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Revisão completa das hemofilias A e B para provas: herança ligada ao X e genética, classificação por gravidade com valores, fisiopatologia da via intrínseca, quadro clínico com sangramentos profundos, interpretação do TTPa e do estudo de mistura, dosagem dos fatores, cálculo de dose de reposição, desmopressina, ácido tranexâmico, profilaxia, emicizumabe, inibidores e terapias gênicas.
[1] Srivastava A, Santagostino E, Dougall A, et al. WFH Guidelines for the Management of Hemophilia, 3rd edition. Haemophilia. 2020;26(Suppl 6):1-158 · DOI 10.1111/hae.14046 | [2] Oldenburg J, Mahlangu JN, Kim B, et al. Emicizumab prophylaxis in hemophilia A with inhibitors. N Engl J Med. 2017;377(9):809-818 · DOI 10.1056/NEJMoa1703550 | [3] Mahlangu J. Emicizumab state-of-the-art update. Haemophilia. 2022 · DOI 10.1111/hae.14545 (PMID 35521723) | [4] Brasil. Ministério da Saúde. Perfil das Coagulopatias Hereditárias no Brasil. Brasília: MS; 2015 · gov.br/saude · DOI 10.1111/hae.14046
As hemofilias são coagulopatias hereditárias recessivas ligadas ao X, causadas pela deficiência do fator VIII (hemofilia A) ou do fator IX (hemofilia B, doença de Christmas), que comprometem a via intrínseca da coagulação e produzem sangramento profundo e tardio, típico de articulações, músculos e retroperitônio. A hemofilia A acomete cerca de 1 a cada 10.000 nascidos vivos do sexo masculino e responde por 80 a 85% dos casos; a hemofilia B acomete cerca de 1 a cada 50.000 e representa 15 a 20%. No Brasil, o Ministério da Saúde registra em torno de 13 mil pessoas com hemofilia A ou B em acompanhamento, o que coloca o país entre os maiores programas de coagulopatias do mundo. Aproximadamente 30% dos casos graves decorrem de mutações de novo, sem história familiar, detalhe que impede excluir o diagnóstico apenas pela ausência de antecedentes.
A hemofilia A decorre de mutações no gene F8, localizado em Xq28, e a hemofilia B de mutações no gene F9, em Xq27. O padrão de herança é recessivo ligado ao X: filhos homens de mulheres portadoras têm 50% de risco de adoecer, filhas mulheres de pais afetados são todas portadoras obrigatórias e filhos homens de pais afetados não herdam o alelo do pai. A mutação mais frequente na hemofilia A grave é a inversão do intron 22 do gene F8, presente em cerca de 45% dos casos graves, seguida de inversões do intron 1, deleções e mutações sem sentido (nonsense). Mulheres portadoras costumam ter níveis de fator entre 30% e 60% pela inativação aleatória do X, mas parte delas sangra de forma relevante; em provas, menina ou mulher com sangramento e fator VIII reduzido obriga a investigar portadora sintomática, homozigose rara, Turner ou doença de von Willebrand.
| Gravidade | Atividade do fator | Padrão de sangramento | Frequência aproximada |
|---|---|---|---|
| Grave | menor que 1% | espontâneo: hemartroses de repetição, hematomas musculares, hematoma intracraniano | 50-60% dos casos |
| Moderada | 1 a 5% | após traumas leves a moderados, sangramento mucoso ocasional | aproximadamente 10% |
| Leve | acima de 5% a menos de 40% | após traumas importantes, cirurgias e extrações dentárias | 30-40% dos casos |
A classificação é idêntica para as hemofilias A e B e usa a atividade coagulante plasmática do fator deficiente, cujo intervalo de referência normal situa-se entre 50% e 150%. A gravidade laboratorial não traduz linearmente a gravidade clínica em todos os pacientes, mas é o melhor preditor isolado: pacientes graves não tratados sangram 20 a 40 vezes ao ano, número que a profilaxia moderna reduz a zero ou quase zero em grande parte dos casos.
