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Revisão integrada das hemoglobinopatias estruturais e quantitativas: genética e classificação da doença falciforme (HbSS, HbSC, S/beta-talassemia), fisiopatologia da polimerização da HbS, diagnóstico pelo teste do pezinho e eletroforese, síndromes agudas e complicações crônicas, tratamento com hidroxiureia, transfusões e terapias avançadas, além das talassemias alfa e beta com doses dos quelantes de ferro e diagnóstico diferencial em tabelas.
[1] Rees DC, Williams TN, Gladwin MT. Sickle-cell disease. Lancet. 2010;376(9757):2018-2031 · DOI 10.1016/S0140-6736(10)61029-X · PMID 21131035 | [2] Yawn BP, Buchanan GR, Afenyi-Annan AN, et al. Management of sickle cell disease: summary of the 2014 evidence-based report by expert panel members (NHLBI). JAMA. 2014;312(10):1033-1048 · DOI 10.1001/jama.2014.10517 | [3] DeBaun MR, Jordan LC, King AA, et al. American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: prevention, diagnosis, and treatment of cerebrovascular disease in children and adults. Blood Adv. 2020;4(8):1554-1588 · DOI 10.1182/bloodadvances.2019001142 | [4] Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Manual de Condutas Básicas na Doença Falciforme. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2006 (Série A. Normas e Manuais Técnicos) | [5] Taher AT, Musallam KM, Cappellini MD. Beta-Thalassemias. N Engl J Med. 2021;384(8):727-743 · DOI 10.1056/NEJMra2021838 · PMID 33626255 | [6] Thalassaemia International Federation. Guidelines for the Management of Transfusion-Dependent Thalassaemia. 4ª ed. Nicósia: TIF; 2021 · https://thalassaemia.org.cy · DOI 10.1016/S0140-6736(10)61029-X
As hemoglobinopatias são os erros inatos do metabolismo mais frequentes da espécie humana e dividem-se em estruturais (hemoglobina anormal por substituição de aminoácido, como a HbS da doença falciforme) e quantitativas (síntese reduzida de cadeias globínicas, as talassemias). A doença falciforme é a doença genética grave mais comum no Brasil: o Programa Nacional de Triagem Neonatal identifica cerca de 1 caso a cada 1.000 a 1.400 nascidos vivos, com variação regional marcante — na Bahia a incidência chega a 1 a cada 650 nascidos vivos, reflexo da origem africana de grande parte da população —, somando estimados 25 a 30 mil pacientes vivos no país. No mundo, cerca de 300 mil crianças nascem por ano com doença falciforme, a maioria na África subsaariana, Índia e Oriente Médio. As talassemias, por sua vez, são particularmente frequentes em descendentes de italianos, gregos, portugueses e de povos do Mediterrâneo e da Ásia, configurando importante agravo no Sudeste e Sul do Brasil. Para a prova, o aluno deve dominar: a genética e a interpretação da eletroforese de hemoglobina, o calendário de triagem e profilaxia da criança falcêmica, as doses da hidroxiureia, as metas transfusionais de cada síndrome aguda e a lógica da quelação de ferro nas talassemias.
A HbS resulta de uma mutação pontual homozigótica no códon 6 do gene HBB (11p15.5), que troca um ácido glutâmico por uma valina na cadeia beta (Glu6Val), herança autossômica recessiva. A doença falciforme designa o conjunto de genótipos em que a HbS se associa em dose dupla ou a outra hemoglobina variante: HbSS (anemia falciforme homozigota, a forma mais frequente e grave no Brasil), HbSC, HbS/beta-talassemia (S/beta0, sem cadeias beta funcionais, e S/beta+, com produção residual), HbSD e HbSE. O traço falcêmico (HbAS) não é doença falciforme: o portador é assintomático, tem HbS entre 35 e 45% na eletroforese e risco de crise apenas em condições de hipóxia extrema (grandes altitudes, exercício exaustivo, desidratação grave), com expectativa de vida normal. Os haplótipos do gene betaS (Bantu, Benin, Senegal, Camarões e árabe-indiano) modulam a quantidade de HbF e a gravidade: o haplótipo Bantu, predominante no Brasil, associa-se a HbF mais baixa e fenótipo mais grave; polimorfismos em BCL11A e HBS1L-MYB também determinam a HbF e o prognóstico. Nas talassemias, a classificação é por cadeia afetada (alfa ou beta) e por número de genes deletados ou gravidade da mutação: a cadeia alfa é codificada por 4 genes (2 em cada cromossomo 16) e a beta por 2 genes (cromossomo 11), o que gera o gradiente silencioso-traço-doença na alfa e menor-intermediária-major na beta.
