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Revisão completa dos linfomas não-Hodgkin: classificação WHO 5ª edição (indolentes, agressivos e muito agressivos), imunofenótipos e translocações, estadiamento de Lugano com PET-CT, escore IPI, esquemas de quimioterapia com doses (R-CHOP, DA-EPOCH-R, CODOX-M/IVAC) e diretrizes modernas de radioterapia (ISRT, doses e indicações). Inclui tabelas comparativas, complicações do tratamento e pontos clássicos de prova.
[1] Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1720-1748 · DOI 10.1038/s41375-022-01620-2 | [2] Cheson BD, Fisher RI, Barrington SF, et al. Recommendations for Initial Evaluation, Staging, and Response Assessment of Hodgkin and Non-Hodgkin Lymphoma: The Lugano Classification. J Clin Oncol. 2014;32(30):3059-3068 · DOI 10.1200/JCO.2013.54.8800 | [3] Tilly H, Morschhauser F, Sehn LH, et al. Diffuse large B-cell lymphoma (DLBCL) and primary mediastinal B-cell lymphoma: ESMO Clinical Practice Guidelines. Ann Oncol. 2021;32(3):298-308 · DOI 10.1016/j.annonc.2020.11.008 | [4] Illidge T, Specht L, Yahalom J, et al. Modern Radiation Therapy for Nodal Non-Hodgkin Lymphoma: Target Definition and Dose Guidelines From the International Lymphoma Radiation Oncology Group. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2014;89(1):49-58 · DOI 10.1016/j.ijrobp.2013.12.027 | [5] Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023: Incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022 · https://www.inca.gov.br · DOI 10.1038/s41375-022-01620-2
Os linfomas não-Hodgkin (LNH) são um grupo heterogêneo de mais de 60 neoplasias clonais derivadas de linfócitos B (85 a 90% dos casos no Ocidente) ou T/NK (10 a 15%), que juntos somam cerca de 544 mil novos casos e aproximadamente 260 mil mortes por ano no mundo (GLOBOCAN 2020). No Brasil, a Estimativa 2023 do INCA projetou 12.040 casos novos por ano no triênio 2023-2025 (6.420 em homens e 5.620 em mulheres). Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: a lógica da classificação (indolente versus agressivo), a conduta baseada no estadiamento de Lugano com PET-CT e os esquemas quimioterápicos com doses, incluindo o papel moderno e cada vez mais focal da radioterapia.
Linfoma é a proliferação neoplásica sólida de linfócitos que se manifesta principalmente em gânglios linfáticos e tecidos extranodais, em oposição às leucemias, que predominam na medula óssea e no sangue periférico (a fronteira é tênue e vários subtipos apresentam fase leucêmica). A 5ª edição da classificação WHO (2022) organiza as neoplasias linfoides por linhagem, maturação e, cada vez mais, por lesão genética definidora. Para a prática e para as provas, a divisão mais útil continua sendo o comportamento clínico: indolentes (crescimento lento, respondem bem, mas são dificilmente curados em estágio avançado), agressivos (crescimento rápido, potencialmente curáveis) e muito agressivos (dupla agressividade proliferativa e risco de lise tumoral).
| Grupo clínico | Subtipos principais | Comportamento e objetivo terapêutico |
|---|---|---|
| Indolentes | Linfoma folicular (20-25% dos LNH), linfoma de zona marginal/MALT (5-10%), LLC/linfoma linfocítico pequeno, linfoma linfoplasmocítico (doença de Waldenström), micose fungoide inicial | Curso lento; em estágio limitado a radioterapia pode curar; em estágio avançado o objetivo é controle (estratégia watch and wait válida quando assintomático) |
| Agressivos | Linfoma difuso de grandes células B (DLBCL, 30-35%), linfoma de células do manto (3-7%), linfoma T periférico NOS, linfoma anaplásico de células grandes (ALCL) | Rápido crescimento, sintomas B frequentes; potencialmente curáveis com imunoquimioterapia ± radioterapia |
| Muito agressivos | Linfoma de Burkitt (1-3%), linfoma/leucemia linfoblástica B ou T | Tempo de duplicação de 24-72 horas, risco alto de lise tumoral; urgência diagnóstica e terapêutica; quimioterapia intensiva e urgente |
| Imunodepressão associados | Relacionados ao HIV, pós-transplante (PTLD), associados a imunossupressores | DLBCL e Burkitt predominam no HIV; a redução da imunossupressão é parte do tratamento no PTLD |
Dentro do DLBCL, a biologia do centro germinal define dois subgrupos com prognóstico distinto: o tipo célula B do centro germinalativo (GCB, CD10 positivo ou BCL6 positivo com MUM1 negativo pelo algoritmo de Hans) e o tipo célula B ativada (ABC, MUM1 positivo), que tem resposta pior ao R-CHOP e maior ativação da via NF-kB. Essa estratificação, originalmente por microarray e hoje substituível por painéis imuno-histoquímicos ou sequenciamento, é a base dos ensaios com terapias dirigidas por origem celular.
