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Revisão completa de terapia transfusional: hemocomponentes e prescrição, estratégia restritiva versus liberal (AABB 2023, TRISS, TRIPICU), protocolo de transfusão maciça no trauma com metas laboratoriais, particularidades pediátricas e neonatais, programa transfusional da talassemia major com quelantes de ferro e manejo das reações transfusionais.
[1] Carson JL, Stanworth SJ, Roubinian NR, et al. Red Blood Cell Transfusion: 2023 AABB International Guidelines. JAMA. 2023;330(19):1892-1902 · DOI 10.1001/jama.2023.12914 | [2] Spahn DR, Bouillon B, Cerny V, et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Crit Care. 2019;23(1):98 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-9 | [3] Holst LB, Haase N, Wetterslev J, et al. Lower versus higher hemoglobin threshold for transfusion in septic shock (TRISS). N Engl J Med. 2014;371(15):1381-1391 · DOI 10.1056/NEJMoa1404160 | [4] Lacroix J, Hébert PC, Hutchison JS, et al. Transfusion strategies for patients in pediatric intensive care units (TRIPICU). N Engl J Med. 2007;356(16):1609-1619 · DOI 10.1056/NEJMoa066003 | [5] Kattamis A, Forni GL, Aydinok Y, Viprakasit V. Thalassaemia. Lancet. 2022;399(10345):2310-2324 · DOI 10.1016/S0140-6736(22)00536-0 | [6] Thalassaemia International Federation. Guidelines for the Management of Transfusion-Dependent Thalassaemia. 4ª ed. Nicósia: TIF; 2021 · https://thalassaemia.org.cy | [7] Anvisa. RDC nº 34, de 11 de junho de 2014: Boas Práticas no Ciclo do Sangue · https://www.gov.br/anvisa · DOI 10.1001/jama.2023.12914
A transfusão de hemocomponentes é um dos procedimentos hospitalares mais frequentes do mundo e, ao mesmo tempo, um dos mais prescritos sem indicação precisa. Nas últimas duas décadas, ensaios randomizados mudaram a prática: o limiar liberal de hemoglobina cedeu lugar à estratégia restritiva, em que a transfusão é indicada por sintomas e alvo de hemoglobina baixo, tipicamente 7 g/dL em adultos hospitalizados estáveis, conforme as diretrizes internacionais da AABB de 2023. Para a prova, o aluno precisa dominar três cenários com lógicas distintas: o paciente estável (restritivo), o sangramento maciço do trauma (transfusão equilibrada e precoce) e a anemia crônica da talassemia major (transfusão programada com supressão da eritropoiese ineficaz e quelação de ferro). Erros de identificação paciente-bolsa e reações transfusionais continuam entre as principais causas de dano evitável em hemoterapia.
A prescrição deve ser por componente específico, jamais por sangue total, que hoje fica restrito a situações muito particulares. O concentrado de hemácias (CH) tem hematócrito entre 50% e 70% e volume de aproximadamente 300 a 350 mL por unidade adulta; cada unidade eleva a hemoglobina do adulto sem sangramento ativo em cerca de 1 g/dL e deve ser infundida em até 4 horas após a liberação. O concentrado de plaquetas (CP) por aférese contém pelo menos 3 × 10¹¹ plaquetas em 200 a 250 mL de plasma e eleva a contagem em torno de 30 a 60 × 10⁹/L no adulto. O plasma fresco congelado (PFC) contém todos os fatores de coagulação lábeis e estáveis; a dose habitual é 10 a 15 mL/kg, reservada a sangramento com múltiplos fatores baixos, e não deve ser usado como expansor volêmico ou reposição de albumina. O crioprecipitado concentra fibrinogênio, fator VIII, fator de von Willebrand e fator XIII: um pool de 5 unidades fornece cerca de 1,5 g de fibrinogênio e é a escolha rápida para hipofibrinogenemia.
