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Revisão completa das trombocitopenias: graduação e limiares de sangramento e de procedimentos, classificação mecanística, fisiopatologia da PTI, HIT, PTT e CIVD, apresentação clínica, algoritmo diagnóstico com escores 4Ts, PLASMIC e ISTH, e tratamento com doses e vias por etiologia.
[1] Neunert C, Terrell DR, Arnold DM, et al. American Society of Hematology 2019 guidelines for immune thrombocytopenia. Blood Adv. 2019;3(23):3829-3866 · DOI 10.1182/bloodadvances.2019000966 | [2] Cuker A, Arepally GM, Chong BH, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: heparin-induced thrombocytopenia. Blood Adv. 2018;2(22):3360-3392 · DOI 10.1182/bloodadvances.2018028078 | [3] Rodeghiero F, Stasi R, Gernsheimer T, et al. Standardization of terminology, definitions and outcome criteria in immune thrombocytopenic purpura of adults and children: report from an international working group. Blood. 2009;113(11):2386-2393 · DOI 10.1182/blood-2008-07-162503 | [4] Kremer Hovinga JA, Coppo P, Lämmle B, Moake JL, Miyata T, Vanhoorelbeke K. Thrombotic thrombocytopenic purpura. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17020 · DOI 10.1038/nrdp.2017.20 | [5] Hoffman R, Benz EJ, Silberstein LE, et al. Hematology: Basic Principles and Practice. 7th ed. Elsevier; 2018 · DOI 10.1182/bloodadvances.2019000966
Trombocitopenia é a redução da contagem plaquetária abaixo de 150 x 10^9/L e um dos achados laboratoriais mais frequentes da prática médica: acomete de 3% a 5% dos gestantes a termo, cerca de 8% a 20% dos pacientes internados em enfermarias e até dois terços dos pacientes críticos em algum momento da internação em terapia intensiva. A maioria dos casos é reativa e benigna, mas o diferencial inclui emergências hematológicas que matam em horas — púrpura trombocitopênica trombótica (PTT), coagulação intravascular disseminada (CIVD) e trombocitopenia induzida por heparina (HIT) com trombose — e, por isso, o racional diagnóstico precisa ser automático no estudante e no médico de plantão. Este artigo organiza as trombocitopenias por mecanismo, apresenta as síndromes-âncora com seus números e entrega o algoritmo diagnóstico e o tratamento com doses, vias e durações, ancorado nas diretrizes da American Society of Hematology (ASH 2019 para PTI e ASH 2018 para HIT) e nas classificações do grupo internacional de trabalho (Rodeghiero, 2009).
A graduação clássica é leve (100 a 150 x 10^9/L), moderada (50 a 100 x 10^9/L) e grave (menor que 50 x 10^9/L). Mais importante que a graduação é a relação entre contagem e risco: sangramento espontâneo significativo é raro acima de 30 x 10^9/L e concentra-se abaixo de 20 x 10^9/L, com risco maior abaixo de 10 x 10^9/L — sobretudo se houver sangramento úmido (mucosal), febre, anemia ou tratamento antiagregante e anticoagulante associados. Para procedimentos, os limiares praticados: maior ou igual a 50 x 10^9/L para cirurgias de grande porte, cesariana e toracotomia; maior ou igual a 100 x 10^9/L para cirurgia neurológica, oftalmológica e cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea; e em torno de 80 x 10^9/L (alguns serviços aceitam 75) para anestesia neuroaxial. A plaqueta vive 7 a 10 dias e cerca de um terço do pool fica sequestrado no baço, dados que explicam tanto a cinética das causas quanto o efeito da esplenectomia e do sequestro.
