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Revisão completa dos epitélios de revestimento: classificação por camadas e forma celular, especializações de superfície, composição proteica das junções celulares, lâmina basal, renovação epitelial, metaplasia escamosa e exame de Papanicolaou. Inclui tabelas de diferenciação dos tratos e correlação clínica para provas.
[1] Ross MH, Pawlina W. Histology: A Text and Atlas. 8ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer, 2020 · capítulos de tecido epitelial | [2] Junqueira LC de U, Carneiro J. Histologia Básica: Texto e Atlas. 13ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017 · capítulo de epitélios | [3] Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran: Bases Patológicas das Doenças. 10ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021 · capítulos 1, 6 e 22 | [4] Instituto Nacional de Câncer (INCA). Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. 2ª ed. Rio de Janeiro: INCA, 2016 · https://www.inca.gov.br
Os epitélios de revestimento delimitam todas as superfícies do corpo: pele, tratos digestivo, respiratório e geniturinário, serosas e a luz dos vasos sanguíneos. São a primeira barreira entre o meio interno e o ambiente e, por isso, concentram três dos assuntos mais cobrados em provas de Histologia e Patologia: a correlação entre arquitetura epitelial e função, a composição molecular das junções celulares e da lâmina basal, e as consequências clínicas da alteração da diferenciação epitelial, do pemfigo vulgar ao carcinoma escamoso. Aproximadamente 80% de todos os cânceres humanos originam-se de epitélios (carcinomas), e praticamente toda a patologia de mucosas começa com desvio do padrão normal de diferenciação, como a metaplasia e a displasia.
Epitélio é um tecido formado por células justapostas, com quase nenhuma substância intercelular, apoiadas sobre uma lâmina basal, avascular (a nutrição chega por difusão a partir do conjuntivo adjacente) e polarizado: cada célula tem domínio apical (voltado para a luz), lateral e basal. A classificação dos epitélios de revestimento combina dois critérios: o número de camadas celulares e a forma das células da camada mais superficial. Esse duplo critério permite nomear qualquer epitélio em segundos e é a porta de entrada de praticamente toda questão de prova sobre o tema.
| Tipo de epitélio | Camadas e forma | Exemplos de localização | Função principal |
|---|---|---|---|
| Simples pavimentoso | Uma camada, células achatadas | Endotélio (vasos), mesotélio (serosas), alvéolos pulmonares, porção fina da alça de Henle, câmara anterior do olho | Trocas por difusão, revestimento deslizante e passagem de líquidos |
| Simples cúbico | Uma camada, células cúbicas | Túbulos contornados proximais e distais do rim, superfície do ovário, ductos de glândulas (pâncreas, salivares), tireoide | Absorção e secreção moderadas, revestimento de ductos |
| Simples cilíndrico | Uma camada, células altas | Estômago, intestino delgado e cólon, útero e tubas (com cílios), vesícula biliar | Absorção intensa e secreção de muco e enzimas |
| Pseudoestratificado cilíndrico ciliado | Uma camada, alturas diferentes, com células caliciformes | Traqueia e brônquios; epidídimo e duto deferente (com estereocílios); ducto deferente | Movimentação do muco (escada mucociliar), proteção e absorção |
| Estratificado pavimentoso queratinizado | Várias camadas, superfície achatada morta e cheia de queratina | Epiderme (pele) | Proteção mecânica contra atrito e impermeabilização |
| Estratificado pavimentoso não queratinizado | Várias camadas, superfície achatada viva e úmida | Esôfago, vagina, cavidade oral, faringe, conjuntiva e córnea | Proteção contra atrito em meio úmido |
| Estratificado cúbico | Duas ou mais camadas de células cúbicas | Ductos de glândulas sudoríparas grandes, conjuntiva | Revestimento de ductos com certa resistência |
| Estratificado cilíndrico | Várias camadas, superfície cilíndrica | Uretra masculina (porção cavernosa), conjuntiva da pálpebra, grandes ductos | Proteção e secreção |
| Transicional (urotélio) | Estratificado com células da superfície em domo (células guarda-chuva) | Bexiga, ureteres, pelve renal e uretra proximal | Permite distensão sem romper e impede a reabsorção da urina |
Duas nomenclaturas especiais caem em prova: endotélio é o epitélio simples pavimentoso que reveste internamente coração, vasos e capilares, enquanto mesotélio é o simples pavimentoso que reveste as serosas (peritônio, pleura e pericárdio) e deriva do mesoderma. O urotélio muda de aspecto conforme o grau de distensão do órgão: na bexiga vazia parece ter 5 a 6 camadas de células; na bexiga cheia as células se achatam e o epitélio aparenta ter apenas 2 a 3 camadas. Essa plasticidade, e não uma mudança real de tipo celular, é o que justifica o nome transicional.