| Hemocomponente | Conteúdo e volume típicos | Indicação principal | Pontos de prescrição |
|---|---|---|---|
| Concentrado de hemácias | Ht 50-70%; 300-350 mL por unidade | Anemia sintomática ou limiares restritivos | 1 U eleva Hb cerca de 1 g/dL; infundir em até 4 h; ABO e Rh compatíveis |
| Concentrado de plaquetas (aférese) | Pelo menos 3 × 10¹¹ plaquetas em 200-250 mL | Sangramento ou risco de sangramento com plaquetopenia | Eleva a contagem em 30-60 × 10⁹/L; guardar em agitação a 20-24 °C; Rh compatível em mulheres jovens |
| Plasma fresco congelado | Fatores da coagulação; dose 10-15 mL/kg | Sangramento com fatores múltiplos baixos ou INR acima de 1,5 com sangramento | Descongelamento prévio; ABO compatível; nunca como expansor de volume |
| Crioprecipitado | Pool de 5 U com cerca de 1,5 g de fibrinogênio, FVIII, FvW e FXIII | Fibrinogênio abaixo de 1,5 g/L em sangramento | Em crianças 1 pool por 10 kg; objetivo: fibrinogênio acima de 1,5 g/L |
| Concentrado de granulócitos | Neutrófilos em volume de 200-300 mL | Neutropenia profunda com infecção bacteriana ou fúngica refratária | Indicação rara e discutida com hematologia; infusão lenta |
Toda transfusão exige indicação específica registrada em prontuário, consentimento informado do paciente (com os riscos principais: reação febril, alergia, hemólise, TRALI, TACO e infecções raras), checagem dupla à beira do leito de identidade do paciente, da bolsa e da documentação, e monitorização com sinais vitais no início da infusão e periodicamente. O componente leucorreduzido é padrão em praticamente todos os serviços brasileiros e reduz reação febril não hemolítica, aloimunização HLA e transmissão de CMV. Componentes irradiados são indicados para prevenir a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão (TA-GVHD): transfusão intrauterina, exsanguineotransfusão neonatal, doadores dirigidos de parentes de primeiro grau, síndromes de imunodeficiência, linfoma de Hodgkin e uso de fludarabina, bendamustina ou anticorpos anti-CD52. Componentes lavados ficam para reações alérgicas graves recorrentes e deficiência de IgA com anticorpos anti-IgA.
A sequência de evidências começou com o TRICC (1999), que mostrou equivalência entre limiar de 7 g/dL e 10 g/dL em UTI geral, seguido pelo FOCUS (2011), que não demonstrou benefício da estratégia liberal em cirurgia de quadril em idosos. O TRISS randomizou 998 adultos em choque séptico para limiares de 7 g/dL versus 9 g/dL: a mortalidade em 90 dias foi semelhante (cerca de 43% contra 45%), com 50% menos transfusões no grupo restritivo. Em pediatria, o TRIPICU randomizou 637 crianças estáveis em UTI pediátrica para 7 g/dL versus 9,5 g/dL: o desfecho combinado de disfunção orgânica nova ou progressiva não piorou com a estratégia restritiva e a exposição transfusional caiu cerca de 44%. Com base nisso, a AABB 2023 recomenda fortemente transfundir adultos hospitalizados com Hb entre 7 e 8 g/dL, com faixa de 7 a 8 g/dL também para pacientes onco-hematológicos e cirurgias ortopédica e cardíaca, e individualizar sintomáticos. Exceções em que se admitem limiares mais altos: sangramento ativo, talassemia major, anemia falciforme com eventos vasculares e algumas cardiopatias graves, sempre com julgamento clínico.
| Ensaio | População | Comparação de limiares de Hb | Resultado de desfecho |
|---|---|---|---|
| TRICC (1999) | UTI geral adulta | 7 g/dL versus 10 g/dL | Mortalidade 30 dias semelhante, exceto subgrupo mais jovem e menos grave favorável ao restritivo |
| FOCUS (2011) | Idosos em cirurgia de quadril | 8 g/dL versus sintomático (mais de 10) | Sem diferença em mortalidade ou incapacidade funcional |
| TRISS (2014) | Choque séptico | 7 g/dL versus 9 g/dL | Mortalidade em 90 dias cerca de 43% versus 45%, sem significância |
| TRIPICU (2007) | Crianças estáveis em UTI pediátrica | 7 g/dL versus 9,5 g/dL | Disfunção orgânica nova ou progressiva não aumentou; 44% menos transfusões |
Transfusão maciça é definida como a reposição de uma volemia em 24 horas (cerca de 10 unidades de CH no adulto de 70 kg) ou 4 unidades em 1 hora com sangramento em curso. O inimigo fisiológico é a tríade letal (coagulopatia, acidose e hipotermia), hoje expandida para tétrade com a hipocalcemia induzida pelo citrato dos hemocomponentes. A diretriz europeia de trauma de sexta edição e o ensaio PROPPR sustentam a reposição balanceada e precoce: iniciar o protocolo com razão aproximada de 1:1:1 entre CH, PFC e plaquetas, administrar ácido tranexâmico o quanto antes (1 g IV em bolus em 10 minutos seguido de 1 g em 8 horas, preferencialmente até 3 horas do trauma, conforme CRASH-2), manter hemoglobina alvo entre 7 e 9 g/dL, razão PFC:CH de pelo menos 1:2, plaquetas acima de 50 × 10⁹/L (em trauma craniano grave considera-se manter acima de 100 × 10⁹/L em sangramento), fibrinogênio acima de 1,5 g/L com concentrado de fibrinogênio ou crioprecipitado, cálcio ionizado acima de 1,1 mmol/L, pH acima de 7,2 e temperatura acima de 35 °C. No PROPPR, a razão 1:1:1 atingiu hemostasia mais frequentemente e reduziu a morte por exanguinação em 24 horas (9,2% contra 14,6% do grupo 1:1:2).