| Faixa de plaquetas | Risco dominante | Conduta prática |
|---|---|---|
| 100 a 150 x 10^9/L | risco mínimo de sangramento | investigar causa; sem restrição a procedimentos |
| 50 a 100 x 10^9/L | sangramento com trauma e procedimentos de médio porte | procedimentos de pequeno porte seguros; atenção a anticoagulantes |
| 20 a 50 x 10^9/L | sangramento relevante em procedimentos de grande porte | transfundir plaquetas se procedimento major ou sangramento ativo |
| menor que 20 x 10^9/L | sangramento espontâneo, sobretudo cutâneo-mucoso | tratar a causa; considerar transfusão profilática abaixo de 10 a 20 x 10^9/L se falha de produção |
| menor que 10 x 10^9/L | risco de sangramento major, inclusive intracraniano (raro, menor que 1% na PTI) | emergência hematológica: tratamento específico da etiologia e suporte transfusional se falha medular |
Toda trombocitopenia surge por um (ou mais) de cinco mecanismos: produção diminuída, destruição aumentada, sequestro esplênico, diluição e artifacto laboratorial. A destruição divide-se em imune (PTI, HIT, fármacos, doenças autoimunes, vírus) e não imune (microangiopatias — PTT e síndrome hemolítico-urêmica —, CIVD, hipertensão e pré-eclâmpsia, válvulas e circulação extracorpórea). A produção diminuída reúne falha medular global (aplasia, síndromes mielodisplásicas, infiltração neoplásica), déficit nutricional (cobalamina e folato — macrocitose), hipoplasia megacariocítica por fármacos (talicodomida, carbamazepina, ganciclovir, quimioterapia, álcool) e infecções congênitas ou adquiridas (HIV, HCV, dengue, rubéola, citomegalovírus). Sequestro significa hipertrofia esplênica (cirrose com hipertensão porta, doenças de depósito, leishmaniose visceral, esquistossomose mansônica na forma hepatoesplênica — causa brasileira clássica), em que a contagem raramente cai abaixo de 30 a 50 x 10^9/L. Diluição ocorre após reposição volêmica maciça com hemocomponentes pobres em plaquetas, e a pseudo-trombocitopenia é o artifacto por aglutinação das plaquetas pelo EDTA do tubo, presente em cerca de 0,1% a 2% das amostras.
| Mecanismo | Exemplos principais | Pistas diagnósticas |
|---|---|---|
| Destruição imune | PTI, HIT, fármacos (quinina, vancomicina, sulfas), lúpus, HIV, HCV | esfregaço com plaquetas grandes; megacariócitos preservados ou aumentados na medula |
| Destruição não imune (microangiopatia) | PTT, SHU/aHUS, CIVD, pré-eclâmpsia e HELLP, válvulas cardíacas | esquistócitos no esfregaço; hemólise; conforme a síndrome, febre, neurológico ou renal |
| Produção diminuída | aplasia, MDS, leucemias, cobalamina e folato, álcool, quimio, HIV | outras linhagens comprometidas; macrocitose; medula hipocelular ou infiltrada |
| Sequestro esplênico | cirrose, esquistossomose hepatoesplênica, leishmaniose, linfomas | esplenomegalia à palpitação e imagem; contagem raramente menor que 30 x 10^9/L |
| Diluição e artifacto | transfusão maciça; aglutinina anti-EDTA | contexto de reposição volêmica; repetir contagem em tubo de citrato e ver grumos no esfregaço |
A PTI (púrpura trombocitopênica imune) tem incidência de 2 a 4 casos por 100 mil adultos por ano, prevalência de 9,5 a 23,6 por 100 mil, leve predominância feminina na idade adulta jovem e pico na criança entre 2 e 5 anos, após infecção viral, com remissão espontânea em cerca de 80% das crianças (contra cronificação na maioria dos adultos). A HIT ocorre em 0,2% a 5% dos pacientes expostos à heparina não fracionada por ao menos 5 dias — risco maior em cirurgia ortopédica e cardíaca (1% a 5%) e menor com heparinas de baixo peso molecular (0,2% a 0,6%) —, com risco de trombose de até 50% em 30 dias quando não tratada. A PTT imune tem incidência aproximada de 2 a 10 casos por milhão de habitantes por ano (séries mais recentes apontam taxas maiores que as históricas de 3 a 4 por milhão pela maior consciência diagnóstica), predomínio feminino de cerca de 2:1 e pico entre 30 e 50 anos. A CIVD complica cerca de 20% a 40% dos quadros de sepse grave (variando com o escore usado) e acompanha neoplasias sólidas e hematológicas, trauma grave, obstetrícia (abrupção placentária, embolia de líquido amniótico) e envenenamentos. Na gestação, a trombocitopenia gestacional incidental é a causa mais frequente (5% a 10% das gestações, terceiro trimestre, contagem quase sempre maior que 100 x 10^9/L, resolução pós-parto), seguida da PTI (cerca de 1 a 2 por 1.000 gestações) e da pré-eclâmpsia com HELLP (0,2% a 0,6%).