O domínio apical das células epiteliais apresenta especializações que expandem a área de contato com a luz ou geram movimento. Distinguir microvilos, cílios e estereocílios é obrigatório porque a aparência ao microscópio de luz é parecida, mas a estrutura, a função e as doenças associadas são completamente diferentes.
| Especialização | Estrutura | Localização típica | Função |
|---|---|---|---|
| Microvilos | Projeções citoplasmáticas de cerca de 1 micrômetro, núcleo de actina (microfilamentos com fimbrina e vilina), sem movimento próprio | Intestino delgado (borda em escova ou estriada), túbulo proximal do rim (borda em escova) | Aumenta em até 20 a 30 vezes a superfície de absorção |
| Estereocílios | Microvilos muito longos e agrupados, com feixes de actina interligados por espinha (estereocílios verdadeiros, não móveis) | Epidídimo, duto deferente e células ciliadas sensoriais do ouvido interno | Absorção de material em trânsito e transdução mecânica na cóclea |
| Cílios móveis | Projeções de 5 a 10 micrômetros com axonema 9+2 (nove dupletes de microtúbulos ao redor de um par central) e braços de dineína ATPase | Traqueia e brônquios, tubas uterinas, ventrículos cerebrais | Movimento coordenado que arrasta muco, óvulo e líquido |
| Queratina (camada córnea) | Acúmulo de filamentos de queratina dentro de corneócitos mortos, envoltos em lipídios extracelulares | Epiderme, palma e planta | Barreira mecânica e contra a perda de água |
As junções celulares mantêm as células epiteliais unidas e seladas, sustentam a polaridade e formam barreiras. Em microscopia eletrônica, o complexo junção apical dos epitélios cilíndricos segue uma ordem fixa da luz para a base: zônula de oclusão, zônula de aderência (ambas em faixa, ao redor de toda a célula), desmossomos pontuais e, na base, hemidesmossomos. A proteína que compõe cada junção é o alvo preferido das bancas, porque conecta histologia a dermatologia clínica.
| Junção | Proteínas principais | Citoesqueleto ancorado | Função e correlação clínica |
|---|---|---|---|
| Zônula de oclusão (tight junction, zonula occludens) | Claudinas (mais de 20 tipos), ocludina e proteínas da placa ZO-1, ZO-2 | Actina | Sela o espaço intercelular e mantém a polaridade (impede o deslocamento de proteínas e lipídios entre os domínios apical e basolateral); claudinas determinam a permeabilidade paracelular de cada epitélio |
| Zônula de aderência (zonula adherens) | Caderinas (E-caderina) ligadas a actina por meio de cateninas (beta-catenina, alfa-catenina) | Microfilamentos de actina | Adesão célula a célula e morfogênese; a perda de E-caderina é marca de transição epitélio-mesênquima e de invasão de carcinomas |
| Desmossomo (macula adherens) | Caderinas desmogleína 1 a 4 e desmocolina, com proteínas de placa desmoplaquina e placoglobina | Filamentos intermediários de queratina | Adesão forte pontual que resiste a tração; no pemfigo vulgar, anticorpos anti-desmogleína 3 causam acantólise (fissura intraepidérmica) e bolhas flácidas com sinal de Nikolsky positivo |
| Junção comunicante (gap junction) | Conexinas, que formam canais (conexons) alinhados entre células vizinhas | Não ancora o citoesqueleto | Passagem direta de íons e moléculas de até cerca de 1 kDa (acoplamento metabólico e elétrico); mutações na conexina 43 (GJA1) causam doenças cardíacas e na conexina 26 (GJB2) são a causa mais comum de surdez congênita autossômica recessiva |
| Hemidesmossomo | Integrina alfa 6 beta 4, plectina e os antígenos BP230 e BP180 (colágeno XVII), que ancoram a célula à laminina 332 da lâmina basal | Filamentos intermediários de queratina | Fixação da célula à lâmina basal; no penfigoide bolhoso, anticorpos anti-BP180 e anti-BP230 causam bolhas tensas subepidérmicas em idosos, com Nikolsky negativo |
Repare no par clássico de prova: pemfigo vulgar atinge desmossomos (anticorpo contra desmogleína 3, lesão intraepidérmica, bolha flácida, Nikolsky positivo), enquanto penfigoide bolhoso atinge hemidesmossomos (anticorpo contra BP180 e BP230, clivura entre epitélio e lâmina basal, bolha tensa, Nikolsky negativo). A localização do alvo molecular explica diretamente o nível da bolha na histologia.