A imuno-histoquímica transforma um linfonodo aumentado em um diagnóstico específico. Todo linfoma B expressa CD20 e PAX5 (com CD45 positivo), e a droga anti-CD20, rituximabe, só funciona se o alvo estiver presente. A lesão genética hallmark de cada subtipo é das perguntas mais frequente em provas, porque conecta patologia, prognóstico e terapêutica.
| Subtipo | Marcadores típicos | Lesão genética hallmark |
|---|---|---|
| Linfoma folicular | CD10+, BCL2+, BCL6+, CD5-, ciclina D1- | t(14;18) com superexpressão de BCL2 (presente em cerca de 85% dos graus 1-3A) |
| Linfoma de células do manto | CD5+, ciclina D1+, SOX11+, CD23- | t(11;14) com superexpressão de ciclina D1 (CCND1) |
| Linfoma MALT gástrico | CD20+, CD10-, CD5-, ciclina D1- | t(11;18) API2-MALT1 (marca resistência à erradicação do Helicobacter pylori); t(1;14) e t(14;18) BCL10/MALT1 |
| Linfoma de Burkitt | CD20+, CD10+, BCL6+, BCL2-, Ki-67 próximo de 100% | t(8;14) (e variantes t(2;8) e t(8;22)) com desregulação de MYC |
| DLBCL NOS | CD20+, CD45+, CD3-, painel Hans (CD10/BCL6/MUM1) | Parte dos casos (sobretudo subtipo GCB) carrega t(14;18) ou rearranjo de BCL6; rearranjos simultâneos de MYC e BCL2/BCL6 definem linfoma B de alto grau com rearranjo duplo/triplo |
| Linfoma linfoplasmocítico (Waldenström) | CD20+, CD138 plasmócitos+, IgM monoclonal | Mutação MYD88 L265P (mais de 90% dos casos); mutações de CXCR4 em 30-40% |
| Linfoma T/NK extranodal nasal | CD2+, CD56+, citotóxicos+, EBV+ | Sem lesão única; associado ao EBV; tratado com esquemas contendo L-asparaginase |
A idade mediana ao diagnóstico do LNH é de 65 a 70 anos, com incidência crescente com a idade; o linfoma de Burkitt endêmico africano é a grande exceção, acometendo crianças com massa maxilar. Os fatores de risco se organizam em três grupos que caem em prova: imunodeficiência (HIV aumenta o risco de LNH em dezenas de vezes nas coortes históricas, com DLBCL e Burkitt como subtipos; transplante de órgão sólido e medula; imunodeficiências primárias), autoimunidade e infecção crônica (Sjögren e tireoidite de Hashimoto predispõem a MALT; doença celíaca a linfoma T intestinal; Helicobacter pylori causa direta do MALT gástrico; EBV associado ao Hodgkin, ao NK nasal e aos linfomas na imunossupressão; HTLV-1 causa leucemia/linfoma de células T do adulto, com o Brasil tendo um dos maiores contingentes de portadores do mundo; Campylobacter jejuni ao MALT intestinal e Borrelia ao cutâneo) e exposição ambiental (pesticidas, solventes, radiação ionizante, imunossupressores como metotrexato e anti-TNF).