O fator VIII circula ligado ao fator de von Willebrand, que o estabiliza e o carrega até a superfície da lesão. Ativado pela trombina, o FVIIIa forma o complexo tenase intrínseco com o FIXa, fosfolipídeo e cálcio, amplificando em milhares de vezes a ativação do fator X e, portanto, a geração de trombina e fibrina. Na hemofilia, a ausência do FVIII ou do FIX desmonta essa amplificação: a hemostasia primária (plugue plaquetário) ocorre normalmente, o que explica o tempo de sangramento e o número de plaquetas normais, mas o coágulo formado é pobre, frágil e retardado, permitindo sangramento contínuo nos tecidos fechados de maior estresse mecânico, como sinóvia, músculos e trato urinário. O TTPa explora justamente a via intrínseca e se alonga proporcionalmente à deficiência nas formas moderada e grave; o TP/INR, que avalia a via extrínseca, permanece normal, dupla laboratorial que decide questões de prova.
O sangramento recorrente na sinóvia inicia um ciclo destrutivo bem caracterizado: ferro depositado no sinoviócito, hipertrofia sinovial, neovascularização e liberação de enzimas proteolíticas que levam à artropatia hemofílica crônica, com estreitamento do espaço articular, cistos subcondrais e anquilose. Esse mecanismo justifica o pilar moderno do tratamento, que é prevenir o sangramento (profilaxia) e não apenas tratá-lo.
O sangramento característico é profundo, com início tardio horas após o trauma e progressão lenta. As hemartroses respondem pela maioria dos episódios nos pacientes graves e acometem preferencialmente joelhos, cotovelos, tornozelos e quadris, manifestando-se por dor, calor, aumento de volume e impotência funcional; a criança pequena pode apenas recusar mover o membro ou mancar. Os hematomas musculares profundos afetam iliopsoas (flexão mantida do quadril e déficit do nervo femoral), panturrilha e antebraço, e podem evoluir para síndrome compartimental. Outros sítios de risco vital: sangramento intracraniano, que ocorre espontaneamente ou após trauma banal nos graves e mantém mortalidade relevante; hemorragia digestiva; hematoma de parede faríngea ou do assoalho da boca, que ameaça a via aérea; e hematúria. Sangramentos mucocutâneos imediatos e abundantes, como epistaxe espontânea e petéquias, sugerem doença plaquetária ou de von Willebrand, e não hemofilia.
O rastreamento mostra TTPa prolongado com TP normal, contagem de plaquetas e fibrinogênio normais. O estudo de mistura (plasma do paciente com plasma normal 1:1) corrige o TTPa, pois há deficiência fatorial e não inibidor; se não corrige, pensa-se em inibidor ou anticoagulante lúpico. A dosagem da atividade coagulante confirma: FVIII reduzido sugere hemofilia A, FIX reduzido sugere hemofilia B. Como o FVIII depende do von Willebrand para circular, todo paciente com FVIII isoladamente baixo deve dosar antígeno, atividade cofator de ristocetina e multímeros do vWF para excluir doença de von Willebrand, em especial nos sangramentos mucosos e nas mulheres. Na hemofilia B grave, mutações específicas do gene F9 associam-se ao desenvolvimento de inibidor com reações anafiláticas a concentrados de FIX, evento praticamente exclusivo dessa coagulopatia, razão pela qual o primeiro ano de exposição ao FIX exige vigilância redobrada.
| Achado | Hemofilia A | Hemofilia B | Doença de von Willebrand | Hemofilia adquirida |
|---|---|---|---|---|
| TTPa | prolongado | prolongado | prolongado ou normal | prolongado |
| TP e plaquetas | normais | normais | normais | normais |
| Estudo de mistura | corrige | corrige | corrige | não corrige totalmente |
| Dosagem | FVIII baixo | FIX baixo | vWF antigênio, atividade cofator de ristocetina e multímeros alterados | FVIII muito baixo com inibidor positivo |
| Padrão de sangramento | profundo, articular e muscular | idêntico à hemofilia A | mucocutâneo, menorragia | mucocutâneo e muscular, idoso ou puérpera |
A hemofilia adquirida é autoimune, com incidência aproximada de 1 a 1,5 caso por milhão de habitantes por ano, surge em idosos, gestantes e puérperas ou associada a doenças autoimunes e cânceres, e produz autoanticorpos anti-FVIII. Diferencia-se da congênita pela ausência de história prévia, pelo sangramento mucocutâneo e muscular de início abrupto e pela falha do estudo de mistura. O rastreio neonatal específico não é programa universal no Brasil, mas o diagnóstico no cordão umbilical é indicado quando há mãe portadora conhecida, e meninos com hematomas incomuns da primeira infância devem ter TTPa e dosagem de fatores.
