutações de NOD2 aumentam a suscetibilidade à doença de Crohn (perda de função, falha da barreira imune intestinal) e causam a síndrome de Blau (ganho de função, granulomatose). O NLRP3 forma o inflamassomo, a plataforma multiproteica mais cobrada em prova, que requer dois sinais: o primeiro (priming) é a ativação de NF-kB por TLRs, TNF ou IL-1, que induz a transcrição de pro-IL-1beta, pro-IL-18 e do próprio NLRP3; o segundo é o gatilho de ativação, tipicamente o efluxo de potássio causado por ATP extracelular (via receptor P2X7), toxinas formadoras de poro, cristais (urato da gota, pirofosfato de cálcio da condrocalcinose, sílica, alumínio) ou estresse mitocondrial com ROS. O complexo NLRP3-ASC-procaspase-1 ativa a caspase-1, que cliva pro-IL-1beta e pro-IL-18 nas citocinas ativas e ativa a gasdermina D para formar poros e piropose.
Os RIG-I-like receptors (RLRs) vigiam o citoplasma em busca de RNA viral: RIG-I reconhece RNA de fita dupla curto com 5'-trifosfato (influenza, paramixovírus, hepatite C) e MDA5, RNAs longos (picornavírus); ambos sinalizam pela proteína MAVS na membrana mitocondrial para produzir interferon tipo I. Complementam o sistema as lectinas tipo C: dectin-1 reconhece beta-glucanos da parede fúngica e, via CARD9, direciona a resposta Th17 antifúngica (defeitos de CARD9 causam candidíase mucocutânea crônica e aspergilose invasiva), e a collectina MBL opsoniza microrganismos ativando a via das lectinas do complemento. Vale ainda citar o eixo cGAS-STING, sensor de DNA citossólico que gera cGAMP e interferon tipo I, central na resposta a tumores e nas interferonopatias como a síndrome de Aicardi-Goutières.
A ativação do linfócito T exige dois sinais. O sinal 1 é o reconhecimento específico do peptídeo (de 8 a 10 aminoácidos no MHC I, de 13 a 17 no MHC II) pelo TCR: confere especificidade, mas sozinho não basta. O sinal 2 é a coestimulação: o CD28 do linfócito T virgem ligando B7-1 (CD80) ou B7-2 (CD86) na célula apresentadora licenciada. TCR sem coestimulação leva a anergia (inativação funcional) ou deleção, mecanismo central de tolerância periférica; é por isso que antígenos próprios apresentados por células dendríticas em tecido sadio não geram autoimunidade. O sinal 3, opcional mas decisivo para a polarização, são as citocinas que a APC entrega junto: IL-12 direciona Th1, IL-4 direciona Th2, IL-6 com TGF-beta e IL-23 direciona Th17, IL-12 com IFN-gamma favorece a resposta citotóxica.
A ponte com o modelo do perigo está exatamente aqui: B7 e MHC II em níveis altos e IL-12 só aparecem na célula dendrítica que foi ativada por PRRs reconhecendo PAMPs ou DAMPs. O contexto de perigo transforma a mesma estrutura molecular (peptídeo + MHC) de sinal inóuo em sinal imunogênico. Esta lógica é a base racional da oncologia imunológica: CTLA-4 e PD-1 são freios da ativação (o primeiro competindo com CD28 pelo B7 na priming, o segundo atuando nos tecidos periféricos), e os anticorpos anti-CTLA-4 (ipilimumabe) e anti-PD-1 (nivolumabe, pembrolizumabe) funcionam porque removem o freio de células T que receberam os sinais 1 e 2 mas foram silenciadas, especialmente nos tumores que já despertaram resposta imune.
As células dendríticas convencionais são as únicas APCs que ativamente primam linfócitos T virgens; macrófagos e linfócitos B reativam células memoriais ou efetoras. Na periferia, dendríticas imaturas capturam antígeno por macropinocitose e fagocitose continuamente; ao detectar PAMP ou DAMP pelos PRRs, maturam: migram para o linfonodo pelos vasos linfáticos (receptor CCR7), degradam o antígeno em peptídeos, sobregulam MHC II, B7 e CCR7, e passam a secretar IL-12. A apresentação cruzada é a especialidade do subconjunto cDC1 (marcadores XCR1 e, na nomenclatura humana, CLEC9A/DNGR-1): essas células fagocitam células infectadas ou tumorais e apresentam antígenos extracelulares na via do MHC I, como se fossem próprios, permitindo primar CD8 citotóxicos contra vírus que não infectam a própria dendrítica e contra tumores. Defeitos do subconjunto cDC1 (ou de seu fator de transcrição IRF8/ BATF3) prejudicam a resposta antitumoral e antiviral. A apresentação cruzada é o fundamento das vacinas de antígenos recombinantes com adjuvante e das vacinas terapêuticas oncológicas.