A maioria dos LNH B surge de linfócitos B que passaram pelo centro germinal (CG) do folículo linfóide, onde ocorrem hipermutação somática (geração de diversidade de anticorpos pela enzima AID, citidina desaminase induzida por ativação) e recombinção de classe. AID é deliberadamente mutagênica: ela pode errar o alvo e produzir as translocações clássicas, que justapõem oncogenes (BCL2, MYC, CCND1, BCL6) ao promotor ativo da cadeia pesada de imunoglobulina em 14q32 ou às cadeias leves em 2p12 e 22q11. O resultado é um clone que não morre (BCL2 antiapoptótico no folicular), que prolifera sem freio (MYC no Burkitt) ou que avança no ciclo celular (ciclina D1 no manto). O microambiente também é alvo terapêutico: anticorpos anti-CD20 (rituximabe), conjugados com antineoplásico (polatuzumabe vedotina) e moléculas que bloqueiam a sobrevivência do linfócito B (inibidores de BTK como ibrutinibe, e o anti-BAFF belimumabe em autoimunidade) exploram vias de sinalização do receptor do linfócito B.
No linfoma folicular, o acúmulo de células foliculares centrocíticas e centroblásticas forma nódulos que comprimem a arquitetura do linfonodo; a progressão histórica para DLBCL (transformação) ocorre em cerca de 2 a 3% dos pacientes por ano, frequentemente com aquisição de mutações adicionais em MYC ou TP53. No DLBCL ABC, a ativação constitutiva do NF-kB via receptor de BCR e MYD88 explica a resistência relativa à quimioterapia convencional.
A apresentação clássica é linfadenopatia periférica indolor, de crescimento progressivo, em 60 a 70% dos pacientes; cerca de 25 a 40% já apresentam doença extranodal ao diagnóstico (trato gastrointestinal é o sítio extranodal mais comum, seguido de pele, ossos, testículo, seio nasal e sistema nervoso central). Sintomas B (febre sem infecção, sudorese noturna que molha roupas de cama e perda de mais de 10% do peso em 6 meses) estão presentes em 30 a 40% dos linfomas agressivos e são critério de estadiamento. O exame físico deve incluir todas as cadeias ganglionares, mensuração de hepatoesplenomegalia, exame de orofaringe (anel de Waldeyer, cujo acometimento exige investigação do trato gastrointestinal) e avaliação de compressões.
O padrão-ouro diagnóstico é a biópsia excisional do linfonodo íntegro, porque preserva a arquitetura nodal (folículos, seios, zonas) e permite imuno-histoquímica e estudos genéticos. A punção por agulha fina (PAAF) é insuficiente para diagnóstico inicial de linfoma (perde arquitetura e material para painel), ainda que útil em recidiva conhecida ou para excluir metástase e infecção; a biópsia por agulha grossa (core biopsy) é aceita quando a excisional é inviável. Toda a investigação deve anteceder corticoide, que lisa linfócitos e pode apagar o diagnóstico: corticoide antes da biópsia só em emergência vital. A avaliação mínima inclui hemograma, LDH (marcador de volume e agressividade), função renal e hepática, ácido úrico, beta-2 microglobulina, sorologias para HIV, hepatites B (HBsAg e anti-HBc) e C, PET-CT com fluorodesoxiglicose da base do crânio ao fêmur, biópsia de medula óssea (não é mais obrigatória nos linfomas FDG-ávidos com PET negativo, como DLBCL e FL, permanecendo essencial nos linfomas pouco ávidos, como alguns T e MALT), ecocardiograma antes de antraciclina e, se indicado, punção lombar para exclusão de acometimento do SNC.
