carregando…
carregando…
Revisão completa das vias citosólica e endocítica de apresentação de antígenos, da estrutura molecular do MHC I e II, da seleção tímica e do polimorfismo HLA, com aplicações clínicas em transplante, farmacogenômica, doenças autoimunes e imunoterapia. Inclui tabelas comparativas, protocolos passo a passo e questões de prova.
[1] Janeway's Immunobiology. 9ª ed. New York: Garland Science; 2022 | [2] Abbas AK, Lichtman AH, Pillai S. Cellular and Molecular Immunology. 10ª ed. Philadelphia: Elsevier; 2022 | [3] Zinkernagel RM, Doherty PC. Restriction of in vitro T cell-mediated cytotoxicity in lymphocytic choriomeningitis within a syngeneic or semiallogeneic system. Nature. 1974;248:701-702. PMID 4133807 | [4] Bjorkman PJ, Saper MA, Samraoui B, et al. Structure of the human class I histocompatibility antigen, HLA-A2. Nature. 1987;329:506-512. DOI 10.1038/329506a0 | [5] Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó IR, et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease 2020. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70:141-156. DOI 10.1097/MPG.0000000000002497 · DOI 10.1038/329506a0
Toda resposta imune adaptativa começa com um problema de logística molecular: o receptor de células T (TCR) não reconhece proteínas intactas, e sim fragmentos peptídicos curtos ancorados em moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC), chamadas HLA no ser humano. O conceito de restrição ao MHC, descrito por Zinkernagel e Doherty em 1974 e premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1996, organiza toda a imunologia celular: células T CD8+ vigiam o interior das células via MHC classe I, enquanto células T CD4+ vigiam o compartimento extracelular via MHC classe II. Dominar esse maquinário explica a rejeição de transplantes, a associação entre HLA-B27 e espondilite ancilosante, o rastreio farmacogenômico do abacavir e o racional das imunoterapias com inibidores de checkpoint no câncer.
O TCR reconhece um epitopo linear: o peptídeo (8 a 10 resíduos no MHC I; 13 a 18 no MHC II) mais resíduos das hélices alfa da própria molécula de MHC. Por isso a célula T é duplamente específica: reconhece o peptídeo E o MHC que o apresenta, um conceito chamado reconstrhecimento trimolecular (TCR, peptídeo e MHC). Zinkernagel e Doherty demonstraram que linfócitos T citotóxicos de camundongos infectados pelo vírus da coriomeningite linfocítica só lisavam células infectadas que expressavam o mesmo MHC de classe I do camundongo imunizado, provando que o reconhecimento é restrito ao próprio MHC. Isso explica também a aloreatividade: cerca de 1 a 10% dos linfócitos T reagem cruzadamente com MHC alogênico estranho, base celular da rejeição de enxerto e da doença do enxerto contra o hospedeiro. Anticorpos, em contraste, reconhecem epitopos conformacionais de proteínas nativas sem qualquer participação do MHC.
A apresentação de antígenos se organiza em duas vias clássicas e duas vias não convencionais. A via citosólica (endógena) alimenta o MHC I com peptídeos gerados no citosol; a via endocítica (exógena) alimenta o MHC II com proteínas captadas do meio extracelular. A apresentação cruzada (cross-presentation) é o desvio de antígeno exógeno para o MHC I, exclusivo de subpopulações de células dendríticas, e é essencial para primar células CD8 contra vírus que não infectam células apresentadoras e contra antígenos tumorais. Finalmente, moléculas do tipo MHC I não clássicas apresentam lipidios (CD1) e metabólitos microbianos (MR1) a linócitos T invariantes.
