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Revisão completa das anemias hemolíticas para provas: classificação intravascular e extravascular, marcadores laboratoriais com valores, padrões do teste de Coombs (TAD), esfregaço, esferocitose hereditária, deficiência de G6PD, AHAI morna e fria, HPN e tratamentos com doses e duração.
[1] Hill QA, Stamps R, Massey E, Grainger JD, Provan D, Hill A. The diagnosis and management of primary autoimmune haemolytic anaemia. Br J Haematol. 2017;176(3):395-411 · DOI 10.1111/bjh.14478 | [2] Barcellini W. Immune Hemolysis: Diagnosis and Treatment Recommendations. Semin Hematol. 2015;52(4):304-312 · DOI 10.1053/j.seminhematol.2015.07.001 (PMID 26404442) | [3] Brodsky RA. Paroxysmal nocturnal hemoglobinuria. Blood. 2014;124(18):2804-2811 · DOI 10.1182/blood-2014-02-522128 | [4] Bolton-Maggs PH, Langer JC, Iolascon A, Tittensor P, King MJ. Guidelines for the diagnosis and management of hereditary spherocytosis: 2011 update. Br J Haematol. 2012;156(1):37-49 · DOI 10.1111/j.1365-2141.2011.08933.x | [5] Luzzatto L, Nannelli C, Notaro R. Glucose-6-Phosphate Dehydrogenase Deficiency. Hematol Oncol Clin North Am. 2016;30(2):373-393 · DOI 10.1016/j.hoc.2015.11.006 · DOI 10.1111/bjh.14478
Anemia hemolítica é a anemia decorrente de destruição prematura de eritrócitos, com sobrevida inferior a 100-120 dias, levando à liberação de hemoglobina e à ativação da eritropoese compensatória. O tema é central porque obriga o aluno a raciocinar em duas etapas que os avaliadores adoram: primeiro confirmar que existe hemólise (reticulócitos elevados, LDH alta, haptoglobina baixa, bilirrubina indireta alta) e depois definir o mecanismo (imune ou não imune, hereditário ou adquirido, intravascular ou extravascular), passo que muda completamente o tratamento — corticoide na autoimune morna, evitar gatilhos oxidativos na deficiência de G6PD, esplenectomia na esferocitose hereditária, eculizumabe na HPN. A anemia hemolítica autoimune (AHAI) tem incidência de 1 a 3 casos por 100.000 habitantes por ano, e aproximadamente metade é secundária a linfoproliferações, doenças autoimunes ou drogas; saber reconhecer a AHAI fria e não tratar a doença por aglutininas frias com corticoide é uma pegadinha recorrente em provas de residência.
Classifique sempre em dois eixos independentes. Eixo 1, sítio de destruição: hemólise extravascular (a mais comum; eritrócitos opsonizados por IgG ou C3b são fagocitados por macrófagos esplênicos e hepáticos, com bile pigmentária aumentada e esplenomegalia frequente) versus intravascular (destruição dentro do vaso por complemento terminal C5b-9, mecânica ou tóxica, com hemoglobinemia, hemoglobinúria de urina escura, haptoglobina profundamente baixa e risco de lesão renal aguda). Eixo 2, causa: hereditária (defeitos de membrana como esferocitose e eliptocitose; enzimopatias como G6PD e piruvatocinase; hemoglobinopatias como drepanocitose, talassemias intermediárias e hemoglobinas instáveis) versus adquirida (imunes: AHAI morna por IgG, doença por aglutininas frias, hemoglobinúria paroxística a frio; não imunes: HPN, anemias microangiopáticas como PTT/HUS e CIVD, próteses valvares mecânicas, queimaduras, infecções como malária e babesiose, hiperesplenismo e drogas). Uma mesma doença pode combinar os dois sítios: a AHAI morna é sobretudo extravascular; a doença por aglutininas frias mistura aglutinação extravascular com lise intravascular por complemento.