As plaquetas originam-se do megacariócito medular sob comando da trombopoetina (TPO), hormônio produzido de forma constitutiva pelo fígado e pelo rim, que se liga ao receptor c-MPL. Diferente da eritropoetina, a TPO não tem retroalimentação pela contagem periférica: o consumo plaquetário reduz a fração ligada aos receptores e eleva a TPO livre — mecanismo que assegura resposta compensatória nas trombocitopenias por destruição e que fundamenta o uso de agonistas do receptor de TPO na PTI refratária. Na PTI, autoanticorpos (predominantemente IgG contra as glicoproteínas IIb/IIIa e Ib/IX) opsonizam plaquetas que são fagocitadas por macrófagos esplênicos, e os mesmos anticorpos danificam megacariócitos, limitando a compensação; o baço é simultaneamente local de destruição e de produção de anticorpos, o que explica a eficácia da esplenectomia. Na HIT, anticorpos IgG contra o complexo plaquetário fator 4-heparina (PF4-heparina) ligam-se simultaneamente ao complexo e ao receptor Fc-gamma-RIIa das plaquetas e dos monócitos, gerando ativação plaquetária, geração de trombina e um estado protrombótico paradoxal: o paciente trombocitopênico trombosa (venoso em mais da metade dos casos, arterial em torno de um quarto).
Na PTT imune, autoanticorpos anti-ADAMTS13 (uma metaloprotease que cliva os multímeros ultragrandes do fator de von Willebrand) reduzem a atividade da enzima a menos de 10%, e os multímeros ultragrandes aderidos ao endotélio capturam plaquetas formando microtrombos ricos em vWF nas arteríolas e capilares —consumo plaquetário, hemólise microangiopática mecânica e isquemia de órgãos, especialmente sistema nervoso central, coração e rins; a forma congênita (síndrome de Upshaw-Schulman) segue a mesma lógica por deficiência herdada. Na CIVD, a exposição tissular de fator tecidual (sepse, trauma, obstetrícia, neoplasia) dispara geração difusa de trombina, deposição difusa de fibrina com consumo de plaquetas, fibrinogênio e fatores, e ativação secundária da fibrinólise — o paciente sangra e trombosa ao mesmo tempo, com sangramento de pontos de punção característico. Já a pseudo-trombocitopenia por EDTA decorre de autoanticorpos que expõem epítopos de GPIIb/IIIa na anticoagulação com EDTA, causando aglutinação que o contador automático não reconhece como plaquetas isoladas.