Toda célula epitelial se apoia em uma lâmina basal, estrutura delgada (em torno de 50 a 100 nm) de natureza glicoproteica, visível apenas à microscopia eletrônica e fortemente positiva à coloração de PAS (ácido periódico de Schiff, que evidencia polissacarídeos). Em óptica, o que se vê com PAS e reticulina é a membrana basal, formada pela lâmina basal somada à lâmina reticular de fibras reticulares (colágeno tipo III) do conjuntivo. Ou seja: toda membrana basal contém uma lâmina basal, mas lâmina basal e membrana basal não são sinônimos rigorosos.
Epitélios estão em renovação contínua porque a exposição ao meio desgasta e elimina células. As células-tronco ficam em nichos protegidos: camada basal da epiderme e do epitélio estratificado, cripta de Lieberkühn no intestino (células-tronco +4 e CBC, marcador Lgr5) e istmo gástrico. As novas células migram e se diferenciam conforme a posição, e a morte ocorre por apoptose ou descamação. O turnover varia: o epitélio do intestino delgado renova-se completamente em 3 a 5 dias, o epitélio superficial gástrico em cerca de 3 a 5 dias e a epiderme leva cerca de 28 dias para trocar toda a camada desde a mitose basal até a descamação do estrato córneo. Em consequência, quimioterápicos que atingem células em divisão rápida (como 5-fluorouracil e metotrexato) produzem mucosite oral, diarreia e mielossupressão: os três tecidos de maior turnover do corpo.
Identificar de onde veio um corte histológico é uma habilidade diretamente cobrada. Cada trato tem padrão epitelial próprio ao longo de todo o seu trajeto, e as transições abruptas entre padrões (junções escamo-colunar do colo, transição esôfago-estômago, ureter-bexiga) são exatamente os locais onde surgem metaplasias e tumores. Simplifique a memorização com a lógica funcional: onde há troca de gases ou líquidos, epitélio simples pavimentoso; onde há absorção e secreção, simples cilíndrico; onde há atrito, estratificado pavimentoso; onde há necessidade de varredura de muco, pseudoestratificado ciliado; onde há armazenamento de urina, urotélio.
| Trato | Epitélio predominante | Marcas histológicas e células a reconhecer |
|---|---|---|
| Respiratório (traqueia e brônquios) | Pseudoestratificado cilíndrico ciliado com células caliciformes | Cílios com axonema 9+2, células caliciformes produtoras de muco, células basais e em taça; nos bronquíolos o epitélio torna-se simples cúbico a cilíndrico com células de Clara; nos alvéolos, simples pavimentoso (pneumócitos I) e pneumócitos II com corpos lamelares de surfactante |
| Digestivo superior (boca a esôfago) | Estratificado pavimentoso não queratinizado | Mucosa úmida e mole; a queratinização só aparece na pele e nas áreas de atrito da mucosa oral mastigatória (gengiva e palato duro) |
| Estômago e intestinos | Simples cilíndrico | Estômago: fossetas gástricas com células mucosas do colo, principais (pepsinogênio), parietais (HCl e fator intrínseco) e endócrinas; intestino delgado: vilosidades e criptas, borda em escova de microvilos, células caliciformes, de Paneth e enteroendócrinas; cólon: criptas sem vilosidades e muitas células caliciformes |
| Geniturinário | Transicional (urotélio) | Células superficiais em domo (guarda-chuva) com placas de uroplaquina na membrana apical, que impermeabilizam o epitélio à urina hipertônica; na uretra feminina e masculina distal o epitélio passa a estratificado pavimentoso |
Metaplasia é a mudança reversível e adaptativa pela qual um tipo celular diferenciado é substituído por outro mais apto a suportar o estresse ambiente. É uma adaptação de células-tronco locais que redirecionam sua diferenciação, e não uma migração de células de fora. A metaplasia escamosa é a mais comum: o epitélio colunar frágil é substituído por estratificado pavimentoso mais resistente ao atrito e à agressão química. O preço é funcional: perde-se a mucosidade e a motilidade ciliar, e se o estímulo persiste a metaplasia pode progredir para displasia (desordem de crescimento com atipia nuclear) e carcinoma in situ.
No colo uterino, a metaplasia escamosa fisiológica ocorre na zona de transformação, a região entre o epitélio escamoso original (ectocérvice) e o cilíndrico (endocérvice) exposto ao pH vaginal ácido na puberdade. Essa junção escamo-colunar é também o alvo preferencial do papilomavírus humano (HPV) dos tipos oncogênicos 16 e 18, cujas oncoproteínas E6 e E7 degradam p53 e inativam Rb, respectivamente. A infecção persiste, a zona de transformação acumula atipias e surge a neoplasia intraepitelial cervical (NIC, hoje classificada como LSIL de baixo grau e HSIL de alto grau na nomenclatura de Bethesda). Todo o racional do rastreamento do câncer do colo do útero, um dos mais incidentes em mulheres brasileiras, é detectar e tratar a lesão intraepitelial antes da invasão.