| Genótipo | Eletroforese típica (após 6-12 meses) | Gravidade e notas |
|---|---|---|
| HbSS (falciforme homozigota) | HbS 80-95%, HbF 2-20%, HbA ausente | Forma mais grave; Hb 6-9 g/dL; alto risco de AVC, síndrome torácica e sequestro esplênico |
| HbSC | HbS cerca de 50%, HbC cerca de 50%, HbA ausente | Hb 10-12 g/dL; curso mais brando, porém retinopatia proliferativa e necrose avascular mais frequentes |
| HbS/beta0-talassemia | HbS predominante, HbA ausente, microcitose | Semelhante à HbSS em gravidade |
| HbS/beta+-talassemia | HbS 60-80%, HbA 5-30%, microcitose | Gravidade intermediária |
| HbAS (traço falcêmico) | HbS 35-45%, HbA maior que 50% | Assintomático; sem crises, sem tratamento; hemátia em bumerangue ao esfregaço |
| Talassemia beta menor (traço) | HbA2 maior que 3,5%, HbF normal ou levemente alta, microcitose | Anemia discreta ou ausente; confundir com ferroprivação é o erro clássico |
| Talassemia beta major | HbF 70-98%, HbA ausente ou mínima | Anemia transfusão-dependente desde os 6-12 meses |
A cadeia beta com valina na posição 6 cria um sítio hidrofóbico que se encaixa na bolsão hidrofóbica da cadeia beta de outra molécula de desoxi-hemoglobina, nucleando polímeros de HbS que alongam e distorcem a membrana eritrocitária — o eritrócito em foice. Três variáveis governam a velocidade de polimerização, todas cobradas em prova: concentração de HbS (por isso a poli-hidratação e a hemodiluição protegem), tempo de trânsito desoxigenado nos capilares e quantidade de HbF, que inibe a polimerização (justificando a hidroxiureia). A falcização inicialmente é reversível, mas ciclos repetidos de polimerização-despolimerização exaurem a membrana (cálcio, potássio e água perdidos pelo canal K+/Cl- e Gardos), tornando a falcização irreversível e gerando hemólise: a sobrevida do eritrócito cai de 120 para 10 a 20 dias, com anemia crônica, reticulocitose e hiperbilirrubinemia indireta. A hemólise intravascular libera hemoglobina livre, que consome óxido nítrico (NO), e arginase eritrocitária, que degrada o substrato arginina: a depleção de NO determina disfunção endotelial, hipertensão pulmonar e hipertensão sistêmica, e é o eixo hemólise-vasculopatia que explica acidente vascular cerebral, ulcerações de perna e priapismo. Paralelamente, a vaso-oclusão é um fenômeno inflamatório multicelular: reticulócitos e eritrócitos falcizados aderem ao endotélio ativado (via VCAM-1 e integrinas), recrutam neutrófilos e plaquetas, e formam agregados que ocluem microvasculatura, com isquemia-reperfusão, dor e necrose. No baço, a falcização nos seios esplênicos causa infartos repetidos e autoesplenectomia funcional até os 2 a 6 anos na HbSS — a asplenia anatômica funcional explica a suscetibilidade fulminante a pneumococo, Haemophilus influenzae tipo b e meningococo, a ponte pediátrica da doença.