O sangramento por déficit plaquetário é cutâneo-mucoso e superficial: pétéquias (puntiformes, não palpatórias, dependentes) e equimoses espontâneas, epistaxe prolongada, gengivorragia, sangramento à escovação, menorrhagia e sangramento gastrointestinal; hemartroses e hematomas profundos sugerem coagulopatia de fatores (hemofilia), não trombocitopenia — o padrão do sangramento orienta a linha diagnóstica antes de qualquer exame. A gravidade correlaciona-se mal com a contagem, com duas exceções práticas: abaixo de 20 x 10^9/L o risco sobe e o sangramento úmido (bolhas hemorrágicas orais, púrpura úmida) marca risco iminente de sangramento major, inclusive intracraniano. Cada síndrome-âncora tem assinatura: PTI — paciente bem, trombocitopenia isolada, sem esplenomegalia, sem linfadenopatia, achado cutâneo de dias a semanas; PTT — a tríade anemia hemolítica microangiopática mais trombocitopenia mais sintoma neurológico flutuante (cefaleia, confusão, focalização), com febre e palidez, e a pentade somando lesão renal e febre; HIT — queda de plaquetas 5 a 10 dias após exposição à heparina (ou em menos de 24 horas se exposição nos últimos 30 a 100 dias), com trombose, necrose cutânea no local de injeção ou reação sistêmica após bolus; CIVD — paciente séptico, obstétrica ou politraumatizado, sangrando por cateteres e mucosas, com hipotensão e disfunção de órgãos; sequestro — esplenomegalia e citopenias modestas em paciente com doença hepática crônica ou infecção crônica.
| Síndrome | Padrão de plaquetas | Sinal-selo clínico-laboratorial | Erro clássico a evitar |
|---|---|---|---|
| PTI | isolada, muitas vezes menor que 20 x 10^9/L | paciente bem, sem esplenomegalia; MPV elevado; medula com megacariócitos presentes | pedir medula óssea de rotina para todos: a ASH 2019 dispensa o exame na maioria |
| HIT | queda de mais de 50% ou nadir 20 a 100 x 10^9/L, dia 5 a 10 | trombose apesar da trombocitopenia; escore 4Ts intermediário a alto | continuar heparina ou iniciar varfarina precoce com plaquetas baixas |
| PTT | variável com anemia hemolítica e esquistócitos | ADAMTS13 menor que 10%; neurológico flutuante; creatinina pouco alterado | aguardar ADAMTS13 para iniciar troca plasmática; transfundir plaquetas sem indicação vital |
| CIVD | consumo com PT/INR prolongado e fibrinogênio baixo | sangramento de pontos de punção; escore ISTH maior ou igual a 5 | tratar o laboratório e esquecer de tratar a causa base |
| Sequestro esplênico | moderada, raramente menor que 30 x 10^9/L | esplenomegalia; outras linhagens levemente baixas; cirrose ou infecção crônica | indicar tratamento imunossupressor por suspeita de PTI sem palpar o baço |
Na HIT, o escore 4Ts estratifica a probabilidade pré-teste: trombocitopenia (queda maior que 50% ou nadir de 20 a 100 x 10^9/L pontua 2), timing compatível (queda entre os dias 5 e 10 de exposição, ou em até 24 horas com exposição prévia nos últimos 30 dias, pontua 2), trombose ou outra sequela (nova trombose, necrose cutânea ou reação sistêmica aguda após bolus intravenoso pontuam 2) e ausência de outra causa plausível (pontua 2). Escore 0 a 3 é baixa probabilidade (afasta HIT sem imunoensaio), 4 a 5 intermediária e 6 a 8 alta probabilidade. Nos escores intermediários e altos, solicita-se o ensaio imunossorbente (ELISA) anti-PF4-heparina, de alta sensibilidade (acima de 90%) porém especificidade limitada, e confirma com teste funcional (liberação de serotonina ou agregometria com heparina), que é o padrão-ouro por especificidade superior a 95%.
