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Revisão completa da histologia do tubo digestivo: as quatro camadas, o epitélio de cada segmento, as células da cripta de Lieberkühn, a barreira mucosa e as alterações da disbiose e da desnutrição. Inclui tabelas comparativas, correlações clínicas, 10 questões e flashcards para prova.
[1] Ross MH, Pawlina B. Histology: A Text and Atlas. 7a ed. Filadélfia: Wolters Kluwer, 2020 | [2] Standring S. Gray's Anatomy. 42a ed. Elsevier, 2020 | [3] Cheng H, Leblond CP. Origin, differentiation and renewal of the four main epithelial cell types in the mouse small intestine. Am J Anat. 1974;141(4):461-479 · DOI 10.1002/aja.1001410403 | [4] Kiela PR, Ghishan FK. Physiology of Intestinal Absorption and Secretion. Best Pract Res Clin Gastroenterol. 2016;30(2):145-159 · DOI 10.1016/j.bpg.2016.02.007 | [5] Hills RD Jr, Pontefract BA, Mishcon HR, et al. Gut Microbiome: Profound Implications for Diet and Disease. Nutrients. 2019;11(7):1613 · DOI 10.3390/nu11071613 · DOI 10.1016/j.bpg.2016.02.007
O trato gastrointestinal é a maior interface entre o organismo e o meio externo: estimativas anatômicas modernas atribuem à mucosa digestiva uma área de troca de cerca de 30 a 40 m², protegida por uma única camada de epitélio que se renova integralmente a cada 4 a 5 dias. É também o maior órgão imunológico do corpo e o habitat de aproximadamente 38 trilhões de micro-organismos, número da mesma ordem de grandeza das células humanas. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: o padrão comum de organização em camadas, as especializações de cada segmento (da boca ao reto) e a relação entre estrutura e função, que explica desde a má absorção da desnutrição até a atrofia vilositária da doença celíaca e a origem dos tumores estromais a partir das células de Cajal.
Da boca ao reto, o tubo digestivo mantém um plano construtivo constante, com quatro túnicas dispostas da luz para fora: mucosa, submucosa, muscular externa e serosa (ou adventícia). A mucosa é a camada mais variável entre os segmentos e se subdivide em epitélio de revestimento, lâmina própria de tecido conjuntivo frouxo rico em vasos, linfáticos e células imunológicas, e muscular da mucosa, uma fina lâmina de músculo liso que promove movimentos locais da mucosa e das vilosidades. A submucosa conecta mucosa e muscular, abriga o plexo nervoso submucoso de Meissner e, no duodeno, contém as glândulas de Brünner. A muscular externa (ou muscular própria) é responsável pela mistura e propulsão do conteúdo, e a cobertura mais externa é serosa quando o segmento é intraperitoneal e adventícia quando o segmento é fixo a estruturas retroperitoneais.
| Camada | Componentes | Função-chave |
|---|---|---|
| Mucosa | epitélio, lâmina própria e muscular da mucosa | absorção, secreção e barreira imunológica |
| Submucosa | conjuntivo frouxo com vasos, linfáticos e plexo de Meissner | suporte e nutrição; contém as glândulas de Brünner no duodeno |
| Muscular externa | camada circular interna e longitudinal externa com plexo de Auerbach entre elas | mistura e propulsão do bolo alimentar (peristaltismo) |
| Serosa ou adventícia | mesotélio com conjuntivo subseroso ou conjuntivo de fixação | reduz fricção entre alças ou fixa o órgão ao retroperitônio |
A mucosa oral é revestida por epitélio escamoso estratificado, parcialmente queratinizado nas gengivas e no palato duro e não queratinizado no restante. Na língua, as papilas linguais organizam o órgão do gusto: as papilas filiformes, mais numerosas, são ceratinizadas e não possuem botões gustativos; as fungiformes são dispersas na superfície dorsal e têm poucos botões; as papilas circunvaladas (ou valadas), em número de 7 a 12, formam o sulco terminal anteriormente ao V lingual e concentram a maior parte dos botões gustativos, banhados pela secreção serosa das glândulas de von Ebner, que lavam o sulco para renovar o estímulo químico; as papilas foliadas são folhas laterais bem desenvolvidas em crianças. Cada botão gustativo contém células gustativas (receptoras tipo II, sustentáculares tipo I e pré-sinápticas tipo III) e células basais, com renovação em torno de 10 dias, o que explica a recuperação do paladar após mucosite.