Antígenos purificados, vírus inativados ou proteínas recombinantes isolados não carregam PAMPs e, por isso, geram resposta pobre, IgM de baixa afinidade e pouca memória: faltam o sinal zero e a coestimulação. Adjuvantes são, no fundo, sinais de perigo artificiais que ativam a imunidade inata e licenciam a célula dendrítica. Os sais de alumínio (alum), usados desde 1926, recrutam neutrófilos e macrófagos, formam granuloma local que retém o antígeno e ativam o inflamassomo NLRP3, gerando resposta Th2 com anticorpos. O MPL (monofosforil lipídeo A) é um LPS detoxificado, agonista de TLR4, usado no adjuvante AS04 das vacinas contra HPV (bivalente) e hepatite B; o AS01 (MPL mais saponina QS-21) potencia a resposta de linfócitos T e foi escolhido para a vacina recombinante contra herpes-zóster (eficácia acima de 90% em idosos) e a RTS,S contra malária. As emulsões de esqualeno (MF59) e as nanopartículas lipídicas das vacinas de mRNA contra COVID-19 também carregam capacidade inata inerente: além de proteger e entregar o RNA, induzem produção local de citocinas que licenciam dendríticas. O contraponto clínico da mesma moeda é a reactogenicidade: febre, mialgia e dor local são a face visível da ativação inata pelo adjuvante.
A gota é o exemplo perfeito de inflamação estéril: cristais de urato monossódico, fagocitados por macrófagos sinoviais, ativam o inflamassomo NLRP3, e a caspase-1 converte pro-IL-1beta em IL-1beta ativa, que recruta neutrófilos e produz a monoartrite aguda excruciante do primeiro metatarsofalangiano. O tratamento segue essa biologia: AINEs e corticoides, colchicina (que impede a polimerização de microtúbulos e a migração do neutrófilo, dose inicial de 1,2 mg seguida de 0,6 mg uma hora depois) e, nos casos refratários, bloqueio de IL-1beta (anakinra, canaquinumabe). O mesmo mecanismo opera na condrocalcinose (cristais de pirofosfato de cálcio), nas doenças autoinflamatórias por ganho de função do NLRP3 (síndromes CAPS: urticária familiar ao frio, Muckle-Wells, NOMID, tratadas com canaquinumabe) e nas síndromes periódicas hereditárias.
Necrose traumática, queimaduras, infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico e pancreatite despertam inflamação aguda sem qualquer micróbio: os DAMPs (HMGB1, ATP, DNA mitocondrial, histonas) explicam a febre, a leucocitose e a síndrome de resposta inflamatória sistêmica desses pacientes, incluindo a lesão pulmonar aguda pós-trauma. Na sepse, o HMGB1 é citado como mediador tardio, liberado 24 a 72 horas depois do piro do LPS, janela em que anticorpos anti-HMGB1 salvam animais de experimento. E a aterosclerose fechou o círculo translacional: no ensaio CANTOS (NEJM, 2017), 10.061 pacientes com infarto prévio e PCR alta (maior ou igual a 2 mg/L) receberam canaquinumabe 150 mg subcutâneo a cada 3 meses, com redução de 15% no desfecho cardiovascular composto (hazard ratio 0,85), comprovando em humanos que a via IL-1beta-inflamassomo-NLRP3 é alvo terapêutico e que inflamação estéril crônica mata; o preço foi leve excesso de infecções fatais, mais um aviso de que frear o perigo tem custo.
