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Revisão completa da histologia muscular: organização em epimísio, perimísio e endomísio, ultraestrutura do sarcômero, acoplamento excitação-contração com tríades e díades, tipos de fibra, células satélites, miocárdio e discos intercalares. Com tabelas comparativas esquelético x cardíaco, cronologia histológica do infarto e correlações clínicas que caem em prova.
[1] Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: Texto e Atlas. 13ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017 | [2] Ross MH, Pawlina W. Histology: A Text and Atlas. 8ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2020 | [3] Bergmann O, Bhardwaj RD, Bernard S, et al. Evidence for cardiomyocyte renewal in humans. Science. 2009;324(5923):98-102 · DOI 10.1126/science.1164680 | [4] Charge SBP, Rudnicki MA. Cellular and molecular regulation of muscle regeneration. Physiol Rev. 2004;84(1):209-38 · DOI 10.1152/physrev.00025.2003 | [5] Frontera WR, Ochala J. Skeletal muscle: a brief review of structure and function. Calcif Tissue Int. 2015;96(3):183-95 · DOI 10.1007/s00223-014-9925-3 · DOI 10.1126/science.1164680
O tecido muscular é especializado na conversão de energia química em trabalho mecânico e classifica-se em três tipos: esquelético (estriado, voluntário, multinucleado, contração rápida e fatigável), cardíaco (estriado, involuntário, com um a dois núcleos centrais, contração rítmica e resistente à fadiga) e liso (não estriado, involuntário, uniloculado, das vísceras e vasos). Na embriologia, o esquelético do tronco e membros origina-se dos somitos do mesoderma paraxial (porção miotômica): mioblastos mononucleados fundem-se em sincícios chamados miotubos, razão de a fibra madura ser multinucleada. Os músculos da cabeça e pescoço derivam do mesoderma paraxial cranial e da placa pré-cordal, e o músculo cardíaco origina-se do mesoderma esplâncnico que envolve o tubo cardíaco precoce — cardiomiócitos individualizam-se e conectam-se por discos intercalares, sem fusão citoplasmática. Essa origem distinta explica por que a fibra esquelética é um sincício verdadeiro (núcleos do mesmo citoplasma) e a cardíaca é um sincício funcional (células distintas acopladas por junções comunicantes).
| Característica | Músculo esquelético | Músculo cardíaco | Músculo liso |
|---|---|---|---|
| Estriações | Presentes | Presentes | Ausentes |
| Controle | Voluntário (somático) | Involuntário (autônomo e intrínseco) | Involuntário (autônomo) |
| Núcleos por célula | Muitos, periféricos | 1 a 2, centrais | 1, central |
| Formato da célula | Cilíndrica longa, não ramificada | Ramificada | Fusiforme |
| Discos intercalares | Ausentes | Presentes | Ausentes |
| Origem embriológica | Mesoderma paraxial (somitos) e placa pré-cordal | Mesoderma esplâncnico | Mesoderma e crista neural (grandes vasos) |
| Regeneração | Boa (células satélites) | Muito limitada | Boa (pericitos e divisão celular) |
Cada músculo esquelético é um órgão envolto por uma bainha de tecido conjuntivo denso colagenoso, o epimísio, contínuo com a fáscia e, na extremidade, com o periósteo do osso pelo tendão. Do epimísio partem septos que envolvem os fascículos (feixes de fibras), formando o perimísio, e de cada fascículo projeções finas de tecido conjuntivo reticular envolvem individualmente as fibras musculares, constituindo o endomísio. Essa hierarquia de invólucros tem função mecânica (transmite a força gerada nas fibras para o tendão, Concentrando as trações na junção miotendínea), função vascular (os vasos penetram pelo epimísio e ramificam-se em capilares que correm longitudinalmente no endomísio, formando anastomoses transversais) e função nervosa (troncos nervosos acompanham os vasos até terminarem na placa motora). Na prova, a associação direta é: epimísio envolve o músculo, perimísio envolve o fascículo e endomísio envolve a fibra.
A fibra muscular esquelética é uma célula gigante, multinucleada, com núcleos achatados deslocados para a periferia, justapostos ao sarcolema (membrana plasmática mais sua lâmina basal). No citoplasma (sarcoplasma) distinguem-se as miofibrilas, cordões contráteis de 1 a 2 µm de diâmetro que percorrem a fibra de ponta a ponta e ocupam a maior parte do volume, separando para as bordas os núcleos, as mitocôndrias, o retículo sarcoplasmático e as gotículas de lipídio e glicogênio. O retículo sarcoplasmático é o equivalente muscular do retículo endoplasmático liso: membrana especializada em captar, armazenar e liberar íons cálcio, com cisternas terminais (dilatações justapostas aos túbulos T) e a proteína de ligação de cálcio calsequestrina em seu lúmen. Os túbulos transversos (túbulos T) são invaginações tubulares do sarcolema que mergulham ao interior da fibra no nível da junção das bandas A e I, levando o potencial de ação para o centro da célula. Em cada junção A-I, um túbulo T associa-se a duas cisternas terminais flanqueantes, formando a tríade, unidade funcional do acoplamento excitação-contração do esquelético.