Em crianças estáveis e criticamente doentes, o TRIPICU fixou o limiar restritivo de 7 g/dL e a prática pediátrica segue volumes por peso: concentrado de hemácias 10 a 15 mL/kg infundidos em 2 a 4 horas elevam a hemoglobina em aproximadamente 2 g/dL; plaquetas 5 a 10 mL/kg elevam a contagem em cerca de 50 × 10⁹/L; PFC 10 a 15 mL/kg quando indicado. A neonatologia tem regras próprias: prematuros sintomáticos recebem transfusão com limiares mais liberais guiados por idade pós-natal, sintomas e reticulócitos (tipicamente entre 7 e 12 g/dL), a exsanguineotransfusão usa 2 volemias (160 a 180 mL/kg no recém-nascido a termo) e o sangue deve ser fresco (menos de 7 a 14 dias) para limitar a carga de potássio e o risco de acidose metabólica. Todo hemocomponente em neonatos é leucorreduzido e, nas indicações clássicas, irradiado; transfusões repetidas de um mesmo doador (aliquotas) reduzem exposição. Em crianças com anemia crônica, infundir mais devagar (3 a 4 horas) e considerar furosemida 1 mg/kg IV quando há risco de sobrecarga.
A talassemia major (beta-talassemia dependente de transfusão) manifesta-se nos primeiros 6 a 24 meses de vida com anemia grave, e o programa transfusional regular a cada 2 a 5 semanas tem duplo objetivo: corrigir a anemia e suprimir a eritropoiese ineficaz responsável pelas deformidades esqueléticas, esplenomegalia e hematopoiese extramedular. A meta internacional é hemoglobina pré-transfusional entre 9 e 10,5 g/dL. Como cada unidade aporta 200 a 250 mg de ferro sem via de excreção fisiológica para este excesso, a quelação é parte do tratamento e não opcional: sem ela, a sobrecarga leva a cirrose, diabetes, hipogonadismo e, sobretudo, miocardiopatia, historicamente a principal causa de morte. O acompanhamento usa ferritina (alvo abaixo de 1000 ng/mL, idealmente 500 a 1000), concentração hepática de ferro por RMI (alvo abaixo de 7 mg de ferro por grama de peso seco) e RMI cardíaca T2 estrela (acima de 20 ms). A aloimunização ocorre em 10 a 20% dos pacientes, o que justifica fenotipagem estendida (Rh e K) desde a primeira transfusão.
| Quelante | Dose e via | Efeitos adversos principais | Monitorização |
|---|---|---|---|
| Deferasirox | 20-40 mg/kg/dia, VO, uma vez ao dia, dispersível ou comprimido | Elevação de creatinina, proteinúria, citopenias, gastrointestinais, perda auditiva rara | Creatinina e proteinúria mensais; hemograma; audição e visão semestrais |
| Deferiprona | 75 mg/kg/dia VO, dividida em 3 tomadas (até 100) | Agranulocitose (1 a 2%), neutropenia, artralgias, deficiência de zinco, náuseas | Hemograma com contagem de neutrófilos semanal; zinco periódico |
| Desferroxamina | 20-40 mg/kg/dia (até 50-60), SC, por bomba 8-12 h, 5 a 7 dias por semana | Ototoxicidade, retinotoxicidade, toxicidade renal, alteração do crescimento, infecção por Yersinia | Audiometria e exame oftalmológico semestrais; crescimento em crianças |
O luspatercept, um ativador de eritropoese dado por via subcutânea a cada 3 semanas (1 a 1,33 mg/kg), reduz a carga transfusional em parte dos pacientes dependentes. A cura definitiva vem do transplante de medula óssea alogênico (melhor resultado com doador irmão compatível na infância) e, mais recentemente, das terapias gênicas aprovadas em 2023-2024 para beta-talassemia dependente de transfusão sem doador disponível.