O estadiamento atual é a classificação de Lugano (2014), que simplificou Ann Arbor para fins terapêuticos em doença limitada versus avançada e incorporou o PET-CT como método de resposta nos linfomas FDG-ávidos (sensibilidade em torno de 90% e especificidade de 85 a 90% no DLBCL para sítios nodais e extranodais). A resposta é interpretada pela escala de Deauville de 5 pontos: escores 1 a 3 (captação menor, igual ou ligeiramente maior que o mediastino ou fígado) correspondem a resposta metabólica completa; 4 e 5 indicam doença residual ou progressão. Massa volumosa no LNH é geralmente definida como maior dimensão acima de 7,5 a 10 cm.
| Estágio (Lugano) | Extensão | Conduta típica em DLBCL |
|---|---|---|
| I limitado | Uma região ganglionar ou um sítio extranodal único (IE) | 3-4 ciclos de R-CHOP seguidos de radioterapia envolvendo o sítio (ISRT) ou 6 ciclos de R-CHOP isolados em não volumosos |
| II limitado | Duas ou mais regiões do mesmo lado do diafragma, ou dois sítios extranodais contíguos (IIE) | Mesma conduta do I; se volumoso ou com fatores de risco, tratar como avançado com 6 ciclos de R-CHOP e considerar radioterapia do volume inicial |
| II volumoso/bulky | Massa maior que 7,5-10 cm | Tratar como doença avançada; radioterapia consolidativa do sítio volumoso discutida caso a caso |
| III-IV avançado | Regiões acima e abaixo do diafragma, difuso ou extranodal disseminado | R-CHOP por 6 ciclos; avaliação de risco de SNC e profilaxia quando indicada |
O prognóstico do DLBCL é estratificado pelo International Prognostic Index (IPI), que soma um ponto para cada fator: idade acima de 60 anos, LDH acima do limite superior, performance status ECOG 2 ou mais, estádio III/IV e mais de um sítio extranodal. O IPI ajustado à era do rituximabe (R-IPI) agrupa os pacientes em risco muito bom (0), bom (1-2) e ruim (3-5), com sobrevida livre de progressão em 4 anos de aproximadamente 94%, 80% e 53%, respectivamente.
| Grupo IPI | Pontos | Sobrevida global em 5 anos (era pré-rituximabe) |
|---|---|---|
| Baixo | 0-1 | Aproximadamente 73% |
| Baixo-intermediário | 2 | Aproximadamente 51% |
| Alto-intermediário | 3 | Aproximadamente 43% |
| Alto | 4-5 | Aproximadamente 26% |
O tratamento do LNH depende do subtipo histológico e da intenção (cura versus controle). O backbone do DLBCL é o R-CHOP a cada 21 dias por 6 ciclos, que cura 60 a 65% dos pacientes com doença avançada. Nos linfomas indolentes disseminados, a quimioterapia é paliativa: indica-se tratamento apenas quando há sintomas B, ameaça de função de órgão, citopenias, massa volumosa ou progressão sintomática; em paciente assintomático, a observação (watch and wait) tem sobrevida global equivalente à tratamento imediato.
| Esquema | Drogas e doses típicas por ciclo | Indicação principal |
|---|---|---|
| R-CHOP-21 | Rituximabe 375 mg/m2 IV D1; ciclofosfamida 750 mg/m2 IV D1; doxorrubicina 50 mg/m2 IV D1; vincristina 1,4 mg/m2 IV D1 (máximo 2 mg); prednisona 100 mg VO D1-5 | DLBCL em primeira linha (6 ciclos; 3-4 ciclos + radioterapia na doença limitada não volumosa) |
| R-bendamustina (BR) | Rituximabe 375 mg/m2 D1 + bendamustina 90 mg/m2 IV D1-D2, a cada 28 dias, 6 ciclos | Linfoma folicular e manto em idosos; linfoma de zona marginal; alternativa ao R-CHOP quando se evita antraciclina |
| DA-EPOCH-R | Etoposídeo, prednisona, vincristina, ciclofosfamida e doxorrubicina com ajuste de dose + rituximabe, ciclo contínuo por 21 dias, 6 ciclos | Linfoma B primário mediastinal; Burkitt em pacientes selecionados; linfoma associado ao HIV; DLBCL com rearranjo duplo em centros especializados |
| CODOX-M/IVAC | Ciclofosfamida, vincristina, doxorrubicina e metotrexato em alta dose alternando com ifosfamida, etoposídeo e citarabina + rituximabe | Burkitt de risco alto (extradominal, LDH elevada, doença avançada) |
| R-hyperCVAD + MTX/AraC | Frações A (ciclofosfamida fracionada, vincristina, doxorrubicina, dexametasona) alternando com frações B (metotrexato em alta dose e citarabina) + rituximabe | Manto em pacientes jovens; Burkitt; linfoma linfoblástico |