No Brasil, o teste do pezinho (Programa Nacional de Triagem Neonatal, universal desde o início dos anos 2000) dosa ou tipa a hemoglobina por eletroforese em pH alcalino, cromatografia líquida de alta resolução (HPLC) ou focalização isoelétrica; toda triagem positiva deve ser confirmada com novo método até o segundo ou terceiro mês de vida, antes do início da profilaxia. O recém-nascido falcêmico é assintomático porque a HbF alta (60 a 90% ao nascimento) inibe a polimerização; os sintomas surgem quando a HbF cai, por volta dos 4 a 6 meses. A eletroforese de hemoglobina em pH alcalino separa HbA, HbF, HbS, HbC e HbD, mas HbS e HbD co-migram — a diferenciação exige eletroforese em pH ácido ou HPLC. O teste de solubilidade (Sickledex) e o esfregaço com falcização ao fresco (meta-bissulfito) apenas detectam HbS e não distinguem traço de doença, além de serem falsos-negativos no recém-nascido (HbF alta) — pegadinha clássica. O hemograma da HbSS em steady state mostra Hb de 6 a 9 g/dL, VCM normal a alto, reticulócitos de 5 a 20%, hemácias em alvo e policromasia; a HbSC tem Hb de 10 a 12 g/dL com muitas células-alvo; as talassemias cursam com microcitose (traço beta com VCM menor que 75 fL) e, na major, esfregaço com anisopoiquilocitose extensa, eritrócitos-alvo e eritroblastos circulantes. O diagnóstico das talassemias alfa deletárias usa biologia molecular (PCR para deleções -alfa3.7 e -alfa4.2, --SEA e demais), pois a eletroforese é normal no portador silencioso.
A síndrome torácica aguda (STA) merece definição formal porque é cair em prova: novo infiltrado em radiografia de tórax associado a pelo menos um dos seguintes — febre acima de 38,5 graus, dor torácica, taquipneia, queda de SpO2, tosse ou sibilos. É a segunda causa de internação e a principal causa de morte na doença falciforme, com incidência de 10 a 15 episódios por 100 pacientes-ano na HbSS; gatilhos incluem infecção (pneumococo, atípicos, vírus), infarto de medular óssea com embolia gordurosa, atelectasia por analgesia e crise dolorosa torácica baixa.
A hidroxiureia é a terapia modificadora de doença com melhor custo-efetividade e deve ser oferecida a toda criança com HbSS ou S/beta0 a partir dos 9 meses de vida, independentemente da gravidade (recomendação NHLBI/ASH), e a adultos com crises recorrentes, STA prévia ou HbF baixa. O esquema clássico inicia com 15 a 20 mg/kg/dia VO em dose única, com escalonamento de 5 mg/kg a cada 8 semanas até o máximo de 35 mg/kg/dia, monitorando hemograma quinzenal a mensal: suspende-se temporariamente se neutrófilos absolutos menores que 2.000/mm3 (adultos) ou plaquetas menores que 80.000/mm3, e a resposta considerada adequada eleva a HbF para 10 a 20% ou mais, com aumento de Hb de cerca de 1 g/dL. No estudo MSH em adultos, a hidroxiureia reduziu as crises dolorosas em cerca de 44%, as necessidades de transfusão e as síndromes torácicas em cerca de 50%. Efeitos adversos: mielossupressão dose-dependente (reversível), citopenias, raríssima leucemogênese nesse contexto, teratogenicidade teórica (contracepção obrigatória) e azoospermia reversível em alguns homens. A profilaxia antimicrobiana da criança falcêmica usa penicilina V VO em 125 mg de 12/12 horas dos 2 meses aos 3 anos e 250 mg de 12/12 horas dos 3 aos 5 anos (o estudo PROPS demonstrou redução de cerca de 84% na sepsis pneumocócica), podendo ser suspensa aos 5 anos se não houve pneumococcia invasiva prévia e se a criança é vacinada. O calendário vacinal inclui VPC10/VPC13 seguida de VPP23 aos 2 anos com reforço aos 5 anos, Haemophilus influenzae tipo b, vacinas meningocócicas conjugadas ACWY e B, influenza anual e esquema completo contra COVID-19 — vacinar é tão importante quanto transfundir.