A conduta inicial para qualquer reação é a mesma: interromper a transfusão imediatamente, manter acesso venoso com solução cristaloide, reavaliar identidade paciente-bolsa e comunicar o serviço de hemoterapia. A diferenciação rápida entre as entidades define o tratamento. A reação febril não hemolítica (febre de pelo menos 1 °C acima da basal, com ou sem calafrios, sem hemólise) responde a paracetamol 500 a 750 mg e é prevenida por leucorredução. A reação alérgica leve (urticária) permite retardar e tratar com anti-histamínico (dexclorfeniramina 5 mg IV ou hidroxizina 25 mg); anafilaxia (hipotensão, broncoespasmo, urticária generalizada em minutos) exige adrenalina 0,3 a 0,5 mg IM no adulto (0,01 mg/kg na criança), reposição volêmica e componentes lavados no futuro. A hemólise aguda, em geral por incompatibilidade ABO por erro de identificação, cursa com febre, dor lombar, dispneia, hemoglobinúria e hipotensão nos primeiros minutos a horas: além de parar, expandir com cristaloide para manter diúrese e encaminhar as amostras para nova tipagem e teste de Coombs direto.
| Reação | Tempo típico | Achados que diferenciam | Conduta imediata |
|---|---|---|---|
| Febril não hemolítica | Durante ou até 4 h | Febre acima de 1 °C da basal, sem hemólise; paciente estável | Parar, excluir hemólise, paracetamol, retomar se benigna |
| Alérgica leve a moderada | Durante a infusão | Urticária, prurido, sem febre | Parar ou retardar, anti-histamínico, observar |
| Anafilaxia | Minutos a 1 h | Hipotensão, broncoespasmo, angioedema, sem febre | Adrenalina IM, cristaloide, via aérea; componentes lavados no futuro |
| Hemolítica aguda (ABO) | Primeiros minutos a 24 h | Febre, dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão, Coombs direto positivo | Parar, expandir e manter diurese, comunicar hemoterapia, proteger função renal |
| TRALI | Até 6 h | Hipoxemia, infiltrados bilaterais, febre, hipotensão, BNP normal ou baixo | Parar, oxigênio e suporte ventilatório; diurético não melhora e pode piorar |
| TACO | Até 6 a 12 h | Hipertensão, taquipneia, edema, BNP elevado, resposta ao diurético | Parar ou retardar, sentar o paciente, furosemida 20-40 mg IV, restrição hídrica |
| Sepse bacteriana | Durante ou nas primeiras horas | Febre alta com calafrios intensos, choque precocemente; mais comum com plaquetas | Parar, hemoculturas e cultura da bolsa, antibiótico de amplo espectro imediato |
Reações tardias incluem a hemólise tardia (3 a 14 dias, resposta anamnéstica a anticorpos anti-Rh, Kidd ou Duffy, com Coombs direto positivo, queda de hemoglobina e icterícia), a aloimunização eritrocitária, a púrpura pós-transfusional e a TA-GVHD: febre, exantema, diarreia e pancitopenia entre 4 e 10 dias após a transfusão, com mortalidade acima de 90% e sem tratamento eficaz, o que faz da irradiação do componente a única estratégia real, por isso a lista de indicações de componentes irradiados deve ser memorizada. A hemosiderose progressiva é a complicação crônica clássica do paciente talassêmico, detalhada na seção anterior.
1.Segundo as diretrizes internacionais (AABB 2023), qual limiar de hemoglobina deve orientar a transfusão de concentrado de hemácias na maioria dos adultos hospitalizados estáveis?
2.O ensaio TRISS comparou limiares transfusionais de 7 g/dL e 9 g/dL em adultos em choque séptico. Qual foi o principal achado?
3.No protocolo de transfusão maciça do trauma, qual proporção entre hemácias, plasma e plaquetas deve ser buscada na reposição inicial?
4.Paciente em transfusão desenvolve, 3 horas após o início, febre de 38,9 °C, taquipneia, hipoxemia com infiltrados bilaterais e BNP normal. Qual a conduta correta?
5.Qual medida previne a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão (TA-GVHD) em pacientes de risco?
6.Na talassemia major dependente de transfusão, qual a meta de hemoglobina pré-transfusional do programa transfusional regular?
7.Qual quelante de ferro oral exige hemograma com contagem de neutrófilos semanal por risco de agranulocitose?
8.Criança estável em UTI pediátrica (estudo TRIPICU) pode ser transfundida com estratégia restritiva em qual limiar de hemoglobina?
9.Durante transfusão maciça, o paciente evolui com parestesia perioral e QT corrigido prolongado. Qual meta e reposição estão corretas?
10.Sete dias após transfusão, paciente com queda de hemoglobina e icterícia tem Coombs direto positivo. Qual o diagnóstico mais provável?
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