O esôfago é revestido por epitélio escamoso estratificado não queratinizado, adaptado ao atrito do bolo alimentar, e possui papilas de conjuntivo que aumentam a aderência do epitélio. A muscular externa é estriada esquelética no terço proximal, mista no terço médio e lisa no terço distal, dado cobrado em prova e necessário para entender a fisiologia da deglutição. A submucosa contém as glândulas esofágicas profundas, mucosas, que lubrificam a luz. Na transição esofagogástrica, a mudança abrupta do epitélio escamoso para o colunar simples marca a linha Z; o refluxo crônico pode substituir o epitélio escamoso por metaplasia intestinal com células calciformes, o esôfago de Barrett, lesão precursora de adenocarcinoma.
A mucosa gástrica forma depressões chamadas fosas gástricas (fúveolas), nas quais desembocam as glândulas. No corpo e fundo, as fosas são curtas e as glândulas fúndicas (oxínticas) são longas, ocupando a maior parte da lâmina própria; no antro, o padrão se inverte, com fosas profundas e glândulas pilóricas curtas ricas em células G produtoras de gastrina. A regeneração do epitélio gástrico ocorre no istmo das glândulas: as células de superfície migram para cima e se renovam em 3 a 5 dias, enquanto parietais e principais, derivadas da mesma zona proliferativa, apresentam vida média de semanas a meses. A superfície é protegida por um gel de mucina e bicarbonato secretado pelas células mucosas de superfície, espessura de cerca de 100 a 200 mícrons, que mantém gradiente de pH entre a luz (pH em torno de 2) e o epitélio (pH próximo da neutralidade).
| Célula | Localização | Produtos | Dado de prova |
|---|---|---|---|
| Parietal (oxíntica) | istmo e corpo das glândulas fúndicas | ácido clorídrico e fator intrínseco | bomba H+/K+-ATPase nos canalículos; cora intensamente em eosina pela abundância de mitocôndrias |
| Principal (peptica) | base das glândulas fúndicas | pepsinogênio e lipase gástrica | basofilia por grânulos de zimogênio; o pepsinogênio é ativado a pepsina em pH abaixo de 3 |
| Mucosa do colo | colo das glândulas | mucina solúvel e fatores de crescimento | componente do nicho regenerativo junto ao istmo |
| Endócrina ECL | corpo das glândulas fúndicas | histamina | estimula a secreção ácida parietal via receptor H2; alvo indireto dos inibidores de bomba |
| Endócrina D | corpo e antro | somatostatina | freio negativo sobre células G, ECL e parietais |
| Endócrina G | antro e duodeno | gastrina | estimula parietais e principais; inibida pela somatostatina e pelo pH baixo |
O intestino delgado é o segmento especializado em digestão e absorção e multiplica sua superfície em três níveis hierárquicos: as pregas circulares (valvas de Kerckring) da submucosa, visíveis a olho nu; as vilosidades, projeções digitiformes da mucosa com 0,5 a 1,5 mm de altura; e as microvilosidades da borda em escova de cada enterócito, cerca de 3 mil por célula, revestidas por glicocálice rico em enzimas de digestão de membrana (dissacaridases como lactase e maltase, e peptidases). O produto dessas multiplicações eleva a área de troca em aproximadamente 600 vezes a de um cilindro liso equivalente. No centro de cada vilosidade corre um vaso linfático cego, o lacteal, cercado por capilar sanguíneo fenestrado logo abaixo do epitélio, arranjo que capta quilomícrons e nutrientes absorvidos. As glândulas do delgado são as criptas de Lieberkühn, tubulares invaginadas entre as bases das vilosidades, local de proliferação, secreção e defesa.
Seis populações celulares compõem o epitélio do intestino delgado, todas derivadas de um mesmo tronco na base da cripta. Os enterócitos são as células absorptivas dominantes, com borda em escova e junções oclusivas (tight junctions) que selam o espaço paracelular. As células calciformes secretam mucina MUC2, que forma o gel do muco em camadas, e aumentam em número do duodeno até o reto. As células de Paneth ficam na base das criptas e liberam grânulos eosinofílicos carregados de defensinas alfa humanas HD5 e HD6, lisozima e fosfolipase A2, constituindo o principal arsenal antimicrobiano da mucosa. As células enterendócrinas representam cerca de 1 por cento do epitélio e produzem serotonina, colecistocinina, secretina, GLP-1, PYY e outras. As células M recobrem as placas de Peyer e amostram antígenos da luz para o folículo linfoide subjacente. Por fim, as células-tronco Lgr5 positivas, intercaladas com as células de Paneth, dividem-se e dão origem a todas as linhagens.