As transfusões na doença falciforme têm metas diferentes das outras anemias: em transfusão simples, corrigir a anemia sintomática sem elevar a hemoglobina total acima de 10 g/dL (acima disso aumenta a viscosidade e piora a perfusão, porque a HbS continua circulando); na exsanguineotransfusão (eritrocitaférese), remover a maior parte da HbS substituindo por HbA, com metas de HbS menor que 30% no AVC agudo e HbS mantida entre 30 e 50% nos programas crônicos de prevenção. Indicações formais: AVC isquêmico agudo (exsanguineotransfusão urgente), programa transfusional crônico após Doppler transcraniano alterado (TAMX de 200 cm/s ou mais no método sem imagem, ou 185 cm/s ou mais com imagem, em duas medidas, o que confere risco de AVC de em torno de 10% ao ano sem intervenção e redução de cerca de 90% com o programa transfusional no estudo STOP), sequestro esplênico moderado a grave, crise aplástica com instabilidade, STA grave ou com piora progressiva, pré-operatório de cirurgias de médio e alto risco (meta de Hb 10 g/dL, que no estudo TAPS reduziu complicações perioperatórias). Por levar a imunização contra antígenos eritrocitários, todo falcêmico transfundido deve receber sangue fenotipado estendido para C, c, E, e e Kell, reduzindo aloimunização (que atinge 20 a 30% sem fenotipagem). Entre as terapias avançadas: L-glutamina oral (0,3 g/kg/dia dividida em duas doses) reduz crises em cerca de 25%; o crizanlizumabe, anticorpo monoclonal anti-P-selectina endotelial (5 mg/kg IV na semana 0, semana 2 e depois a cada 4 semanas), reduziu a taxa de crises vaso-oclusivas em cerca de 45% no estudo SUSTAIN, mas não foi incorporado ao SUS; o voxelotor, que elevava a afinidade da Hb pelo oxigênio, teve registro mundialmente retirado em setembro de 2024 após dados de farmacovigilância mostrarem excesso de crises e mortes — fato recente e cobrável. As opções curativas são o transplante de medula óssea alogênico de doador aparentado compatível, com sobrevida global acima de 95% em centros de referência, indicado nas formas graves (crises recorrentes apesar de hidroxiureia, AVC, STA repetida), e as terapias gênicas: exagamglogene autotemcel (Casgevy), a primeira terapia de edição gênica por CRISPR, aprovada pelo FDA em dezembro de 2023 para doença falciforme com crises recorrentes e em janeiro de 2024 também para talassemia transfusão-dependente, e lovotibeglogene autotemcel (Lyfgenia), terapia gênica com vetor lentiviral, aprovada na mesma data com advertência de caixa para malignidade hematológica — ambas ainda sem disponibilização de rotina no SUS em 2026.
Nas talassemias alfa (4 genes, cromossomo 16), a gravidade cresce com o número de deleções: o portador silencioso (1 gene deletado) tem hemograma normal; o traço alfa (2 genes) tem microcitose discreta com Hb normal ou quase; a doença da HbH (3 genes) cursa com anemia hemolítica moderada (Hb 7 a 10 g/dL), esplenomegalia e inclusões de HbH à coloração vital; e a deleção dos 4 genes (hidropsia fetal por Hb de Bart) é incompatível com a vida, com anasarca, Hb de Bart acima de 70%, hepatomegalia e óbito intrauterino ou neonatal precoce — a prevenção passa do aconselhamento genético de casais portadores. Nas talassemias beta (2 genes, cromossomo 11), o traço (heterozigose) tem microcitose com HbA2 maior que 3,5% e curso assintomático; a talassemia major (homozigose ou bialélica grave, anemia de Cooley) manifesta-se entre 6 e 12 meses de vida, quando a comutação para HbA falha: anemia grave (Hb menor que 7 g/dL) com eritroblastos no sangue periférico, hepatosplenomegalia por eritropoiese extramedular, deformidades craniofaciais (crânio em escova ao raio-x, hiperplasia maxilar com aumento da projeção da face), retardo de crescimento e fraturas; sem tratamento transfusional, o paciente morre nos primeiros anos. A talassemia intermedia apresenta anemia moderada (Hb 7 a 10 g/dL) com início mais tardio, sem dependência transfusional regular, mas com risco de sobrecarga de ferro por aumento da absorção intestinal e hemólise. Mencionar ainda a Hb Lepore e as talassemias delta-beta, que simulam traço com HbF elevada.