| Grupo | Exemplos | Marcador-chave |
|---|---|---|
| Membrana (hereditária) | Esferocitose hereditária (espectrina/ankirina/banda 3), eliptocitose | Esfregaço com esferócitos; teste de EMA e fragilidade osmótica |
| Enzimopatia (hereditária) | Deficiência de G6PD, piruvatocinase | Células mordidas e corpos de Heinz (G6PD); dosagem enzimática |
| Hemoglobinopatia (hereditária) | Drepanocitose, talassemia intermediária, Hb instável | Eletroforese/HPLC; falcetas no esfregaço |
| Imune (adquirida) | AHAI morna (IgG), aglutininas frias (IgM/C3), hemoglobinúria paroxística a frio | Teste direto de antiglobulina positivo |
| Não imune (adquirida) | HPN, microangiopáticas (PTT, HUS, CIVD), mecânica (válvulas), infecções, drogas | Esquizócitos (microangiopática); FLAER (HPN) |
| Sequestro | Hiperesplenismo (cirrose, esquistossomose hepatoesplênica) | Pancitopenia com medula hipercelular |
A AHAI morna tem incidência estimada de 1 a 3 por 100.000 habitantes/ano, predomina em mulheres de meia-idade e idosos, e metade dos casos é secundária (linfomas, leucemia linfocítica crônica, lúpus, imunodeficiências comuns variáveis, drogas como cefalosporinas e metildopa). A doença por aglutininas frias (DAF) incide em 0,5 a 1 por 100.000/ano, quase sempre após os 60 anos, podendo ser primária (monoclonal, linfoproliferação oculta) ou secundária a micoplasma, mononucleose e outros vírus (formas transitórias em jovens). A esferocitose hereditária é a anemia hemolítica hereditária mais comum em descendentes do norte da Europa (1:2.000 a 1:5.000), herdada em 75% dos casos de forma autossômica dominante. A deficiência de G6PD afeta 400 a 500 milhões de pessoas, ligada ao X, com maior prevalência em África, Mediterrâneo, Oriente Médio e Brasil (variantes A- e Mediterrânea). A drepanocitose tem incidência no Brasil de cerca de 1 caso de HbSS a cada 1.000-1.400 nascimentos (dados do Programa Nacional de Triagem Neonatal), sendo mais frequente na população negra e parda. A HPN é rara (1-2 casos por milhão/ano), adquirida por mutação somática do gene PIGA em clone hematopoiético, aparecendo isolada ou associada a anemia aplástica e síndromes mielodisplásicas.
Na AHAI morna, anticorpos IgG de temperatura ótima a 37 °C (frequentemente anti-Rh) recobrem o eritrócito; os macrófagos esplênicos reconhecem o fragmento Fc, removem pedaços de membrana e devolvem a célula cada vez mais esferocítica e rígida, até que ela não atravessa os capilares esplênicos — hemólise extravascular com esferócitos no esfregaço. Quando o anticorpo fixa complemento, o C3b remanescente (degradado a C3d) é reconhecido pelos receptores dos macrófagos hepáticos (células de Kupffer). Na DAF, IgM anti-I/i liga-se a 4 °C com amplitude térmica até 30-37 °C, aglutinando eritrócitos na circulação periférica (acrocianose) e fixando complemento que, se chega ao complexo de ataque C5b-9, causa lise intravascular com hemoglobinúria; o TAD detecta só C3d na superfície. Na hemoglobinúria paroxística a frio (anticorpo biespecífico de Donath-Landsteiner, anti-P, IgG fixadora de complemento), a ligação ocorre no frio e a lise no calor — clássica de crianças pós-virais, com urina preta matinal.
Nas causas hereditárias, o defeito é estrutural: na esferocitose, mutações em anquirina (a mais comum), espectrina, banda 3 ou palidina desestabilizam o citoesqueleto vertical, com perda gradual de membrana lipídica para esferócitos pouco deformáveis que ficam presos no baço; na deficiência de G6PD (via das pentoses), o déficit de NADPH reduz a glutationa reduzida, e o estresse oxidativo (drogas, fava, infecções) precipita hemoglobina oxidada em corpos de Heinz, que são excisados pelos macrófagos esplênicos gerando células mordidas (bite cells) e hemólise episódica predominantemente extravascular; na drepanocitose, a polimerização da HbS desoxigenada deforma a célula em foice, com vaso-oclusão e hemólise crônica (consumo de óxido nítrico e vasculopatia). Na HPN, a mutação somática de PIGA impede a ancoragem GPI de proteínas de superfície, entre elas CD55 e CD59, os inibidores da cascata do complemento: o eritrócito passa a ser lisado pelo complemento (hemólise intravascular crônica com hemoglobinúria, depleção de óxido nítrico com espasmo esofágico, disfunção erétil e trombose, e insuficiência renal crônica por hemosiderose). Nas microangiopáticas (PTT por deficiência grave de ADAMTS13, HUS típico/atípico, CIVD, hipertensão maligna, pré-eclâmpsia), altas forças de cisalhamento fragmentam os eritrócitos em esquizócitos. Em qualquer hemólise intensa, a eritropoetina elevada gera reticulocitose e consome folato (risco de crise megaloblástica); parvovírus B19 pode parar a eritropoese e produzir crise aplástica grave.