O sarcômero é o segmento entre duas linhas Z e corresponde à unidade contrátil funcional, com cerca de 2 a 2,5 µm no múscio em repouso. Ao microscópio óptico, a repetição ordenada de sarcômeros gera as estriações: a banda A (anisotrópica, escura ao microscópio polarizante) contém a totalidade dos filamentos grossos de miosina II, com as extremidades dos filamentos finos sobrepostos; a banda I (isotrópica, clara) contém apenas filamentos finos de actina e é dividida ao meio pela linha Z, estrutura proteica em zigue-zague onde se ancoram os filamentos de actina (por meio da alfa-actinina). No centro da banda A, a banda H corresponde à zona só de miosina, sem sobreposição de actina, atravessada pela linha M, que estabiliza os filamentos grossos. Na contração pelo mecanismo de filamentos deslizantes, os filamentos de actina deslizam sobre os de miosina: as linhas Z aproximam-se, as bandas I e a banda H encurtam e a banda A mantém comprimento constante — troca clássica de questão de prova.
No esquelético, o potencial de ação que chega pelo nervo motor despolariza o sarcolema e penetra pela fibra através do túbulo T; o sensor de voltagem da membrana do túbulo (receptor de diidropiridina, DHPR) muda de conformação e abre mecanicamente o receptor de rianodina tipo 1 (RyR1) da cisterna terminal adjacente, liberando cálcio no sarcoplasma. Trata-se de acoplamento mecânico direto entre as duas proteínas, tanto que a contração esquelética independe da entrada de cálcio extracelular. O cálcio liga-se à troponina C, a tropomiosina desloca-se expondo os sítios de actina, e as cabeças de miosina, hidrolisando ATP, ciclam entre estados de ligação e deslizamento. O relaxamento ocorre por rebombeamento ativo do cálcio ao retículo pela Ca2+-ATPase do retículo sarcoplasmático (SERCA), com gasto de ATP. No coração a lógica é diferente: o canal L tipo cálcio (o DHPR cardíaco) permite a entrada de cálcio extracelular, e esse cálcio abre o RyR2 do retículo cardíaco, num mecanismo de cálcio-induzido-libera-cálcio (CICR). Por isso o miocárdio depende do cálcio extracelular (base do efeito inotrópico positivo da digital e do cálcio), e o esquelético não.
| Característica | Músculo esquelético | Músculo cardíaco |
|---|---|---|
| Localização do túbulo T | Junção das bandas A e I | Nível da linha Z |
| Associação com o retículo | Tríade (1 túbulo T + 2 cisternas terminais) | Díade (1 túbulo T + 1 cisterna terminal) |
| Mecanismo de liberação de cálcio | Acoplamento mecânico DHPR-RyR1, independente de cálcio extracelular | Cálcio-induzido-libera-cálcio: entrada pelo canal L abre o RyR2 |
| Dependência de cálcio extracelular | Não | Sim, a cada batimento |
| Retículo sarcoplasmático | Abundante e organizado | Menos desenvolvido, com cisternas menores |
| Fisiologia farmacológica | Bloqueadores de canal de cálcio não afetam a contração | Agentes que alteram o influxo de cálcio modulam a contratilidade |
As fibras esqueléticas diferem em velocidade de contração e metabolismo, o que se explora histoquimicamente pela reação da ATPase miocárdica de miosina com pré-incubação em pH ácido (fibras do tipo I coram-se intensamente em pH 4,3). A fibra do tipo I (vermelha, lenta, oxidativa) tem diâmetro menor, muitas mitocôndrias, abundante mioglobina e rica vascularização, sendo resistente à fadiga e típica de músculos posturais (sóleo). A fibra do tipo IIa (intermediária) é rápida, oxidativo-glicolítica, também relativamente resistente. A fibra do tipo IIx (rápida, glicolítica, branca) tem diâmetro maior, poucas mitocôndrias, pouca mioglobina, response anaeróbia e fadiga fácil, típica de musculatura de movimentos explosivos. Cada fibra pertence a uma unidade motora (um neurônio motor alfa e todas as fibras que ele inerva); unidades de fibras I têm neurônios menores, limiar menor e taxas de disparo baixas, sendo recrutadas primeiro (princípio do tamanho). O treinamento altera o fenótipo (IIx para IIa) e a área de secção transversa, sem converter tipo I em tipo II.