| Componente do escore 4Ts | 2 pontos | 1 ponto | 0 ponto |
|---|---|---|---|
| Trombocitopenia | queda maior que 50% e nadir maior ou igual a 20 x 10^9/L | queda de 30% a 50% ou nadir de 10 a 19 x 10^9/L | queda menor que 30% ou nadir menor que 10 x 10^9/L |
| Timing (tempo) | queda no dia 5 a 10, ou em até 1 dia com exposição nos últimos 30 dias | timing consistente porém incompleto, ou dia 1 sem exposição recente | queda antes do dia 4 sem exposição recente |
| Trombose ou sequela | trombose nova, necrose cutânea, reação sistêmica aguda após bolus | trombose progressiva ou suspeita de recidiva | nenhuma sequela |
| Outras causas de queda | nenhuma evidente | causa possível | causa definida |
Na suspeita de PTT, o escore PLASMIC estima a chance de deficiência grave de ADAMTS13 (menor que 10%): um ponto para cada item presente — plaquetas menor que 30 x 10^9/L, hemólise intravascular (LDH elevado e haptoglobina baixa, sem outra causa), ausência de câncer ativo, ausência de transplante prévio, volume corpuscular médio menor que 90 fL, INR menor que 1,5 e creatinina menor que 2 mg/dL. Escore de 0 a 2 é baixo risco, 3 a 5 intermediário e 6 a 7 alto risco, no qual a probabilidade de ADAMTS13 menor que 10% passa de cerca de 90% — e a atividade de ADAMTS13 menor que 10% confirma PTT imune (entre 10% e 60%, interpretar com clínica). Na CIVD, o escore ISTH de 5 pontos soma: plaquetas (maior que 100 = 0; menor que 100 = 1; menor que 50 = 2), prolongamento do tempo de protrombina (menos de 3 segundos = 0; 3 a 6 segundos = 1; mais de 6 segundos = 2), fibrinogênio (maior que 1 g/L = 0; menor ou igual a 1 g/L = 1) e marcadores de ativação da fibrinólise (D-dímero ou PDFs sem elevação = 0; elevação moderada = 2; elevação acentuada = 3); escore maior ou igual a 5 é compatível com CIVD franca. A PTI continua sendo diagnóstico de exclusão: não há teste que a confirme, e o papel do clínico é descartar as causas secundárias e as imitações graves antes de rotular.
PTI (ASH 2019): pacientes sem sangramento e com plaquetas maiores que 20 a 30 x 10^9/L podem ser apenas observados; a internação é indicada com plaquetas menores que 20 x 10^9/L, mesmo assintomáticos, e com qualquer sangramento relevante. Primeira linha: prednisona 0,5 a 2 mg/kg/dia por via oral (esquema habitual de 1 mg/kg/dia) por 2 a 4 semanas com desmame progressivo, ou dexametasona 40 mg/dia por via oral ou IV por 4 dias, com resposta mais rápida. Quando é preciso elevar plaquetas em 1 a 3 dias (sangramento, cirurgia, gestação), usa-se imunoglobulina intravenosa (IVIG) na dose de 1 g/kg/dia por 1 a 2 dias, ou imunoglobulina anti-D (50 a 75 mcg/kg) em pacientes Rh positivo com baço presente. Na emergência hemorrágica (plaquetas menores que 10 a 20 x 10^9/L com sangramento úmido ou sangramento intracraniano): hospitalização, corticoide intravenoso em dose alta (metilprednisolona 1 g/dia por 3 dias ou equivalente), IVIG 1 g/kg/dia por 2 dias, transfusão de plaquetas como ponte até a resposta (com IVIG simultâneo) e consideração de agonista de TPO; a esplenectomia permanece opção histórica de segunda linha, com resposta em torno de 60% a 70%, a realizar apenas após vacinação antipneumocócica, antimeningocócica e contra Haemophilus influenzae tipo b, idealmente ao menos 2 semanas antes.