O conjunto comum une sintomas de anemia (astenia, dispneia, taquicardia, palidez), icterícia subicterícia de predomínio indireto (escleras levemente amareladas sem colúria de bile, pois a bilirrubina é não conjugada), esplenomegalia e, nas formas intravasculares, urina escura (hemoglobinúria), dor lombar e insuficiência renal aguda. Além disso, cada síndrome tem rosto próprio. AHAI morna: início dias a semanas, palidez ictérica, esplenomegalia em ~50%, pode ter linfoadenopatia quando secundária a linfoma. DAF: idoso com fadiga e anemia moderada no inverno, acrocianose (orelhas e nariz arroxeados ao frio que desaparecem ao aquecer — diferente da cianose) e Raynaud. Hemoglobinúria paroxística a frio: criança com infecção viral prévia e urina preta matinal autolimitada. Esferocitose: anemia de intensidade variável, icterícia, esplenomegalia, litíase biliar pigmentar e crises (aplastica por parvovírus B19, megaloblástica por folato, hemolítica por infecção), história familiar positiva. G6PD: episódios agudos 24-72 horas após gatilho oxidativo, com dor lombar, icterícia e hemoglobinúria, autolimitados porque a população reticulocitária resiste; icterícia neonatal prolongada. HPN: tríade clássica de hemoglobinúria paroxística noturna/matinal (apenas ~25% apresentam), anemia e trombose em sítios incomuns (veias hepáticas com síndrome de Budd-Chiari, veia porta, circulação cerebral e seio cavernoso), acompanhada de dor abdominal e disfagia por déficit de óxido nítrico. Drepanocitose: crises dolorosas vaso-oclusivas, síndrome torácica aguda, seqüestro esplênico na criança, AVC e osteomielite por Salmonella.
| Síndrome | Idade/tipo | Pistas clínicas marcantes | Laboratório típico |
|---|---|---|---|
| AHAI morna | Mulheres de meia-idade, idosos | Anemia ictérica aguda, esplenomegalia, causa secundária (lúpus, LLC) | TAD IgG++ com ou sem C3d; esferócitos |
| Doença por aglutininas frias | Mais de 60 anos ou pós-micoplasma/vírus | Acrocianose ao frio, Raynaud, anemia crônica | TAD C3d isolado; aglutininas a 4 °C; aglutinação no esfregaço |
| Hemoglobinúria paroxística a frio | Crianças pós-virais | Urina preta matinal, autolimitada | Teste de Donath-Landsteiner positivo; TAD C3d |
| Esferocitose hereditária | Familiar, autossômica dominante em 75% | Icterícia, esplenomegalia, cálculos biliares pigmentares, crises | TAD negativo; esferócitos; EMA e fragilidade osmótica alterados |
| Deficiência de G6PD | Homens; ligada ao X | Crise 24-72 h após droga/fava/infecção; icterícia neonatal | Células mordidas e corpos de Heinz; dosagem de G6PD fora da crise |
| HPN | Adultos jovens de meia-idade | Hemoglobinúria matinal, trombose atípica, dor abdominal, disfagia | Citometria FLAER; TAD negativo; CD55/CD59 ausentes |
| Microangiopática (PTT/HUS/CIVD) | Qualquer idade | Neurológico (PTT), diarreia sanguinolenta (HUS+), sangramento (CIVD) | Esquizócitos, plaquetopenia, ADAMTS13 menor que 10% na PTT |
| Marcador | Hemólise extravascular | Hemólise intravascular |
|---|---|---|
| Haptoglobina | Baixa | Muito baixa (quando indetectável) |
| LDH | Elevada (1,5 a 3× o normal) | Marcadamente elevada (frequentemente > 1.000 U/L) |
| Bilirrubina indireta | Elevada | Elevada |
| Hemoglobina plasmática/urinária | Normal | Aumentada; hemoglobinúria e hemosiderinúria |
| Esplenomegalia | Frequente | Menos proeminente |
| Rim | Preservado | Risco de lesão renal aguda e siderose |