| Célula | Função principal | Marcador ou produto | Vida média aproximada |
|---|---|---|---|
| Enterócito | absorção e digestão de membrana | borda em escova com dissacaridases e peptidases | 4 a 5 dias |
| Calciforme | secreção de mucina MUC2 | copo de mucoglicoproteínas | 4 a 5 dias |
| De Paneth | defesa antimicrobiana da cripta | defensinas HD5 e HD6, lisozima, fosfolipase A2 | semanas a poucos meses |
| Enterendócrina | sinalização endócrina e parácrina | serotonina, CCK, secretina, GLP-1, PYY | 4 a 5 dias |
| Célula M | amostragem de antígenos para o GALT | situa-se sobre folículos de Peyer | variável |
| Tronco Lgr5+ | renovação de todas as linhagens | Lgr5, na base da cripta | autorrenovação contínua no nicho |
A organização proliferativa da cripta é um dos temas mais cobrados da histologia gastrointestinal. Em 1974, Cheng e Leblond demonstraram, com marcação de DNA em camundongos, que os quatro principais tipos celulares do epitélio intestinal descendem de uma célula-tronco comum localizada na base da cripta, propondo a teoria unitariana e o modelo de migração em zona (zona de dobramento e de maturação). Hoje se sabe que as células-tronco Lgr5 positivas ficam intercaladas com as células de Paneth, que compõem o nicho liberando Wnt, EGF e Notch, enquanto células progenitoras em posição +4 acima da base funcionam como reserva. O gradiente de sinalização é o segredo do padrão: Wnt e beta-catenina estão altos no fundo da cripta e mantêm a proliferação, enquanto BMP e gradientes de Ephrin orientam a diferenciação conforme a célula migra para a vilosidade, onde para de dividir e amadurece em 4 a 5 dias até ser descamada no ápice. A relação Paneth-tronco explica porque a destruição das células de Paneth, descrita na doença de Crohn, compromete a regeneração da mucosa.
O cólon não possui vilosidades: a mucosa é plana com criptas longas, retas e paralelas, ricas em células calciformes, cuja proporção cresce progressivamente até o reto, refletindo a necessidade de lubrificar resíduos cada vez mais sólidos. Os enterócitos do cólon absorvem água e sódio via trocadores NHE3 e canais de sódio epiteliais, sendo alvo fisiológico das diarreias secretoras. Na muscular externa, a camada longitudinal se condensa em três faixas, as tênias, e as contrações em massas (haustrações) caracterizam o segmento. O apêndice tem a mesma organização do cólon, porém com lúmen estreito e lâmina própria praticamente preenchida por folículos linfoides, o que explica a obstrução por hiperplasia linfoide e a frequência de apendicite em jovens. Na transição anorretal, o epitélio colunar simples cede lugar a um curto trecho de transição e depois a epitélio escamoso estratificado da pele perianal, com glândulas anais apocrinas e sebáceas na região externa do ânus.
| Aspecto | Intestino delgado | Cólon |
|---|---|---|
| Vilosidades | presentes, mais altas no jejuno | ausentes |
| Criptas | mais curtas que as vilosidades, em ângulo | longas, retas e paralelas |
| Células calciformes | escassas no duodeno, aumentam até o íleo | muito abundantes, proporção máxima no reto |
| Glândulas na submucosa | glândulas de Brünner no duodeno | ausentes |
| Muscular externa | duas camadas contínuas | longitudinal condensada em três tênias |
| Função dominante | digestão e absorção de nutrientes | absorção de água e eletrólitos e habitat fermentativo da microbiota |
A vascularização da mucosa intestinal forma uma rede capilar em teia sob o epitélio das vilosidades, com vênulas centrais contracorrentes que facilitam a absorção e, no jejuno em repouso, parte da oxigenação depende do fluxo das criptas, arranco que explica a vulnerabilidade das vilosidades à isquemia: as criptas sobrevivem e as vilosidades necrosam primeiro, produzindo a clássica linha demarcatória de separação da mucosa isquêmica. Os linfáticos iniciam nos lacteais cegos das vilosidades, drenam para plexos submucosos e gânglios mesentéricos, rota de disseminação dos adenocarcinomas. A inervação intrínseca forma o sistema nervoso entérico, com cerca de 100 milhões de neurônios: o plexo submucoso de Meissner regula secreção e fluxo sanguíneo local, e o plexo mientérico de Auerbach, entre as camadas musculares, controla o peristaltismo. Entre os neurônios e o músculo liso estão as células intersticiais de Cajal, marca-passos expressos por c-KIT (CD117) que geram os ciclos elétricos lentos; sua ausência ou disfunção causa pseudo-obstrução intestinal crônica, e sua proliferação neoplásica dá origem ao tumor estromal gastrointestinal (GIST).