O fundamento farmacológico é a recuperação plasmática: 1 UI de fator VIII por quilograma eleva a atividade em cerca de 2 pontos percentuais, e 1 UI de fator IX por quilograma eleva cerca de 1 ponto. Daí as fórmulas de dose: FVIII igual a peso em quilos vezes a elevação desejada dividida por 2; FIX igual a peso em quilos vezes a elevação desejada (com fator de correção de 1,2 a 1,5 em crianças, que têm recuperação menor). A meia-vida do FVIII padrão é de 8 a 12 horas, exigindo infusões 2 a 3 vezes ao dia ou bomba de infusão contínua nos sangramentos graves; a do FIX padrão é de 18 a 24 horas, permitindo intervalos maiores. Concentrados de fator de meia-vida estendida (FVIII-Fc, FIX-Fc e FIX glicopegilado) dobram ou triplicam esses intervalos e viabilizam profilaxia semanal na hemofilia B.
| Tipo de sangramento ou procedimento | Meta de nível de fator | Comentários |
|---|---|---|
| Hemartrose leve a moderada | 30 a 60% | reposição precoce, gelo, imobilização breve; repetir em 24-48 h se persistir |
| Hematoma muscular profundo (psoas, panturrilha) | 50 a 80% | risco de síndrome compartimental e perda sanguínea tardia; avaliar hemoglobina |
| Sangramento intracraniano | 80 a 100% | manter níveis elevados por 7 a 14 dias; internação e imagem |
| Sangramento de via aérea, faringe ou assoalho da boca | 80 a 100% | risco de obstrução; manter até a resolução completa |
| Hemorragia digestiva e hematúria | 50 a 80% | associar ácido tranexâmico na hematúria apenas com cuidado e avaliação urológica |
| Cirurgia de grande porte | 80 a 100% no pré-operatório | manter concentrações mínimas acima de 50% por 7 a 14 dias, com esquema definido antes da incisão |
| Cirurgia menor e extração dentária | 50 a 80% | ácido tranexâmico associado por até 7 a 10 dias reduz ressangramento |
A desmopressina (DDAVP) libera FVIII e vWF dos estoques endoteliais e eleva o FVIII em 2 a 4 vezes; é indicada apenas na hemofilia A leve e parte da moderada, após teste de resposta prévio. A dose é de 0,3 microgramas por quilograma diluída em 50 mL de soro fisiológico e infundida em 30 minutos, ou 150 microgramas intranasais para menos de 50 kg e 300 microgramas para 50 kg ou mais; o efeito máximo ocorre em 30 a 60 minutos e a taquifilaxia limita repetições a intervalos de 24 a 48 horas. Efeitos adversos: hiponatremia por retenção hídrica (restringir líquidos nas 24 horas seguintes), vasodilatação com taquicardia e cefaleia. O ácido tranexâmico inibe a fibrinólise ao bloquear a conversão do plasminogênio, na dose de 10 a 15 mg/kg por via oral ou venosa a cada 8 horas (adulto típico: 1 g três vezes ao dia), com papel destacado no sangramento oral, dental e mucoso, inclusive em pacientes sob emicizumabe.
O emicizumabe é um anticorpo bispecífico humanizado que mimetiza o FVIIIa ao ligar simultaneamente o FIXa e o fator X, reconstituindo a tenase independentemente do FVIII, e revolucionou o tratamento da hemofilia A com ou sem inibidor. O esquema é subcutâneo, com dose de carga de 3 mg/kg por semana durante 4 semanas, seguida de 1,5 mg/kg por semana, ou 3 mg/kg a cada 2 semanas, ou 6 mg/kg a cada 4 semanas. Pontos de prova: o TTPa do paciente em uso não reflete a proteção hemostática (o laboratório parece não tratado), a eficácia é alta e duradoura, sangramentos de escape são tratados com concentrado de FVIII e há risco documentado de eventos trombóticos microvasculares e coagulopatia por consumo quando se associam concentrados de complexo protrombínico ativado em doses altas, associação que deve ser evitada ou limitada a menos de 100 UI/kg por dia e pelo menor tempo possível.