O teste direto de antiglobulina (TAD, Coombs direto) detecta anticorpos e/ou complemento já fixados no eritrócito do paciente, usando soro anti-IgG e anti-C3d monoespecíficos — sensibilidade acima de 90% na AHAI morna; cerca de 5-10% das AIHAs são TAD-negativas (anticorpos em baixa densidade, IgA, ou técnica), e isso não exclui o diagnóstico quando o quadro é compatível. Padrões que valem questão: IgG com ou sem C3d = AHAI morna; C3d isolado = doença por aglutininas frias ou hemoglobinúria paroxística a frio; TAD negativo = pensar em esferocitose, G6PD, HPN, microangiopática. O teste indireto (Coombs indireto) pesquisa anticorpos livres no soro e importa na imunohematologia transfusional. Complemente com: título de aglutininas frias (significativo quando maior que 64 a 4 °C, frequentemente na casa dos milhares na DAF primária) e amplitude térmica; teste de Donath-Landsteiner para a hemoglobinúria paroxística a frio; dosagem de G6PD (atividade menor que 30% = deficiência grave a moderada, classes I-III da OMS) lembrando que na crise os reticulócitos ricos em enzima geram falso resultado normal — repetir 2-3 meses depois; teste de ligação ao eosin-5-maleimida (EMA) por citometria para esferocitose (sensibilidade ~93%, especificidade ~99%) e fragilidade osmótica (incubada aumenta a sensibilidade); eletroforese de hemoglobina/HPLC; e citometria com FLAER em granulócitos e monócitos para HPN (clone de tamanho clinicamente relevante acima de 1% em granulócitos).
| Achado do esfregaço | Diagnóstico sugerido |
|---|---|
| Esferócitos | Esferocitose hereditária e AHAI morna (o TAD diferencia) |
| Células mordidas, células blister, corpos de Heinz | Deficiência de G6PD e hemoglobinopatias instáveis |
| Falcetas (células em foice) | Drepanocitose |
| Esquizócitos (fragmentos triangulares, capacete) | Microangiopática: PTT, HUS, CIVD, válvula cardíaca, hipertensão maligna |
| Aglutinação de eritrócitos em grumos | Doença por aglutininas frias |
| Eliptócitos | Eliptocitose hereditária |
| Policromasia e reticulócitos | Confirmação de resposta medular à hemólise |
AHAI morna (diretriz BSH 2017): prednisona (ou prednisolona) 1 a 1,5 mg/kg/dia por via oral (ex.: 60-100 mg/dia) é a primeira linha, com resposta em 80-85% dos casos em 2-3 semanas; após a estabilização da hemoglobina, reduzir lentamente ao longo de 6-12 meses — redução rápida é a principal causa de recaída, que ocorre em 30-50% dos pacientes. Segunda linha: rituximabe 375 mg/m² IV semanal por 4 semanas (respostas em torno de 70-80%, com boa tolerabilidade) ou esplenectomia (resposta em cerca de dois terços, com risco de sepse pós-esplenectomia e necessidade de vacinação prévia); imunoglobulina IV (0,4-1 g/kg) tem resposta transitória e fraca, reservada a situações selecionadas; ciclosporina, micofenolato, azatioprina e danazol são opções subsequentes. Sempre tratar a causa secundária (linfoma, lúpus, suspender a droga ofensora). Transfusão: se anemia ameaça a vida (Hb menor que 7 g/dL com intolerância, ou menor que 5 g/dL, instabilidade, insuficiência cardíaca isquêmica), transfundir MESMO com prova cruzada incompatível — usar a menor unidade incompatível (least incompatible), compatível ABO/Rh, infundida lentamente com monitorização, pois retardar sangue por incompatibilidade é erro clássico de conduta; associar furosemida se sobrecarga.