No transplante, a imunidade inata abre a porta que a adaptativa atravessa. A lesão de isquemia-reperfusão, inerente à captação e ao reimplante do órgão, libera DAMPs (HMGB1, ATP, DNA mitocondrial) que ativam TLR4 nas células apresentadoras do receptor, sobregulam B7 e MHC II e produzem citocinas proinflamatórias: é o sinal de perigo que licencia a resposta contra os aloantígenos. Daí a regra prática de preservação rigorosa do enxerto e de minimização do tempo frio. O reconhecimento do aloantígeno ocorre por três vias: direta, em que células dendríticas do doador (passenger leukocytes) migram ao linfonodo do receptor e apresentam MHC intacto do doador, gerando resposta intensa e precoce (rejeição aguda celular); indireta, em que APCs do receptor fagocitam debris do enxerto e apresentam peptídeos do doador no MHC próprio do receptor, sustentando a resposta crônica e a vasculopatia do enxerto; e semidireta (cross-dressing), em que a dendrítica do receptor adquira MHC intacto do doador. A imunossupressão clínica ataca os passos seguintes: inibidores da calcineurina (tacrolimo, ciclosporina) bloqueiam a transcrição de IL-2, antiproliferativos (micofenolato, azatioprina) bloqueiam a expansão clonal e corticoides suprimem NF-kB.
O modelo da imunoedição descreve três fases: eliminação (o sistema imune destrói células transformadas recentes), equilíbrio (contenção prolongada) e escape (variantes com imunogenicidade baixa sobrevivem). A resposta protetora depende de neoantígenos derivados de mutações (tumores com alta carga mutacional, como melanoma e tumores associados a tabagismo, respondem melhor a anti-PD-1), de apresentação cruzada pelas dendríticas cDC1, de CD8 citotóxicos e NK (que reconhecem o self alterado e o missing-self) e de IFN-gamma, que sobregula MHC I e inibe angiogênese. A face oposta, a inflamação promotora de tumor, é crônica e de baixa intensidade: NF-kB em macrófagos e STAT3 na célula tumoral mantêm IL-6, IL-1beta, TNF e IL-23, que estimulam proliferação (ciclinas), sobrevivência (Bcl-2), angiogênese (VEGF), invasão (metaloproteinases) e recrutam macrófagos associados ao tumor (fenótipo M2) e Tregs. Exemplos clássicos de câncer por inflamação crônica: doença inflamatória intestinal e câncer colorretal associado à colite, Helicobacter pylori e adenocarcinoma gástrico e linfoma MALT, hepatites B e C e carcinoma hepatocelular, esteatohepatite e cirrose, e pancreatite crônica hereditária com adenocarcinoma de pâncreas.
O modelo do perigo unifica as duas faces: a mesma célula tumoral pode ser ignorada (morte silenciosa, sem DAMPs, sem coestimulação) ou torna-se alvo imunológico quando morre de forma imunogênica. Quimioterápicos como antraciclínicos e oxaliplatina e a radioterapia induzem morte celular imunogênica, com exposição de calreticulina (sinal come-me), liberação de ATP (que atrai e ativa dendríticas via P2X7 e NLRP3) e de HMGB1 (que ativa TLR4), além de interferon tipo I. Isso explica o efeito abscopal, a regressão de lesões distantes do campo irradiado em pacientes que respondem à combinação de radioterapia com inibidores de checkpoint, e é a razão de a sequência e o timing de quimio, radiação e imunoterapia importarem tanto nos esquemas atuais.
1.Qual observação experimental ou clínica representa a principal falha do modelo self x non-self que a hipótese do perigo veio explicar?
2.O receptor que reconhece o LPS de bactérias Gram-negativas, com auxílio das proteínas MD2 e CD14, é:
3.Qual TLR reconhece RNA de fita dupla no endossomo e sinaliza preferencialmente pelo adaptador TRIF, induzindo interferon tipo I?
4.A ativação do inflamassomo NLRP3 e a geração de IL-1beta ativa exigem, classicamente:
5.Durante um ataque agudo de gota, qual sequência melhor explica a inflamação na ausência de qualquer microrganismo?
6.Um linfócito T CD4 virgem reconheceu peptídeo próprio apresentado em MHC II, mas a célula apresentadora não expressava B7. O desfecho esperado é:
7.A apresentação cruzada pelas células dendríticas cDC1 consiste em:
8.O adjuvante AS04, presente em vacinas contra HPV e hepatite B, contém monofosforil lipídeo A, que age como agonista de qual receptor?
9.Sobre a diferença imunológica entre apoptose e necrose, é correto afirmar que:
10.No transplante de órgãos, a via direta de aloreconhecimento, responsável pela rejeição aguda celular precoce, envolve:
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