O inibidor é um aloanticorpo neutralizante contra o fator exógeno, suspeitado quando a resposta clínica à reposição cai, a recuperação plasmática fica abaixo do esperado (elevação menor que 66% do previsto) ou o estudo de mistura deixa de corrigir. Confirma-se pelo ensaio de Bethesda modificado por Nijmegen: 1 unidade Bethesda (UB) é a quantidade de inibidor que neutraliza 50% da atividade do fator em incubação de 2 horas a 37 °C. Classifica-se como baixo título (baixa resposta) quando menor que 5 UB e alto título (alta resposta) quando 5 UB ou mais; pacientes de alta resposta elevam o título anamnesticamente dias após nova exposição. Fatores de risco: gravidade, mutações nulas como a inversão do intron 22, início precoce da reposição, ancestralidade e intensidade da exposição. A dosagem de rotina do título é recomendada a cada 3 a 12 meses ou a cada 10 a 20 dias de exposição nos primeiros 50 dias de tratamento (exposições acumuladas), que é a janela de maior risco.
A terapia gênica para hemofilia chegou à prática clínica registrada a partir de 2022: valoctocogene roxaparvovec para hemofilia A grave adulta (aprovado na Europa e em outras agências) e etranacogene dezaparvovec para hemofilia B (aprovado nos Estados Unidos e Europa), ambos por infusão única de vetor viral adeno-associado que leva uma cópia funcional do gene ao hepatócito. Os resultados mantêm expressão estável de fator em parte dos tratados, com queda da taxa anualizada de sangramento para próximo de zero e possibilidade de suspensão da profilaxia, ao preço de resposta variável entre indivíduos, queda da expressão ao longo dos anos, uso de corticoide para hepatite imunomediada pelo vetor e contraindicação em crianças. Outras linhas incluem fitusiran (siRNA antitrombina, subcutâneo mensal ou trimestral, com monitorização cuidadosa de eventos trombóticos) e inibidores de antitrombin e de TFPI, que deslocam o equilíbrio hemostático e podem beneficiar hemofilias A e B, com ou sem inibidor.
As complicações históricas foram as infecções transmitidas por hemoderivados: antes da inativação viral em 1985-1987, a maioria dos pacientes graves contraiu hepatite C e uma fração grande, HIV, com as coinfecções hepáticas permanecendo como causa de morte em coortes adultas. As complicações atuais são artropatia hemofílica crônica (avaliada clinicamente e por escore de ultrassom HEAD-US, que gradua sinovite, cartilagem e osteófitos em cotovelos, joelhos e tornozelos), inibidores, osteopenia e dor crônica. O prognóstico mudou de forma dramática: nas séries modernas com profilaxia e acesso a concentrados, a expectativa de vida aproxima-se da população geral em países de alta renda, e o objetivo terapêutico atual é atividade física irrestrita e sangramento zero, e não apenas sobrevida. O seguimento deve ser multiprofissional em centro de tratamento de hemofilia, com consulta a cada 6 a 12 meses nas formas leves e 3 a 6 meses nas graves, com documentação de dias de exposição, rastreio de inibidor, avaliação articular, vacinação contra hepatites A e B e orientação pré-operatória obrigatória antes de qualquer procedimento eletivo.
1.Menino de 3 anos, filho de mãe portadora, apresenta TTPa prolongado, TP normal e dosagens revelando FVIII de 0,5%. O diagnóstico e o padrão de herança são:
2.Paciente de 60 kg com hemofilia A grave (FVIII menor que 1%) apresenta hemartrose de joelho. Para elevar o FVIII a 60%, a dose aproximada de concentrado de FVIII é:
3.Sobre o estudo de mistura (TTPa com plasma normal) na hemofilia congênita, o resultado esperado é:
4.A desmopressina é útil e está formalmente indicada em qual situação?
5.O esquema de manutenção do emicizumabe na profilaxia da hemofilia A é:
6.Paciente com hemofilia A grave e inibidor de alto título apresenta sangramento muscular extenso. A melhor conduta hemostática é:
7.No ensaio de Bethesda, o título de inibidor que separa baixa de alta resposta é:
8.A principal preocupação ao associar concentrado de complexo protrombínico ativado (FEIBA) a paciente em uso de emicizumabe é:
9.A respeito da profilaxia nas hemofilias, a afirmativa correta é:
10.Idoso de 72 anos sem história prévia apresenta hematomas extensos e sangramento muscular, TTPa muito prolongado que não se corrige na mistura e FVIII indetectável. O diagnóstico mais provável é:
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