| Propriedade | Tipo I (lenta oxidativa) | Tipo IIa (rápida oxidativo-glicolítica) | Tipo IIx (rápida glicolítica) |
|---|---|---|---|
| Cor na histoquímica de ATPase em pH ácido | Escura | Intermediária | Clara |
| Velocidade de contração | Lenta | Rápida | Muito rápida |
| Metabolismo predominante | Oxidativo aeróbio | Oxidativo e glicolítico | Glicolítico anaeróbio |
| Mitocôndrias e mioglobina | Abundantes (fibra vermelha) | Muitas | Escassas (fibra branca) |
| Resistência à fadiga | Alta | Moderada | Baixa |
| Exemplo de músculo | Sóleo (postura) | Gastrocnêmio | Músculos do salto e arremesso |
A junção neuromuscular (placa motora) é a sinapse entre o terminal axonal do neurônio motor e a fibra muscular: a acetilcolina liberada no espaço sináptico liga-se a receptores nicotínicos concentrados nas dobras junctionais da membrana do sarcolema, despolarizando a fibra e disparando o potencial de ação que invade os túbulos T. Miastenia grave (anticorpos contra o receptor nicotínico) e botulismo (bloqueio da liberação de acetilcolina) são as correlações clínicas cobradas. Dentro do ventre muscular existem os receptores proprioceptivos: o fuso muscular, cápsula de tecido conjuntivo com fibras intrafusais (sacos nucleares para detecção de velocidade de estiramento e correntes nucleares para comprimento estático), inervado por fibras Ia (terminações anuloespirais, dinâmicas) e II; e o órgão tendíneo de Golgi, estrutura em série no tendão monitorando a tensão (fibra Ib), base do reflexo miotático inverso. As fibras extrafusais (contráteis, do ventre) são inervadas pelos axônios alfa; as intrafusais, pelos gama, que mantêm o fuso sensível durante a contração.
A fibra esquelética madura é pós-mitótica, mas o tecido tem capacidade regenerativa real graças às células satélites, mononucleadas, quiescentes, situadas entre o sarcolema e a lâmina basal e marcadas pela transcrição fator Pax7. Diante de lesão, ativação inflamatória ou estímulo trófico, as satélites proliferam em mioblastos que se fundem entre si ou à fibra lesionada, regenerando sarcômeros ou doando núcleos para a hipertrofia. A miostatina é o regulador negativo clássico do crescimento muscular: inibe a proliferação das satélites. Na hipertrofia por treino, a fibra aumenta de diâmetro com acréscimo de miofibrilas e de núcleos periféricos doados por satélites, sem aumento proporcional do número de fibras; na atrofia por desuso ou deservação, as miofibrilas e o volume se reduzem, e a denervação prolongada leva a atrofia em grupo com fibrose e substituição adiposa. Após reinervação, o agrupamento de tipo fibra (fibra-type grouping) denuncia a reinervação colateral, achado clássico da biópsia em neuropatias.
O cardiomiócito de trabalho é uma célula ramificada de aproximadamente 10 a 20 µm de diâmetro e 80 a 100 µm de comprimento, com um ou dois núcleos centrais, sarcômeros organizados em miofibrilas como no esquelético e citoplasma repleto de mitocôndrias (25 a 35% do volume celular, contra cerca de 2% no esquelético) e de gotículas de lipídio: o coração é aeróbio obrigatório, extrai energia preferencialmente de ácidos graxos e é extremamente resistente à fadiga. O retículo sarcoplasmático é menos desenvolvido e organiza díades com os túbulos T, que no cardíaco são mais largos e situam-se no nível da linha Z. Os cardiomiócitos atriais diferem dos ventriculares por serem menores e conter grânulos de secreção com o peptídeo natriurético atrial (ANP), liberado no estiramento da parede — único exemplo de célula muscular com função endócrina. O sistema de condução (nó sinoatrial, atrioventricular e feixe de His-Purkinje) é formado por cardiomiócitos modificados, pálidos e glicogênio-ricos, especializados em gerar e propagar o impulso. A renovação do miocárdio é muito limitada: cerca de 1% ao ano aos 25 anos, caindo para aproximadamente 0,45% aos 75, de modo que menos da metade dos cardiomiócitos é renovada ao longo da vida, e um infarto se resolve com cicatriz fibrosa, não com músculo novo.