| Genótipo alfa | Genes deletados | Quadro clínico e laboratorial |
|---|---|---|
| Portador silencioso (-alfa/alfaalfa) | 1 de 4 | Assintomático, hemograma normal |
| Traço alfa (--/alfaalfa ou -alfa/-alfa) | 2 de 4 | Microcitose leve, Hb normal ou discretamente baixa; ao nascer 5-10% de Hb de Bart |
| Doença da HbH (--/-alfa) | 3 de 4 | Anemia hemolítica moderada (Hb 7-10 g/dL), esplenomegalia, inclusões de HbH |
| Hidropsia fetal (--/--) | 4 de 4 | Hb de Bart acima de 70%, anasarca, óbito intrauterino ou neonatal |
O pilar da talassemia major é o regime transfusional regular a cada 2 a 4 semanas, mantendo Hb pré-transfusional entre 9 e 10 g/dL, o suficiente para suprimir a eritropoiese extramedular, permitir crescimento normal e prevenir deformidades ósseas. A consequência inevitável é a sobrecarga de ferro (cada concentrado de hemácias aporta cerca de 200 a 250 mg de ferro e o organismo não tem mecanismo de excreção), que leva a cirrose, diabetes, hipotireoidismo, hipogonadismo hipogonadotrófico e, sobretudo, miocardiopatia por hemossiderose — historicamente a principal causa de morte. A quelação inicia-se após cerca de 10 a 20 transfusões ou ferritina acima de 1.000 ng/mL: deferasiroxa VO em dose única diária de 20 a 40 mg/kg (o mais usado, com monitorização de creatinina e transaminases); deferiprone 75 a 100 mg/kg/dia VO dividida em 3 doses (principal agente de Mobilização do ferro cardíaco, com risco de agranulocitose); e deferoxamina 25 a 40 mg/kg/dia SC por bomba de infusão durante 8 a 12 horas, 5 a 7 dias por semana. A ressonância magnética com T2* monitora ferro hepático e miocárdico e orienta a intensificação (a combinação deferiprone mais deferoxamina é a estratégia de resgate cardíaco). Metas: ferritina menor que 1.000 ng/mL e T2* cardíaco acima de 20 ms. A esplenectomia fica para esplenomegalia maciça, hipersplenismo ou exigência transfusional crescente acima de 200-220 mL/kg/ano de concentrados, preferindo-se adiá-la para depois dos 5 anos, com vacinação antipneumocócica, antimeningocócica e anti-Haemophilus e profilaxia com penicilina por tempo prolongado. O luspatercepte (1 a 1,25 mg/kg SC a cada 3 semanas), ligante do TGF-beta que melhora a eritropoiese, reduz em 20 a 40% a carga transfusional da talassemia beta transfusão-dependente. As opções curativas são o transplante alogênico de medula (sobrevida acima de 90% com doador aparentado compatível) e a terapia gênica com betibeglogene autotemcel (Zynteglo), aprovada pelo FDA em 2022 para pacientes com talassemia beta transfusão-dependente, que restabelece síntese de Hb derivada do vetor em nível independente de transfusão na maioria dos pacientes tratados.