A barreira intestinal é um sistema em camadas: o glicocálice enzimático, o gel de mucina MUC2 das células calciformes (camada interna aderente quase estéril e camada externa colonizada), as células de Paneth com defensinas, a própria camada epitelial com junções oclusivas e o armamento imunológico da lâmina própria, que produz cerca de 3 a 5 gramas de IgA secretora por dia, mais que todos os outros isotipos de imunoglobulina somados. A microbiota aloja cerca de 38 trilhões de bactérias, concentradas progressivamente do estômago (poucas unidades formadoras de colônia por mililitro) até o cólon (cerca de 10 elevado à décima segunda potência por grama de conteúdo). A disbiose é a perda de diversidade e do equilíbrio funcional dessa comunidade: redução de produtoras de butirato (Faecalibacterium, Roseburia) e expansão de proteobactérias com potencial proinflamatório associam-se à síndrome do intestino irritável, à doença inflamatória intestinal, à resistência antimicrobiana e à enterocolite necrosante do recém-nascido. O crescimento bacteriano excessivo no delgado (SIBO) danifica a borda em escova e causa má absorção de bile e de B12, consumida pelas bactérias.
A associação entre desnutrição e alterações estruturais do intestino é bidirecional e muito cobrada. O epitélio intestinal é uma das tecidos de maior gasto energético e proliferativo do corpo: a cada hora são renovadas centenas de milhões de enterócitos, com demanda elevada de glutamina (combustível preferencial do enterócito), aminoácidos, zinco, vitamina A e folato. Na desnutrição energético-proteica, a velocidade de migração das células da cripta cai, as vilosidades se atrofiam e se achatam, as criptas encurtam e a atividade das dissacaridases da borda em escova cai, especialmente a lactase. Com menos superfície e menos enzimas, instala-se má absorção secundária, que agrava o déficit nutricional e fecha o ciclo: atrofia leva a má absorção, que leva a mais desnutrição. Soma-se a isso a imunossupressão da lâmina própria, com queda da IgA secretora e maior translocação bacteriana, razão pela qual crianças desnutridas têm diarreia persistente e maior risco de sepse. A reabilitação nutricional reverte a arquitetura em semanas, mas o leite deve ser reintroduzido com cautela pela deficiência transitória de lactase.
| Condição | Achado histológico cobrado em prova |
|---|---|
| Doença celíaca | atrofia vilositária, hiperplasia de criptas e linfocitose intraepitelial (classificação de Marsh 3) |
| Doença de Crohn | inflamação transmural, criptites e granulomas não caseosos em cerca de metade dos casos, com redução de células de Paneth |
| Doença de Hirschsprung | ausência de gânglios nos plexos de Meissner e Auerbach no segmento distal agangliônico |
| Tumor estromal gastrointestinal | proliferação de células de Cajal CD117 (c-KIT) e DOG1 positivas |
| Esôfago de Barrett | metaplasia intestinal colunar com células calciformes no esôfago distal |
| Anemia perniciosa | gastrite atrófica corporal com perda de parietais, acloridria e déficit de fator intrínseco |
| Doença de Ménétrier | hiperplasia de células mucosas fúndicas com foveolás profundas e gastropatia perdedora de proteínas |
| Colite isquêmica | necrose de criptas com células fantasma e fibrose da lâmina própria em fases tardias |
| Enteropatia do HIV | atrofia vilositária moderada e aumento de enterócitos apoptóticos |
1.Qual célula gástrica produz simultaneamente ácido clorídrico e fator intrínseco?
2.No intestino delgado, as células-tronco Lgr5 positivas que regeneram todo o epitélio localizam-se:
3.Sobre as papilas linguais, é correto afirmar que as circunvaladas:
4.As glândulas de Brünner caracterizam-se por:
5.A função das células de Paneth, localizadas na base das criptas intestinais, é:
6.As células intersticiais de Cajal, marca-passos do trato gastrointestinal:
7.O epitélio de revestimento do esôfago é:
8.A principal diferença histológica entre o intestino delgado e o cólon é que o cólon:
9.Na doença celíaca, a biópsia duodenal tipicamente mostra:
10.O ganho de superfície proporcionado pelas microvilosidades da borda em escova é de aproximadamente:
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