| R-ICE ou R-DHAP ou R-GDP | Rituximabe + ifosfamida/carboplatina/etoposídeo ou cisplatina/citarabina/dexametasona ou gencitabina/dexametasona/cisplatina | Resgate de linfoma agressivo recidivado quimiossensível, seguido de autotransplante de medula óssea (estratégia PARMA) |
| Pola-BR | Polatuzumabe vedotina 1,8 mg/kg IV + bendamustina + rituximabe | DLBCL refratário ou recidivado não candidato a transplante |
| Ibrutinibe 560 mg/dia VO (ou acalabrutinibe 100 mg 2x/dia) | Inibidor de BTK contínuo | Manto recidivado; Waldenström; linfoma da zona marginal refratário |
Nos linfomas recidivados ou refratários de células B, a mudança de paradigma da última década foi a imunoterapia celular: o CAR-T (axicabtagene ciloleucel e lisocabtagene maraleucel) superou a quimioterapia de resgate seguida de transplante no linfoma refratário precoce (recidiva em até 12 meses) ou em segundo resgate, com toxicidade própria de síndrome de liberação de citocinas (manejada com tocilizumabe, anticorpo anti-IL-6, e corticoide) e neurotoxicidade (ICE). No linfoma folicular, a manutenção com rituximabe 375 mg/m2 a cada 8 semanas por 2 anos após imunoquimioterapia (ensaio PRIMA) prolonga a sobrevida livre de progressão; a progressão da doença em até 24 meses (POD24) identifica grupo de pior prognóstico. No linfoma de células do manto em pacientes jovens, a consolidação com autotransplante em primeira remissão e a manutenção com rituximabe melhoram desfechos; em idosos, BR seguido de manutenção com rituximabe.
O linfoma é uma das neoplasias mais radiossensíveis: os linfócitos neoplásicos entram em apoptose com doses baixas (efeito linear já em doses de 1 a 2 Gy), o que permite esquemas curtos e doses muito menores que as usadas em carcinomas. A radioterapia evoluiu do campo envolvente extenso (mantle) para o campo envolvido (IFRT) e, na era do PET-CT, para o ISRT (involved-site radiotherapy): trata-se apenas do volume ganglionar inicialmente acometido, adaptado à anatomia pós-quimioterapia e guiado pelos achados de imagem, poupando tecido normal. Técnicas de imagem guiada (IMRT/VMAT, respiratory gating, breath-hold em mediastino e prótons em casos selecionados) reduzem ainda mais a dose em pulmão, coração e mama.
| Cenário | Campo | Dose e fracionamento típicos |
|---|---|---|
| DLBCL limitado após 3-4 ciclos de R-CHOP | ISRT do sítio inicial | 30-36 Gy em 15-20 frações; resíduo maciço pode exigir até 40-45 Gy |
| DLBCL volumoso tratado com 6 ciclos | ISRT do volume inicial em discussão caso a caso | 30-36 Gy, especialmente se Deauville 4-5 ao final |
| Linfoma folicular limitado (graus 1-3A) | ISRT da região acometida | 24 Gy em 12 frações (padrão atual; esquemas históricos usavam 30-36 Gy), com controle local acima de 90% e possibilidade de cura |
| Paliação de linfoma indolente sintomático | Campo do sintoma | 4 Gy em 2 frações (2 x 2 Gy): resposta objetiva em cerca de 80-90%, embora de menor duração |
| MALT localizado (gástrico refratário ao H. pylori, orbital, tireoidiano) | ISRT do sítio | 24-30 Gy em 12-20 frações, preservando o órgão na maioria dos casos |
| Urgências: compressão medular, veia cava superior, compressão de via aérea | Campo do volume compressivo | 20-30 Gy em 5-10 frações associado a dexametasona (10 mg IV) e descompressão cirúrgica quando indicada |
No linfoma B primário mediastinal, o DA-EPOCH-R por 6 ciclos sem radioterapia tornou-se o padrão em muitos centros, reservando a radioterapia (30-45 Gy) apenas para persistência metabólica ao PET final; nos linfomas de células T nasal-type, a radioterapia precoce (aproximadamente 50 Gy) ao sítio nasal é componente essencial do controle local associada à quimioterapia com asparaginase. Em crianças e adultos jovens, a tendência é reduzir ainda mais o uso de radioterapia (omitindo-a nos respondedores metabólicos) para proteger crescimento, fertilidade e reduzir segundas neoplasias.