| Característica | Doença falciforme (HbSS) | Talassemia major | Anemia hemolítica autoimune |
|---|---|---|---|
| Início dos sintomas | 4 a 6 meses (queda da HbF), dactilite entre 6 meses e 2 anos | 6 a 12 meses de vida | Qualquer idade, geralmente agudo |
| Hemoglobina e VCM | Hb 6-9 g/dL; VCM normal a alto | Hb menor que 7 g/dL; VCM muito baixo (menos que 70 fL) | Hb variável; VCM normal ou levemente alto |
| Eletroforese | HbS 80-95%, sem HbA | HbF 70-98%, sem HbA | Normal (HbA) |
| Teste de Coombs direto | Negativo | Negativo | Positivo (achado definidor) |
| Esplenomegalia | Esplenomegalia transitória na infância, depois autoesplenectomia | Importante, com eritropoiese extramedular | Presente em parte dos casos |
| Crises características | Vaso-oclusivas dolorosas, torácicas, sequestro, aplástica | Hemólise crônica; crises de estresse infeccioso; sem dor vaso-oclusiva | Hemólise aguda, esplenomegalia, colúria; resposta a corticoide |
| Morfologia no esfregaço | Hemácias em foice e alvo | Anisopoiquilocitose extrema, muitas células-alvo, eritroblastos | Esferócitos, policromasia, teste de Coombs positivo |
A sobrevida da doença falciforme transformou-se nas últimas décadas: com triagem neonatal, penicilina, vacinação, hidroxiureia e programas transfusionais, a mortalidade infantil caiu drasticamente e a expectativa de vida nos países com programas estruturados situa-se entre 50 e 60 anos na HbSS, ainda bem abaixo da populacional — no Brasil, a triagem neonatal universal pelo teste do pezinho, a incorporação da hidroxiureia no SUS e os hemocentros coordenam essa mudança. O seguimento programado anual inclui: Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos na HbSS e S/beta0, ecocardiograma com velocidade de regurgitação tricúspide e NT-proBNP no adulto (acima de 160 pg/mL associa-se a maior mortalidade), razão albumina/creatinina em urina isolada (albuminúria em cerca de 30% dos adultos, tratada com inibidor da ECA), exame oftalmológico com fundoscopia anual a partir dos 10 anos (sobretudo HbSC), avaliação de densitometria óssea e imagem de quadril, ultrassonografia para litíase, dosagem de ferritina em pacientes transfundidos e rastreio de hemoglobina no cônjuge com aconselhamento genético na idade reprodutiva. A morte na doença falciforme adulta concentra-se em síndrome torácica, hipertensão pulmonar, doença renal crônica e AVC; na talassemia major, na miocardiopatia por sobrecarga de ferro e infecções — o que faz da adesão à quelação e do monitoramento por Ressonância T2* os determinantes principais de sobrevida.
1.A mutação molecular da anemia falciforme consiste em:
2.A primeira manifestação dolorosa típica da doença falciforme, entre 6 meses e 2 anos de idade, é:
3.Criança falcêmica com queda abrupta de hemoglobina de 7,4 para 4,8 g/dL, reticulócitos de 18% e baço palpável 6 cm abaixo do arco costal. O diagnóstico e a conduta imediata são:
4.O agente clássico da crise aplástica na doença falciforme é:
5.Criança de 5 anos com HbSS, Doppler transcraniano com TAMX de 210 cm/s em dois exames. A conduta baseada em evidência é:
6.Sobre a hidroxiureia na doença falciforme, qual afirmativa é correta?
7.Adulto com HbSS em crise dolorosa e novo infiltrado pulmonar com febre de 38,8 graus e SpO2 de 88%. Além de oxigênio e analgesia, o esquema antimicrobiano e a medida adjunta apropriados são:
8.A eletroforese de hemoglobina de um paciente assintomático mostra HbS de 40% e HbA de 57%. A interpretação é:
9.O achado laboratorial que diferencia o traço beta-talassêmico da anemia ferropriva é:
10.Sobre as terapias recentes para doença falciforme, qual afirmativa é correta?
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