| Fármaco | Dose e via | Indicação e observações |
|---|---|---|
| Prednisona | 0,5 a 2 mg/kg/dia VO por 2 a 4 semanas, desmame gradual | primeira linha da PTI; resposta inicial em 4 a 7 dias na maioria dos respondedores |
| Dexametasona | 40 mg/dia VO ou IV por 4 dias | alternativa de primeira linha; resposta mais rápida e sem desmame prolongado |
| Imunoglobulina IV (IVIG) | 1 g/kg/dia IV por 1 a 2 dias | elevação rápida (24 a 72 horas) e transitória (2 a 4 semanas); sangramento, cirurgia, gestação |
| Imunoglobulina anti-D | 50 a 75 mcg/kg IV em dose única | alternativa ao IVIG em Rh positivo com baço presente; risco de hemólise |
| Eltrombopague | 25 a 75 mg/dia VO, em jejum de 1 hora antes e 2 horas depois de alimentos e lacticínios | agonista de TPO de segunda linha; monitorar função hepática |
| Romiplostim | 1 a 10 mcg/kg SC semanal | agonista de TPO de segunda linha; ajuste semanal conforme resposta |
| Rituximabe | 375 mg/m2 IV semanal por 4 semanas | segunda linha; resposta em 4 a 8 semanas, em torno de 60% inicial |
| Caplacizumabe | 10 mg IV em bolus seguido de 10 mg SC/dia | PTT imune: anti-vWF; usar com troca plasmática e corticoide |
| Argatroban | 2 mcg/kg/min IV contínua (0,5 a 1,2 na disfunção hepática) | anticoagulação da HIT; alvo de TTPa 1,5 a 3 vezes o basal |
| Bivalirudina | 0,15 mg/kg/h IV contínua com ajuste por TTPa | HIT, inclusive em intervenções coronárias percutâneas |
PTT imune: a troca plasmática (TPE) diária com reposição de 1 a 1,5 volumes plasmáticos é a pedra angular e deve começar empiricamente na suspeita clínica, sem aguardar ADAMTS13 — associar corticoide (prednisona 1 a 2 mg/kg/dia VO ou metilprednisolona IV equivalente) e caplacizumabe (bolus IV de 10 mg seguido de 10 mg SC/dia, mantido por ao menos 30 dias e até a recuperação sustentada da ADAMTS13), que reduz o tempo até a normalização plaquetária e as recorrências precoces; rituximabe é adjuvante nos casos refratários ou recorrentes. Transfundir plaquetas apenas se sangramento com risco de vida ou procedimento invasivo: a transfusão pode agravar a microangiopatia. HIT (ASH 2018): suspenda imediatamente toda heparina (incluindo flushes, heparina de baixo peso molecular e soluções de cateter), inicie anticoagulante não heparínico em dose terapêutica — argatroban ou bivalirudina por via IV, ou fondaparinuxa 5 a 7,5 mg SC/dia com ajuste renal como opção em pacientes estáveis, e anticoagulantes orais diretos em cenários selecionados — e procure trombose com imagem, porque até metade dos pacientes já trombosou. Varfarina somente após a recuperação plaquetária para pelo menos 150 x 10^9/L, iniciada em dose baixa com sobreposição de ao menos 5 dias com o inibidor direto da trombina: iniciar varfarina com plaquetas baixas causa gangrena venosa do membro e necrose cutânea por depleção da proteína C. Transfusão de plaquetas na HIT é contraindicada de rotina, reservada a sangramento grave.