| Via | Origem do antígeno | Molécula | Célula T ativada | Exemplo clínico |
|---|---|---|---|---|
| Citosólica (endógena) | Proteínas sintetizadas na própria célula: vírus, tumores, proteínas próprias | MHC I (HLA-A, B, C) | CD8+ citotóxica | Linfócito infectado pelo HIV; melanoma |
| Endocítica (exógena) | Proteínas captadas por fagocitose, pinocitose ou receptor | MHC II (HLA-DR, DQ, DP) | CD4+ helper | Toxoide tetânico apresentado por linfócito B; Mycobacterium em macrófago |
| Cruzada (cross-presentation) | Antígeno exógeno desviado para a via do MHC I | MHC I | CD8+ citotóxica | Células dendríticas cDC1 (CD141+ em humanos) no priming antitumoral |
| Não clássica | Lipídios e metabólitos microbianos | CD1 e MR1 | NKT e MAIT invariantes | Lipídios de Mycobacterium; metabólitos da riboflavina bacteriana |
A cristalografia da HLA-A2 por Bjorkman, Strominger e Wiley em 1987 revelou a arquitetura que cai em prova: o MHC I é uma cadeia pesada de 44 kDa com três domínios extracelulares (alfa 1, alfa 2 e alfa 3) associada de forma não covalente à beta-2-microglobulina (12 kDa), codificada no cromossomo 15 e praticamente não polimórfica. Os domínios alfa 1 e alfa 2 formam o sulco de ligação: um piso de 8 fitas beta antiparalelas ladeado por duas hélices alfa. As extremidades fechadas do sulco restringem o peptídeo a 8-10 resíduos, com resíduos âncora (tipicamente a posição 2 e o resíduo carboxi-terminal) encaixados em bolsões polimórficos da molécula. O MHC II é um heterodímero de cadeias alfa e beta, ambas polimórficas, cujo sulco alfa 1-beta 1 é aberto nas duas pontas, acomodando peptídeos de 13 a 18 ou mais resíduos que se projetam para fora. O domínio alfa 3 do MHC I liga a molécula CD8; o domínio beta 2 do MHC II liga a CD4, definindo a restricção de cada população T. Os MHC I não clássicos incluem HLA-E (apresenta peptídeos líderes de HLA-A, B e C aos receptores CD94/NKG2 de células NK, monitorando a integridade da apresentação de classe I), HLA-F e HLA-G (expressa no trofoblasto, contribui para a tolerância materno-fetal).
Os superantígenos bacterianos exploram a via do MHC II de forma não canônica: a TSST-1 do Staphylococcus aureus e a exotoxina pirogênica A do Streptococcus pyogenes ligam-se fora do sulco, ao MHC II de uma célula e à região Vbeta do TCR de outra, sem processamento antigênico. O resultado é a ativação policlonal de até 20% dos linfócitos T, com liberação maciça de IL-1, IL-2 e TNF-alfa que produz a síndrome do choque tóxico.
Somente células com MHC II constitutivo e moléculas B7 (CD80/CD86) são APCs profissionais: a célula dendrítica é a única capaz de ativar linfócitos T virgens (naive) e por isso inicia as respostas adaptativas; o macrófago ativa células T efetoras e de memória no foco inflamatório; o linfócito B apresenta antígeno às células T foliculares helper. Praticamente todas as células nucleadas expressam MHC I, o que transforma qualquer célula em potencial delatora de infecção viral. O interferon-gama pode induzir MHC II em células não profissionais através do transativador CIITA, fenômeno relevante na tireoidite de Hashimoto, em que tireócitos passam a apresentar antígenos tireoidianos. Hemácias, anucleadas, não expressam MHC I.