No trato respiratório do fumante, a agressão crônica pela fumaça transforma o pseudoestratificado ciliado da traqueia e dos brônquios em estratificado pavimentoso: some o muco arrastado, sumam as células caliciformes, acumula-se secreção e a via fica propensa a bronquite crônica. A mesma sequência metaplasia, displasia e carcinoma in situ precede o carcinoma escamoso de pulmão. Outras metaplasias clássicas de prova: o esôfago de Barrett, em que o estratificado pavimentoso do esôfago distal é substituído por epitélio colunar com células caliciformes (metaplasia intestinal) por refluxo gastroesofágico crônico, com risco de adenocarcinoma; a metaplasia escamosa da bexiga por cálculo ou esquistossomose por Schistosoma haematobium, associada ao carcinoma escamoso vesical; e a metaplasia intestinal gástrica por Helicobacter pylori, pré-câncer gástrico.
O exame citopatológico de Papanicolaou (esfregaço cérvico-vaginal) avalia a descamação espontânea das células da zona de transformação, coradas pela técnica de Papanicolaou, que evidencia núcleo e citoplasma. É um exame de rastreamento de lesões precursoras e do carcinoma escamoso, com alta sensibilidade para HSIL quando coletado corretamente (ectocérive e endocérive com escova e espátula, fixação imediata). Pela diretriz brasileira do INCA (2016), o rastreamento é oferecido a mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram atividade sexual, com exame anual por dois anos consecutivos normais e, a partir daí, trienal. Lesões intraepiteliais tratadas conizadamente têm cura superior a 95%, o que explica a queda marcante da mortalidade por câncer do colo em países com rastreamento organizado.
| Categoria Bethesda | Significado | Conduta usual |
|---|---|---|
| NILM | Negativo para lesão intraepitelial ou malignidade | Manter rastreamento de rotina |
| ASC-US | Células escamosas atípicas de significado indeterminado | Testagem de HPV-DNA (triagem) ou repetir citologia em 6 a 12 meses; se HPV de alto risco positivo, colposcopia |
| LSIL (NIC 1) | Lesão escamosa intraepitelial de baixo grau, geralmente por HPV transitório | Colposcopia em mulheres acima de 25 anos; em mulheres mais jovens, seguimento citológico pela alta taxa de regressão espontânea |
| HSIL (NIC 2 e NIC 3) | Lesão de alto grau, com risco real de progressão a invasor | Colposcopia dirigida com biópsia e tratamento excisional (conização, LEEP) conforme extensão |
| AGC | Células glandulares atípicas (endocervicais ou endometriais) | Colposcopia com curetagem endocervical e avaliação do endométrio quando indicado pela idade |
Vale lembrar que o Papanicolaou é exame de rastreamento citológico: o diagnóstico definitivo de NIC ou de carcinoma é histológico, pela biópsia dirigida à colposcopia. O teste de HPV-DNA entrou no rastreamento organizado brasileiro mais recente como ferramenta primária ou de triagem de ASC-US, porque detecta o agente etiológico antes mesmo de haver alteração morfológica celular.
1.Um corte histológico da traqueia mostra epitélio com células de alturas diferentes, todas apoiadas na lâmina basal, apenas parte delas alcançando a luz, com cílios na superfície e células caliciformes intercaladas. Qual é a classificação correta?
2.Quais proteínas compõem a zônula de oclusão (tight junction) dos epitélios?
3.Paciente de 40 anos com bolhas flácidas orais e sinal de Nikolsky positivo; a biópsia mostra acantólise com fissura intraepidérmica. Qual é o alvo molecular do autoanticorpo?
4.Qual colágeno é exclusivo da lâmina basal?
5.Na bexiga vazia o urotélio parece ter 5 a 6 camadas de células; na bexiga distendida, aparenta ter 2 a 3. O que explica essa variação?
6.O epitélio do esôfago é classificado como:
7.A borda em escova (ou estriada) das células do túbulo contornado proximal do rim é formada por:
8.A zona de transformação do colo uterino, sede da maioria das neoplasias intraepiteliais cervicais, corresponde a:
9.A síndrome de Goodpasture é mediada por anticorpos contra qual componente da membrana basal glomerular e alveolar?
10.Homem de 28 anos com bronquiectasias, sinusite crônica, situs inversus totalis e infertilidade. A análise ultraestrutural dos cílios mostrará defeito de qual estrutura?
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