CIVD: o tratamento é da causa base — antibióticos e controle de foco na sepse, esvaziamento uterino na abrupção, estabilização do trauma —, com suporte hemostático dirigido: plaquetas se sangramento ativo com contagem menor que 50 x 10^9/L (ou menor que 20 a 30 x 10^9/L sem sangramento em pacientes de alto risco), crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio se fibrinogênio menor que 1,5 g/L (meta acima de 1,5), e plasma fresco congelado se INR acentuadamente prolongado com sangramento; a heparina terapêutica na CIVD é exceção (trombose dominante, como aneurisma aórtico com CIVD crônica), sempre pesando o risco. Nas trombocitopenias por falha de produção, o suporte transfusional segue limiares de profilaxia (abaixo de 10 x 10^9/L, ou 20 x 10^9/L com febre ou fatores de risco), lembrando que cada unidade de concentrado de plaquetas de pool eleva a contagem em torno de 5 a 10 x 10^9/L no adulto (dose habitual de 1 unidade por 10 kg de peso) e que refratariedade (incremento menor que 7,5 x 10^9/L em 10 a 60 minutos) sugere aloimunização, exigindo unidades compatíveis por crossmatch ou HLA. No sequestro esplênico e nas causas nutricionais, infecciosas e farmacológicas, o tratamento é o da doença base; na pseudo-trombocitopenia, nenhum tratamento — apenas coleta em citrato para os exames futuros.
PTI: a maioria dos adultos evolui para doença persistente (3 a 12 meses) ou crônica (mais de 12 meses, pela padronização de Rodeghiero de 2009); cerca de 70% a 80% respondem à primeira linha, mas muitos recidivam no desmame do corticoide e seguem para agonistas de TPO, rituximabe ou esplenectomia; a hemorragia intracraniana é rara (menor que 1%), concentrada em plaquetas persistentemente menores que 10 x 10^9/L com sangramento úmido; qualidade de vida e fadiga são queixas frequentes. PTT: a mortalidade caiu de mais de 90% na era pré-troca plasmática para cerca de 10% a 20%, com recidiva em 30% a 50% dos sobreviventes (maior risco no primeiro ano) e necessidade de monitoração da ADAMTS13 para desmame da imunossupressão; envolvimento cardíaco (troponina elevada, arritmias) é causa subestimada de morte. HIT: sem tratamento, até 50% trombosam em 30 dias, com mortalidade de 10% a 20%; os anticorpos são transitórios, indetectáveis em 50 a 100 dias na maioria, o que permite reexposição futura a heparina em situações selecionadas (cirurgia cardíaca), desde que com anticorpos negativos. CIVD franca mantém mortalidade elevada (30% a 50% nas séries de terapia intensiva) e é marcador de gravidade da doença base. Trombocitopenias farmacológicas e infecciosas recuperam-se em dias a semanas após a retirada do agente ou o controle da infecção.
1.Paciente assintomático chega com plaquetas de 90 x 10^9/L em hemograma de rotina com EDTA. Qual o primeiro passo antes de qualquer investigação?
2.O mecanismo da pseudo-trombocitopenia por EDTA é:
3.Adulto de 34 anos, bem, com plaquetas de 8 x 10^9/L, pétéquias e gengivorragia há 1 semana, sem esplenomegalia, hemograma normal nas demais linhagens e esfregaço sem esquistócitos. HIV e hepatites negativos. Qual a conduta de primeira linha?
4.Qual intervenção eleva as plaquetas mais rapidamente (24 a 72 horas) na PTI com sangramento ou necessidade de procedimento urgente?
5.Paciente em uso de heparina não fracionada desde a cirurgia há 6 dias apresenta queda de plaquetas de 220 para 70 x 10^9/L e TVP nova. Qual a conduta imediata?
6.Quando a varfarina pode ser iniciada com segurança no paciente com HIT?
7.Gestante de 36 semanas com plaquetas de 85 x 10^9/L, assintomática, sem hipertensão, com enzimas hepáticas normais. Qual o diagnóstico mais provável?
8.Paciente com plaquetas de 22 x 10^9/L, hemoglobina de 7,5 g/dL, LDH de 900 U/L, haptoglobina baixa, esquistócitos no esfregaço, creatinina de 0,9 mg/dL e confusão mental flutuante. Qual a conduta correta?
9.No escore ISTH para CIVD franca, qual combinação pontua como CIVD evidente?
10.Qual contagem plaquetária é considerada limiar habitual para cirurgia neurológica ou oftalmológica?
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