Doença por aglutininas frias: a base é proteção contra o frio (roupas aquecidas, inclusive no pré e intraoperatório) e tratamento da causa (rituximabe para formas crônicas; as pós-infecciosas são autolimitadas e apenas observadas). Corticoides e esplenectomia são INEFICAZES (a hemólise é hepática e mediada por complemento) — pegadinha número um do tema. Rituximabe 375 mg/m² semanal por 4 ciclos responde em torno de metade dos casos, mas com duração média curta; a combinação rituximabe mais bendamustina (90 mg/m² IV nos dias 1 e 2, até 4 ciclos) alcança resposta em cerca de 70% com maior durabilidade e é preferível em pacientes aptos. Sutimlimabe (anticorpo anti-C1s que bloqueia a via clássica do complemento) foi aprovado pela FDA em 2022 para reduzir a necessidade de transfusões na DAF. Transfusões na DAF devem passar por aquecedor de sangue em linha e manter o paciente aquecido; troca plasmática raramente é usada em crises extremas.
| Cenário | Primeira linha | Segunda linha | Erro clássico |
|---|---|---|---|
| AHAI morna | Prednisona 1-1,5 mg/kg/dia, desmame em 6-12 meses | Rituximabe 375 mg/m² x4 ou esplenectomia | Recusar transfusão em anemia grave por prova cruzada incompatível |
| Doença por aglutininas frias | Proteção ao frio; rituximabe nas crônicas | Rituximabe + bendamustina; sutimlimabe | Prescrever corticoide em alta dose (ineficaz) |
| Hemoglobinúria paroxística a frio | Suporte e aquecimento (autolimitada) | Não se aplica (doença autolimitada) | Confundir com DAF crônica do idoso |
| Esferocitose hereditária | Ácido fólico e acompanhamento | Esplenectomia (curativa do quadro hemolítico) | Esplenectomizar sem vacinar contra encapsulados |
| Deficiência de G6PD | Suspender o gatilho e suporte | Transfusão se Hb menor que 7 g/dL ou risco | Dosar G6PD durante a crise (falso normal) |
| HPN | Eculizumabe ou ravulizumabe | Transplante de medula nos casos selecionados | Esquecer vacinação antimeningocócica antes do anti-C5 |
Esferocitose hereditária: todo paciente com hemólise persistente recebe suplementação de ácido fólico (2,5 a 5 mg/dia por via oral) para prevenir crise megaloblástica. A esplenectomia abole a hemólise (o baço é o sítio de destruição) e está indicada nas formas moderadas a graves, com cálculos biliares sintomáticos ou crises repetidas, preferindo-se realizá-la após os 6 anos de idade (para reduzir risco de sepse, exceto nas graves que não esperam), por via laparoscópica, com colecistectomia concomitante se houver litíase. Obrigatório antes da cirurgia: vacinação antipneumocócica (conjugada 13-valente seguida de polissacarídica 23-valente), antimeningocócica (conjugada ACWY e vacina B) e anti-Haemophilus influenzae tipo b, idealmente pelo menos 2 semanas antes, além de penicilina V 250 mg por via oral de 12 em 12 horas (ou amoxicilina 500 mg/dia) por no mínimo 2 anos após a cirurgia — muitos serviços mantêm por mais tempo ou por toda a vida em alto risco. Deficiência de G6PD: não há droga que reverta a crise; o tratamento é suspender imediatamente o gatilho oxidativo (primaquina, dapsona, nitrofurantoína, azul de metileno, rasburicase, sulfonamidas, aspirina em doses altas, fava, naftaleno), hidratação e suporte; transfundir se hemoglobina menor que 7 g/dL ou instabilidade; a hemólise cessa espontaneamente quando a população velha e deficiente é destruída. Orientar lista escrita de drogas proibidas para a vida toda e rastrear familiares.
HPN: os inibidores do complemento terminal mudaram a história natural. Eculizumabe (anti-C5) 600 mg IV semanal por 4 semanas de indução, seguido de 900 mg IV a cada 2 semanas, estanca a hemólise intravascular, reduz a necessidade transfusional e diminui em cerca de 80% o risco de trombose; ravulizumabe (anti-C5 de meia-vida prolongada) permite esquema a cada 8 semanas após dose de ataque. Antes de iniciar QUALQUER anti-C5, vacinar contra meningococo dos grupos ACWY e B (idealmente 2 semanas antes) e manter antibioticoprofilaxia na janela de imunização, pois a lise de Neisseria depende do complemento. A terapia anticomplemento não corrige a hematopoese clonal: transplante alogênico de medula óssea permanece a única cura, reservado a falhas ou síndromes aplásticas associadas. Drepanocitose: hidroxiureia 15 a 35 mg/kg/dia (começando por 15 mg/kg/dia com escalonamento) eleva HbF e reduz crises, síndrome torácica e necessidade transfusional, devendo ser considerada a partir dos 9 meses de idade; crises vaso-oclusivas recebem hidratação, analgesia potente e oxigênio se hipoxemia. Microangiopáticas: na púrpura trombocitopênica trombótica (ADAMTS13 menor que 10%), plasmaférese urgente (o retardo de horas mata) associada a corticoide e caplacizumabe; HUS típico da criança é de tratamento de suporte, pois antibiótico e plasmaférese não mudam o desfecho. Toda droga suspeita deve ser suspensa em hemólise não esclarecida (cefalosporinas, penicilinas, metildopa, quinidina e anti-inflamatórios não hormonais encabeçam a lista).