O disco intercalar é a estrutura de identificação do músculo cardíaco ao microscópio: linha transversal escalonada, fortemente corada, que une as extremidades dos cardiomiócitos, às vezes duplicando-se em formato de degraus. Reúne três tipos de junção intercelulares. As fascias adherentes (semelhantes às zonulas adherentes) ocupam as porções transversais do disco e ancoram os filamentos de actina das extremidades dos sarcômeros, transmitindo a força de contração de célula a célula; os desmossomos (maculas adherentes) reforçam a coesão mecânica ancorando filamentos intermediários de desmina; e as junções comunicantes (gap junctions ou nexus), formadas por conexonas de conexina 43 e concentradas nas porções laterais do disco, oferecem passagem direta a íons e moléculas pequenas, permitindo que o estímulo elétrico se propague de célula a célula como se o miocárdio fosse um sincício funcional. É por isso que a contração cardíaca é coordenada e rítmica sem depender de inervação célula a célula, e é nas junções comunicantes que fibras de Purkinje distribuem o impulso aos ventrículos. A prova adora a associação: fascia adherens ancora actina, desmossomo ancora filamentos intermediários e gap junction transmite o impulso.
| Junção do disco intercalar | Molécula/estrutura | Função |
|---|---|---|
| Fascia adherens (transversal) | Caderinas vinculadas à actina e à alfa-actinina | Ancora as extremidades dos filamentos de actina e transmite força contrátil |
| Desmossomo (macula adherens) | Desmogleína, desmocolina, desmoplaquina, filamentos de desmina | Coesão mecânica entre células submetidas a estresse |
| Junção comunicante (nexus, lateral) | Conexonas de conexina 43 | Acoplamento elétrico: passagem de íons e propagação do potencial de ação |
A distrofia muscular de Duchenne, ligada ao X, decorre de mutação de leitura deslocada no gene da distrofina (Xp21), proteína que liga o citoesqueleto de actina ao complexo de glicoproteínas da membrana (distroglicanas e sarcoglicanas) e deste à laminina da matriz extracelular: sem esse amortecedor mecânico, o sarcolema rompe a cada contração, com necrose segmentar, regeneração pelas satélites, fibrose endomisial e pseudo-hipertofria por substituição gordurosa; a creatinoquinase é marcadamente elevada e a imuno-histoquímica mostra ausência da distrofina. Na distrofia de Becker, a distrofina é truncada mas funcional, com quadro mais leve. A rabdomiólise extensa (esforço extremo, esmagamento, miopatias estatinas) libera mioglobina e creatinoquinase acima de 10.000 UI/L, com urina cor de chá (tira reagente positiva para sangue sem hemácias) e risco de lesão renal aguda por cilindros de mioglobina. As miopatias mitocondriais exibem fibras vermelhas rasgadas (ragged red fibers) à tricrômica de Gomori modificada e fibras COX-negativas. No coração, o infarto do miocárdio segue cronologia histológica fixa, resumida na lista abaixo, e a miocardite viral (coxsackie) mostra infiltrado linfocitário intersticial com necrose focal; a doença de Chagas crônica exibe ninhos de Trypanosoma cruzi na fase aguda e miocardiopatia dilatada fibrosante na crônica.
1.Em qual nível da fibra muscular esquelética encontram-se os túbulos T e qual estrutura eles formam com o retículo sarcoplasmático?
2.Durante a contração muscular pelo mecanismo de filamentos deslizantes, qual estrutura mantém comprimento constante?
3.Qual é a diferença fundamental no acoplamento excitação-contração entre o músculo esquelético e o cardíaco?
4.Ao exame de uma lâmina, identificam-se células ramificadas, estriadas, com núcleo central e linhas escalonadas fortemente coradas entre as extremidades celulares. Qual é a estrutura descrita?
5.Qual componente do disco intercalar responde pela transmissão elétrica célula a célula no miocárdio?
6.Qual afirmativa sobre os tipos de fibra muscular esquelética é correta?
7.Qual célula é responsável pela regeneração do músculo esquelético e onde se localiza?
8.A distrofia de Duchenne decorre de defeito em qual proteína e qual é sua função?
9.Sobre a renovação dos cardiomiócitos no ser humano adulto, qual dado é o mais aceito (Bergmann, 2009)?
10.Paciente com quadro de esforço físico extenso apresenta urina cor de chá, tira reagente urinária positiva para sangue sem hemácias no sedimento e creatinoquinase de 40.000 UI/L. Qual o mecanismo da lesão renal nesse quadro?
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