| Célula | MHC II constitutivo | Coestimulação B7 | Papel típico |
|---|---|---|---|
| Célula dendrítica | Sim | Sim (após maturação por TLR) | Única que ativa T naive; captura no tecido e apresenta no linfonodo |
| Macrófago | Sim | Sim (após ativação) | Ativa T efetoras e de memória; apresenta antígenos fagocitados, como micobactérias |
| Linfócito B | Sim | Sim (após ativação) | Captura antígeno pelo BCR (ganho de 100-1000x); recebe ajuda cognata das Tfh |
| Hemácia | Não (e também sem MHC I) | Não | Exemplo clássico de célula sem apresentação: é anucleada |
A ativação completa da célula T exige três sinais. O sinal 1 é a especificidade: peptídeo-MHC ligado ao TCR com o coreceptor CD8 ou CD4. O sinal 2 é a coestimulação: B7 da APC ligando CD28 no linfócito T; sem ele, a célula T torna-se anérgica ou deletada, princípio explorado terapeuticamente pelo abatacepte (CTLA-4-Ig na artrite reumatoide) e pelo belatacepte (em transplante renal). O sinal 3 é a polarização por citocinas: IL-12 gera Th1, IL-4 gera Th2, IL-6 mais TGF-beta gera Th17 e IL-10 mais TGF-beta induz Treg. Os inibidores de checkpoint ipilimumabe (anti-CTLA-4), nivolumabe e pembrolizumabe (anti-PD-1) bloqueiam os freios naturais dessa ativação, o que explica tanto a eficácia antitumoral quanto as toxicidades autoimunes.
A região do MHC no cromossomo 6p21.3 estende-se por cerca de 4 Mb e contém mais de 200 genes, muitos com função imune: é o trecho mais polimórfico do genoma humano, com mais de 30 mil alelos de HLA catalogados no banco IMGT/HLA, sendo HLA-B o locus mais polimórfico. A expressão é codominante: cada indivíduo expressa os alelos paternos e maternos de cada locus, o que maximiza a diversidade de peptídeos apresentados e dificulta que um patógeno escape de uma população inteira. Os alelos são herdados em blocos chamados haplótipos, com forte desequilíbrio de ligação: dois irmãos têm 25% de chance de serem HLA-idênticos, 50% de compartilharem um haplótipo e 25% de não compartilharem nenhum, razão pela qual irmãos são os melhores doadores em transplante de medula. A tipagem evoluiu da sorologia para técnicas de DNA em baixa e alta resolução (PCR-SSO, PCR-SSP e sequenciamento de nova geração), que definem alelos em dois ou mais campos, como HLA-B*57:01.
Os timócitos duplo-positivos (CD4+CD8+) geram aleatoriamente seu TCR por recombinação V(D)J e passam por dois filtros no timo. Na seleção positiva, no córtex, apenas os timócitos cujo TCR reconhece peptídeos próprios apresentados por MHC próprio nas células epiteliais tímicas corticais são resgatados da morte por abandono: é aqui que o repertório aprende a restrição ao MHC. O comprometimento de linhagem depende da classe reconhecida (e da força e duração do sinal): MHC II direciona para CD4 e MHC I para CD8. Na seleção negativa, na medula, timócitos com TCR de alta afinidade por complexos próprio-MHC-próprio-peptídeo morrem por apoptose; as células epiteliais tímicas medulares expressam o fator de transcrição AIRE, que permite a expressão de antígenos tecido-específicos, como a insulina, no timo. Mutação de AIRE causa a poliendocrinopatia autoimune candidíase-distrofia ectodérmica (APECED/APS-1). No total, mais de 95% dos timócitos morrem no timo; os sobreviventes incluem as Treg (FoxP3+), geradas a partir de clones com autorreatividade intermediária a alta.
No transplante, o aloreconhecimento ocorre por três vias: direta (células T do receptor reconhecem MHC doador intacto nas APCs do enxerto, dominante na rejeição aguda precoce), indireta (APCs do receptor processam e apresentam proteínas do doador em MHC próprio, dominante na rejeição crônica) e semidireta. Anticorpos anti-HLA pré-formados por gestação, transfusão ou transplante prévio causam rejeição hiperaguda em minutos a horas; por isso faz-se o crossmatch por citotoxicidade dependente de complemento e, cada vez mais, o crossmatch virtual com ensaios Luminex de esferas com antígeno único, que definem a especificidade e a força (MFI) dos anticorpos. Enxertos com zero incompatibilidades HLA-A, B e DR apresentam sobrevida superior. No transplante de medula, o desequilíbrio entre HLA-C e seus ligantes KIR favorece o efeito enxerto contra leucemia.