Complicações transversais: litíase biliar pigmentar (até metade dos adultos com esferocitose não esplenectomizados; pesquisar com ultrassom), déficit de folato e crise megaloblástica, crise aplástica por parvovírus B19 (queda brusca de reticulócitos e hemoglobina em 7-10 dias), trombose (HPN e DAF cursam com risco trombótico elevado; a HPN é protrombótica por hemólise intravascular crônica e liberação de pró-coagulantes), lesão renal aguda e siderose renal nas intravasculares, sobrecarga férrica apenas nos regimes transfusionais repetidos, e, pós-esplenectomia, sepse fulminante por encapsulados (risco de cerca de 0,2-0,5% ao ano, maior nos primeiros 2 anos e na criança pequena), além de trombose portal e hipertensão pulmonar descritas. Prognóstico: a AHAI morna responde bem ao corticoide na fase aguda, mas coortes relatam mortalidade em torno de 15-20% em 5-10 anos, sobretudo em idosos com doença linfoproliferativa e eventos trombóticos; a DAF primária tem sobrevida mediana longa, porém menor que a população geral; a esferocitose esplenectomizada tem expectativa quase normal (com vigilância de colelitíase e risco de sepse); a G6PD é compatível com vida normal se gatilhos forem evitados; a HPN não tratada tinha história de 10-15 anos com mortes por trombose e aplasia, modificada pelos anti-C5; a drepanocitose tem sobrevida que melhorou para a quinta e sexta décadas de vida nos centros de referência. Seguimento laboratorial mínimo: hemograma com reticulócitos, LDH, haptoglobina e bilirrubinas em 1-4 semanas durante atividade da doença, depois a cada 3-6 meses; ultrassom de vias biliares anual nas hemólises crônicas; rastreio de folato e ferro conforme risco.
Fechando o algoritmo em uma linha para levar à prova: anemia com reticulócitos altos pede primeiramente LDH, haptoglobina e bilirrubina indireta; confirmada a hemólise, o esfregaço e o TAD separam imune de não imune e intravascular de extravascular; o tratamento segue o mecanismo — corticoide na morna, rituximabe na fria, esplenectomia vacinada na esferocitose, retirada do gatilho na G6PD e anti-C5 vacinado na HPN. Repasse as duas tabelas de padrões (TAD e esfregaço) e a tabela de tratamento na véspera: elas respondem a maioria das questões de anemia hemolítica em provas de hematologia e clínica médica.
1.Homem de 68 anos com anemia há semanas, LDH 680 U/L, haptoglobina menor que 25 mg/dL, bilirrubina indireta 3,1 mg/dL e reticulócitos de 9%. O primeiro exame para definir o mecanismo da hemólise é:
2.O padrão clássico do teste direto de antiglobulina na doença por aglutininas frias é:
3.Criança de 8 anos com anemia crônica, icterícia, esplenomegalia, TAD negativo, esferócitos no esfregaço e tios com o mesmo quadro. O teste confirmatório de escolha é:
4.Por que a dosagem de G6PD pode resultar falsamente normal durante um episódio agudo de hemólise?
5.Primeira linha de tratamento da anemia hemolítica autoimune do tipo morna é:
6.Idosa com doença por aglutininas frias e hemoglobina 6,8 g/dL sintomática. Qual conduta é INCORRETA?
7.Antes de indicar esplenectomia em paciente com esferocitose hereditária, o médico DEVE:
8.Paciente com HPN clássica inicia eculizumabe. A medida obrigatória antes da primeira dose é:
9.Após 3 dias de dapsona para dermatite, paciente masculino apresenta hemoglobina 7,1 g/dL, icterícia, urina escura, esfregaço com células mordidas e corpo de Heinz. Qual a conduta principal?
10.Na anemia hemolítica autoimune grave com teste cruzado incompatível com todas as unidades e hemoglobina 5 g/dL com taquicardia e hipotensão, a conduta correta é:
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