A toxidade do tratamento do LNH é previsível e o suporte começa antes do primeiro ciclo. Febre e neutropenia são emergências: o uso de G-CSF profilático primário (pegfilgrastim 6 mg subcutâneo uma vez por ciclo, ou filgrastim 5 microgramas/kg/dia) é indicado quando o risco de neutropenia febril é de 20% ou mais, e toda febre acima de 38,3 graus durante neutropenia exige antibioticoterapia de amplo espectro com cobertura anti-Pseudomonas iniciada em até 60 minutos. A lise tumoral é prevenida com hidratação vigorosa (cerca de 3 L/m2/dia), alopurinol 300 mg/dia (ou rasburicase 0,15-0,2 mg/kg IV nos de alto risco, como Burkitt e LDH acima de 2 a 3 vezes o limite) e correção de potássio, fósforo e cálcio; a alcalinização urinária caiu em desuso por favorecer a precipitação de fosfato de cálcio.
O DLBCL curado em primeira linha raramente recidiva após 2 anos (maioria das recidivas nos primeiros 24 meses), e o seguimento é clínico com exames básicos a cada 3-6 meses no início; PET de rotina na vigilância não é indicado (falso-positivos e sem benefício de sobrevida). No linfoma folicular, a sobrevida mediana ultrapassa 15-20 anos na era do rituximabe, mas as recidivas são a regra, com risco de transformação de 2-3% ao ano e pior prognóstico nos que progridem em até 24 meses (POD24). O paciente com LNH permanece em risco aumentado de segundas neoplasias e de complicações tardias do tratamento, o que exige vigilância oncológica por toda a vida, controle dos fatores de risco cardiovascular e rastreamento de tireoide e mama conforme os campos irradiados.
1.Homem de 34 anos com linfadenopatia cervical indolor de crescimento progressivo e LDH elevada. Suspeita-se linfoma. Qual é o procedimento diagnóstico de escolha?
2.Biópsia de linfonodo em mulher de 58 anos mostra arquitetura nodular com CD10+, BCL2+, BCL6+ e t(14;18). Qual é o diagnóstico?
3.Criança de 6 anos, fora da região endêmica africana, apresenta massa abdominal de crescimento rápido e LDH 5 vezes o limite superior. A biópsia mostra células B médias com citoplasma basofílico, Ki-67 de 98%, BCL2 negativo e t(8;14). Além de profilaxia de lise tumoral com rasburicase, qual é o tratamento adequado?
4.Adulto de 45 anos com endoscopia mostrando infiltrado gástrico, biópsia compatível com MALT de baixo grau, estágio IE (mucosa), pesquisa de Helicobacter pylori positiva. Qual é a primeira conduta?
5.Qual marcador imuno-histoquímico, associado à t(11;14), define o linfoma de células do manto?
6.Qual situação NÃO é indicação estabelecida de profilaxia do sistema nervoso central em linfoma agressivo B?
7.Antes de iniciar R-CHOP em mulher de 62 anos, HBsAg negativo e anti-HBc positivo (anti-HBs negativo). Qual é a conduta correta quanto ao risco de reativação da hepatite B?
8.Homem de 48 anos com DLBCL não volumoso estágio I de cadeia cervical após 4 ciclos de R-CHOP e PET com resposta metabólica completa (Deauville 2). Qual é a dose típica de radioterapia envolvente do sítio (ISRT) indicada?
9.No final do tratamento de DLBCL avançado com 6 ciclos de R-CHOP, o PET-CT mostra ausência completa de captação nas áreas previamente acometidas, com captação residual mediastinal inferior à do fígado. Segundo a escala de Deauville, isso corresponde a:
10.Quais dos seguintes NÃO é componente do International Prognostic Index (IPI) para linfomas agressivos?
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