Em oncologia, a resposta das células CD8+ contra o tumor depende inteiramente da apresentação por MHC I: tumores que perdem B2M ou downregulam HLA de classe I escapam dos linfócitos T e resistem aos anti-PD-1. Esse escape, porém, os expõe às células NK pela lógica do missing-self, já que NK são inibidas por HLA-E e outras moléculas de classe I presentes; anticorpos anti-NKG2A tentam liberar esse freio. Vacinas peptídicas e de neoantígenos são desenhadas restritas aos haplótipos HLA mais comuns, e a restrição pelo HLA explica por que respostas T dominantes contra um mesmo vírus diferem entre indivíduos.
| Doença | Associação HLA | Número que cai em prova |
|---|---|---|
| Espondilite ancilosante | HLA-B27 | Presente em 90-95% dos pacientes, contra 4-8% da população geral; risco relativo acima de 100 |
| Doença celíaca | HLA-DQ2 e DQ8 | DQ2 em cerca de 90-95% dos pacientes; a ausência de DQ2/DQ8 praticamente exclui o diagnóstico (valor preditivo negativo maior que 99%, critério ESPGHAN 2020) |
| Diabetes mellitus tipo 1 | HLA-DR3 e DR4 (DQ2, DQ8) | Heterozigotos DR3/DR4 concentram o maior risco; DQ6 (DQB1*06:02) é protetor |
| Narcolepsia tipo 1 | DQB1*06:02 | Presente na grande maioria dos pacientes com cataplexia (cerca de 90-98%) |
| Doença de Behçet | HLA-B51 | Positividade em torno de 50-80% conforme a região geográfica |
| Artrite reumatoide | HLA-DRB1*04 (epitopo compartilhado) | Aumenta a suscetibilidade em 2 a 5 vezes e correlaciona-se com formas erosivas e extra-articulares |
| Hemocromatose hereditária | HLA-A3 | Associação histórica; o gene causal é o HFE, vizinho na região 6p21.3 |
Os mecanismos que ligam HLA a doença variam: mimetismo molecular entre epitopos bacterianos e peptídeos próprios (febre reumática), apresentação de alta afinidade de peptídeos próprios que escaparam da seleção negativa, desequilíbrio de ligação com genes de citocinas e complemento na mesma região, e, no caso específico do HLA-B27, acúmulo de misfolded protein no retículo endoplasmático com resposta de estresse unfolded protein, além da apresentação de peptídeos artritogênicos. O haplótipo ancestral A1-B8-DR3 (haplótipo 8.1) concentra associação com lúpus, tireoidite e deficiência de C4A.
1.Qual molécula transporta peptídeos citosólicos para o lúmen do retículo endoplasmático na via do MHC I?
2.Qual é a função da cadeia invariante (CD74) na via do MHC II?
3.O sulco de ligação de peptídeos do MHC de classe I é formado por quais domínios e acomoda peptídeos de que tamanho?
4.Qual molécula não clássica apresenta peptídeos líderes de HLA-A, B e C aos receptores CD94/NKG2 de células NK?
5.A apresentação cruzada (cross-presentation) é essencial porque:
6.A seleção positiva dos timócitos ocorre principalmente:
7.A mutação do fator de transcrição AIRE causa qual doença clássica de prova?
8.Antes de prescrever abacavir, é obrigatório rastrear qual alelo HLA?
9.Um paciente desenvolve clônus, hiperreflexia, midríase e diarreia após associação de inibidor seletivo de recaptação de serotonina a tramadol. Qual mecanismo imunológico explica mal a liberação de citocinas em quadros semelhantes induzidos por toxinas bacterianas que ativam muitas células T de uma vez?
10.Sobre a herança do HLA, dois irmãos têm qual probabilidade de serem HLA-idênticos entre si?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar